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Segundo Soares (2012), uma observação crítica pode ser dirigida:

À concepção segundo a qual o novo, o desconhecido, é compreendido a partir do já familiar. Ora, sem considerarmos as dificuldades que envolvem a fugacidade e a subjetividade inerentes à noção de familiaridade, esta concepção sugere, antes de tudo, que os fatos familiares não requerem explicação. (p. 60)

Todavia, a História da Ciência sugere que a Ciência tem empreendido um tremendo esforço “para explicar as tempestades, o azul do céu, as semelhanças entre filhos e pais, os lapsos no falar e no escrever, as lacunas da memória e muitas outras coisa familiares”

(Hempel, 1979, p. 165). Às vezes, a História da Ciência está repleta de exemplos que ilustram isto, a Ciência não reduz o desconhecido ao conhecido, o não-familiar ao familiar, mas explica fatos conhecidos por meios poucos familiares e não-intuitivos que obtêm, porém, bom apoio em resultados cuidadosamente comprovados. É que a explicação científica requer o estatuto das leis, como elementos essenciais a uma explicação, e não a familiaridade de imagens e de associações (Soares, 2012, p. 61).

A partir do princípio de que as representações sociais são formas de conhecimento, Spink (1993, p. 300) as vê como uma vertente teórica da Psicologia Social que faz contraponto com as demais correntes da Filosofia, da História, da Sociologia e da Psicologia Cognitiva que se debruçam sobre a questão do conhecimento. E, situá-las na ótica da Psicologia Social implica discutir tanto aquilo que é compartilhado pelas demais disciplinas - e que a faz um campo transdisciplinar - quanto a contribuição específica da Psicologia Social. Seria a RS diferente das outras teorias? A principal diferença é a dinamicidade e historicidade específicas, associadas às práticas culturais, reunindo tanto o peso da história e da tradição, como a flexibilidade da realidade contemporânea (Correa et al., 2007, p. 5), delineando as RS como estruturas simbólicas desenhadas tanto pela duração e manutenção, como pela inovação e metamorfose. Aceita a existência de conteúdos contraditórios - não descarta os conflitantes - o que a torna dialética, enriquecendo a compreensão do fenômeno.

Já as outras, como a teoria comportamentalista, a psicanálise - na visão social e humana - o social é visto como, ou pronto, ou como uma categoria de menor importância; e o humano, condicionado ou inconsciente; contrapondo a RS que busca construir coletivamente o social e o humano. De certa forma, também é compreensível que, a RS como um novo paradigma tivesse se preocupado em enfatizar mais as diferenças que os pontos de contato com outros conceitos ou teorias já estabelecidas (Mazzotti, 1994, p. 60). Hoje, uma vez consolidado, nada impede a integração de conhecimentos com outras áreas, cada uma se

beneficiando dos conhecimentos acumulados pela outra. Várias possibilidades de cooperação e de complementação já vêm sendo exploradas. Doise (1989), por exemplo, mostra que é possível adotar uma abordagem mais integrada das atitudes, articulando o estudo no nível do indivíduo à sua inserção em sistemas de natureza societal e às relações simbólicas entre atores sociais, sem se restringir a diferenças entre indivíduos, mas incluindo diferenças entre grupos e entre culturas. Estudar a ancoragem das atitudes nas relações sociais que as geram equivale a estudá-las como representações sociais (Mazzotti, 1994, p. 60).

E a ideologia, teria ela relação a se estabelecer com as RS? Oliveira e Werba (1998) dizem que se ideologia for definida como algo reificado, pronto e acabado, o sentido que Moscovici dá a ideologia, evidencia que as RS não podem ser identificadas com ela, exatamente pelo fato de serem dinâmicas e sempre passíveis de transformações. No entanto, a tendência, é definir ideologia pelo uso das formas simbólicas para criar ou manter relações de dominação, Thompson (1995), em outras palavras, é o sentido - entendido como formas simbólicas e, portanto construtos significativos, imagens ou palavras - a serviço de relações assimétricas, desiguais. Tomando então a ideologia como o uso de formas simbólicas para criar ou reproduzir relações de dominação, pode-se considerar que as RS, por serem formas simbólicas, podem ser ideológicas. Ao dizer que uma RS é ideológica precisa-se primeiro mostrar que serve em determinadas circunstancia, para criar ou reproduzir relações de dominação (p. 19).

Como a objetivação é formadora da imagem e estruturante, e, a ancoragem o enraizamento social da representação, conforme dito anteriormente o resultado é que depois de uma série de ajustamentos, o que estava longe, parece ao alcance de nossa mão, o que parecia abstrato, torna-se concreto e quase normal. Havendo, pois uma integração cognitiva.

Tais dimensões fornecem uma panorâmica de seu conteúdo e do seu sentido. Assim, o processo de constituição de uma representação se inicia com a tentativa de apropriação da

realidade pelo sujeito, que associa o objeto a ser representado às mais variadas noções provenientes das informações que se tenha sobre este. Aí, há o processo de construção de uma imagem - a objetivação -, envolvendo a comparação do objeto a paradigmas considerados apropriados, resultando no seu reajustamento. “A partir daí, os indivíduos ou grupos lançam mão de uma atitude social perante a representação, de forma alguma neutra, que atribui ao objeto valor positivo ou negativo” (Shimizu, 1998, p. 123).

Nesse contexto, pode-se afirmar que uma RS carrega em si o conceito de ideologia, pois são fenômenos psicossociológicos que envolvem leitura da realidade, contribuem para a produção de visões de mundo a serviço de valores, desejos, necessidades e interesses do grupo que a partilham (Mazzotti, 1994, p. 60).

Por outro lado, a gênese da vinculação entre RS e ideologia foi realizada pelo próprio Moscovici em seu estudo sobre a RS da Psicanálise (1978), nele descreve três fases da evolução dessa ciência: 1) a fase científica: da criação de uma nova teoria; 2) a fase representacional: que envolve a difusão através da sociedade e a criação de RS, 3) a fase ideológica: caracterizada pela apropriação da representação por algum grupo ou instituição e pela sua reconstrução como conhecimento criado pela sociedade como um todo e legitimado por seu caráter científico. Ou seja, Moscovici viu o caráter reificador da ideologia como discurso estruturado e estruturante que tende a impor a apreensão da ordem estabelecida como natural e governada por leis impessoais. Além disso, afirmou que: “A Psicologia Social é a ciência dos fenômenos de ideologia - cognições e Representações Sociais - e dos fenômenos da comunicação” (Moscovici, 1999, p. 15).

Com a evolução da TRS, outros enfocaram os dois conceitos, como “Representação e ideologia - o encontro desfetichizador”, de Sawaia (1993), que mostra a relação entre o conceito de ideologia na perspectiva dialética-materialista e o conceito de RS, tal como reelaborado por Moscovici. Entre outras considerações, a ideologia coloca parâmetros entre o

que se pode e não se pode desejar, cria referências afetivas e atribuem necessidades. Mas esse processo não é automático e mecânico, ele é incerto e impetuoso, pois é singularidade, vivida por indivíduos que não são passivos, sentem, pensam, agem e relacionam-se (Sawaia, 1993, p. 80).

Outro estudo a ser destacado, é o apresentado por Guareschi e Jovchelovitch (1998) e intitulado “Eu não”, “o meu grupo não”: representações sociais transculturais da AIDS, de Hélène Joffe, em que a autora entrevistou 60 jovens sul-africanos e britânicos, heterossexuais e homossexuais. Mostra o resultado da pesquisa que as RS da Aids são formadas através da ancoragem a ideologias que já circulam em determinada sociedade, e através da objetivação da Aids em certos lugares, práticas e grupos. Ou seja, a autora mostra como as RS da AIDS se fundamentam em ideologias dominantes (p. 35).

É na e pela relação com o outro que os sujeitos buscam conhecer. É um mecanismo de inserção na comunidade, de partilha do sentimento de pertença a um grupo. É a partir do estranhamento da realidade que não se conhece que o entendimento sobre esta realidade se elabora e é compartilhada com outros sujeitos e se dissemina e se legitima na construção e modificação de visões de mundo e de posturas (Jovchelovitch, 2001).

Os diálogos produzidos se diluem às suas impressões já constituintes e se reorganizam de forma a construir novos sentidos, novas significações para a realidade sempre em processo de interpretação (Oliveira, Soares, & Sousa, 2011). A comunicação, em representações sociais, está no início e no fim do processo de conhecimento. Assim como diz Marková (2006) a comunicação é o meio pelo qual a informação é decodificada e após ressignificada, transformada e reinterpretada retorna ao meio social novamente por meio da comunicação.

As representações sociais sobre os núcleos de inclusão podem regular posturas de escolha ou não escolha por algumas instituições ou campi. Tais escolhas dependerão dos

valores simbólicos atribuídos a elas e da possibilidade de acúmulo de capitais simbólicos, econômicos e culturais que estas possam proporcionar no contexto educacional (Oliveira et al., 2011, p. 5)

Benzer Belgeler