Outro fator de preocupação bastante enfocado, nos relatórios do UNICEF é a atenção especial que deverá cercar o adolescente para impedi-lo de ceder aos apelos do consumo e dos atos desviantes, considerados perigosos. Para aliar-se ao projeto de normalização do adolescente, a família é convocada, sendo vista como principal sustentáculo para apoiar o adolescente, incentivando-o a estudar e
trabalhar. Esta tarefa de cunho normalizante é assinalada por Passetti (1985). Este autor afirma que os jovens pobres são alvo de preconceitos sociais, recebendo a marca de possíveis delinqüentes.
Não é, por acaso, que acompanhamos tantos projetos construídos a partir do objetivo de profissionalizar e disciplinar os adolescentes, como vimos nos relatórios dos programas oferecidos pela Secretaria de Assistência Social, do município de Assis/SP.
Walkerdine (2000) nos oferece uma análise interessante desta questão, apontando como a educação infantil em instituições para crianças de classes populares tem sido observada por especialistas como uma política social que poderia prevenir a “delinqüência” juvenil:
“a educação das crianças pequenas de acordo com princípios livres e individuais era um imperativo não apenas para promover um desenvolvimento sadio, mas também para resolver problemas associados tanto com o crime juvenil quanto com o extremismo político. (...) Foi um modelo do desenvolvimento baseado na noção de estágios que permitiu, antes de mais nada, que a adolescência fosse destacada como um período separado (diferente da infância e da fase adulta).” (WALKERDINE, 2000, p. 187-8).
O UNICEF referenda este olhar e sustenta a importância de intensificarmos os dispositivos de disciplina e controle dos jovens como estratégia de defesa social. Parece que a preocupação fundamental é a idéia de potencial ameaça, que o adolescente das classes pobres representaria para os detentores de propriedades.
“A terceira fase da vida é quando o adolescente aprende a se posicionar diante do mundo, quando afirma sua própria personalidade e se prepara para a vida adulta. (...) O UNICEF procura contribuir para uma vivência profunda e equilibrada da adolescência, com a participação fundamental das famílias dos adolescentes e de suas comunidades.” (UNICEF, sem data)
“A adolescência é a terceira oportunidade de fazer bons investimentos. Esse é um período de desenvolvimento para jovens em todos os aspectos: físico, emocional, psicológico, social e espiritual. (...) também é um período perigoso. (...) A sociedade e os meios de comunicação levam os
adolescentes a desenvolver valores de consumo enquanto, muitas vezes, sequer têm acesso aos bens de primeira necessidade.” (UNICEF, sem data)
O UNICEF chama a atenção para o perigo em estimular os adolescentes pobres a consumir, pois eles não têm poder de compra, logo, poderão ceder ao consumo através da via dos furtos. Estes assessores concebem a adolescência (leia-se a adolescência vivida na pobreza) como um momento perigoso, ou seja, propício aos atos delituosos. Prevalece uma associação entre periculosidade e pobreza. Que direitos o UNICEF está mantendo, os das garantias sociais ou o da manutenção da propriedade privada?
Neste olhar preventivo sobre o adolescente, a família é convidada a assegurar um determinado ambiente, nomeado como estável pelo UNICEF, que impediria o adolescente de cometer atos considerados anti-sociais. Psicanalistas que analisam adolescentes afirmam que a adolescência é uma fase da vida em que acontecem certas turbulências emocionais, denominadas de Síndrome da Adolescência Normal pelos psicanalistas Knobel e Aberastury (1981, p. 09):
“Anna Freud diz que é muito difícil assinalar o limite entre o normal e o patológico na adolescência. (...) A adolescência, mais do que uma etapa estabilizada é processo e desenvolvimento. (...) O adolescente passa por desequilíbrios e instabilidades extremas. O que configura uma entidade semipatológica, que denominei ‘síndrome normal da adolescência’, que é perturbada e perturbadora para o mundo do adulto, mas necessária, absolutamente necessária, para o adolescente, que neste processo vai estabelecer a sua identidade”.
Adiante, Knobel e Aberastury (1981, p. 11) afirmam que o adolescente, em geral, expressa os conflitos patológicos de seus pais e de toda a sociedade e que, se não houver um cuidado especial, nesta fase, o adolescente pode tender à psicopatia, cometendo furtos e atos marginais. Já, se receber o apoio necessário, irá se adaptar ao meio, chegando a uma vida “adulta positiva e criativa”.
As práticas do UNICEF estão em consonância com o saber psicanalítico sobre o adolescente e apontam para uma apropriação deste saber como mecanismo de prevenção de “doenças mentais”, idéia esta amplamente divulgada pela filha de
Freud. Anna Freud era pedagoga e aplicou os discursos elaborados pelo pai à educação, tentando construir uma educação profilática, de caráter adaptativo e normalizante. Uma das estratégias recomendadas por Anna Freud era a orientação de pais, com o objetivo de ensiná-los a reprimir os impulsos dos filhos, levando em consideração as normas sociais (PETRI, 2003). Apresentamos algumas séries discursivas recortadas dos documentos do UNICEF que ilustram com propriedade os saberes psicanalíticos sobre a personalidade do adolescente e a influência que receberia de sua família:
“A família é um espaço privilegiado de atuação, pois é ela que pode oferecer uma estrutura estável ao adolescente e apoiá-lo na busca da sua personalidade. É por isso que o UNICEF cria materiais para as famílias sobre questões ligadas à adolescência, apóia os programas dos governos que lidam com famílias e capacita agentes de saúde para repassar informações que ensinam como apoiar os adolescentes.” (UNICEF, sem data)
“Para conseguir seu pleno desenvolvimento, o adolescente precisa de espaços onde possa conviver com seus amigos, reforçar sua aprendizagem, gastar sua energia, exercitar a criatividade e se divertir. No esporte, por exemplo, o adolescente aprende a atuar em equipe, a conhecer e a superar seus limites, a aceitar a derrota e a respeitar o próximo. É nesse sentido que o UNICEF apóia a criação de espaços que ofereçam atividades educativas, culturais e esportivas no turno inverso ao da escola.” (UNICEF, sem data)
A concepção de que se deve disciplinar os adolescentes, através dos esportes foi estudada por Zaluar (1994). A autora afirma que esta prática perpassa a maioria dos projetos das políticas sociais dirigidos aos adolescentes. Temos também acompanhado, nos últimos anos, a expansão da recomendação de especialistas quanto à importância dos exercícios físicos para a saúde de maneira global.
“Atividades de arte, cultura, esporte e lazer representam espaços privilegiados de evasão das energias positivas, mas também para canalizar impulsos destrutivos, angústias, depressão, insegurança e mesmo o desespero que por vezes assaltam seus corações e mentes. A carga impulsiva, o turbilhão de sentimentos e idéias que afloram nesse momento
da vida do seu humano representam ao mesmo tempo sua potencialidade e seu risco. (...)” (UNICEF, 2002, p. 42).
No bojo desta demanda, os teóricos de diversas áreas têm produzido uma imensidão de estudos, ressaltando a importância dos jogos de regras para a promoção da socialização e internalização de regras sociais. Jogar é, quase sempre, dar-se uma tarefa a cumprir e esforçar-se para cumpri-la, como se fosse um trabalho a executar (KISHIMOTO, 2005).
Outro ponto sublinhado pelo UNICEF é o alto índice de evasão escolar de adolescentes, no ensino médio. Sugerindo que maneiras alternativas de retorno aos estudos de modo mais rápido através de programas de aceleração sejam efetuadas. A preocupação central do UNICEF é que o adolescente receba uma formação mínima para atuar no mercado de trabalho, ou seja, não há a recomendação de uma formação para a autonomia e, principalmente para o ingresso em curso superior.
Conforme Rago (1985), a expansão da educação pública não se deu de maneira igual para crianças e adolescentes de classes desfavorecidas e de classes mais abastadas. Para os alunos pobres, implantou-se uma educação profissionalizante, enquanto para os alunos pertencentes às classes abastadas, estruturou-se um ensino voltado para a entrada na universidade. Esta afirmação de Rago (1985) é corroborada pelos discursos do UNICEF relatados, abaixo:
“No Brasil, o nível escolar do adolescente preocupa. Apenas cerca de 33% dos adolescentes de 15 a 17 anos freqüentam o ensino médio.” (UNICEF, sem data)
“Para reduzir a defasagem entre a idade do adolescente e a série cursada, o UNICEF apóia o desenvolvimento de formas de aceleração de ensino com currículos escolares, cargas horárias e metodologias adaptadas às suas necessidades. A aceleração tem como objetivo reduzir a distorção idade-série e resgatar nos adolescentes o desejo de estudar. (...) A capacitação de jovens para ingresso no mercado de trabalho, em complemento à educação formal, é outra preocupação. O UNICEF apóia programas que conciliem escolaridade, cursos profissionalizantes e mobiliza a sociedade civil e os governos para que seja implementada uma política mais abrangente de iniciação profissional.” (UNICEF, sem data)
“Além de vencer os processos de exclusão que ainda caracterizam grande parte do sistema educativo de ensino, há ainda o desafio de vinculá-lo às expectativas dos adolescentes em relação ao mundo do trabalho.” (UNICEF, 2002, p. 30)
A profissionalização do adolescente tem sido concebida como medida de inserção social e econômica de populações em situação de pobreza extrema, como também, como modo de afastar os jovens e adolescentes das ruas e de situações de conflito com a lei, principalmente, de furtos e do envolvimento com o tráfico de drogas. “A prática de delitos por adolescentes concentra-se nos delitos contra o patrimônio, constituindo-se em 75% do total de delitos” (UNICEF, 2002, p. 48).
Porém, o UNICEF ressalta que esta profissionalização de adolescentes e jovens deve acontecer paralelamente à continuidade da presença dos mesmos no ensino fundamental como modo de romper com um ciclo de miséria em função de baixa escolaridade de grandes faixas populacionais brasileiras, de acordo com os relatórios deste organismo internacional.
“No Brasil, existem cerca de 8 milhões de adolescentes cujos níveis de escolaridade e renda limitam suas condições de desenvolvimento e comprometem o futuro do país. Esse é o número de brasileiros e brasileiras, com idade entre 12 e 17 anos, que pertencem a famílias com renda per capitã menor salário mínimo e têm pelo menos 3 anos de defasagem em relação ao nível de escolaridade correspondente à sua faixa etária. A condição de exclusão desses adolescentes expressa-se de diferentes formas: no seu analfabetismo (1,3 milhões de adolescentes entre 12 e 17 anos analfabetos); no abandono escolar (12% não freqüentam a escola na faixa etária de 10 a 17 anos, ou seja, 3,3 milhões); no trabalho infantil (1,9 milhão de crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos trabalham). (UNICEF, 2002, p. 57).
O tema adolescência pobre, desde o Brasil Império, tem sido abordado constantemente relacionado à preocupação com a segurança da sociedade, que vê no jovem de periferia, um potencial criminoso. Os pedidos de medidas preventivas e de contenção do adolescente permanecem vivos e, constantemente proliferam as solicitações conservadoras de uma política prisional para os que chegam a cometer furtos e outras infrações (PASSETTI, 1985).
Na visão do UNICEF, em conformidade com o Estatuto da Criança e do Adolescente a respeito das medidas sócio-educativas, perpetua-se a idéia de “recuperar” o adolescente que entra em conflito com a lei. O termo “recuperar” assinala um ponto de vista médico-psicológico do ato de entrar em conflito com a lei.
Foucault (1999; 2003) já problematizou a constituição do discurso médico- psicológico no direito através da expansão de instituições para-judiciárias, na “Sociedade Disciplinar”, que privilegiou a concepção de correção pedagógica, com vias de reabilitação do indivíduo rotulado como criminoso. Este indivíduo passou a ser visto como portador de uma entidade criminosa associada aos diagnósticos psicopatológicos.
“o Estado deve investir em processos sócio-educativos, a fim de que os comportamentos transgressivos que os adolescentes expressaram em infrações não venham a se tornar, por força de negação de seus direitos e pela falta de oportunidades, em traços constitutivos de sua própria personalidade.” (UNICEF, 2002, p. 48).
Guiando-se por esta lógica, os representantes do Poder Judiciário passaram a julgar os comportamentos do indivíduo que cometeu delitos a partir de uma análise médico-psicológica de sua história de vida, como se existisse uma biografia delinqüente a ser analisada, que seria constituída por uma gradativa seqüência de pequenos desvios (RAUTER, 2003).
“Os atos infracionais cometidos por adolescentes são um tema que preocupa toda a sociedade. Dos crimes e delitos registrados a cada ano no Brasil, 10% são cometidos por adolescentes. E mais de 70% desses delitos são contra o patrimônio.” (UNICEF, sem data)
“As medidas aplicadas em meio aberto, isto é, sem restrição de liberdade e com a participação da família e da comunidade, são mais eficientes na recuperação dos adolescentes do que o confinamento em instituições fechadas.” (UNICEF, sem data)
A postura do UNICEF quanto à sugestão de medidas sócio-educativas de “recuperação” em meio aberto para os adolescentes que cometeram pequenos delitos, em especial, os contra a propriedade está de acordo com a lógica descrita por Deleuze (1992), ao caracterizar o funcionamento da “Sociedade de Controle”, na qual as estratégias de controle aconteceriam fora das instituições de segregação. O alcance do controle fora dos muros das instituições fechadas seria maior do que dentro delas, de acordo com os especialistas do UNICEF.
“São apoiados projetos que acompanhem as famílias de adolescentes infratores e que as ajudem a lidar com essa situação, dando o apoio efetivo necessário para a recuperação.” (UNICEF, sem data)
“Outro desafio é a reintegração na vida social, escolar e profissional do adolescente egresso de medidas sócio-educativas.” (UNICEF, sem data)
Os adolescentes das camadas populares são vistos como possíveis criminosos e, por isto, devem ter atenção especial da sociedade, sobretudo, através de uma tecnologia de produção da submissão.
O encaminhamento dos adolescentes que cumpriram algum tipo de medida sócio-educativa, bem como daqueles que tenham cometido algum pequeno desvio para a participação de projetos denominados de ressocialização também é uma prática recorrente nos serviços de assistência social, como vimos nos relatórios de projetos oferecidos em um município do interior paulista, no capítulo cinco desta tese.
Tal prática também é prescrita pelos técnicos do UNICEF com o objetivo de adestrar os adolescentes através de oficinas terapêuticas, de esportes e de cursos profissionalizantes. Trata-se, segundo o UNICEF, de integrá-los ao sistema de normas capitalistas.