C. Olağan Ticari Faaliyetlerinin Yürütülmesi Amacıyla
26 DİĞER VARLIK VE YÜKÜMLÜLÜKLER a) Diğer dönen varlıklar
Nesta obra coletiva nada é mais instigante, na performance do cantador, do que sua companheira inseparável: a viola. Relação que na maioria das vezes passa despercebida pelos próprios poetas. Esse instrumento está tão presente em suas vidas que dificilmente é lembrado como essencial, embora quando indagados de sua importância sejam inúmeras as declarações de amor. Como esta feita por Sebastião Dias:
A viola é minha cara metade. (Risos) É. A viola é muito importante. A viola é a outra, né... é a outra minha face porque sem ela eu não cantaria, né? Então, eu tenho a viola como um... uma riqueza e minha companheira de estrada porque tudo roda em torno dela.15
A viola simboliza uma extensão do próprio cantador, internalizada como parte de seu corpo. Ela é a cara metade, uma espécie de outra face que, mesmo estando sempre à mostra, parece oculta no conjunto da obra poética que supõe a majestade da palavra, da voz sobre a melodia, que acompanha as toadas em cada gênero improvisado.
Há uma espécie de ritual, um pacto com a viola que acompanha o desenvolvimento dos violeiros repentistas. Em geral, eles consideram pobre a musicalidade que acompanha a cantoria, quase insignificante, como declarou Zé Cardoso:
(...) precária porque ela não... porque vem desde da criação da cantoria que vem aquela mesma música. Os cantadores mudam de toada, aquele negócio, mas a música é uma mesma, o baião da viola é o mesmo. Não tem essa melodia, não tem essa coisa... o que tem o que prende o público da cantoria é a criatividade do cantador. Se ele não tiver cantando... se tiver cantando e não tiver criatividade ele não prende o público.16
Mas ao falar do instrumento que produz essa musicalidade expressa a força que essa arma possui para seu desempenho:
A viola é uma arma. É como você ir pra guerra desarmado, você não tem como enfrentar porque na hora que o cantador toca na viola ele já
15 Entrevista realizada em 26/04/2007 em Fortaleza/CE.
sente o sangue correr nas veias, né? (Riso) É interessante que bom... às vezes você está até cochilando num canto, na hora que chama para cantar você pega na viola, toca na viola você já sente o corpo parece que passa para o sangue aquilo ali. Você se sente armado pra... pra ir pra luta. A viola é tudo, é tanto que se o cantador for cantar sem viola ele não consegue cantar como ele canta com a viola.17
A viola funciona como um motor, um meio utilizado pelo cantador que, consciente ou inconscientemente, ativa seu corpo, avisa ao seu cérebro que a peleja vai começar, que é hora de empunhar seu instrumento e deixar vir à tona centenas de palavras nascidas no curto espaço da melodia que precisam ser rimadas, metrificadas, ser poéticas. Precisam ainda acertar em cheio o coração da platéia, cativá-la, torná-la prisioneira do seu encantamento. Por isso a viola é tudo!
É interessante observar que para a maioria dos cantadores é aceitável que a viola seja imprescindível na hora da performance. Entretanto sua musicalidade é considerada como algo em segundo plano para a cantoria. O cantador Moacir Laurentino, neste sentido, faz uma declaração importante ao considerar que a “cantoria é pobre de música”:
A cantoria é pobre porque é... é... seria uma fortuna muito grande Deus entregar um dom de tanta facilidade, tanta grandeza no improviso. Tem lá quem saiba quantos versos grandes sai numa cantoria. Não há quem saiba! E Deus entregar o dom de músico a ele, um grande músico. Assim Ele ia entregar tudo a ele.18
Percebe-se a partir da narração de Moacir que seria algo muito grandioso se o cantador, além de possuir o dom de ser poeta e dominar toda a técnica que envolve a criação do repente, ainda tivesse a habilidade e virtuosismo como músico. Por outro lado, podemos ainda pensar que para uma arte na qual a voz e a palavra precisam ser ouvidas naquele momento único para que a poesia alcance devidamente o espírito do outro, a complexidade da música poderia dificultar, de alguma maneira, sua perfeita recepção pelo ouvinte, o que ocorre em muitas outras linguagens que utilizam a palavra. No caso da cantoria, para que a palavra esteja em primeiro plano, é necessário que a melodia ceda lugar.
17 Idem.
Na história da cantoria tivemos cantadores que utilizaram outros instrumentos, especialmente a rabeca, o caso de Cego Aderaldo, mas a viola reina dominante entre os cantadores. A maioria deles gosta de enfeitá-la com detalhes em metal e com partes brancas, como vemos na foto:
Figura 1 – Cantadores Zé Cardoso e Geraldo Amâncio
Geraldo Amâncio fala que ela era de doze cordas, hoje é sete, oito cordas, mudou um pouco.19 Em décadas passadas, segundo relatam alguns cantadores, era comum amarrar fitas coloridas que simbolizavam as vitórias obtidas ao longo da carreira.
O amor ao instrumento, no entanto, é unânime:
A viola é o tudo do cantador. O cantador quando... pode tá sem inspiração, quando pega na viola chega tudo pra ele. É a arma principal. É a coisa mais sublime pra o cantador se chama a viola. (Antônio Fernandes, 07/10/2006)
É o símbolo maior do cantador é a viola. Muitas vezes o cantador nem afina a viola bem, nem toca viola, nem toca baião gostoso e sonoroso e... e repenicado. Eu, por exemplo, sou um cantador que toco pouco a viola, não caminhei não me esmerei por isso, devia ter me esmerado porque é bonito cantar a viola, é bonito tocar a viola, é bonito cantar canção, é bonito cantar poema bem acompanhado, mas eu não... Eu toco apenas o baião de cantador e faço minhas cantorias. (Pedro Bandeira, 11/11/2006)
A viola é a ferramenta do cantador, Simone. A viola é a verdadeira inspiração pra o cantador. É realmente a cruz que o cantador abraça e
carrega sem se maldizer e sem cansar. É o caminho, é a bússola do repente, da inspiração, do mundo da cantoria é a viola. (Zé Viola, 03/03/2007)
Uma coisa interessante, Simone, a viola parece que não é só aquele baião que ela toca, não é só aquele som em cima da voz. Parece que não é só a... a... a... aquele cartão postal do povo. Eu acredito até que aquele apoio. Se a gente for cantar sem a viola... olhe, a coisa fica sem jeito, como um pote sem água, uma carne sem caldo. Interessante, né? (...) A viola significa muito, ela... além de dar aquele pouco de som, é mais uma presença ao povo e até aquele apoio e parece que a gente, parece não, pelo costume você quando pega na viola parece como pegou uma arma, não sabe? Sem ela é mesmo que ser um guerreiro desarmado. É uma coisa muito bonita. (Louro Branco, 20/04/2007)
Tudo. O cantador sem viola é como a vaca sem chocalho, você vê que tá faltando uma coisa. Cantador não tem inspiração nenhuma cantando sem a viola. É a arma de tudo é a viola. É a companheira eterna. (João Paraibano, 26/04/2007)
A viola significa a ferramenta de tra... trabalho e... e psico... logicamente a gente põe nela um corpo físico de carne, imaginário. A gente chama ela de irmã, de amiga, de compa... panheira e de minha esposa e tal, de minha arma. Chama ela de tudo. Então, ela é como o tudo na profissão. Você ama a... a viola. Você... cria versos pra ela. (Zilmar do Horizonte, 11/06/2008)
Ah! A viola é a companheira dileta, né? É a sofredora, a amiga. A musa que inspira, que ajuda, que vai. É... a viola é... é assim como que seja o pulmão pra poder o ar entrar e sair e a gente respirar, né? Então, a viola... ela tem a sua... a sua grande colaboração, a sua grande parcela de colaboração com a arte da cantoria. (Sebastião da Silva, 30/06/2007)
A viola tem algo de sublime, fonte de inspiração. Detém algo misterioso que não é só
aquele som em cima da voz, é um apoio, é a arma do guerreiro, é a bússola que orienta o cantador na
sua criação poética. Anima o corpo e a mente em um entusiasmo fecundo que convida o público a fazer parte da performance. É a ferramenta com qual o poeta constroi cada verso, cada rima, cada métrica como um artesão da palavra.
Ela mereceu muitas homenagens, sempre há versos improvisados que enaltecem sua importância, como esse “mote em sete” feito por Zilmar do Horizonte, durante nossa entrevista: 20
Meu pai não quis aceitar Quando eu saí da escola E comprei uma viola Pra começar a cantar Mas papai vai escutar Cantoria a noite inteira Diz no meio da brincadeira Meu filho é cantor sabido Essa viola tem sido Minha fiel companheira
Foi feita numa oficina De fabricar instrumento Não esqueço um momento Da viola nordestina
Esse baião me domina Tira o sono e a canseira E de levar sol e poeira O corpo vive encardido Essa viola tem sido Minha fiel companheira
Cantador, viola e público fazem parte de um mesmo e único instante. Estão intrinsecamente unidos, compondo uma melodiosa poesia cantada que encontra em vozes e sons, provavelmente ancestrais, a força de sua permanência. Elba Braga Ramalho lembra que “a imbricação entre música e poesia representa a memória viva do canto recitado, encontrado em todas as culturas, numa fase em que o idioma falado ainda não tirara do homem a possibilidade de sentir e viver cotidianamente essa arte elementar”.21
A viola do cantador produz um som que o identifica com o público. Há uma melodia específica que lhe toca e faz dele um amante do todo, e não apenas de uma parte que seria as palavras improvisadas. Embora o improviso seja a força de atração tanto de cantadores quanto de ouvintes, como percebi em vários depoimentos, de maneira nenhuma ele prescinde da toada. O ouvinte gosta das toadas sonorizadas pela viola e incomoda-se quando a cantoria vem acompanhada por outros instrumentos, como no caso de algumas gravações feitas pelos cantadores. Como exemplificou Louro Branco:
(...) Já aconteceu de uma pessoa me comprar uma fita, Simone, e ser acompanhada com órgão, sanfona. Aí ele chega, ô Louro, não tem uma tocando viola, não? Quer dizer, a viola tocada mais simples com poucos sons, faltando acompanhamentos, mas ele acha o som da viola mais bonitinho. (...) Porque é aquilo que eu falei, o povo da viola quer a viola, o povo do cantador quer o cantador. Interessante, né! É aquilo que eu falei: é um povo pouco, um público pequeno, mas fiel. 22
Não importa se a viola é tocada de forma mais simples, para o público, assim como para o repentista, ela e o som que dela ecoa são indissociáveis da cantoria. De fato, como esclarece Zumthor ao falar da performance cantada, “o instrumento de cordas, o mais abstrato de todos, encontra-se assim privilegiado: lugar de concentração de uma carga
21 RAMALHO, Elba Braga. Cantoria Nordestina: música e palavra. São Paulo: Terceira Margem, 2000, p. 76. 22 Entrevista realizada em 20/04/2007 em Fortaleza.
simbólica; meio de reinserção da vocalidade humana entre os ritmos universais que a dominam”. 23
No envolvimento de corpos e instrumentos, com a voz ao ritmo da música, a
performance do cantador se realiza. O público capta seus gestos, atribui-lhes sentidos,
envolve-se na magia que emana da palavra cantada, ritmada; prende-se ao ritual, ao mesmo tempo que se emociona com a beleza ali traduzida. A palavra e a música, assim carregadas de memória, unem-se à melodia, dando ao público uma sensação de estar participando de um encontro onde todos se reconhecem.
Em sua performance, o cantador cola a viola ao peito como que para ouvir as batidas do coração. A mente põe em ação um turbilhão de informações que precisam acompanhar o ritmo da música inscrita no corpo, que precisa criar, no menor tempo possível, o improviso oportuno capaz de traduzir em poética as questões e as vidas ali compartilhadas.
Percebo que a viola é um suporte do corpo, da memória. O som por ela criado anima a mente e a voz do cantador, que, pela força do grito, faz nascer o improviso prenhe dessa musicalidade. A viola estará sempre presente, companheira inseparável, porque também ela é razão de ser dessa criação. A música inscrita no corpo ativa uma série de informações que juntamente com o ritmo dão vida ao repente, que sairá metrificado, rimado, pois tem como suporte o movimento do corpo articulado ao do instrumento.
Os movimentos das mãos e dos braços que sustentam o ritmo da viola são partes do corpo e se imbricam a palavra improvisada, cantada. A agilidade dos dedos já está culturalmente presente no corpo e na mente do cantador, não sendo mais percebida. Juntos dão forma, cor e vida ao improviso. Viola e cantador tornam-se um só corpo.
Podemos pensar na viola como uma extensão das mãos, um suporte do corpo e da memória dos cantadores. Memória que se transmite e se renova através de suas vozes que ao buscarem o som da viola, reproduzem as mesmas melodias dos antepassados aglutinando, assim, passado e presente no momento da performance, a qual pude perceber como ritual. Um ritual que se dá em dupla quando cada cantador pega sua viola e cola ao peito, impondo antes uma postura que a melodia. Essa virá, depois, carregada de mistérios, sons ancestrais que dizem respeito a uma arte que pulsa nos corações da viola,
do cantador e do público. Quando começa o improviso, as mãos apenas tocam no instrumento, a melodia ouvida vem da viola do companheiro que está ao lado, compondo a melodia que ajudará a voz, de maneiras diversas, a romper o silêncio, trazendo à tona o repente perfeitamente metrificado, rimado, poético.
Fica a impressão de que o cantador nesse momento não tem consciência da música que a viola do companheiro produz, envolvido que está na sua criação, momento em que seu corpo é todo mente, trabalhando de forma frenética e urgente para, na rapidez do pensamento, unir beleza e técnica, voz e palavra numa só poesia.
Suponho, então, diante das declarações de cantadores e ouvintes que possuir o dom, a habilidade de improvisar já é uma tarefa para eles demasiado grandiosa e que seria muito complicado ter habilidade mental para o improviso, métrica e rima da poesia e ainda preocupar-se com a melodia e com o ritmo da música. Isso, de forma nenhuma impede que o ritmo, a melodia, as toadas estejam presentes em cada gênero - embora ignorados por muitos. É o ritmo da música embutida no corpo/memória que faz o improviso vir à tona.
Talvez por isso o cantador traga em sua fala o paradoxo da musicalidade na cantoria. A música é vista como algo inferior na cantoria, aparece pobre de melodia, mas o instrumento que lhe dá musicalidade é enaltecido com paixão, com alegria. Sem dúvida a viola é a arma para esses guerreiros e encontra-se sempre colada ao peito. Eles sentem que sem ela não há como ganhar a peleja, mas não sabem explicar de onde vem essa força.
1.3. DOM E TÉCNICA