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A partir da perspectiva de um passante ou visitante ocasional, o que se vê ao adentrar as ruas do Lagamar é uma localidade com ares de interior, em claro contraste com a cidade verticalizada, industrial e de tráfego intenso. Apesar de ter como limites grandes avenidas (ver Figura 4, acima), conforme o visitante vai se afastando dessas vias de grande fluxo é possível observar uma diversidade de ritmo, não algo bucólico, mas visivelmente diferente. A circulação de pessoas também é grande e é comum a presença de homens e mulheres sentados nas calçadas conversando, jogando cartas ou descansando entre uma jornada e outra, no caso dos que trabalham perto. Também é comum, durante o dia ou à noite, observar crianças brincando nas calçadas e nas ruas, muitas vezes convivendo com carros e motos que passam.

Quanto a isto, é impossível não sentir certa surpresa, pois essa imagem também contrasta sensivelmente com a representação midiática das favelas como locais violentos: seria de se esperar, talvez, um lugar deserto, espécie de reino do medo, e para o visitante pode parecer estranho deparar-se com uma área onde a vizinhança e as relações de proximidade são intensas. Em contraponto, várias indicações são dadas pelos próprios moradores de que ali não é um lugar de paz, de

tranquilidade. Há tensões que são também perceptíveis, sobretudo com relação a grupos rivais ou “gangues”, sejam ou não envolvidos com o tráfico, conforme será discutido adiante.

Uma questão interessante diz respeito aos nomes das ruas, pois quase todas fazem menção a militares, fato para o qual só fui atentar muitos meses depois de iniciada a pesquisa de campo. Em um lugar tão marcado pela estigmatização em torno da violência, chamou-me a atenção essa questão da nomenclatura das ruas. Além da Avenida Capitão Aragão (uma das vias principais), há, por exemplo, as ruas Capitão Vasconcelos, Capitão Gustavo, Capitão Dark, Aspirante Mendes, Major Geraldo Mendes, Tenente Barbosa, Rua Piloto. Os motivos militares estão presentes mesmo em algumas travessas, como é o caso da travessa também denominada Capitão Aragão. Em conversa com os moradores, fui informada de que a maioria das ruas se chama assim há muito tempo32. Alguns dos entrevistados, ao serem questionados, disseram sequer ter reparado nesse fato. Outros, como Dona Cláudia, afirmaram que talvez essa influência seja pela proximidade com a Base Aérea de Fortaleza. Não é possível afirmar se existe uma relação entre a nomenclatura em homenagem aos militares e uma suposta tentativa de disciplinarização da comunidade por parte do Estado, mas acho importante destacar esse dado, principalmente pensando-se na contradição que isso representa com a imagem de violência muitas vezes atribuída ao Lagamar.

É grande o número de veículos automotores, em especial motocicletas, mas também surpreende a quantidade de carros estacionados em frente às casas (Figuras 5 e 6). Importa esclarecer que no dia em que foram registradas a maioria dessas imagens, em 30/11/2012, nas ruas em que vi o maior número de carros, moradoras me alertaram para não fotografar, a fim de não correr o risco de ter a máquina fotográfica roubada, ou para evitar registrar, sem querer, algum ponto de venda de drogas. Por conta disso, as fotos que obtive não retratam as situações de maior concentração de automóveis estacionados. É importante ressaltar o equívoco de achar que esses bens são raros nas favelas no Brasil, pois nas últimas décadas o padrão de consumo dessas famílias vem mudando. Pasternak (2008) afirma que há vários mitos sobre a população residente em favelas, sendo um deles relativo à renda e ao padrão de consumo dos moradores. Segundo a autora, a casa na favela

32 Realizei uma busca no site dos Correios e verifiquei que todas essas ruas possuem CEP, o que

foi “invadida por bens industrializados. Além dos [itens] básicos, fogão, rádio e geladeira, a presença maciça da televisão em cores marca tanto a casa quanto a paisagem da favela” (PASTERNAK, 2008, p.104). O mesmo pode ser afirmado com relação aos automóveis: o Censo Demográfico de 2000 já apontava que na Região Metropolitana de São Paulo, em 17,92% de domicílios localizados em favelas havia automóvel, em comparação aos 48,23% correspondentes a todo o estado de São Paulo (PASTERNAK, 2008).

Figura 5 - Lagamar: carros estacionados em frente às casas

Fonte: Acervo da pesquisadora, 2012.

Figura 6 - Lagamar: Carros estacionados

Nota-se a grande circulação de veículos vindos de várias partes da cidade, em virtude da existência, dentro da comunidade, de vias alternativas às de grande fluxo na área. Mesmo as ruas estreitas são utilizadas, sobretudo em horários de pico do trânsito, por motoristas que tentam evitar o engarrafamento na Avenida Raul Barbosa, por exemplo (Figura 7). No trabalho de campo, em várias ocasiões pude presenciar situações complicadas com relação à velocidade com que alguns veículos transitam pelo Lagamar. No geral, motoristas dirigiam acima da velocidade permitida33, passando próximo das casas ou de crianças brincando; moradores relatam que atropelamentos não são incomuns. Alguns atribuem essas “imprudências” ao estigma atribuído à localidade como um “lugar violento” – como se os motoristas trafegassem rapidamente para evitar contato com os que moram ali, o que também gera novas tensões.

Figura 7 - Tráfego nas ruas internas

Fonte: Acervo da pesquisadora, 2012.

As casas parecem estar em permanente construção ou reforma (Figura 8), sendo comum observar reservas de material de construção em frente a elas – o que não é especificidade do Lagamar, mas uma característica comum a favelas e loteamentos irregulares (PASTERNAK, 2008; MATTOS, 2012).

33 Na maioria das ruas internas do Lagamar a velocidade máxima é de 40km/h. Apenas nas vias

Figura 8 - Casas em construção ou reforma

Fonte: Acervo da pesquisadora, 2012.

A heterogeneidade das moradias é também expressiva, havendo casas de dois ou três pavimentos, com revestimento em cerâmica e portões de materiais caros, convivendo lado a lado com outras mais simples (Figuras 9 e 10). Pode-se perceber que as unidades mais próximas das avenidas de grande fluxo são as maiores ou vêm passando por melhorias há mais tempo. No geral, são as casas dos moradores mais antigos que, ao longo dos anos, foram saindo das áreas mais “internas” e migrando para as áreas mais “externas”, próximas dos limites do Lagamar, das grandes ruas e avenidas.

Figura 9 - Heterogeneidade das construções

Fonte: Acervo da pesquisadora, 2012. Figura 10 - Diversidade dos tipos de construção

Fonte: Acervo da pesquisadora, 2012.

Em muitos locais é possível observar a existência de calçadas altas, o que indica a tentativa dos moradores de se defender contras as enchentes e inundações, para que a água não adentre as casas (Figura 11). A memória sobre as enchentes é muito viva no discurso dos moradores, pois, segundo seus relatos, quase

anualmente passam por isso, em maior ou menor grau. Os relatos também afirmam que as enchentes mais severas não ocorrem há alguns anos, desde que começou a ser feita a limpeza regular do canal pela Prefeitura Municipal. Mesmo assim, no ano de 2012 a limpeza que estava ocorrendo em setembro foi interrompida e não foi finalizada após o período eleitoral, o que trouxe novas preocupações para as famílias. Alguns moradores atribuíram à não-finalização do serviço à derrota do candidato da prefeita nas eleições. Fotos antigas, datadas das décadas de 1960 e 1970, demonstram o impacto das enchentes, conforme se pode ver na Figura 12. Trata-se de um problema recorrente nas falas dos moradores:

Figura 11 - Calçadas altas

Fonte: Acervo da pesquisadora, 2012.

Figura 12 - Enchente no Lagamar

Alguns relatos sobre os inúmeros estragos trazidos pelas enchentes podem ser vistos a seguir:

Uma das maiores enchentes foi em 1974, que a canoa passava direto pela nossa rua, ia desembocar lá no outro lado. Na casa da mamãe era alto, e lá era onde se acolhia o pessoal todinho, ficava todo mundo em pé, porque não dava para muita gente. Ficavam lá até baixar a água. Era dois, três dias mais ou menos, voltava todo mundo pra casa. (Júlia, moradora, entrevista realizada em fevereiro/2012)

Eu sofri muito dentro d'água, dentro da lama, dentro do lixo, aqui... Sofri, mas sofri, quando amanheceu o dia que eu olhava assim, botava assim a mão, olhava... Eu saía com água na cintura de dentro de casa, os filhos tudo atrepadinho lá em cima nas redes até a água baixar pra gente poder descer. Eu num tinha um armário, eu num tinha um guarda-roupa, eu num tinha nada, as roupinhas era tudo enfiada em cordão, sabe como era uma pobreza total. Perdia tudo, tudo. Tinha umas cadeiras lá em casa, quando eu procurei as cadeiras já tinha sumido tudinho, a água levando, lamparina, foto, tudo. (Cláudia, moradora, entrevista realizada em janeiro/2013)

Para os moradores, parece ser claro a melhoria de vida é resultado da união e da organização da comunidade, principalmente com relação à diminuição das enchentes, como exemplifica o seguinte trecho de entrevista: “[Durante as enchentes, eu] perdia as coisas, mas era todo mundo unido. Era super difícil de tudo, até de escolas, depois foi se organizando, a comunidade foi trabalhando, trabalhando, enfrentando, e aí que tudo melhorou.” (Júlia, moradora). Eles relatam que foi somente com muita organização e resistência que conseguiram garantir a limpeza relativamente regular do canal. Apontam também como vitórias da comunidade a pavimentação, o saneamento básico e a drenagem de algumas ruas, o que também contribuiu para tornar menores os impactos das enchentes. Os relatos sobre as melhorias conquistadas são bastante comuns, e não raro os moradores demonstram com fotografias as diferenças entre morar no Lagamar no início da ocupação e morar ali atualmente. Mesmo que as pessoas teçam críticas e digam que ainda falta muito para o Lagamar ser o “lugar dos sonhos” (como disse Dona Cláudia mais de uma vez), frases desse tipo terminam com ponderações de que já foi “muito pior” em termos de precariedade de serviços públicos. Duas fotografias que permitem ver as condições de moradia na década de 1950 falam por si mesmas (Figuras 13 e 14):

Figura 13 - O Lagamar na década de 1950

Fonte: Acervo do jornal O Povo, 1958.

Figura 14 - O Lagamar na década de 1950

Fonte: Acervo do jornal O Povo, 1958.

Comparando-se estas fotografias às mais atuais (ver Figuras 5 a 11) é possível ver as diferenças referidas pelos moradores, constatando-se que, de fato, os serviços públicos hoje se fazem bem mais presentes, inclusive pelo transcurso de quase 60 anos. Mesmo assim, argumentam os moradores que não foi o tempo que

garantiu as melhorias, e sim as constantes pressões sobre o poder público, que trouxeram alguns programas para o Lagamar, a exemplo do Sanear, programa estadual que garantiu saneamento básico para boa parte da população.

Apesar das melhorias, existem ainda hoje áreas onde a precariedade é maior, como aquelas localizadas em alguns becos e vielas - não são as partes mais visíveis, a não ser em um ou outro local, como é o caso da Cidade de Deus. No Lagamar, há várias diferenciações estabelecidas pelos próprios moradores, bem como divisões espaciais, que se poderia chamar de microterritórios, a exemplo da própria Cidade de Deus e também Peste, Favelinha, Barreirinha e Piloto, que serão melhor discutidas a seguir.

Benzer Belgeler