Para alcançar o êxito, a intencionalidade formativa deve ter uma matéria física que, ao ser formada, dá lugar a um valor artístico não subordinado.
À formatividade que deseje ser pura e especificar-se na arte não resta portanto outra matéria a adotar senão a matéria propriamente dita: matéria pura e autêntica, isto é, matéria física e resistente, porque só assim a forma será verdadeiramente forma e somente forma. A operação artística não pode ser pura formatividade a não ser que seja formação de matéria física, de tal sorte que se pode afirmar que a exteriorização física é um aspecto necessário e constitutivo da arte, e não apenas algo de inessencial e de acréscimo, como se dissesse respeito unicamente à comunicação. Pois a obra não pode existir a não ser como objeto físico e material.83
Somente com a formação da matéria, a formatividade pode se especificar na arte dando lugar a uma forma que seja apenas forma, porque a forma pura, enquanto valor estético autônomo, não pode ser forma de outra coisa, mas sim objeto físico que é simplesmente forma. A matéria física tem, de per si, valor e significado humano, podendo o homem servir- se dela para confiar-lhe um valor que queira ser apenas artístico, sem subordinar-se a outros valores ou resolver-se neles84. É o processo de exteriorização ou extrinsecação85 física que garante a possibilidade do processo de formação da arte, distinguindo-a das demais atividades executadas pelo homem, na medida em que o êxito do processo artístico dá lugar a obras que são obras enquanto formas que foram descobertas através do diálogo entre o modo de formar do artista e a matéria física.
82 PAREYSON, L. Estética: teoria da formatividade, p. 127. 83 PAREYSON, L. Estética: teoria da formatividade, p. 44.
84 Cf. PAREYSON, L. Os problemas da estética, p. 154.
85
Diferentemente de Croce, Pareyson confere uma importância fundamental ao processo de exteriorização da arte, através da formação da matéria. Para Croce a figuração do interior, a extrinsecação física era compreendida apenas como um acessório. Em contrapartida, Pareyson ao trabalhar a experiência estética atribui à fisicidade o papel de referência, suporte e sugestão, pois o diálogo com a matéria é indispensável a toda produção artística, na medida em que a presença desta é vista como resistência que origina pontos de partida, obstáculos e sugestões de ação.
A obra de arte não é a manifestação ou a representação sensível do Absoluto, do Infinito, da Idéia, na qual se possa distinguir o sinal sensível e o significado ideal, o símbolo físico e a realidade metafísica, o aspecto material e a substância espiritual. Aquilo que é profundo não é o que se encontra atrás, ou dentro, ou sobre, ou além do aspecto sensível da obra, mas é o seu próprio rosto físico, todo evidente na sua definida consistência material [...]86.
Mas não podemos pensar que a matéria física é algo passivo que será moldado pelo artista de acordo com sua intencionalidade formativa, porque tal matéria não é privada de possibilidades formativas próprias. Ela possui uma constituição natural, é dotada de uma vocação formal:
a matéria da arte nunca é virgem e informe, mas já prenhe de uma carga espiritual e assinalada por uma realidade ou por uma vocação de forma, quer estas possibilidades lhe tenham sido oferecidas pela própria natureza, quer, pelo contrário, o homem as tenha inserido nela, no decurso de uma tradição de manipulação artística.87
Se, por um lado, a matéria já chega ao artista impregnada de exigências e regras, possibilidades formativas e sugestões, por outro, a intenção formativa somente se define enquanto tal no próprio ato de adoção da matéria – no diálogo entre intenção formativa e matéria física. A definição da intenção formativa depende da incorporação desta à matéria, já que a matéria é escolhida e adotada de acordo com as exigências da obra a se realizar. Para que a matéria seja assumida pela intenção formativa é preciso que a natureza dela se preste à manipulação do artista, mas ele não pode desconsiderar o que a matéria é em si mesma antes de sua própria intervenção, já que o artista não tem o direito de violar a constituição natural da matéria. Ao contrário, ele deve respeitar, estudar essa constituição natural da matéria, tendo em vista a obra a ser realizada, pois a intenção formativa não pode ser vista como força exterior, preexistente à matéria informe.
Cabe ressaltar que, apesar de a escolha da matéria ser livre, ela não é arbitrária, visto que o processo de escolha e adoção é indissociável do processo de definição da intenção
86
PAREYSON, L. Os problemas da estética, p. 157.
formativa. Somente quando a matéria é apropriada pela intenção formativa que a qualifica, ela passa a pertencer à arte. A partir daí terá início o processo de formação da obra de arte, com a exigência de atos de invenção de novas leis e regras, mas nunca como formação a partir do nada, como criatividade absoluta. A atividade inventiva se exerce em meio às limitações e sugestões formativas propostas pela matéria e pela tradição cultural que nela se insere.
O exercício do artista sobre a matéria é tanto ponto de referência, quanto esforço interpretativo, de forma a estabelecer um diálogo essencial que possibilita transformar possibilidades e exigências da matéria em leis internas da obra. Para se tornar arte, a matéria depende desse diálogo com a intenção formativa do artista, pois ela não é artística por si mesma. Justamente, ela se torna obra de arte, a partir do olhar formativo e fecundador do artista que a desperta para a vida. Sem esse diálogo, ela não passaria de matéria inerte e muda88.
Pareyson integra ao conceito de matéria, realidades que se chocam no mundo da produção artística como: conjunto de meios expressivos, técnicas de transmissão, preceitos codificados, várias linguagens tradicionais e instrumentos da arte – que vêm configurar a categoria geral de matéria, enquanto realidade externa sobre a qual o artista trabalha, obstáculo escolhido por ele e que sobre ele se desencadeia a ação, de forma que ele consiga transformar o conjunto de suas leis autônomas em leis artísticas.
As diversas artes vão se diferenciar, então, pela matéria que adotam, pois ao assumir uma determinada matéria ela passa a assumir traços próprios e específicos. “A escolha da matéria se acha implícita no próprio definir-se de uma intenção formativa, e portanto no exercício operativo da formatividade pura.”89.
Assim como a intenção formativa escolhe e adota a matéria em consonância com as próprias exigências, e só então começa a ser tal e definir os próprios objetivos, assim
88
Cf. PAREYSON, L. Os problemas da estética, p. 163. 89 PAREYSON, L. Estética: teoria da formatividade, p. 45.
também a matéria é adotada e escolhida justamente porque sua natureza e suas características se prolongam em inúmeras possibilidades reclamadas, para a própria realização, pela intenção formativa. A matéria é escolhida e assumida em vista da obra a executar [...]90.