Um das primeiras preocupações foi identificar se o futebol brasileiro - objeto do presente estudo - sofre transformações significativas desde o seu surgimento; mas, mais do que isto, analisar quais foram essas transformações, buscando a existência de traços característicos que são estruturantes do futebol no Brasil. Além disso, procurou-se identificar se o processo de modernização do futebol guarda alguma relação com aquele pelo qual passou a sociedade brasileira.
O pressuposto inicial foi de que o futebol brasileiro nasce, cresce e se estrutura calcado sobre uma dualidade que lhe imprime – ao mesmo tempo – características tradicionais e modernas, em que tradição e modernidade não se excluem, muito pelo contrário, se retroalimentam, e se complementam em um movimento característico da sociedade brasileira de mudar conservando.
Esta análise já foi realizada por muitos outros pesquisadores de forma similar ou parecida, e estes estudos mostram com clareza, que mudar conservando é uma das características estruturantes de nosso futebol. Porém, neste trabalho, analisa-se o tema sob outro olhar, sob a perspectiva dos atores que se envolvem e se movimentam nesse cenário de dualidade. Ou seja, o estudo analisa de que forma o Estado, as leis formuladas por este mesmo Estado (em períodos díspares – autoritários e democráticos), os dirigentes esportivos e as empresas capitalistas, ao invés de se excluírem nesse processo de modernização – fazendo o novo prescindir das velhas estruturas – ao contrário, se unem para impingirem esta marca distintiva de modernização conservadora em nosso futebol.
Se a modernização dos tempos atuais no futebol brasileiro é aquela definida por Weber como a busca pela eficiência, que na moderna lógica capitalista, requer também qualidade e resultados, percebe-se que ela – como um conceito historicamente construído – foi se transmutando durante o tempo. Se o moderno no futebol já foi a profissionalização dos atletas, hoje esta profissionalização – agora voltada para os clubes de futebol e seus dirigentes – é o moderníssimo.
O arcabouço teórico nos dá base para concluirmos que o futebol e a sociedade brasileira carregam sim semelhanças em seus processos de modernização, ambos têm em comum a característica de mudar conservando, inclusive usando do estratagema de conservar
as velhas estruturas, mesmo que isso signifique a criação de – usando uma metáfora de Francisco de Oliveira (2003) – um ornitorrinco também no futebol.
Isso nos fez entender que mais que uma metáfora da sociedade brasileira – no sentido de ser um termo que substitui outro em vista de uma relação de semelhança – o futebol nos faz enxergar de forma acentuada os gestos, vícios e hábitos particulares de cada indivíduo, por isso mesmo, o futebol é também uma caricatura de nossa sociedade, que a desnuda, a revela de maneira exacerbada, a faz se mostrar sem máscaras.
Desta forma, mostra-se que o futebol nasce em nosso país já se propondo moderno, como o novo, por isso mesmo carrega em si o gérmen da transformação e da modernização, porém, este tem características peculiares: a de revolucionar sem revolução; a de modernizar conservando; a de manter as velhas estruturas intactas; ou seja, as modernizações do futebol brasileiro são conduzidas de forma a preservar intactas as estruturas do poder estabelecidas.
Isso se dá dessa forma desde sua origem, quando o futebol é introduzido no Brasil por sua elite dirigente, e esta está – àquele momento – impregnada por valores liberais vindos da Europa. Ao mesmo tempo, a elite ainda carregava os valores tradicionais de um passado colonial e escravocrata; por isso, não é de se estranhar que ela empreenda um duplo movimento que tenta manter a distinção social através da prática do futebol entre os seus iguais, o que marca a característica elitista do esporte em seus primórdios; mas – de outro lado – apregoando os modernos valores liberais vindos da Europa. Eis uma característica, desnudada à época pelo futebol, a da contradição entre o ideal de modernização da elite e a sua prática real.
Esse ideal de modernização da elite – dirigente e que introduziu o futebol no Brasil – desnuda outra característica que estrutura nosso futebol e que remonta sua raiz: a busca incessante de um norte, que sempre estará no além mar, ou seja, na Europa. A crescente sociedade urbana e industrial brasileira estava sempre com os pés bem apoiados na ―Terra de Santa Cruz‖, mas tinha os seus ideais e mentes voltados para o novo e o moderno vindo da Europa; aquele povo perante o qual deveríamos (devemos?) nos firmar (ou afirmar) por serem eles superiores culturalmente.
Outro fator estruturante do futebol brasileiro a ser destacado é a sua dependência do Estado, que vem perder força somente nos anos oitenta e noventa, com o Estado (Neo) Liberal, que cria as condições para que o mercado passe a atuar como indutor de um novo processo de modernização. De início o Estado, através de seus governantes, enxerga no
futebol uma maneira de se aproximar das massas e inicia um crescente processo de instrumentalização do esporte como canal de comunicação entre governo e massa, a ponto de futebol, governo e massa se congraçarem em eventos cívicos.
Dessa aproximação entre governantes e futebol, se cria a categoria de dirigentes esportivos no país, ligados a políticos e grupos políticos, que ao mesmo tempo em que fortalecem estes grupos, se fortalecem com esta mesma relação. Eis outra importante característica que estrutura o futebol brasileiro até os nossos dias: um processo de simbiose entre o futebol e os governantes, que se inicia no momento da massificação e popularização do futebol no Brasil, que tem como finalidade uma troca, claramente entendida por estes atores como benéfica a ambos; essa troca estimula o desenvolvimento do esporte, mas por outro lado, é o fermento da popularidade de muitos políticos.
Não se estranha, portanto, que em um país onde a política é fortemente marcada pelo regionalismo, onde as decisões nacionais foram – e são – condicionadas por acordos, conchavos e pelo poder local, se tenham impressas essas mesmas características no futebol. Não é por acaso também, que o poder das federações locais se choca e se impõe, por exemplo, na formulação de um calendário nacional para o futebol, o que possibilita, inclusive, co- existirem campeonatos regionais (estaduais), que remontam o início do futebol no Brasil, com um campeonato nacional de clubes.
Porém, mesmo com sua crescente intervenção, o Estado durante muito tempo não atua para modificar a estrutura interna do futebol, pelo contrário, fortalece as estruturas regionais de poder baseadas em federações. Este poder político do futebol, baseado em arranjos locais, que privilegiava as competições regionais (campeonatos estaduais), inclusive, fortalece no imaginário do torcedor brasileiro uma maneira de enxergar o futebol a partir das rivalidades locais.
É nos clubes, porém, que este forte poder dos dirigentes se revela e se desnuda. Os clubes brasileiros têm em sua quase esmagadora maioria, até os nossos dias, direções amadoras, e estas são respaldadas por estruturas internas administrativas e políticas que reproduzem a forma com que são também estruturadas as federações. O poder nos clubes é assentado em conselhos deliberativos que são eleitos pelos associados, mas que em regra, são os responsáveis pela eleição do presidente que terá o poder político e administrativo nas agremiações. Desta forma, os presidentes têm o seu poder amarrado a acordos nessa relação de interdependência.
Por isso é que os clubes condicionam processos de mudanças – e na maioria dos casos, são reticentes a estas ou quando as efetuam a fazem de maneira a preservar intacta a estrutura de poder – a um jogo político que tem em seu resultado a necessidade de se preservar o poder interno, que por similaridade garantirá o apoio ao poder político externo (federações). Este sistema representativo, que se espelha no poder representativo das federações, confere autonomia aos clubes, mas – ao mesmo tempo – impede que os mesmos sejam geridos de forma profissional, pois o poder é assentado em uma estrutura fechada em si mesma.
É nesse cenário de interdependência entre futebol, política e políticos, com estruturas político administrativas de clubes, federações e confederações remontando os anos trinta do século passado, que vemos se apresentar uma nova onda de modernização no futebol brasileiro. No início dos anos oitenta, sob a ótica de uma moderna visão capitalista, se apregoava a necessidade de se modernizar tanto a relação entre clubes, federações e confederação, como – dentro de uma lógica que visa o lucro, a eficácia e resultados – também a necessidade de se modernizar as estruturas político administrativas dos clubes de futebol, os preparando para os novos tempos, os tempos do mercado.
Se durante os períodos autoritários o Estado assume para si o papel de tutor e de indutor do futebol no Brasil, é o Estado novamente – só que agora de forma democrática – quem propõe e dita a forma e o ritmo dessa nova onda de modernização. Em um período marcado pela lógica do Estado mínimo, das privatizações e da desregulamentação, e da flexibilização das relações de trabalho, são propostas pelo Estado brasileiro através de seus governantes uma série de leis – que são discutidas pelo Congresso Nacional – que preparam o futebol para esses novos tempos, onde é tirado do Estado e passado ao mercado a tarefa de ser o indutor do futebol brasileiro.
Com propostas que desregulamentam e flexibilizam o futebol brasileiro, a Lei Zico primeiro, e depois a Lei Pelé, apresentam para a sociedade qual a característica que o Estado brasileiro quer ver impressa nesse novo processo de modernização. Esse deverá ter como característica uma presença mínima do Estado no futebol, onde esse deixa de atuar como tutor do futebol e as regras devem ser ditadas exclusivamente pelo mercado. As premissas a serem seguidas são a da eficiência e do lucro, a relação entre futebol e mercado deve ser baseada no princípio da livre concorrência.
Com a aprovação das leis está aberto um período em que o futebol brasileiro se vê as voltas com um novo parceiro. Ao prescindir-se da presença do Estado – que sempre esteve muito presente no dia-a-dia do futebol brasileiro, seja como tutor ou como indutor – e mantendo as tradicionais estruturas de poder, o futebol agora tem que lidar com o mercado, este ente invisível, mas que de uma hora para outra passa a ser a nova tábua que salvará o futebol dos males que o acompanham desde sempre. Passa o mercado, em substituição ao Estado, a ser o novo Messias do futebol brasileiro.
Mas, em tempos de livre iniciativa, em uma relação entre a tradicional estrutura político administrativa do futebol e a moderna relação de mercado, como não poderia deixar de ser, alguns problemas se apresentam. Um dos principais e primeiros problemas que se apresentam diz respeito à mesma lógica que se quer como estruturante dos novos tempos; ou seja, o mercado – que passa a regular as relações no futebol – privilegia a sobrevivência dos mais fortes, dos mais aptos, somente daqueles que aliam eficiência e rentabilidade. Se por um lado os clubes enxergam nesse mercado uma nova fonte de divisas e uma maneira de sanar suas dívidas e seu atraso, de outro lado, aparentemente, muitos dos tradicionais clubes brasileiros, principalmente os que não estão nos grandes centros, tendem a desaparecer, por não serem atrativos para esse novo parceiro. Pari passu poderemos ver diminuir (outro problema) uma das fontes de receita dos clubes, a formação e venda de atletas, pois com um menor número de clubes uma das características de nosso futebol, a de ser um celeiro de craques, deverá ser diminuída.
Aliado a isso, esse novo tempo, regido pelo mercado, que busca incessantemente o lucro e a eficiência, aparentemente, está procurando substituir os antigos torcedores que frequentam estádios por um novo e seleto público, o de consumidores de futebol. Parte-se da lógica de que se deve pagar um preço correspondente por aquilo que é oferecido como espetáculo. Dirigentes esportivos e imprensa especializada repetem o mantra e buscam uma forma de qualificar a assistência das arquibancadas, seja cobrando pelo espetáculo ou afastando ruído das arquibancadas. O mercado encontra eco e os torcedores computam o resultado dessa equação, e o perdedor, sabemos, é o elo fraco da corrente. Nessa equação quem está perdendo são os torcedores.
Esta faz parte de uma lógica duplamente excludente. Se em momentos de crise, para sanar as finanças, os dirigentes esportivos optaram pela venda do patrimônio dos clubes: o passe de seus craques; agora, outro patrimônio dos clubes está sendo disponibilizado: os seus torcedores. A lógica agora é a de incorporar ao futebol não mais os torcedores, mas se
possível – somente – consumidores. Da mesma forma que na Europa, se busca construir por aqui uma categoria que irá substituir os torcedores, ou seja, se cria paulatinamente um discurso de que é necessário qualificar os torcedores, instituir quem sabe o torcedor de grife, o consumidor, aquele que saldará – ao final de cada mês – as dívidas dos clubes. Essa lógica faz muito sentido se entendermos também que há um discurso corrente – preconceituoso e classista – que identifica nos torcedores, principalmente os organizados, um dos motivos da baixa frequência de público nos estádios. Sem eles as arquibancadas seriam novamente frequentadas pelas famílias, pelos verdadeiros torcedores, seja lá o que isso queira dizer. Esse discurso não encontra correspondente algum na realidade, mas o ruído, representado pelos torcedores, precisa dar o seu lugar para o novo personagem: consumidor. Então, se repete o mantra.
Já que nosso modelo é a Europa, deve-se ressaltar que por lá a maioria dos dirigentes de clubes não têm qualquer vínculo com o futebol a não ser os mercantis. Com isso, os torcedores já não se identificam com os seus próprios clubes. Por lá, os torcedores já há muito não frequentam as arquibancadas, pois este local – com preços proibitivos – é frequentado por aqueles que podem comprar pacotes, serem sócios, consumir. Ao torcedor restará, quem sabe, os canais esportivos em algum pub. Se por aqui os dirigentes ainda são os mesmos, de outro lado, temos os torcedores que aos poucos vão perdendo a identificação com seus ídolos, pois estes estão todos a serviço dos clubes europeus.
O problema dessa lógica de mercado é que consumidores são volúveis. Buscam apenas os espetáculos que lhes ofereçam os melhores artistas e as melhores acomodações, trocando rapidamente de produto – característica não da modernidade, mas de nosso tempo, a pós-modernidade – quando este não lhes agrada mais.
Dessa forma, o futebol está tendo a sua lógica corrompida. De um jogo que se tornou esporte, que foi introduzido por aqui pela elite, mas que foi abraçado e adotado pelo povo e se massificou, estamos assistindo um processo onde essa massa é agora rejeitada no espetáculo. Talvez, estejamos assistindo não mais a um processo de modernização, mas de reação, pois aparentemente o futebol está sendo devolvido a seus criadores: a elite. No caso, não mais a elite dirigente, mas a elite dos tempos do mercado: os consumidores.
Felizmente, aos amantes do futebol, essa é apenas uma projeção, que poderá – com idas e vindas, voltas e revoltas – ser revertida, pois há um crescente movimento de torcedores, em estádios e na rede mundial de computadores, que se opõe e resiste a esse processo de
elitização do futebol pelo mercado. Na Itália os Ultras pregam ―ódio eterno ao futebol moderno‖, no Brasil blogueiros e torcedores discutem e se manifestam contrários a esse movimento de modernização que prescinde dos torcedores, uma modernização elitista. Além disso, a recente crise financeira mostrou a fragilidade dessa lógica regida pelo mercado e os clubes – por pouco – não tiveram que pedir socorro a seus antigos torcedores.
Não se sabe onde este processo desembocará realmente; espera-se que o futebol sobreviva e se mantenha como depositário das paixões do povo. Este processo de resistência à modernização pelo mercado ainda é recente e precisa ser devidamente estudado. Esperemos que quem leve a cabo esta tarefa conclua que os torcedores, em seu processo de resistência, podem barrar esse processo de moderna elitização do futebol.
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