Este item destina-se à observação do comportamento dos determinantes e suas implicações textuais sintático-semânticas, especificamente com a interpretação das mensagens.
Agrupemos as ocorrências:
F1 I "[...] que coisas são mais e mais fáceis"
L2 "[...] que as coisas ficam mais e mais fáceis (cada vez mais fáceis)."
F2 I "liberdade para estudante escrever [...]" L2 "Liberdade para o estudante escrever [...]"
F3 I "a concepción da educación" L2 "o conceito de cultura"
F4 I "ah [...] tráfico – questión da trânsito"
L2 "[...] como o trafego – questões (problemas) de trânsito"
F5 I "[...] com escrito da estudante" L2 "[...] com a escrita do estudante"
Conforme mencionado, a palavra coisas em si já é vaga, e a ausência do artigo (determinante), na interlíngua 1, torna-a genérica, portanto, ainda mais incompreensível, chegando até a criar uma redundância. A presença do artigo as em L2 vem dar maior adequação e reforço semântico a esse substantivo que , no texto, adquire sentido de “obstáculos”, “problemas”.
Na fala 2, utilizou-se uma generalização, estudante ,mas sem artigo e com o substantivo no singular. Essa ausência do artigo acontece em Inglês, mas em situação diversa: quando estivermos nos referindo ao artigo indefinido e com o substantivo usado no plural; não deverá, portanto, ser caracterizada como transferência. Em português, a presença do artigo, nesse caso, vem colaborar para uma compreensão mais precisa do pensamento do falante.
O uso do determinante artigo é uma dificuldade que se justifica pelo fato de a língua portuguesa usar também o artigo definido o com sentido genérico, o que traz grandes dúvidas para falante estrangeiro: o estudante, em português, pode significar “os estudantes” de maneira geral ― um uso que corresponde à figura de linguagem sinédoque (a parte pelo todo). Em O estudante brasileiro trabalha durante o dia e
estuda à noite o componente o estudante se estende ao plural passando a significar
a totalidade dos estudantes.
Note-se na ocorrência 3, além do problema da influência do inglês, a presença infundada do artigo a na interlíngua em da educación que passa a ser interpretada como cultura de maneira específica, desviando-se da verdadeira intenção do falante.
Em tráfico, na fala 4, a ausência do artigo generaliza a idéia e a presença do artigo a no modificador (da trânsito) do sintagma question da trânsito especifica-o desnecessariamente, o que não se verifica em L2.
Em 5, observa-se o uso do particípio escrito, solto na estrutura da frase, sem a devida caracterização nominal para designar uma escrita especifica, a escrita do estudante.
Ainda sobre o uso de determinante artigo, observemos: F1 I "[...] com escrito da estudante"
L2 "[...] com a escrita do estudante"
F2 I "[...] aprender a Português"
L2 "[...] aprender Português (a língua portuguesa / o idioma português)"
F3 I "[...] falando da cosa totalmente diferente" L2 "[...] falando de uma coisa totalmente diferente"
F4 I "[...] a gente não tinha tantas problemas da saúde se não fora – fosse a poluição."
L2 "[...] a gente não teria tantos problemas de saúde se não fosse a
poluição."
F5 I "Fiquei doente da saudade e da lástima" L2 "fiquei doente de saudade e de dor
F6 I "Expectativa da vida" L2 "com expectativa de vida"
F7 I "Meninos da rua (que estão na rua)"
L2 "Meninos de rua (abandonados na rua pivetes)"
F8 I "[...] ajudaram com o coisa da cavalo" L2 "[...] ajudaram com essa coisa de cavalo"
F9 I "[...] não lembra di a próxima" L2 "[...] não se lembra do próximo"
Na fala 1, em da estudante, usou-se a desinência a do feminino em vez de o do genérico masculino, um morfema já comentado por sua possibilidade de estabelecer a generalização do substantivo na L2.
Considera-se, na ocorrência 2, o uso desnecessário do artigo a, antecedendo o nome da disciplina Português, em vez do o do genérico masculino, subentendendo-se a palavra idioma. Propõe-se como uma primeira alternativa para eliminar o erro a retirada do artigo, deixando Português sem determinante por funcionar como complemento do verbo aprender e corresponder ao nome de uma disciplina Português, Inglês, Geografia, entre outras. Nesse caso também se poderia supor que o falante não soubesse diferenciar em L2, o sufixo -ês do masculino de -
esa do feminino, optando pelo artigo a para uma eventual concordância com o
feminino da palavra língua subentendida no contexto. Essas possibilidades, entretanto, não minimizam a reconhecida falha na presença do artigo; somente somam razões que possam justificá-la.
Verifica-se, na ocorrência 3, o uso também indevido do artigo definido a em lugar do indefinido uma, antecedendo a palavra cosa. Nesse caso, o artigo a está em desacordo com a indeterminação que se acha nitidamente estabelecida na expressão.
Temos, registrada na fala 4, a expressão problemas da saúde em que a presença do artigo a em da saúde altera o significado de uma informação de caráter genérico.
Além dessa fala, outras variáveis frasais continuam descaracterizando a generalização pela presença do artigo conforme ocorrências de 5 a 12.
Em 5, em da saudade e da lástima não há a necessidade do artigo os modificadores de saudade e de dor fazem parte de expressões peculiares que portam em si a idéia de generalização.
Na fala 6, 7 e 8 apresentam-se casos semelhantes ao anteriormente visto, quanto aos modificadores, um adjunto adnominal preposicionado, respectivamente,
da vida, da rua e da cavalo . A presença do artigo a impede a generalização implícita
nos modificadores; conseqüentemente, altera-lhes o sentido em desrespeito total à intenção dos falantes.
Esses desencontros sintático-semânticos ainda se repetem em registros especiais, como no caso da fala 9, em que se usou a forma feminina a próxima, flexionando-se o genérico, em detrimento da forma masculina consagrada, o
próximo, que se destina a representá-lo.
Acrescentamos a seguir quatro falas em que se repete a prática já instalada do uso indevido do artigo:
F1 I "[...] eu tava cruzando (o rio Pinheiros) e da repente, né? Por que é? Puxa! Foi um vaca."
L2 "[...] eu estava cruzando (o rio Pinheiros) e de repente, né? Que é
isso? Puxa! Era uma vaca."
F2 I "[...] se eu tinha o tempo, eu gostaria escrever uma livra [...]" L2 "[...] se eu tivesse tempo, eu iria escrever um livro [...]"
F3 I "[...] Quando eu tenho a oportunidade, eu viajar para o litoral." L2 "[...] Quando eu tenho oportunidade, eu viajo para o litoral."
F4 I "Aqui em esta sala a janela é igual que qualquer outra janela de edifício."
L2 "Aqui nesta sala a janela é igual a qualquer outra janela do edifício."
Na fala 1, na tentativa de especificar o imprevisto, criou-se uma forma estranha da repente para a locução adverbial cristalizada de repente, desrespeitando-se a norma gramatical estabelecida. Nos segundo e terceiro casos, a inadequação do uso do artigo, respectivamente, em o tempo e em a oportunidade
se deve ao fato de as palavras tempo e oportunidade caracterizarem idéias indeterminadas que dispensam o uso do artigo. Observa-se, entretanto, no quarto e último caso uma situação contrária às anteriores: a presença do artigo o em do edifício é necessária e se justifica por se tratar, de uma referência a um edifício específico.
Conclui-se pelo exposto que o uso improcedente do determinante artigo se caracteriza tanto pela sua ausência quanto pela sua presença desnecessária ou indevida em função das normas gramaticalmente estabelecidas. Em ambos os casos observou-se que a generalização ou a particularização decorrente do emprego impróprio do artigo ocasionam problemas por dificultarem a compreensão das mensagens emitidas pelos entrevistados.