4. TARTIŞMA VE BULGULAR
4.1. BULGULAR
4.1.2. Diş Macunlarının Analiz Sonuçları
O pontapé inicial para um reflorescimento da Retórica de Aristóteles que resgatasse a ideia da dialética como um saber necessário iniciou-se na Bélgica em 1947, com Chaim Perelman e sua colaboradora Lucie Olbrechts-Tyteca. As pesquisas desses estudiosos resultaram, em 1958, na elaboração de uma Nova Retórica que deu origem a uma nova tendência em torno dos estudos sobre a argumentatividade. As reflexões sobre o discurso argumentativo e a introdução dos conceitos de auditório interno e universal estenderam significativamente, o conhecimento acerca desse processo de comunicação.
Concomitantemente, surge na Filosofia Anglo-Saxã, mais precisamente, no interior da Escola Analítica de Oxford, contribuindo expressivamente para a análise do papel da argumentação na produção linguística a “Teoria dos Atos de Fala”, tendo como pioneiro John Langshaw Austin que em 1955 apresenta as Conferências William James, na
83
to do things with words”.47
Em 1969, Searle publica “Os atos de fala”.
Situar o contexto histórico no qual Austin surge é capital para a compreensão da importância de seus postulados sobre a linguagem. O panorama é a discussão sobre a linguagem levantada pela Escola de Oxford na Inglaterra. No início dos anos 40 e nos anos 50, em um momento histórico marcado pelo pós-guerra na Europa que Austin, em oposição às linguagens utilizadas pela e para a Filosofia e a Ciência, decide ocupar-se da linguagem ordinária, tornando-se um dos estudiosos mais importantes da filosofia contemporânea, rompendo as fronteiras, outrora delimitada, entre esta e a linguística.
Outro estudo que influenciou o desenvolvimento da Pragmática foi o estudo das implicaturas ou máximas conversacionais, teorizado pelo filósofo americano Paul Grice. Por ser um momento histórico, logo depois de um grande conflito mundial, momento marcado pelo pós-guerra era necessário certo gerenciamento de conflitos, e nesse gerenciamento de conflitos era muito importante compreender o papel da fala, da linguagem.
É interessante observar que, nessa mesma época, nos Estados Unidos da América, Chomsky desenvolve sua sintaxe, na França, Émile Benveniste desenvolve estudos sobre a Semântica, além de Michel Foucault, Jacques Lacan, Jacques Derrida, entre outros, que começavam a desenvolver importantes trabalhos sobre a linguagem humana.
Todos esses estudos foram motivados por um interesse comum – uma nova concepção de linguagem - que rompesse as fronteiras entre o linguístico e o filosófico. Fez-se necessária uma nova concepção de linguagem incompatível com uma perspectiva formalista, empiricista da linguagem em que sujeito e objeto não se coadunavam. Em um momento de gerenciamento de conflitos de todas as ordens, um estudo que inserisse o sujeito foi fundamental.
No campo da filosofia da linguagem, Austin se opõe à ideia de que as línguas naturais são imperfeitas e busca na linguagem, ordinária, cotidiana, longe de ser a linguagem ideal, inspiração para elaborar a Teoria dos Atos Performativos, na qual estabelece algumas propriedades interessantes de determinados tipos de enunciados.
A grande contribuição de Austin foi distinguir ao lado dos enunciados constativos, por exemplo, “O céu está azul”, enunciado que apresenta a constatação de um fato, a existência de enunciados performativos, por exemplo, “Prometo que resolverei esse
problema”, uma crítica à “ilusão descritiva” segundo o qual a função essencial e por vezes
47“Não dispomos ainda de uma verdadeira visão cronológica que repertorie as descobertas, as grandes viradas
84 única da linguagem seria representar estados de coisas do mundo.
No final do seu artigo “Performativo-Constativo”, apresentado em 1958, Austin considera que todo enunciado é um ato de fala. Para ele, os enunciados são atos que podem, até mesmo, transformar a condição social dos indivíduos implicados, como, por exemplo, no caso de batismos e casamentos. Modifica-se, assim, toda a concepção que levava em conta a precedência do mundo em relação à linguagem.
Os enunciados constativos tratam do dizer, em outras palavras, são usados para falar sobre as coisas, constatar fatos, descrever estados, objetos, relatar ocorrências. Os enunciados performativos tratam do fazer, são usados para realizar uma ação pelo ato mesmo de proferir certas palavras (por exemplo, “peço que se calem”; “prometo guardar segredo”; “declaro aberta a sessão”, dito pelo presidente do Senado; e “eu te batizo em nome
de Jesus Cristo”, (dito pelo padre ou pastor).
Austin assume que no enunciado constativo é possível encontrar as propriedades verdadeiro ou falso, uma vez que, o que é dito corresponde ou não à realidade referida. Já ao enunciado performativo não se poderá atribuir estas propriedades. O enunciado performativo será pensado em termos de “felicidade” ou “infelicidade” 48
. O ato de enunciação será considerado êxito/felicidade se a ação pretendida se realizar, e não êxito/infeliz se a ação não se cumprir adequadamente.
Nessa direção, a associação de um enunciado performativo à realização de uma ação passa pelo preenchimento de certas condições de felicidade: 1º) as circunstâncias e as pessoas envolvidas no ato devem ser apropriadas; 2º) a “fórmula” deve ser pronunciada correta e inteiramente; 3º) as pessoas devem ter a intenção de assumir o comportamento implicado.
As infelicidades mais específicas dos performativos são: a) a nulidade, quando o orador não está apto para efetuar tal ato, por exemplo, se o enunciado “Eu te batizo” não for proferido no templo, por um sacerdote conforme regem as leis da denominação, ou por imersão ou com o aspergir da água benta, ele será considerado nulo. Também será nulo se a segunda condição não se cumprir, ou seja, se a fórmula não for pronunciada completa e corretamente. b) o abuso da fórmula (falta de sinceridade). Se a terceira condição não for cumprida, por exemplo, se, em “Eu prometo que irei”, o autor da promessa não tiver a intenção de sustentá-la ou não tiver o poder de cumpri-la isso será considerado abuso da fórmula. c) a quebra de compromisso Se o comportamento implicado pelo ato não se
48
85 realiza, se considerará que houve quebra de compromisso, por exemplo, “Eu te desejo boas-
vindas”, tratando o indivíduo com indiferença.
Austin opõe, em um primeiro momento, o enunciado constativo/performativo, fazendo uma distinção entre verdadeiro e falso. Mais tarde, porém, esse critério das propriedades definitórias de verdadeiro ou falso para os constativos, de felicidade ou infelicidade para os performativos –, segundo Austin, não responde à análise.
É importante considerar não apenas a relação entre enunciação e estado de coisas representado, mas o modo como as palavras se referem às coisas, e esse modo é sempre definido por convenções socialmente estabelecidas. Conforme essas convenções, os enunciados estabelecem modos de interação entre enunciador e enunciatário, inclusive para o enunciado constativo, uma vez que ele pressupõe por meio da crença na proposição ou na possibilidade de sua verificação, o envolvimento do enunciatário.
Desse modo, todo ato constativo tem sua dimensão performativa, portanto, capaz de ser feliz ou infeliz. Ao afirmamos algo, não deixamos de agir sobre o destinatário, que poderá acatar ou não a afirmação. No enunciado “Faz frio”, apesar de aparentar ser um enunciado puramente descritivo, ao ser dito estabelece uma nova realidade, realiza uma ação (statement/afirmação). Ações como “sustentar, afirmar, ordenar” são verbais, diferentemente das ações como “jurar, batizar ou decretar” que são “institucionais”, mas, em ambos os casos, trata-se de atos de linguagem. Mais adiante, no item 1.4.2 intitulado “A reconstrução da Teoria dos Atos de Fala” falaremos sobre os atos da fala indiretos aprofundados por John Searle.
Entretanto, a aplicação dos critérios falso ou verdadeiro sobre enunciados constativos constitui um problema. No enunciado “O Brasil tem a forma de um triângulo” é uma constatação não verificável que pode ser mais ou menos feliz, ser mais ou menos bem sucedida, conforme o grau de precisão que o enunciatário admita na descrição do formato do território nacional. Porém, para um geógrafo essa constatação seria um desastre.
As dificuldades para distinguir os constativos dos performativos fizeram com que Austin reconstruísse inteiramente suas concepções e buscasse uma teoria mais ampla dos atos de linguagem. Procurando ver em que sentido “dizer algo” implica “fazer algo”, Austin propõe distinguir três tipos de atos produzidos pela atividade enunciativa:
1º) O Ato locucionário ou locutório – o dito enquanto tal - trata-se do ato linguístico conforme regras gramaticais, ou seja, consiste na emissão de um conjunto de sons organizados de acordo com as regras da língua. Produzimos sons, e, mais do que isso, sons de
86 certo tipo pertencentes a um vocabulário e, por fim, empregamos esses vocábulos em um sentido e com uma referência mais ou menos determinada.
2º) Ato ilocucionário ou ilocutório - Esse ato possibilita a distinção entre o dizer e o dito. É um ato efetuado ao se dizer algo. Produzir um ato ilocutório é produzir um enunciado convencional por definição por meio do próprio dizer, uma certa “força”, ao contrário do ato locutório que produz sentido. Atos como: perguntar, responder, afirmar, enunciar um veredicto ou uma intenção, pronunciar uma sentença, fazer um apelo, uma crítica etc., seriam ilocutórios.
3º) Ato perlocucionário ou perlocutório – é o ato que produz efeito sobre o interlocutor, ou seja, é uma reação ao enunciado. Nesse caso, dizer algo é suscitar efeitos sobre os sentimentos, os pensamentos do outro ou daquele que fala. O perlocutório, ao contrário do ilocutório, não é convencional. Um casamento se efetiva quando o sacerdote o declara, porém, no enunciado “Vou chamar meu pai”, dito por uma criança ao ser provocada por outra, não é por meio do ato de dizer que a intimidação se instaura, se ocorrer, ela será uma reação à força ilocutória da ameaça.
Enquanto o ato ilocutório se realiza dizendo (in saying), o ato perlocutório se realiza pelo fato de dizer (by saying). Essa constitui, portanto, a principal diferença entre ambos. Os atos locutórios e os ilocutórios realizam-se na enunciação, já os perlocutórios constituem efeitos do enunciado sobre o(s) outro(s) envolvidos ou sobre o contexto de fala.
A teoria dos atos de fala austiniana possibilitou à Linguística estender seu campo de atuação, pois, ao afirmar que a linguagem é ação, está também afirmando que a linguagem é uma forma de agir no mundo e não apenas de descrevê-lo. Entretanto, Austin deixou seu programa apenas esquematizado. Searle se encontra como um dos teóricos fundamentais para o desenvolvimento e classificação dos atos ilocucionários propostos por Austin.