Após esse programa, foi criado outro, com a mesma sigla, mas com significado diferente, chamado Programa de Assistência Social às Famílias da cidade de São Paulo (Proasf) e operado na Secretaria de Assistência Social (SAS) da Prefeitura Municipal de São Paulo, no período de fevereiro de 2004 a fevereiro de 2005. Conforme a autora Maria Helena Cariaga Silva (2005),
O Proasf foi pensado e implantado primeiramente em continuidade ao Programa Fortalecendo a Família – PFF – o qual foi operacionalizado no período de outubro de 2002 a dezembro de 2003. A população alvo destes dois eram as famílias residentes em regiões de alta e altíssima vulnerabilidade social e de completa precariedade de serviços, de acordo com o Mapa da Exclusão e Inclusão.18 (p. 31).
18 “Mapa construído como um instrumento para gestão, a partir da metodologia elaborada pelo CEM –
Cebrap para a Secretaria Municipal de Assistência Social – SAS. Identificou-se, a partir dos 13.120 setores censitários da cidade de São Paulo (IBGE) 3.313 setores de alta/altíssima vulnerabilidade, as quais correspondem a 25% do total dos setores ou 29% da população da cidade vivendo em situação de alta vulnerabilidade social.” (KOGA, 2004, p. 63).
O PFF foi fruto de parceria entre a SAS e a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Nessa parceria, coube à PUC-SP realizar acordos com outras universidades - Universidade Santo Amaro (Unisa) e Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul) – e com outras entidades. O objetivo do PFF era atender 14 mil famílias residentes nos oito distritos considerados bolsões de extrema pobreza da cidade de São Paulo, de acordo com o mapa da Figura 1.
Em entrevista, a assistente social Neiri Bruno Chiachio, que foi uma das coordenadoras, relatou que o Proasf da Secretaria de Assistência Social (SAS) enfatizava o trabalho com as famílias no território da assistência social, que considerava o conjunto de necessidades da população. Surgiu a partir de um financiamento estadual vinculado ao PTR Renda Cidadã, com recursos municipais e, posteriormente, recursos federais, por meio do hoje denominado Paif.
A proposta foi instalar, no primeiro momento, o programa estadual realizado com a PUC-SP, e, no segundo momento, trabalhar com cinco instituições capacitadoras entre universidades ou institutos de pesquisa.
Foi firmada parceria em que havia, em cada grande território, uma universidade e uma entidade social local, que mantinha convênio com a prefeitura, e estava inscrita no Comas. A proposta era que a organização, com o poder público e a universidade pudesse realizar uma experiência metodológica no trabalho com famílias. A ideia de ter a universidade junto era obter auxílo em uma metodologia de intervenção, e que, ao mesmo tempo, pudesse capacitar os profissionais participantes, tornando-se um campo de estágio.
O Proasf foi implantado em áreas mapeadas a partir de um estudo territorial como as áreas de maior incidência de vulnerabilidade. Essas áreas eram mapeadas em aglomerados de distritos da cidade, em que se reuniam dois ou três distritos correspondentes a uma ou duas subprefeituras e implantava essa organização. Não se dividia em grupos muito pequenos. Havia uma meta de 2 mil famílias para cada entidade ou faculdade.
Outra inovação foi o estabelecimento de um comitê central e comitês regionais de discussão, acompanhamento e avaliação da implantação do programa. Do Comitê
Central de Acompanhamento participavam coordenadores do programa e técnicos da prefeitura, para discutir em conjunto a implantação do programa. Como o programa era distritalizado, cada grupo de organização incluía mais de um distrito. Esse comitê trabalhava com as regiões que hoje correspondem aos Cras, mas na época existiam 31 supervisões de assistência social.
No Comitê Central discutiam a sua cobertura, como estava o desenvolvimento das metodologias, as dificuldades quanto à localização das famílias (pois havia um cadastro para identificar as famílias que possuíam algum benefício) e a própria participação das famílias que, no início, não aderiram rapidamente.
O programa tinha uma metodologia experimental para grupos desenvolvida, na fase anterior, pela PUC-SP. Essa metodologia não tinha uma relação direta com a inserção profissional das pessoas. O objetivo era o fortalecimento de famílias, de grupo de famílias, para obter a autonomia, cidadania e participação. O primeiro passo era fazer com que a população se reconhecesse como uma população e não como um indivíduo que tem problemas. Esse reconhecimento abrangia o reconhecimento do território, da população, e das necessidades coletivas. Trabalhava-se o plano coletivo daquela população, e depois a existência dos direitos sociais e o acesso ao direito; como recorrer ao direito; e depois os projetos daquele grupo. Se um projeto era laboral, seria, de fato, de inserção no trabalho.
A linha adotada trabalhava o reconhecimento da questão social, a maneira como acessar o direito e, depois, os projetos daquele grupo. Era um projeto de desenvolvimento de talentos pois o programa não dava conta de capacitar profissionalmente e nem era esse o objetivo. Então, se as pessoas tivessem talentos e quisessem ensinar, trocar, isso era feito. Na Capela do Socorro, por exemplo, havia 2 mil famílias, que eram subdivididas em subgrupos com 30 famílias, representadas, no geral, por mulheres chefes de família. Não era significativa a participação do pai, representante da figura masculina. As famílias cadastradas no benefício eram acompanhadas por duplas formadas por um profissional assistente social ou psicólogo, junto com o estagiário de Serviço Social ou de Psicologia.
A abordagem das vulnerabilidades, da conquista da autonomia, dava-se sempre de forma coletiva. A estratégia de abordagem grupal favorecia, em alguns casos, identificações; construções coletivas; criação de eventos; de exposição dos trabalhos das pessoas, mas não era para comercialização, pois o foco na realidade era o desenvolvimento humano; a autonomia; a sociabilidade; o reconhecimento de uma questão que era coletiva e não de cada indivíduo. Tratava-se um tema como prioridade a partir do conhecimento prévio da realidade social e era construído um conhecimento junto com as universidades.
Como parte do Proasf, a PUC-SP produziu um documento feito pelo Instituto de Ensino e Extensão (IEE), em dois volumes. No início, a PUC-SP era a única conveniada, mas o Proasf dividiu o trabalho com cinco universidades, desconcentrando as metas e o universo a ser atendido. Na época, a gestão considerou não desconcentrar muito, dando uma meta de 100 famílias para cada universidade, pois não conseguiria agregar e também porque eram poucas universidades.
As universidades eram a Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul), Universidade Santo Amaro (Unisa), Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), o Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (Ibeac), organização de pesquisa comunitária de Capela do Socorro, e o Instituto de Terapia Familiar. Ao final, o Ibeac, a Unisa e o Instituto de Terapia Familiar fizeram uma publicação, enquanto a Unicsul preparou um relatório. A intenção da gestão era colocar instituições com experiências diferentes, para realizar o debate.
Outra estratégia, eram as reuniões e os seminários periódicos de avaliação, que o comitê central fazia, reunindo todas as equipes para um momento de troca. A dinâmica era intensa porque tornou-se marca para os estudantes da época, em uma experiência importante em relação às que vieram depois, pois as prefeituras descentralizavam, para as entidades sociais, as responsabilidades, sem estarem juntos, sem construir a partir daquelas experiências. Essa fase do programa, ainda denominado pelo estado de Fortalecendo a Família, e depois Proasf, tem publicações, registro, estudos, CD-ROM e depoimentos das famílias. O modelo do Paif, do governo
federal, assim como a remuneração, também possui contribuição da experiência de São Paulo.
O comitê central trabalhava com as coordenações técnicas das entidades, das universidades e com a coordenação técnica da SAS. Primeiramente, era feito o planejamento da implantação, que partia do cadastro; discutia-se como seria feita a chamada das famílias; como seria a inserção no território (pois não existiam os Cras), como não tem ainda hoje Cras totalmente descentralizados. Nesse sentido, a orientação era que os profissionais se aproximassem das bases da comunidade local, das igrejas e até casas de famílias, porém não deu certo, pois houve problemas com o tráfico. A gestão decidiu fazer um contrato para que tivesse viaturas monitoradas. Houve um deslocamento real para os territórios de alta vulnerabilidade e um planejamento do reconhecimento do território, da identificação das famílias a partir do cadastro, como seria a chamada das famílias.
Na realidade, avaliavam a implementação desse processo, que tinha muitas dificuldades: de localizar as famílias; das famílias saberem como utilizar o cartão do benefício (inclusive, foi feito um vídeo sobre como utilizá-lo). Então, se trabalhavam as dificuldades que eram comuns a todas as Incubadoras Sociais19, tanto a central como as regionais.
Cada incubadora ficava com dois a seis distritos e teriam que acompanhar 2 mil famílias. A incubadora central apresentava um planejamento, que era discutido coletivamente, pois os objetivos e os critérios de avaliação eram gerais. As incubadoras regionais tinham especificidades que eram trabalhadas no planejamento. É o caso da incubadora de Capela do Socorro, em que a maioria era composta de homens, desenvolvendo abordagem especial para esse grupo; ou que, entre seus participantes, havia muitas pessoas que moravam em áreas de mananciais, então a temática sobre os mananciais emergia com mais ênfase, mas não era um planejamento totalmente
19 Núcleos formados por instituições responsáveis pela implantação e execução do Proasf, para a
construção e desenvolvimento de inovações na área da intervenção social e de aprimoramento de metodologias que possam atender maior número de famílias nos territórios. (SILVA, 2005, p. 30).
aberto, pois os objetivos, o processo de monitoramento e a avaliação haviam sido discutidos coletivamente, para permitir juntar os critérios.
O programa trabalhava com as categorias Autonomia e Cidadania, mas não autonomia de rendimento e sim a relacionada à condição inicial, que motivou as pessoas a virem ao grupo e o que elas adquiriram ao longo do tempo; o que as pessoas enfrentaram e superaram do ponto de vista familiar e individual; e “cidadania” no sentido de que o programa gerou a participação cidadã, o protagonismo, a noção dos direitos. É evidente que, como os grupos construíam seus próprios projetos, muitos optaram por aqueles com atividades que possibilitassem adquirir rendimentos, por isso, houve a exposição e a venda de trabalhos, mas eram objetivos secundários e não os do programa.
Os grupos apontavam a necessidade de integração com as demais políticas, para obter renda. Assim, houve um trabalho de integração com a Secretaria Municipal de Trabalho e Emancipação, como também a preocupação, por parte da SAS, de pensar em um investimento para constituir uma rede territorial. Como o Proasf foi mais descentralizado, pois em 2003 não existiam os Cras, uma das incubadoras teve inserção territorial local, com o programa utilizando como estratégias a participação em fóruns regionais de assistência social, da criança e do adolescente e sociedade amigos de bairro. Foi interessante, pois a população participante passou a reivindicar seus direitos, em um movimento coletivo pela cidadania, como foi o caso das mulheres que solicitaram uma unidade básica de saúde para realização de exames preventivos, dentre outras reivindicações.
2.5 Programa em Rede de Orientação e Apoio Sociofamiliar (Proasf) de