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As pesquisas participativas surgem como um movimento que irá se opor às pesquisas cientificistas tradicionais, buscando trazer questões relativas à problematização das relações entre investigador e investigado, entre sujeito e objeto e teoria e prática. A pesquisa- intervenção, como uma modalidade de pesquisa participativa, tem como referencial teórico- metodológico a Análise Institucional, movimento surgido na França nos anos 60 e desenvolvido por teóricos como René Lourau, Georges Lapassade, Rémi Hess e Antoine Savoye; que traz a perspectiva de interrogar os múltiplos sentidos cristalizados nas instituições (ROCHA, 2006).

Dentre as ferramentas desenvolvidas pela Análise Institucional está a análise de implicação que foi considerada por Lourau (1993) o escândalo da Análise Institucional, uma vez que a mesma põe em questionamento o lugar dos chamados especialistas. O conceito de “implicação”, proposto por esse autor, tem produzido deslocamentos nas pesquisas em ciências humanas, dado que esse conceito questiona a suposta neutralidade do pesquisador. Para Lourau (1993), a implicação do pesquisador e seus efeitos sempre estiveram presentes em pesquisas, no entanto, por muito tempo foram negligenciados ou omitidos.

Outra influência destinada ao conceito de implicação foi a fenomenologia de Merleau-Ponty, que também trazia como uma de suas apostas o entendimento de que o conhecimento acerca do objeto de pesquisa não se dava apenas através da observação externa, mas também a partir da própria implicação do pesquisador no momento daquela observação. Foi a partir dessa influência, que Lourau e Lapassade propuseram a pesquisa-intervenção, compreendendo que não há separação definida entre sujeito e objeto, entre pesquisador e campo de pesquisa. (COIMBRA; NASCIMENTO, s/d).

Rompe-se, assim, com uma lógica de neutralidade em pesquisa, afirmando-a como intervenção. Inquire-se a gênese e o funcionamento das instituições que constituem sujeitos e objeto de pesquisa; criando-se possibilidade de emergência de outros modos de pensamento/ação, a pesquisa se faz criação. A realidade não é capturada como forma dada, tida como natural, mas tomada como forma a ser posta em análise (BARROS; BARROS, 2014, p. 180).

A pesquisa-intervenção, segundo Rocha e Aguiar (2003, p. 66), busca “investigar a vida de coletividades na sua diversidade qualitativa, assumindo uma intervenção de caráter socioanalítico com vista a operar micropolíticas de transformação social”. Para as autoras, esse modo de pesquisa aparece como prática desnaturalizadora, na qual “as estratégias de intervenção têm como alvo a rede de poder e o jogo de interesses que se fazem presentes no campo da investigação, colocando em análise os efeitos das práticas no cotidiano institucional, desconstruindo territórios e facultando a criação de novas práticas” (p. 71).

Acerca do caráter da pesquisa intervenção, Paulon (2005, p. 21) afirma que

Abre-se aí a possibilidade de pensar a intervenção como um caminhar mútuo por processos mutantes que, justo por não poder ser resumida ao encontro de unidades distintas (sujeitos da investigação X objetos a serem investigados), não pode ser pensada como uma mudança antecipável. Ao operar no plano dos acontecimentos, a intervenção deve guardar sempre a possibilidade do ineditismo da experiência humana, e o pesquisador a disposição para acompanhá-la e surpreender-se com ela.

Essas estratégias metodológicas, aqui pontuadas, opõem-se à ideia de um intelectual neutro-positivista e defendem um pesquisador implicado, que analisa suas

implicações, o lugar que ocupa e as relações que mantém na sociedade e nas instituições (COIMBRA, 1995). Para Lourau (1993), é necessário que se encontre um método que permita essa análise das implicações e faça com que o pesquisador se situe nas relações e redes de poder às quais se encontra submetido, saindo de uma posição, muitas vezes, cristalizada.

Os socioanalistas, ao cunharem o termo análise de implicação, nos mostram e colocam em evidência o jogo de interesse e poder que existe no campo de investigação (PAULON, 2005). Nesse sentido, mostra-se necessário que seja colocado em análise o lugar que o pesquisador ocupa e as suas práticas de saber/poder, enquanto produtoras de verdades. Assim, a análise de implicação permite que venha a campo a análise de sentimentos, percepções, ações, que por vezes eram considerados e vistos como aspectos negativos, que poderiam impedir uma pesquisa-intervenção de ser bem sucedida. (COIMBRA; NASCIMENTO, s/d).

A análise de implicação, a partir desse entendimento, requer atitude e se mostra como um ethos analítico, partindo da problematização e participação na pesquisa. Além disso, esse tipo de análise recai na ideia de transversalidade e rompe com a ilusão de totalidade fechada em pesquisa; privilegiando, com isso, processos criadores de si e do mundo (BARROS; BARROS, 2014).

Os pesquisadores implicados, desse modo, são aqueles que se distanciam dos ideais de neutralidade e objetividade, para lançar mão da implicação e subjetividade na pesquisa. Rejeitam, assim, a predominância de um viés positivista que permeia as pesquisas com ares de pureza (RODRIGUES, 2007). No entanto, faz-se necessário compreender que nem sempre se pode enxergar a objetividade em contraposição à subjetividade, uma vez que a cartografia se volta para processos em que sujeito e objeto se definem mutuamente, um em função do outro.

Desse modo, a experiência comporta tanto objetividade como subjetividade. Falar da pesquisa-intervenção e da cartografia, portanto, não significa tratar-se de um subjetivismo, em que o pesquisador se encontra em um terreno em sua totalidade subjetivo, sem utilizar-se de critérios. Para Barros e Barros (2014, p. 183), “o subjetivismo que concebe a experiência como propriedade de um sujeito essencialmente separado do mundo é apenas a outra face da objetividade dotada de substancialidade e independente da experiência”.

É importante também destacar que falar de implicação na pesquisa não significa o estar engajado ou a expressão de vontade do pesquisador (COIMBRA, 1995). A implicação na pesquisa traz consigo uma natureza ético-política, possibilitando uma análise de lugares. O

pesquisador “sente-se convocado e implicado a deslocar-se para trilhar um caminho do fazer pesquisa e do deixar-se fazer por ela” (ABREU, 2014, p. 39).

Arriscar-se numa experiência de crítica, de análise de formas instituídas nos compromete politicamente. Tal operação de análise implica a desestabilização das formas instituídas e acessa o plano de forças a partir do qual a realidade se constitui, devolvendo-a ao plano de sua produção, que é o plano coletivo, heterogêneo e heterogenético, que experimenta, incessantemente, diferenciação (BARROS; BARROS, p. 181).

Abreu (2014, p. 39), ainda nos fala que “o pesquisador-implicado parte da análise dos lugares que ocupa, dos territórios que atravessam a sua trajetória para compor um campo traçado por linhas pelas quais ele se movimenta”. Partindo disso, entendemos esse traçado feito no campo como um movimento de revezamento entre a teoria e a prática vivenciadas pelo pesquisador, uma vez que, como nos mostra Foucault (2001, p. 69), teoria e prática andam juntas, em que uma necessita e dá subsídio para a outra existir: “a prática é um conjunto de revezamentos de uma teoria a outra e a teoria um revezamento de uma prática a outra”.

Lourau (2004, p.148) define e nos mostra de forma clara o significado de estar implicado em uma pesquisa. Para o autor,

Estar implicado (realizar ou aceitar a análise de minhas próprias implicações) é, ao fim de tudo, admitir que eu sou objetivado por aquilo que pretendo objetivar: fenômenos, acontecimentos, grupos, idéias, etc. Com o saber científico anulo o saber das mulheres, das crianças e dos loucos – o saber social, cada vez mais reprimido como culpado e inferior. O intelectual (...) com sua linguagem de sábio, com a manipulação ou o consumo ostensivo do discurso instituído e o jogo das interpretações múltiplas, dos “pontos de vista” e “níveis de análise”, esconde-se atrás da cortina das mediações que se interpõem entre a realidade política e ele.

O autor define, também, cinco categorias, que se dividem e correspondem a dois tipos de implicações: implicações primárias e implicações secundárias. Na primeira categoria, temos as implicações do pesquisador com o seu objeto de pesquisa, com o local ou organização em que a pesquisa se realiza e com as demandas sociais as quais encontra nesse local. Já na segunda categoria, encontram-se as implicações sociais, históricas e epistemológicas e a implicação com a escrita e produção do texto da pesquisa.

Em nossa pesquisa, optamos por pesquisar fenômenos que ocorriam em meu local de trabalho, por isso elegemos a pesquisa-intervenção e a cartografia como aportes metodológicos, que nos permitiram fazer a análise das próprias implicações. Desse modo, eu estava inserida na pesquisa, me confundindo muitas vezes com o próprio objeto.

passei a ser convocada a assumir um lugar de alguém que pudesse proferir verdades sobre alguns casos e fenômenos que rotineiramente surgiam no espaço escolar. Observava que algumas pessoas partiam da seguinte lógica: já que existe uma psicóloga na escola, ela pode desvendar o que está por trás de determinados comportamentos dos alunos e do fracasso escolar dos mesmos e, também, encontrar estratégias para modificar esse quadro.

Um dos questionamentos que surgiam era: já existiriam processos de medicalização nesse espaço escolar ou a minha presença fez com que surgissem ou ganhassem mais potência? A partir disso, comecei a analisar a minha posição e lugar - enquanto especialista, para muitos - que inevitavelmente fazia com que a medicalização se tornasse figura de destaque naquele cenário. Como, então, analisar minhas práticas e discursos, rever posicionamentos, modificar certas posturas, para minimizar ou dar novo sentido aos processos que ali ocorriam?

A escolha por pesquisar sobre e com a medicalização e fracasso escolar não foram ao acaso, pois havia muito sentido nisso. Era impossível me dissociar do nosso objeto de estudo. Eu pesquisava, mas estava ao mesmo tempo ali, junto às professoras e equipe pedagógica, pensando nas relações (escola, aluno, família, trabalho), nos planos, nas estratégias, nas intervenções, na prática cotidiana daquilo que é inesperado.

Com isso, procuramos em nossa pesquisa distanciar-se da postura de um pesquisador neutro, que busca uma verdade sobre aquele objeto pesquisado. Em oposição a isso, compreendemos que sujeito e objeto faziam parte do mesmo processo e construíam-se mutuamente. Parafraseando Paulon (2005), citado anteriormente, a pesquisa constituiu-se como uma caminhada, um percurso, em que os envolvidos caminhavam mutuamente por processos mutantes.

Uma vez que em nossa pesquisa tomamos os estudos foucaultianos como base, entendemos que este autor nos convida a trilhar por caminhos novos e diversos, que seguem um fluxo diferente do habitual. Compreendemos, portanto, que devemos pensar os problemas de pesquisa dentro de um dado contexto histórico, sem reduzí-los a uma única instância ou a um sujeito constituinte. O método genealógico nos mostra o que está por trás de certas verdades, ou seja, os jogos de saber/poder que se articulam para fazer valer uma verdade. Esse método nos permite compreender a ideia de produção, os dispositivos de saber/poder e os jogos de verdade, possibilitando a desnaturalização do mundo, o pensamento crítico e a existência de práticas que levem em conta os processos inventivos e de singularização.

Benzer Belgeler