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A cada canto um grande conselheiro, [...] Em cada porta um freqüentado olheiro, Que a vida do vizinho, e da vizinha Pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha, Para a levar à Praça, e ao Terreiro.177 Gregório de Mattos

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Assiste-se na contemporaneidade a transformação da cidade em “centros de consumo [...] a ponto de qualquer coisa poder ser representada, tematizada e transformada em um objeto de interesse, de 'observação turística.'” (FEATHERSTONE, 1995, p. 143). Essas alterações abrem caminhos para os estudos pertinentes aos processos de revitalização dos centros urbanos que, cada vez mais, vem ganhando espaço para compreensão da dinâmica urbana. Cumpre dizer, que no bojo desse processo a “cultura” é incorporada as experiências de revitalização. Assim, na esteira dessas modificações as tradições locais e o patrimônio histórico são tidos como mercadoria de altíssimo valor. Nesse sentido, os eventos promovidos na Praça podem responder a essa tendência de revitalização. No entanto, o trabalho, aqui, proposto não pretende se debruçar sobre essas questões, o que poderá ser foco de futuro estudo. Para uma abordagem crítica desse aspecto, ver LEITE, Rogério Proença. Contra-usos

da Cidade: lugares e espaço público na experiência urbana contemporânea. Campinas: Editora

da Universidade de Campinas/Edunicam, 2004.

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MATTOS, Gregório de Matos. Soneto. Jornal de Poesia. Sessão Gregório de Matos. Disponível em: http://br.geocities.com/poesiaeterna/poetas/brasil/gregoriodematos.htm. Acesso em: 25 de jul. 2008.

Logo que o sol abre suas pálpebras apagando as estrelas, assiste-se o movimento das pessoas, que descem e sobem o Elevador Lacerda. À medida que as horas avançam, agiganta-se a circulação de transeuntes. Chegam aqueles que na Praça trabalham. O calor convida o passante a sentar-se no banco da Praça para sentir o frescor que vem do mar. Ainda pela manhã, jatos de água potentes são lançados no solo da Praça, como querendo acordá-la. É a Tomé de Sousa recebendo seu banho diário. Grãos de milho misturam-se à areia e às gotículas de água que tardam em evaporar, escorregam entre as pedras desniveladas que formam o chão da Praça, no rastro do amarelo ouro em vôos bailados, uma revoada de pombos assentam-se para sua refeição matinal.

O sol brilha com esplendor, em frente à praça começam a chegar os ônibus que trazem grupos de turistas. Muitos ao descerem dos veículos já trazem nas mãos suas câmaras fotográficas ou de vídeo. Observam rapidamente o seu entorno, como quem quer se sintonizar. Depois do olhar panorâmico, passam a deter-se nos detalhes, e logo animam-se na escolha dos melhores lugares, ângulos e poses para serem fotografados. Em grupos, em pares ou sozinhos, quem chega à praça pela primeira vez, não deixa de expressar a admiração. Sorrisos nos lábios, todos se alegram em tirar fotos ao lado do Elevador Lacerda, tendo como pano de fundo a vista privilegiada da Baía de Todos os Santos, o Forte de São Marcelo, os prédios da Cidade Baixa e o tradicional Mercado Modelo.

As sessões de fotos são tiradas em clima de festa, comentários são verbalizados, é a satisfação expressa por estarem em um lugar bonito. Ao se aproximar dessas pessoas, é possível ouvir a musicalidade de várias línguas: italiano, francês, espanhol, inglês, alemão, japonês... Os sotaques também denunciam os brasileiros advindos de outras cidades e Estados. Encontram-se pessoas vindas dos mais longínquos lugares: do Norte ao Sul do Brasil.

Essa cena de contentamento, por vezes, é interrompida pelos vendedores ambulantes que não tardam em se aproximar. Nas mãos colares, anéis, chapéus, lembranças da Bahia. Para conquistar a simpatia do cliente, ofertam uma fitinha “do Senhor do Bonfim”. Mas ao aceitar que o presente seja amarrado no pulso, o turista desavisado, se ver muitas vezes, obrigado a comprar alguns dos produtos, pois o

assédio causa incômodo. Outros visitantes, já cientes, ao perceber a proximidade do vendedor, levantam a mão e fazem o sinal negativo, quase sempre se faz necessário repetir o gesto. Há, contudo, aqueles que se deixam seduzir, param olham e acabam levando alguma peça.

Do outro lado da praça um casal é abordado pelo ambulante, a moça recebe uma fitinha. O vendedor com o braço, cheio de colares, mostra os produtos. Poucos centímetros de distância separam o casal de outra moça, que é igualmente parada por outro ambulante. As moças escutam as propostas de venda e compram umas correntinhas. Os rapazes continuam a “caça” e seguem, imediatamente, em direção aos turistas que estão em frente à Câmara de Vereadores.

Um rapaz, vestido com a camisa do São Paulo Futebol Clube, passa de mãos dadas com uma moça. Ela, segurando um berimbau, aponta para a estátua de Tomé de Sousa. Ambos, então, se aproximam e lêem a placa fixada no pedestal. Ele retira o celular do bolso, ela faz uma pose com o instrumento para ser fotografada junto ao monumento em homenagem ao fundador da cidade. Depois, corre para ver como ficou a fotografia. Nesse momento, se aproxima uma jovem com cabelos muito despenteados; está com uma criança no colo e outra agarrada à saia, ela estende a mão pedindo umas moedas.

Nesse mesmo tempo, o vendedor de cartão telefônico sai do prédio do Elevador e passa pela praça gritando, oferecendo o seu produto. Uma senhora traz nos ombros uma caixa de “isopor”, dentro água mineral e refrigerante em lata. Coloca a caixa em frente ao Palácio Rio Branco e conversa com o vendedor de cafezinho. O rapaz se despede, em seguida circula pela praça com seu carrinho colorido e decorado. Um grupo de pessoas vestidas com roupa de praia se aproxima da senhora e compra água mineral.

No banco próximo à Sorveteria Cubana, um senhor negro de barba grande canta algumas músicas de reggae. O ritmo é marcado com uma bengala que ele bate no chão, também com algumas moedas que são chocalhadas com a mão esquerda. No chão um pequeno chapéu aguarda o “pagamento” em moedas de qualquer valor. A voz firme e afinada acaba atraindo a atenção de duas moças que compravam sorvetes, elas saem em direção ao senhor e colocam algumas moedas

no chapéu. Um menino e uma menina com os pés descalços ao verem o gesto batem no braço da moça pedindo também um trocado. A mesma jovem com as duas crianças que estavam próximo à estátua, agora se acha junto às pessoas que estão reunidas ouvindo o senhor. Ela se anima com a criança nos braços, canta e ensaia uns passos de dança. A música, assim, acaba por retardar a passagem de algumas pessoas que param para escutá-lo.

Em baixo do Palácio Tomé de Sousa, apesar da temperatura que se intensifica por causa da saída de ar, alguns idosos sentados nos bancos conversam animadamente. Mais à frente, várias barraquinhas padronizadas expõem produtos e lembranças da Bahia: é a feirinha de artesanato.

Ao lado da Prefeitura grupos de jovens ou pessoas sozinhas encontram-se sentadas nos bancos. Algumas estão conversando, lendo, outras namorando. Gente tirando foto ou simplesmente contemplando a paisagem. Nesse espaço da Praça avista-se, novamente o mesmo vendedor de cafezinho, que apesar do calor, consegue vender um copinho a um rapaz que estava fumando. Ao passar o troco, o ambulante sai apressado em direção à Praça da Sé.

Gente que sai, gente que fica, gente que chega... De repente escuta-se ruídos de apitos e som do megafone. Homens com passos apressados chegam à Praça e inundam a frente da Prefeitura. Sobem pela escada principal e no palanque estenderam uma grande faixa. Rostos tensos, punhos serrados, bandeiras sendo agitadas. Palavras de ordem são repetidas. Circulam a Prefeitura em uníssono gritando: “Eiro, eiro, eiro, o Prefeito é caloteiro”. Trata-se da manifestação dos vigilantes. A categoria entrou em greve por causa dos repetidos atrasos no pagamento dos salários. No meio do bulício vêem-se os ambulantes que enxergam na movimentação uma oportunidade a mais de venderem seus produtos. Envolvida pelo novo acontecimento, parece que a Praça pára, todos olham curiosos, muitos correm para mais perto querendo saber do que se trata. Os holofotes por algum momento são lançados sobre os manifestantes. Depois que a curiosidade é saciada, e presenciam o desenrolar da história, a cena parece incorporar-se ao ambiente da Praça e as pessoas voltam à atenção para o que faziam anteriormente.

do dia “caminha veloz”. Na lanchonete mais gente em pé comprando salgados e sucos. Na entrada e saída do Elevador o volume de pessoas continua intenso. E quanto mais gente, mais vendedor ambulante que grita, mais barulho.

Na parte lateral, próximo à feirinha escuta-se risadas e vozes em tom mais alto, parecendo até uma discussão, era apenas, um grupo grande de adolescentes que contavam sobre os acontecimentos de um show de pagode que tinham assistido.

Nos bancos próximos aos orelhões, não é difícil encontrar pessoas dormindo, descansando ou simplesmente deixando as horas passarem. O senhor que mais cedo estava cantando reggae, à tarde encontrava-se em um desses bancos deitado. Alguns encontram-se alcoolizados. Às vezes gritam e brigam entre si pelo espaço ou por outros motivos não tão explícitos. São homens, mulheres e crianças que vivem na rua ou fazem “ponto”, recebendo doações de qualquer valor dos usuários da Praça. Este parece ser o local preferido dessas pessoas. Se alguma situação nova ocorre na Tomé de Sousa, lá estão eles perscrutando, depois, tratam de informar, a quem não pode ir verificar o acontecido.

A Praça segue seus acontecimentos cotidianos, o pipoqueiro vendendo próximo ao Palácio Rio Branco, ao seu lado os vendedores de picolé e milho verde. À tarde, a Cubana, fica ainda mais cheia, gente querendo se refrescar com os deliciosos sorvetes e Milk Shake. A baiana vende acarajé e os quitutes da Bahia.

Nas cadeiras enfileiradas, bem em frente às águas azuis do mar, as pessoas sentadas, aguardam a chegada do pedido feito na sorveteria. Outras, no entanto, já saboream seus sorvetes, como o casal de namorados paulistanos, com os olhos atentos à Baía. O sol começa a se esconder. Próximo mais um casal, que aproveita para fotografar o momento. Estão com uma criança, uma menina loirinha, de olhos azuis, são franceses. Uma moça chega desacompanhada e senta-se, o garçom vem em sua direção, ela informa que espera por alguém e fará o pedido mais tarde. Logo se arrepende e pede água, mas o garçom não percebe, já caminhava para atender a outras pessoas. Passam-se alguns momentos e um garoto de cabelos encaracolados se aproxima timidamente das mesas, abre a caixa de “isopor” e mostra de longe uma garrafa de água mineral, a moça vê e faz um

gesto o chamando, o menino chega rapidamente e vende a água. Aproveita o ensejo e oferece a outras pessoas. Uma senhora e um rapaz também aceitam. O menino recebe o dinheiro e sai em direção ao Elevador.

Agora os olhos das pessoas voltam-se para um dos instantes mais especiais que ocorre na Praça: quando o sol começa a fechar suas pálpebras, e em cada piscada de olhos libera labaredas de fogo que pintam o horizonte de dourado e laranja. O rastro de luz beija o mar, um momento de rara beleza. Uns se embriagam por aquele instante fugidio, semblantes reflexivos. Uma platéia encontra-se sentada nos bancos posicionados em frente para a Baía. Casais de namorados se abraçam. Na parte frontal da praça o destaque fica para as mãos estendidas, as pessoas disputam o espaço querendo encontrar o melhor ângulo. Aquele instante mágico precisa ser capturado, levado como lembrança da terra visitada. Para o morador da cidade também é um acontecimento singular. No banco ao lado, de costa para o espetáculo, uma moça parece indiferente, sentada com uma pasta no colo, lê tranqüilamente uns papéis. Máquinas fotográficas e celulares nas mãos para registrar o momento. Novamente o Elevador torna-se o ponto mais cobiçado. O fotógrafo profissional chega com antecedência, posiciona o tripé e a câmara, aguarda com paciência o melhor momento para ser perenizado. Observa com mais concentração, como quem degusta um prato delicioso.

As labaredas de fogo se dissipam no horizonte, o sol se recolhe e permite que a noite apareça, o manto decorado com lua e estrela. Passando o efeito do momento, mais uma vez, as pessoas se dispersam e lançam a atenção para outro fato. Alguns, ainda permanecem ali de frente para o mar. A Praça agora ganha outros ares, a noite chegou.

Como lampejos, várias situações são montadas e se dissolvem como bolhas de sabão. Os sentidos não conseguem captar a totalidade, são fragmentos que fazem parte de um todo, afigurando-se a uma peça de teatro, mas nesse caso, a praça é simultaneamente palco e personagem dessa trama urbana.

Nesse tablado, que têm dias que paralelo à magia apresentada pela natureza outro espetáculo de brilho e sombra é preparado na Tomé de Sousa. É o dia do Cinema na Praça, mas isso já é outro episódio, dentro dessa história... Que será narrada a seguir.

Benzer Belgeler