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Dos três livros que analisaremos, História da Igreja Presbiteriana do Brasil representa a continuidade da forma de escrita, entendimento e usos da história iniciada nos anos 1930 com Antonio Neves de Mesquita e Vicente Themudo Lessa. Júlio Andrade Ferreira361

(1912-

361 A biografia apresentada é um resumo do artigo Morre em Capinas um baluarte da IPB escrito pelo atual

2001) era mineiro, nascido em lar presbiteriano e aluno destacado. Normalista pela Escola da Praça da República (depois Instituto Caetano de Campos) foi durante onze anos professor de Sociologia na Escola Normal Oficial de Franca- SP e pastor na mesma cidade. No município, ganhou a alcunha de “homem do livro” porque estava sempre acompanhado de um livro e tinha o hábito de ler enquanto caminhava nas ruas362

. Era bacharel em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul (Campinas) e, a partir de 1946, se tornou professor de Teologia Sistemática no mesmo seminário onde também ocupou as funções de bibliotecário, administrador, deão e reitor. Durante os anos de 1955 e 1956, fez cursos de especialização em Teologia Protestante e Sociologia religiosa na Universidade de Estrasburgo, a mesma dos Annales e local de nascimento da Sociologia do protestantismo francês. Foi também presidente da Associação de Seminários Teológicos Evangélicos (ASTE), membro da Confederação Evangélica Brasileira.

Em 1966, depois de divergências políticas com a cúpula daquele período, Ferreira pediu demissão do cargo de reitor do Seminário de Campinas e foi em direção aos Estados Unidos onde fez cursos de especialização nas áreas de Educação, Sociologia e Teologia. De volta ao Brasil, em 1968, licenciou-se em Filosofia e tornou-se professor universitário em faculdades da região de Campinas. Além das funções eclesiásticas, Ferreira exerceu atividades burocráticas em pastas da Secretaria da Educação de São Paulo, em especial, assessoria técnica. Foi eleito membro da Academia Campinense de Letras e da Academia de Letras de São João da Boa Vista. Em 1992, recebeu o título de professor emérito do Seminário Presbiteriano de Campinas e, em 1999, o título de historiador emérito da Igreja Presbiteriana do Brasil. Por essas e outras realizações, Alderi Mattos, sucessor de Júlio Ferreira no cargo de historiador oficial, considera-o como “um dos personagens mais destacados da IPB ao longo de boa parte do século XX”363

.

Sua atividade de escritor foi intensa, publicando livros de conteúdos diversos, como biografias, estudos apologéticos, doutrinários, artigos para o Brasil Presbiteriano e revistas teológicas como a Revista Teológica do seminário de Campinas. No que tange à sua atividade de historiador da igreja, Ferreira foi nomeado pela Comissão Histórica do Centenário como “historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil”, cargo até hoje inexistente em outras igrejas. O escritor foi responsável pela organização das duas instituições mais importantes de

MATTOS, Alderi de Souza. Morre em Campinas um baluarte da IPB. Brasil Presbiteriano, Curitiba, n.566, nov. 2001. p.4.

362 AGUIAR, Cyro. O rev. Júlio: “O Homem do Livro”. Brasil Presbiteriano, Curitiba, n.566, nov. 2001, p.2. 363 MATTOS, op.cit., p.4.

preservação da memória institucional: o Arquivo Presbiteriano (inicialmente sediado em Campinas e atualmente em São Paulo) e o Museu Presbiteriano (em Campinas).

O perfil de Ferreira mostra permanências em relação ao perfil do historiador da igreja: não tinha uma formação acadêmica em História; era um profissional polivalente e sobrecarregado em tarefas de instrução pastoral, produção de textos para ensino teológico, participação em instâncias burocráticas da igreja e, principalmente, o perfil autodidata. Ferreira, mesmo que tenha sido “um homem importante dentro do presbiterianismo”, se notabilizou muito mais pelos seus escritos de teologia e história que propriamente pela liderança política institucional. Tratava-se de mais um ator-coadjuvante na instituição, que, não chegou a exercer cargos de grande mando e autoridade na igreja. Diferentemente dos estudiosos dos anos 1930, a escrita e a organização documental não era mais realizada por um pioneiro, que havia presenciado ou “escutado” sobre as origens, mas era exercido por um “burocrata”, de cargo específico na igreja em coletar, organizar e preservar a memória.

História da Igreja Presbiteriana do Brasil é a mais extensa obra de história eclesiástica protestante brasileira produzida por um só autor: possui dois volumes, o primeiro (compreende o período de 1859 a 1903) possui 580 páginas (2ª edição) e o segundo volume (de 1903 a 1959) possui 448 páginas (2ª edição). No total são 1028 páginas, divididas em cinco grandes partes364

e 197 capítulos. Trata-se de um projeto iniciado, segundo Ferreira em 1942, quando em reunião do Supremo Concílio, o autor foi escolhido para redação do texto do centenário presbiteriano365

. Contando com o apoio financeiro da “World Alliance of Reformed Churches”, da Missão Central, e o “apoio moral” do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil366

, o livro foi lançado junto a outra instituição, o Museu Presbiteriano, em 1959. O primeiro volume que abordou o período de 1859 a 1903 foi lançado em 1959 e o segundo volume, sobre os anos de 1903 a 1959, foi lançado um ano depois. Em 1992, após trinta e três anos, a obra foi reeditada em uma tiragem de 3.000 exemplares. Tanto a primeira quanto a segunda edição foram publicadas pelo principal órgão de imprensa presbiteriana, a Casa Editora Presbiteriana.

364 A primeira parte aborda os primeiros 10 anos do presbiterianismo, a segunda aborda o “período de expansão”

oriundo do trabalho pioneiro(1869 a 1888), a terceira (1888 a 1903) aborda o que gera a IPI, a quarta parte 1903 a 1917 compreende ao que ele chama de “período de reconstituição”, e de 1917 a 1959 a que seria o período que compreende até os anos da escrita do texto.

365 FERREIRA, Júlio Andrade. Museu Presbiteriano (Palestra pronunciada pelo Rev. Júlio Andrade Ferreira, a

19 de julho de 1959, quando se inaugurou o Museu Presbiteriano). Revista Teológica do Seminário Teológico de Campinas. Ano XX e XXI , n. 23 e 24, nov. 1959, p.126.

366 FERREIRA, Júlio Andrade. História da Igreja Presbiteriana do Brasil. v.1. 2. ed. São Paulo: Casa Editora

Ilustração 1: Capa do livro História da Igreja Presbiteriana do Brasil

A primeira edição trouxe na capa dos dois volumes o mapa do Brasil com pontos ilustrativos da presença presbiteriana em território nacional. Já a segunda edição de 1992, apresenta uma capa mais representativa: um pergaminho amarelo posto em um fundo verde que contém na parte superior o nome do autor e debaixo duas imagens: à esquerda, Ashbel Green Simonton e à direita, José Manoel da Conceição, os pioneiros do presbiterianismo. Ao longo de todo o pergaminho os dizeres História da Igreja Presbiteriana do Brasil; na parte inferior, uma medalha com a “sarça ardente” (símbolo da igreja) funciona como um selo do pergaminho. Tal qual se abre um documento antigo (que contém o selo da instituição) observam-se quais são os principais personagens dessa história: os pioneiros e a própria instituição. A sobriedade da capa também ilustra o que será o texto: sóbrio, pouco emotivo e mais “documental”, com poucas liberdades narrativas por parte do autor e a impressão do leitor ter acesso aos trechos de documentos primordiais da Igreja. A capa é a única parte de todo o livro com imagens, nas outras mais de mil páginas, apenas texto.

O índice dos capítulos oferece um panorama da obra: dos 197 capítulos, a maioria apresenta uma relativa independência em relação aos outros capítulos e podem ser lidos avulsamente, porque não existe uma grande tese ou eixo condutor por detrás do livro. Os capítulos facilitam a consulta das origens sobre o início de cada presbitério, seminário, querelas, asilos, hospitais, jornais, revistas, escolas e pioneiros. O único fio condutor é a cronologia evolutiva. O sumário também indica que Ferreira privilegiou a maior parte dos temas e personagens abordados pelos livros de história eclesiástica protestante escrita nos anos 1930: uma história da liderança masculina, da marcha institucional no território nacional

e dos marcos visíveis do presbiterianismo na sociedade mais ampla (escolas, hospitais, asilos, orfanatos).

Ferreira apresenta um texto com uma farta documentação, revelando-se digno do cargo: veracidade e classificação de documentos, o esforço de coleta e arquivo da documentação e também, quando faltavam fontes, sua memória supria lacunas na narrativa. Graças ao trabalho do outro historiador presbiteriano, Boanerges Ribeiro, que coletou e transcreveu fontes em bibliotecas e arquivos norte-americanos, Júlio Ferreira teve acesso a relatórios escritos pelos missionários, suas cartas, e os relatórios de agências de missionários.367Além de novas fontes primárias, Ferreira utilizou-se das principais referências bibliográficas: os livros e artigos de Vicente Themudo Lessa, a quem ele chama de “guardião do passado presbiteriano”368, a biografia escrita por Boanerges Ribeiro sobre José Manoel da Conceição, e os artigos publicados por Émile Léonard (a quem ele sempre se referia como “professor da Sorbonne”) na Revista de História da USP. A relação de Ferreira com a bibliografia existente é de reverência para com os historiadores pioneiros, pois não os contesta em nenhum momento e agrega à narrativa as informações e análises contidas nos três autores. Embora modesta, nos anos 1950, já existia uma bibliografia relativa ao protestantismo e ao presbiterianismo que, também distingue essa obra dos textos dos anos 1930. Diferentemente dos textos de Domingos Ribeiro e Vicente Lessa, são extremamente raras as menções de uma bibliografia acadêmica.

Para agir de maneira equilibrada e imparcial, a opção de Ferreira foi muito parecida com a obra de Antonio Mesquita em História dos Batistas do Brasil: a de colocar na narrativa muitas transcrições de documentos que o autor considera relevantes, sem contextualização maior, problematização, ou explicação sobre os critérios pelos quais transcreveu os documentos. No caso de Ferreira, além da transcrição de fontes primárias, alguns capítulos inteiros são transcrições de livros, o que explica, em parte, a grande quantidade de páginas do livro. No primeiro volume, por exemplo, das 658 notas de rodapé, 170 delas faziam menção a Annaes da Primeira Igreja. No caso do capítulo, “O Sínodo de 1903”, Ferreira transcreve oito páginas da obra de Lessa. Outro caso é o capítulo “Problemas Atuais”: são 7 páginas de transcrição dos artigos de Léonard. Ferreira, aparentemente, esconde a sua interpretação sobre determinados personagens e questões como as querelas institucionais, transcrevendo

367 Uma das referências mais comuns na narrativa de Ferreira foi citar documentos que estavam no acervo

pessoal de Boanerges Ribeiro, chamada de “Coleção Boanerges Ribeiro”. Atualmente esse acervo continua fechado para a pesquisa e de posse de seus familiares.

368FERREIRA, Júlio Andrade. História da Igreja Presbiteriana do Brasil. v.1. 2. ed. São Paulo: Casa Editora

documentos produzidos pela disputa ou reproduzindo opinião já construída pelos historiadores que o precederam. Não se trata de plágio, porque o autor referencia todas as citações, mas sim de uma concepção de que os documentos falam por si mesmos e que cabia ao leitor o entendimento que melhor lhes servisse.

Essa metodologia, como vimos no caso de Antonio de Mesquita, primeiramente era estratégia de se apresentar isento e não se envolver em polêmicas com familiares de pioneiros ainda vivos. Pelos pertencimentos de Ferreira (ele sabia como se escrever uma obra de História) esta metodologia estava embasada na teologia protestante da autonomia do leitor e do texto cabendo a ele, leitor, a melhor interpretação dos fatos e do texto. Nesse sentido, Boanerges Ribeiro, faz uma consideração muito acertada a respeito dessa opção metodológica: trata-se de uma História inspirada, na medida em que o autor se julga veículo isento de vontades (imparcial), oferece a documentação que chegou a ele (nesse sentido inspirado), cabendo ao historiador não uma interpretação unidirecional, mas a abertura interpretativa, ao apresentar a documentação ao seu público. Trata-se, em tese, da máxima da teologia protestante, da livre leitura e da inspiração, aplicada à escrita da história da denominação. Diferentemente da concepção dos historiadores imparciais do historicismo alemão que acreditavam chegar à verdade através do rigor documental, a imparcialidade do protestante é buscada oferecendo a seleção documental, cabendo a crítica e a análise ao leitor.

A narrativa organizada conforme a cronologia dos documentos fez com que a obra oscilasse em diversos focos indo do biográfico, bibliográfico, o institucional e autobiográfico. Pela própria concepção dos documentos “falarem por si mesmos”, e pelo uso de documentos produzidos em locais diferentes e serem de natureza diferenciada (atas, relatórios de missionários, jornais institucionais, diários, cartas) a narrativa possui momentos de afeto (quando transcritos diários) e aridez estatística com uma grande quantidade de números, datas e nomes (quando descritas as atas). Na primeira parte do primeiro volume, que retrata os primeiros dez anos do presbiterianismo, a obra é essencialmente biográfica e o autor tem condições, devido ao pequeno número de personagens, de biografá-los a partir dos relatórios e pelos diários dos missionários pioneiros, sobretudo o diário de Simonton. As primeiras cinqüenta páginas do livro são de fácil compreensão, com as impressões do próprio fundador da igreja. Conforme o autor muda do gradiente biográfico para um enfoque mais institucional, o texto se torna mais denso, com muitos nomes, números de relatórios e inúmeras datas.

Em termos informativos, o primeiro volume acrescenta informações realmente novas. O autor inclui a pesquisa de Boanerges Ribeiro sobre José Manoel da Conceição (principalmente nas 100 primeiras páginas), e utiliza-se de uma hábil estratégia: ao abordar

questões delicadas da política eclesiástica, o autor transcreve a interpretação feita por Émile Léonard no texto L´Église Presbyterianne du Brésil369. Quando descreve querelas, o “homem

do livro” acrescenta um adjetivo de pesar. Entende como “circunstâncias infelizes” que perturbavam a “sadia Igreja Brasileira” com conseqüências “infelizes”. No segundo volume, Ferreira mantém a mesma organização da narrativa, com capítulos breves e títulos que resumem o início ou estágio de desenvolvimento do presbiterianismo em solo nacional. Estão os inícios de Sínodos, Presbitérios e Igrejas explicados a partir das atas das reuniões inaugurais. Pela própria natureza das fontes utilizadas e pela opção de contar a história a partir da sobreposição de documentos, esses capítulos são repletos de números e nomes e pouco sentido ao leitor. O autor, ao invés de selecionar campos evangelísticos ou pastores representativos para fazer uma análise do período, resolve transpor para o texto todos os nomes e números disponíveis na documentação, quando aborda um determinado período.

A grande diferença no segundo volume é não contar mais com a “ajuda” da obra de Lessa. A partir de 1917, ele mesmo presenciara a maior parte dos fatos narrados. De certa forma, aqui, Ferreira se torna aquele que registra aquilo que viu e ouviu, tornando-se ele continuador da tarefa de Lessa, embora evite, ao máximo, recorrer apenas à sua memória. No capítulo 149, de título, “Uma palavra aos Leitores de Hoje e aos Futuros Historiadores”, Ferreira tem “ a impressão não mais de estar fazendo história, mas de estar vivendo de novo.”370 A diferença desse segundo volume se refere aos capítulos destinados aos leigos. Dos

197 capítulos, eles aparecem em apenas três; um é destinado à sociedade de senhoras, outro destinado à sociedade de jovens e outro chamado de “Capítulo inacabado: Uma galeria de leigos” trouxe algumas biografias.

Na introdução do capítulo sobre os leigos, o autor, reconhece a importância deles, mas admite que no tipo de narrativa construída era difícil incluí-los:

Através de toda a nossa história muitos leigos foram encontrados, de grande dedicação e de influência decisiva. Temos, não obstante, a impressão de que nossa história está muito eclesiástica. Quer por não ter informação no momento oportuno, quer por não se ter enquadrado bem o assunto em outro capítulo, há uma sobra de

material que reservamos para esta hora(...)

Apesar de quebrar, de certo modo, o ritmo do livro, é este capítulo, embora

incompleto, muito justificável. E um modo de fazer claro que reconhecemos a contribuição do leigo.371 (grifo nosso)

369 Um dado que Ferreira não revela ao leitor é que Léonard conseguiu documentação e teve grande parte dos

dados históricos dos presbiterianos mediante Júlio Andrade Ferreira. LEONARD, Emile-G. Études

evangeliques: l'eglise presbyterienne du Bresil et ses experiences ecclesiastiques. [Paris]: Faculte Libre de

Theologie Protestante d'Aix-en-Provence, 1949.

370 FERREIRA, Júlio Andrade. Historia da Igreja Presbiteriana do Brasil. v.2, p.222. 371 FERREIRA, op.cit., p.313.

O autor nos mostra, nessa fala, a dificuldade de incluir o elemento leigo, dada a concepção adotada pelo seu livro de História eclesiástica. Ao incluí-los na narrativa, o autor seleciona 15 homens, de origens sociais diversas que, graças ao próprio esforço e estudo, conquistaram projeção social e realizaram obras de importância para a igreja: evangelização, abertura de igrejas, filantropia, dedicação à comunidade”372. Reconhece os limites do seu texto: dadas a concepção de uma história eclesiástica, não existe um espaço onde o leigo entra e seus vestígios constituem um “resto” de documentação inclassificável os quais não se encaixavam na lógica do seu texto.

Exemplo dessa “quebra” é a forma superficial de abordar o grupos de jovens e mulheres se restringido a descrever os primeiros grupos e os primeiros encontros feitos por ambos. Ferreira mostra a história da organização institucional da Sociedade das Mulheres e não das mulheres que organizaram a sociedade. O historiador presbiteriano não explicita quais eram as atividades das mulheres dentro dessa sociedade, quais eram suas realizações, restando apenas um apanhado de datas relativas a quando e onde ocorreram as primeiras reuniões da sociedade feminina373. No caso dos jovens, o autor repete o procedimento detalhando um pouco melhor a mocidade presbiteriana, devido a alguns atritos dela com as autoridades da igreja.”374

O entendimento da sua função de historiador estava vinculada à concepção de ser o mais neutro possível na escrita denominacional. Ele tinha a delicada tarefa de escrever sobre os pioneiros e o crescimento de um grupo que comemorava seu centenário, uma data esperada pelos familiares dos pioneiros (indiretamente veriam a si mesmos na comemoração), esperada pelos fiéis (teriam comemorações nas suas igrejas). Mas Ferreira tinha noção que escrevia uma obra para a posteridade, que seria citado e julgado pelas gerações futuras e não queria deixar-se levar pela emoção do momento, seja no ufanismo denominacional, seja num julgamento pesado ou muito crítico em relação a eventos delicados do passado presbiteriano.

Se em determinados momentos existe a tentativa de imparcialidade, em outros (poucos) momentos, a obra vai para o pessoal, em especial, quando o evento narrado se aproxima da cronologia do pastorado do historiador. Ilustrativo é o capítulo “Seminários do meu tempo”, quando ele descreve, a partir das suas próprias lembranças, os Seminários de

372 FERREIRA, op.cit., p.318. 373 FERREIRA, op.cit, p.395-399. 374 FERREIRA, op.cit., p.406.

Campinas e o então Seminário Unido. O autor relembrava os nomes de colegas, as características físicas e oratórias dos antigos mestres. Ao colocar apenas sua memória como fonte, o autor declara em certo momento:

Não vou contar aos colegas a história deles mesmos. Não tenho estímulo de

estender muito este capítulo, não porque não o aprecie (é minha vida!), mas por julgar que não tenho direito de tomar ao leitor mais tempo do que o essencial à ligação geral dos fatos que fazem parte da trama histórica que me propus desenvolver.375(Grifo nosso)

Ferreira mostra a quem destinava o seu texto e qual era a sua função de historiador na elaboração da “trama histórica”. Escrevia principalmente para os seus pares, ou seja, professores e seminaristas. E isso não é difícil de perceber. A organização dos capítulos é didática, modular, uma “ferramenta” que tem utilidade para a educação dos seus líderes. A escrita da história, através de pastores exemplares, servia para conhecer as raízes do seu grupo e para motivá-los para o exercício da sua função. O autor nos deixa essa impressão de uma forma muito clara, na sua palestra de inauguração do Museu Presbiteriano em 1959. Para ele:

Devemos estudar a nossa história para conhecer o nosso ambiente e as raízes dos nossos problemas. Estudar a história não é uma tarefa inócua. A história tem tanta importância para a vida de hoje como as raízes tem importância para uma planta. Fazer história não é apenas um dever de justiça e um aproveitamento das lições do passado: é uma inspiração. Inspiração para os passos que havemos de dar. Se eles, sem recursos, com os obstáculos encontrados, puderam fazer o que fizeram, e

Benzer Belgeler