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O argumento da coerência é muito utilizado para criticar a integridade como um valor político impossível de ser admitido nas comunidades políticas contemporâneas. Basicamente, ele propõe uma interpretação da integridade que a aproxima de comunidades primitivas medievais, período em que o cristianismo unia de maneira muito consistente os valores éticos e políticos de seus integrantes. Assim, ela é rotulada de propor uma coerência exagerada dentro de uma comunidade contemporânea, sendo tanto inadequada, como provocando injustiça problemática.

Chamando a moralidade em Dworkin de idealista, já que compatível apenas com sociedades pré-modernas, Marcelo Neves afirma que tal proposta de moralidade é ―incompatível com a forma de reprodução de uma sociedade supercomplexa e uma esfera pública pluralista marcada pelo dissenso. A própria noção de comunidade ou moralidade comunitária é problemática(...)‖52.

Criticando a integridade por, segundo o seu entendimento, ela apenas integrar uma decisão concreta em um todo mais amplo de ordem e de prática jurídicas, Castanheira Neves defende que a grande questão é ―dar [uma] solução normativo-juridicamente <justa> (com justeza prático-normativa) ao caso concreto mediante um juízo que mobilize adequadamente, ou segundo as exigências daquela justeza, a normatividade jurídica como seu critério específico‖ 53. E é por isso que ele considera que Dworkin falha na sua consideração da

problemática jurídica.

A resposta a esse importante argumento a ser rebatido vem de um estudo de Joseph

51 No original: ―Integrity requires that people reason about law together, and also that each aim at an

understanding that states principles to which he believes all are committed through a shared history. But it does not require consensus or cognitive as distinct from political deference to the conclusions of any group or institution‖. In: DWORKIN, Ronald. Replies to Critics. In: Ronald Dworkin & Justine Burley (eds.) Dworkin

and His Critics: With Replies by Dworkin. Oxford: Blackwell Pub, 2004, p. 386.

52 NEVES, Marcelo. Entre Hidra e Hércules: princípios e regras constitucionais como diferença paradoxal no

sistema jurídico. São Paulo: Martins Fontes, 2013, p. p 60.

53 NEVES, CASTANHEIRA. Excurso – Dworkin e a interpretação jurídica – ou a interpretação jurídica, a

hermenêutica e a narratividade. In: NEVES, Castanheira. O Actual Problema Metodológico da Interpretação

Raz a respeito da coerência no âmbito da espistemologia. Esse estudo chamado The

Relevance of Coherence, em tradução livre ―A Relevância da Coerência‖, que foi publicado

na obra Ethics in the Public Domain, em tradução ―Ética no Domínio Público‖, considera que as teorias da coerência no direito e na decisão almejam que a ―coerência torne proposições jurídicas ou decisões judiciais corretas‖ 54.

Nesse trabalho, ele se coloca contra essas teorias da coerência, porque considera que é possível encontrar defeitos nas formas pelas quais tais convicções coerentes foram formadas. Por exemplo, ―elas podem ter sido formadas através de preconceitos ou superstições, ou por pessoas que não são competentes para decidir‖55.

Além dessa visão crítica a respeito dos pressupostos da coerência, Raz também nega que seja possível desenvolver um nível de coerência forte ou profundo em uma comunidade, chamando essa visão de monismo. Essa posição se justifica pela grande quantidade de visões e valores diferentes nas sociedades contemporâneas. Um monismo poderia ser interpretado até mesmo como uma forma de ditadura ou opressão.

Após o fim deste trabalho é publicado um breve apêndice que se chama Speaking with

One Voice: On Dworkinian Integrity and Coherence, em tradução livre ―Falando com uma só

voz: Sobre a Integridade Dworkiniana e a Coerência‖, em que a proposta da integridade é analisada. A questão é simples: A integridade é uma teoria coerentista ou monista?

Mesmo considerando o texto de Dworkin ambíguo sobre a questão – o que justificaria as críticas anteriores -, Raz propõe que a integridade não é uma teoria coerentista. Segundo Raz, a correta descrição dessa proposta defende que o direito consiste naqueles princípios de justiça, equidade e devido processo legal que provém a melhor (i. e. moralmente melhor) sistema de tais princípios capazes de explicar as decisões jurídicas da história política em questão. Assim, ―enquanto a coerência pode ser produto da melhor teoria do direito, a preferência pela coerência não faz parte do projeto pela qual a melhor teoria é determinada‖56.

No comentário a este trabalho, Dworkin discorda que seus escritos resultem em

54 No original: ―For most of this essay I will be concerned with constitutive coherence theories of law and

adjudication, which claim that coherence makes legal proposition or judicial decisions right‖. RAZ, Joseph. The Relevance of Coherence. In: RAZ, Joseph. Ethics in the Public Domain. Oxford: Clarendon Press, 1996, p. 279.

55―(…)for example, that they were formed through prejudice or superstition, or by people who are not competent to judge the matters concerned, which render beliefs affected by them unjustified, even when the person whose beliefs they are has no inkling that his beliefs are so affected‖. In: RAZ, Joseph. The Relevance of Coherence. In: RAZ, Joseph. Ethics in the Public Domain. Oxford: Clarendon Press, 1996, p. 281.

56No original: ―(…)Whether or not such principles display any degree of coherence, in the sense of

interdependence, is an open question. Thus while coherence may be by product of the best theory of law, a preference for coherence is not part of the desiderata by which the best theory is determined.‖. In: RAZ, Joseph. Speaking with One Voice: On Dworkinian Integrity and Coherence. In: RAZ, Joseph. Ethics in the Public

ambiguidades, da mesma forma que nega ser um monista. Assim, ele concorda com a conclusão de Raz, afirmando que ―o projeto da interpretação deixa aberto (...) quanto de coerência (em diferentes sentidos desse ideal complexo) uma interpretação bem sucedida de qualquer parte do sistema jurídico pode ter‖57.

Assim, pode-se dizer que, com a leitura complementar do tópico 2.2.1.1, a crítica de Marcelo Neves não considera as circunstâncias da integridade, da mesma forma que interpreta a integridade como uma teoria monista, o que foi negado por Raz. Castanheira Neves também entende a integridade como coerentista, todavia a possibilidade de superação de práticas como erros, exposta no tópico 2.1.2.1, demostra que a consistência de princípio exige mais que isso58.

Benzer Belgeler