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4. BULGULAR VE TARTIŞMA

4.4 DİKİLİ DEĞERLERE AİT BULGULAR

O jornal Público é um diário lusitano, cuja versão impressa circula em Portugal e na Espanha e conta também com uma versão digital19. O veículo pertence a sub-holding Sonaecom, área de comunicação do grupo empresarial

Sonae, fundado em 1989 por um grupo de jornalistas dissidentes do jornal Expresso,

semanário lusitano de grande circulação no país. O Público é um veículo de comunicação novo no cenário português. O primeiro diretor do jornal foi Vicente Jorge Silva e, atualmente, a diretora é Bárbara Reis. O jornal está localizado no

Edifício Diogo Cão, Doca de Alcântara Norte, Lisboa; e ainda conta também com um

escritório na cidade do Porto e um contato telefônico na Ilha da Madeira. Sua versão digital conta com as seguintes seções20: Portugal, Economia, Mundo, Cultura- Ípisolon, Desporto, Ciência, Tecnologia, Opinião, Multimedia e Mais. Atualmente, o

jornal Público conta com uma venda média de 21.500 exemplares diários, ocupando o 2º lugar neste segmento (ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA PARA O CONTROLO E TIRAGEM E CIRCULAÇÃO apud PÚBLICO; LUSA, 2012, p.1) e a sua versão digital é a mais acessada entre os portugueses. Pelos dados, refere-se a um veículo de comunicação significativamente acessado pelos portugueses

O Público é um jornal generalista, cujo público alvo é, em sua maioria, pessoas com condições financeiras elevadas e do sexo masculino. Em uma pesquisa citada por Vieira e Monteiro (2008), verificou-se que 37,5 % dos leitores são do sexo masculino e não há uma faixa etária dos mesmos, uma vez que “[...] todos têm acesso e o jornal é de leitura acessível, no entanto, temos de ter em

19 A versão digital do jornal Público está disponível em: http://www.publico.pt.

20 Embora as notícias selecionadas neste trabalho estejam localizadas em seções específicas do jornal Público, não a utilizo como critério de análise por considerar que elas são muito fragmentadas e variáveis no período de tempo analisado. E também essas seções dificultariam a identificação dos marcadores de diferenciação como ração, gênero, nacionalidade, etc.

consideração que nem todas as pessoas estão preparadas para apreender alguma informação, pois podem não estar dentro do assunto actual”. (VIEIRA, MONTEIRO, 2008, p.13). Em uma pesquisa realizada em 2013, verificou-se que este jornal foi o mais acessado por computadores, com mais 2,6 milhões de utilizadores únicos, em uma média de 5 horas e 1 minuto por usuário, no primeiro semestre do ano em questão. (PUBLICO, 2013, p. 1), ou seja, a versão digital deste veículo de comunicação, um dos focos deste trabalho, é significativamente acessada por seus leitores.

Embora o Público tenha nascido em 1989, sua primeira edição somente foi publicada 05 de março de 1990, com uma tiragem superior a 100 mil exemplares e com um estatuto editorial, o qual se encontra em vigor até a atualidade. A primeira grande cobertura jornalística pelo meio ocorreu em agosto de 1990, quando Saddam Hussein do Iraque invadiu o Kuwait. Em 1991, integrou-se a World Media

Networking, uma associação de diversos jornais de referência no mundo. Foi o

primeiro diário lusitano a publicar artigos colecionáveis como Cds, Cds-Rooms, livros, etc. Teve também, por um determinado momento, a participação estrangeira em seu capital social do jornal El País da Espanha e La Reppublica da Itália. Em 1995, o veículo lançou a versão digital do jornal, o Público Online, e, em 1999, passou a atualizar as notícias da versão digital diversas vezes ao dia. Sua atuação no jornalismo digital é pioneira e já está em atividade há 21 anos. Em 2012, devido à crise econômica que atingiu Portugal desde 2008, o Público dispensou 48 trabalhadores, os quais com o apoio de sindicatos iniciaram um processo de greve em protesto às demissões. Na atualidade, é considerado um jornal de referência em Portugal e pioneiro em muitas ações em sua área de atuação.

Ademais, este veículo é considerado “um lugar de encontro entre um grupo de jornalistas e um grupo empresarial, a Sonae” (PUBLICO apud VIEIRA; MONTEIRO, 2008, p.4), o objetivo do jornal é “a criação em Portugal de um diário, que através de uma aposta inovadora no plano editorial e tecnológico, reúna as energias necessárias para responder ao desafio de uma informação moderna e de qualidade no espaço europeu”. (PUBLICO apud VIEIRA; MONTEIRO, 2008, p.4). Declaradamente, este meio de comunicação não se posiciona politicamente. Esta é uma afirmativa que parece referir-se diretamente a posições partidárias e/ou de correntes políticas especificas. No que toca o tema que me interessa nesta pesquisa, é possível notar que a forma como abordam eventos envolvendo mulheres

brasileiras vivendo como imigrantes em Portugal, o Público tende a ter um tom liberal.

Em relação ao estatuto editorial do jornal, em sua versão digital, o jornal: adota os princípios editoriais de “sua empresa mãe, o jornal Público”; segue critérios como o rigor, a independência, criatividade editorial e clareza; se filia à tradição europeia de jornalismo, a qual se define como “exigente e de qualidade” e que recusa o sensacionalismo; busca também a informação plural com diferentes perspectivas da realidade; suas escolhas editoriais não se enquadram em hierarquias prévias; acredita que a existência de uma “opinião pública informada” é essencial para existência da democracia, bem como a informação isenta e a exposição de diferentes opiniões seja essencial para a formação da opinião pública; participa de grandes discussões que envolvem a sociedade portuguesa21; se adapta às questões tecnológicas que oferecem informação; e reconhece como o limite é o espaço privado dos cidadãos. (PÚBLICO apud VIEIRA; MONTEIRO, 2008, p.17-18). O jornal alega que tem uma atuação ética e responsável perante a sociedade ao estimular o debate de ideias e a defesa da democracia, assim como diz que se propõe a discutir assuntos de interesse do país.

Em seu estatuto editorial, o citado periódico segue o discurso do jornalismo ocidental como ocorre em muitos países, inclusive no Brasil. Este modelo de jornalismo se define como “ético”, “objetivo”, “cidadão” e “neutro”. Porém, como nos lembram autores latino-americanos decoloniais, todo enunciado é proveniente de um lugar de fala. De maneira que esta suposta neutralidade esconde, de fato, o seu lócus de produção discursiva e de enunciação. Cria-se, assim, o “mito” da neutralidade, associando-a, à verdade.

A imprensa ocidental comunga e forma seus/suas profissionais pautada nesse “mito” do “ponto zero”, ou seja, o ponto de vista neutro: aquele que não tem ponto de vista. (GROSFOGUEL, 2008).

A partir da perspectiva analítica que adoto nesta pesquisa, não existe

[...] enunciado livre, neutro e independente; mas sempre um enunciado fazendo parte de uma série ou de um conjunto, desempenhando um papel no meio dos outros, neles se apoiando e deles se distinguindo: ele se integra sempre em um jogo enunciativo, onde tem sua participação, por ligeira e ínfima que seja. [...] Não há enunciado que não suponha outros; não há nenhum que não tenha, em torno de si, um campo de coexistências. (FOUCAULT, 1986, p.114).

21 Neste ponto, percebo que o jornal Público foi bastante atuante na questão envolvendo a imigração não só brasileira, mas também em relação as outras nacionalidades que têm emigrado para Portugal.

Vale lembrar que o campo enunciativo é um espaço de cruzamento de posicionamentos próximos ou contrários, assim como de novidades e mudanças; nele encontra-se o cruzamento da identidade e da diferença. Os enunciados se cruzam e promovem uma série de inter-relações entre si, ou seja, o interdiscurso. Os enunciados são povoados por outros enunciados que são utilizados de acordo com os posicionamentos dos sujeitos falantes, compreender essas relações é uma das grandes contribuições que Foucault (1986) apontou ao indagar o “algo a mais” que está nas narrativas, ou seja, ao se questionar sobre “os efeitos colaterais” de um discurso.

Em levantamento realizado entre os anos de 2004 a 2015, o tema imigração brasileira apareceu diversas vezes nas páginas de o Público, porém, diferente do JN, a temática foi abordada de maneira menos sensacionalista, isto é, temas como criminalidade, prostituição e sexo tiveram menor destaque. Pode-se propor que isso se deu não apenas por uma posição menos refratária à presença de mulheres brasileiras imigrantes em terras lusitanas, mas por questões que envolvem gênero e classe social, identificados com o público alvo de cada uma dessas publicações.

É importante lembrar que os atos de fala estão inscritos nas formações discursivas e de acordo com determinado regime de verdade, dessa forma, os indivíduos obedecem, constantemente, a regras construídas historicamente e reiteram verdades, consideradas como “naturais”. Dessa forma, ao aborda intensamente o tema da “Imigração, Ilegalidade e Política”22, o Público segue essas regras discursivas e confirma as “verdades” que são produzidas sobre as mulheres brasileiras imigrantes no país.

Tratam-se de regras delimitadas no tempo e no espaço que são anônimas e históricas, próprias de uma determinada época e de uma área específica (FOUCAULT, 1986), ou seja, o contexto migratório contemporâneo português, em que há muitas/os brasileiras/os vivendo naquele país provocando uma fricção cotidiana das alteridades, agravadas pela cena econômica recessiva, na qual tende- se a atribuir ao estrangeiro o papel de usurpador de postos de serviço.

Regras que posicionam os jornais portugueses e/ou as/os cidadãs/ãos portugueses como um “eu”, um sujeito discursivo” superior que constrói

22 Essa temática refere-se a uma das categorias de notícias que criei para analisar o discurso das notícias dos jornais Público de Lisboa e JN do Porto. Essas categorias e discussões são apresentadas mais adiante neste capítulo.

representações sobre o “Outro” e o posiciona como inferior e desqualificado. Tende- se, assim, a reatualizar as regras do antigo Império Português (MACHADO, 2008). Tratam-se das relações históricas entre Portugal e Brasil que regulam essa formação discursiva da mídia, em que se reproduz as relações de poder, da antiga metrópole sobre a ex-colônia, a partir da mobilização de estereótipos.

No próximo item apresento a atuação do Jornal de Notícias (JN) do Porto.

Benzer Belgeler