• Sonuç bulunamadı

Considero que há um aspecto complexo na minha pesquisa, no que diz respeito às escolhas dos sujeitos. Entre os adolescentes pesquisados, nove eu já conhecia antes da pesquisa. Muitos são filhos de amigos(as) meus(minhas),e, portanto, os conheço praticamente desde a sua primeira infância, outros além disso são ou foram amigos/colegas de meus filhos. Três casos de convite para os jovens participarem da pesquisa foram intermediados pela mãe (de dois irmãos) e pela tia. Se essa familiaridade com os sujeitos favoreceu a minha aproximação com os mesmos, poupando-me esforços e tempo à procura de informantes que estivessem disponíveis e interessados em participar da pesquisa, por outro lado, pode ter reprimido e/ou interferido de outra forma, em certos momentos, nas suas falas.

Eu tinha, portanto, alguns elementos que poderiam obstruir a comunicação com os adolescentes: a distância etária, a familiaridade com eles (e mais ainda com suas

mães), sem contar que o próprio tema – a sexualidade – por si só traz consigo uma carga

muito grande de tabus e preconceitos, podendo dificultar ainda mais a comunicação entre pesquisador/pesquisado.

Em qualquer campo o pesquisador precisa se utilizar de sutilezas, de criatividade, de imaginação para conquistar a confiança e a disponibilidade de seus informantes. No campo virtual, principalmente em se tratando dos meninos e meninas que eu não havia mantido contato previamente (aqueles que foram indicados por

terceiros), não foi diferente. Aliás, por se tratar de uma relação “indireta”, “superficial”

(no sentido de não haver contato humano, face a face, olho no olho), eram imperativas algumas iniciativas preliminares de minha parte, para cativar a confiança do grupo e ser aceita pelo mesmo.

A atitude eticamente recomendável do pesquisador é que o mesmo se identifique e identifique o interesse de sua pesquisa, pedindo as concessões para o uso das informações necessárias alcançadas em postagens e em conversas com os

informantes.38 Quando iniciei os contatos pelo Facebook, portanto, demorei um pouco

nas apresentações, nas justificativas sobre o meu trabalho, sobre a importância dele e do

tema. Enfatizei também sobre os aspectos éticos que seriam considerados, inclusive que seus nomes seriam trocados, e que não seriam expostos quaisquer dados que, porventura, pudessem ameaçar sua privacidade e a de suas famílias. Também frisei que eles poderiam, a qualquer momento, desistir de colaborar com a pesquisa, sem precisar de grandes justificativas, e que também não se sentissem obrigados a responder as questões feitas, ficando à vontade para comentar o que quisessem, responder apenas o que achassem conveniente.

Imaginei, em princípio, que a reação da maioria dos adolescentes fosse mais tímida, mais receosa, sobretudo considerando o tema em questão. No entanto, felizmente o receio maior foi o meu, pois praticamente todos se mostraram disponíveis, com certo entusiasmo (principalmente as meninas) em poder participar e contribuir com a minha pesquisa. Quando falei sobre o anonimato, eles/elas não mostraram nenhuma preocupação. Sugeri que eles/elas escolhessem nomes fictícios que eu pudesse usar quando fosse necessário, mas a maioria deixou que eu mesma os escolhesse. O anonimato dos informantes deve ser garantido, devendo, portanto, se utilizar na

pesquisa pseudônimos e não seus nomes de usuário.39

Tendo em vista que meus informantes eram menores de idade, era necessário providenciar a autorização dos pais ou responsáveis para que os mesmos pudessem participar da pesquisa. O TCLE eu já havia utilizado para os GF e para realizar as entrevistas (conforme registrado anteriormente), faltava resolver essa questão com os meus informantes do Facebook. Para conseguir a autorização dos pais ou responsáveis, consegui os e-mails dos mesmos, enviei uma pequena carta apresentando o projeto, destacando a importância da participação dos adolescentes, e o TCLE para ser assinado pelos pesquisados e pelos responsáveis pelos mesmos. Os TCLE foram assinados pelos mesmos e escaneados. Apenas num dos casos, os pais de uma das entrevistadas não possuíam e-mail, então foi utilizado o e-mail dela. Não tive dificuldade em conseguir a aprovação dos pais dos adolescentes, principalmente em se tratando de alguns que já me conheciam.

Um aspecto que penso ser relevante (que posteriormente devo expressar com mais detalhes), e que acredito ser mais comum nas relações estabelecidas nas redes sociais, é a facilidade com que muitas pessoas, que já se conhecem , têm de abordar diversos temas, inclusive os mais íntimos, de forma mais aberta, franca, espontânea.

Outro elemento diferenciador é que nas entrevistas virtuais, por mais que se adote um roteiro com perguntas direcionadas ao tema que se pretende investigar, a forma de interlocução construída se torna, inevitavelmente, bem mais informal do que nas entrevistas presenciais, e isso tanto do lado do pesquisador quanto do pesquisado.

Algumas entrevistas pelo Facebook foram realizadas em um só encontro, mas, na maioria das vezes, as conversas foram fragmentadas em vários dias. Nesses casos, eu precisava estar atenta às suas “entradas” na rede, nos bate-papos, e nessas oportunidades continuar a conversa de onde havia parado da última vez. Em muitas ocasiões tive receio de está sendo invasora, inconveniente, (até mesmo com aqueles

jovens que eu já tinha alguma intimidade) por “persegui-los” no Facebook, não sabendo

ao certo se aquele era o momento conveniente para “papear”40 com eles/elas.

Eu percebi que o aspecto da proximidade com os informantes através de amigos/as e/ou filhos, intimidou em alguns momentos as falas, principalmente das

meninas, quando em algumas situações elas reproduziam um discurso “adultocêntrico”,

preventivo, com relação, sobretudo, às práticas sexuais na adolescência, à gravidez na adolescência, à falta de prevenção. E também nos silêncios com relação às suas próprias experiências sexuais, que praticamente, inexistiram nas suas falas. Quando alguma pergunta era feita sobre suas trajetórias afetivas/sexuais, as respostas eram, no mínimo vagas, incompletas, ou tangenciavam para outros aspectos da questão, como por exemplo, os cuidados que se deveria ter para se preservar, para se cuidar, ou que não era certo ceder aos impulsos dos meninos, etc.

O que me levou a crer que algumas garotas poderiam estar “disfarçando”

certas práticas nos seus discursos foi, entre outras coisas, o fato de que praticamente todas elas terem afirmado que a iniciação sexual na adolescência é uma prática comum nos dias de hoje, que elas conhecem (e muitas vezes de bem perto) meninas que estão tendo essas práticas, algumas conhecidas até já engravidaram (todos os meninos e meninas, com apenas uma exceção afirmaram que conhecem adolescentes que engravidaram ultimamente), e no entanto todas elas alegaram que não apenas não se iniciaram sexualmente, como não demonstravam interesse em fazê-lo, sempre utilizando o argumento de que ainda não tinha chegado o momento certo, a pessoa certa, e outras coisas mais. No entanto, quase todas já namoraram e/ou ficaram (mas que também não quiseram expor detalhes de suas performances). Apenas uma garota, que

40 Na relação informal estabelecida entre pesquisador/pesquisado nesse meio virtual, passa a ser

não foi entrevistada, mas que foi do GF e depois me mandou um texto por e-mail (quando a procurei depois não consegui mais manter o contato), expôs a sua experiência sexual, através do texto enviado por e-mail.

Sei que não posso deduzir que as lacunas nos discursos femininos, no que diz respeito às suas experiências sexuais, se devam apenas à timidez e constrangimento diante da minha presença como pesquisadora, tendo em vista que vários estudos já mostraram que mesmo com todas as modificações comportamentais e de valores no

campo da sexualidade no Brasil nos últimos tempos, “a primeira relação sexual ainda

possui uma carga simbólica e social diferente para homens e mulheres.” (FRANCH,

2010, p.220). Segundo Elaine Brandão (2009), a atividade sexual entre adolescentes e jovens continua oculta, não é ostentada publicamente no início das trajetórias sexuais das meninas. Quero apenas ressaltar que os discursos devem ser ponderados, também considerando o aspecto da familiaridade pré-existente entre eu pesquisadora e meus informantes, e que isso pode ter, em determinados momentos, sobretudo nos diálogos com as meninas (que já são tão cobradas em reprimir seus desejos), dificultado uma exposição mais clara sobre suas experiências pessoais. Acredito que esse elemento possui em si um valor significativo, que abre possibilidade para outras reflexões sobre as estratégias metodológicas, especialmente quanto à performance dos discursos, e também sobre a reação, muitas vezes contida das meninas, no que tange às suas

expressões relacionadas à sexualidade.41

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É importante frisar que os discursos das meninas foram, no geral, mais longos e mais detalhistas do que os dos meninos. Só nos momentos em que se indagou sobre relação sexual é que elas se contiveram.

CAPÍTULO II

Benzer Belgeler