Na ocasião em que o papa João Paulo II foi ferido em 1981, por um tiro disparado em meio à multidão, ele deu posteriormente uma entrevista dizendo que via seus próprios sofrimentos como uma oferenda à igreja e ao mundo, dando a entender que outros se beneficiariam com sua dor. Crenças da cultura judaico-cristã, propriamente mais cristã que judaica. Pois foi Jesus, transformado em Cristo que trouxe o exemplo da dor e do sofrimento como necessários ao homem, para sua evolução e felicidade. A religião católica é a que tem maior número de adeptos amansados com o chicote do medo, do pecado, da rendição. No antigo evangelho temos Jó, como a figura que padece de todos os sofrimentos e que depois é agraciado por deus, como recompensa.
Mas, podemos dizer, o cristianismo é uma grande fonte do masoquismo em nossa cultura pelo fato de Jesus ter sofrido na cruz para salvar a humanidade e com isso parece que devemos nossa humanidade a ele. Muitos cristãos tentam suportar os mesmos sofrimentos acreditando que assim também conseguirão a salvação e irão para junto de deus-pai.
A salvação só é possível para os que sofrem, assim prega a igreja. Estes sofredores são dignos de um mundo melhor: desde que maltratem a pecaminosa carne, privem-se de prazeres, suportem a humilhação, infortúnios e desgraças. Nada mais que renunciar, a não ser a condição humana, pois precisamos abdicar de nossos desejos e liberdade para seguir leis e mandamentos divinos.
Os mulçumanos, pelo sofrimento e respeito ao Alcorão, terão setenta virgens esperando por eles no céu para que possam desfrutar o êxtase e os prazeres que não foram possíveis na terra. São muitas recompensas e felicidades cujo sofrimento é o pagamento, a passagem e a entrada para a ilha da fantasia – o reino de deus.
Freud já dizia que a religião é uma bengala para aqueles que ainda não conseguem andar sozinhos. É a necessidade de uma figura de poder, deus-pai, alguém que possa direcionar, dar as regras e as leis do certo e errado, qual uma criança pequena que necessita que alguém lhe diga o que fazer e como agir.
Nietzsche fala do cristianismo como a religião da compaixão, da moral escrava que rebaixa o potencial do homem, sua energia vital, porque apregoa valores baixos, reativos, negativos, incutindo o sentimento de culpa e o menosprezo pela vida - a má consciência. Isso tem um efeito pânico-depressivo. Perde-se a força quando se compadece, quando se culpa, quando se diz não à vida. O que é virtude para os cristãos é fraqueza para Nietzsche.
A bem-aventurança, a penitência, o pecado, a salvação – essas inocentes retóricas são uma tendência hostil à vida. Podemos arriscar a dizer que é o masoquismo como prática social que sustenta a fantasia de que é preciso sofrer para ser digno de felicidade. O sofrimento humano irrompe por vedação dos instintos e desejos, ressentimento por não poder ter uma reação e somente ficar na vingança imaginária que envenena o sangue e apequena o ser.
O masoquismo brotou em nossa cultura porque achou terreno fértil e tal como erva daninha prolifera por todos os lados em que encontra uma brecha.
Parece que já nascemos numa existência subterrânea. Parece que a cultura precisa de sangue e de martírio. Parece que nosso sistema nervoso foi hipnotizado por idéias fixas de sofrimento.
O que Masoch faz é evidenciar esse sofrimento, torná-lo conhecido, percebido, consciente. É certo que ele se utiliza da imagem da mulher, mas não devemos nos restringir a isso: cada um utiliza a imagem que lhe convém, sob o signo do masoquismo. Este sofrimento que jaz pelos quatro cantos do mundo é romanceado e apresentado, tornado público, denunciado, porque faz parte da nossa história, faz parte de nossa cultura. Ele configura-se como um assédio moral ao indivíduo e o convence que é natural suportá-lo na vida - eis a naturalização feita pela cultura. Atem- se a ele quem quiser! Há os que se contentam em viver de forma padronizada, porém há os que anseiam viver de outra forma, que não a dada, como experimentações, não só biológicas, mas políticas. É certo que haverá censuras e repressões, mas aos que se atrevem, fica o desafio de lidar com isso. O homem normatizado já está quase destruído, mas nada acontece. A cultura, o instituído, os padrões são quase uma ineficácia gritante.
E porque estamos falando de Masoch e da cultura padronizada? Falamos disso porque Masoch, entre muitos outros escritores e filósofos, nos possibilita a libertação desse discurso padronizado, dessa maneira instituída de viver. Ele contribui na desconstrução das representações porque rompe com a prisão social/cultural. Sua vida e obra trazem elementos que privilegiam a idéia da diferença para instalar novos ângulos e perspectivas do real.
Considerando os três tipos de masoquismo, o erógeno é a base dos outros dois: o feminino e o moral:
Volvamos al masoquismo. Se ofrece a nuestra observación em três figuras: como uma condición a la que se sujeta la excitación sexual, como uma expresión de la natureza feminina y como uma norma de la conducta em la vida (behavior). De acuerdo com ello, es posible distinguir um masoquismo erógeno, uno feminino y uno moral.97
O masoquismo feminino está relacionado à castração, a ser copulado, ser torturado, espancado, aviltado, amarrado, sujado. O masoquismo moral já não tem vínculo com a sexualidade. Todos os outros sofrimentos masoquistas levam consigo a condição de que emanem da pessoa amada e sejam tolerados à ordem da pessoa. No masoquismo moral essa restrição foi abandonada.98 O próprio sofrimento é o que importa; ser ele decretado por alguém que é amado ou por alguém que é indiferente não tem importância. Pode mesmo ser causado por poderes impessoais ou pelas circunstâncias. O verdadeiro masoquista sempre oferece a face onde quer que tenha oportunidade de receber um golpe.
Mas qual seria a origem do masoquismo sob o ponto de vista biológico? Ele é uma tendência do organismo conforme a sua constituição desde a mais tenra idade. A história de cada um deixou marcas afinadas ou não, com mais ou menos tendências masoquistas. Conforme a constituição do indivíduo, ele funcionará num determinado ritmo, numa determina qualidade e intensidade. Tais características podem favorecer ou não determinados graus de afetação masoquista.
Quais são as vivências que o sujeito comumente pode ter que são de certa forma masoquista? Um bom exemplo é a própria supressão dos instintos, dos desejos capturados pela sociedade capitalista que desnuda a particularidade de cada um para
97 Sigmund Freud. El yo y El ello y otras obras. Trad. José Luis Etcheverry. Buenos Aires: Amorrortu editores, 1993.
Jayme Salomão. Rio de Janeiro: Imago, 1996, v. 19, p. 167. 98Ibid., p. 183.
introjetar o que é geral, o que é da moda, o que promove lucro e sustenta sua hegemonia e isso produz sofrimento.
A igreja católica, cúmplice do capitalismo, faz a sua parte em amansar as almas rebeldes, incutindo medo e provendo castigos para quem não obedecer, prevendo o mal para os que não se curvarem diante de seus pressupostos.
O homem, cuja cultura embotou grande parte do pensamento crítico e criativo, não se dá conta das artimanhas sociais que lhe capturam a subjetividade e vitalidade. Com isso sofre por calar-se e aprendeu a conviver com este sofrimento que se tornou normal. Frases que ora ou outra escutamos comicamente relatam: “tá tudo tão bom que acho que logo alguma coisa ruim vai acontecer”. A felicidade foi declarada estar num outro mundo e cegamente acreditou-se nisso. E Nietzsche já dizia que não há amor suficientemente aqui na terra para ainda querermos pensar, em coisas de outro mundo.
Nils Bejerot, psicólogo e criminólogo, ajudou na negociação do longo seqüestro de Estocolmo, onde as vítimas ficaram seis dias presas sob imensa tensão e mesmo assim depois defendiam seus algozes sequetradores. Estudando esse comportamento de se acostumar com o sofrimento e achá-lo normal - até defender o algoz - Nils denominou tal comportamento como síndrome de Estocolmo.99
Na história da bela e a fera, a bonita mocinha é feita prisioneira por uma fera e acaba tendo carinho e depois se apaixonando.
A filha de Silvio Santos, Patrícia Abravanel, ao falar de seus seqüestradores após ser libertada, referia-se a eles com afeto.
No filme Jogos Mortais, a jovem ex-drogada Amanda após concluir as provas que o assassino Jigsaw lhe impôs, este se tornou simpático a ela, conquistando sua admiração. No episódio III ela começa a trabalhar para ele, ajudando-o nas torturas e matanças.
Tais casos são provocantes ao pensamento. Trazem à tona uma dinâmica diferente de relacionamento, um certo gozo no sofrimento e identificação com o “carrasco”. E com isso, incutindo raízes em surdina, o masoquismo se dissemina como água que entra em qualquer brecha e ocupa espaço que lhe é afim.