A fim de informar como esses jornais foram produzidos em sua materialidade - para depois procedermos aos pormenores - consideramos válido expor imagens de cada exemplar para, depois, elencarmos os gêneros utilizados em cada um. Em seguida, procederemos a uma primeira comparação entre as edições para verificar as regularidades, considerando, na análise, os aspectos conceituais do letramento jornalístico, segundo Buckingham (2010). É salutar a explicitação de que algumas passagens dos jornais, a seguir, estão intencionalmente descaracterizadas – com tarjas pretas - a fim de, em uma atitude ética da pesquisa, não divulgar os nomes da escola, dos professores e dos estudantes, nem as imagens de participantes da instituição. Do mesmo modo, a pesquisadora realizou certas adaptações nos textos a fim de modificar os nomes verdadeiros dos envolvidos, trocando-os por nomes fictícios. Realizadas todas essas considerações, procederemos, então, à divulgação de tais exemplares.
Figura 3 – Jornal 1: divulgação em maio de 2017
VERSO
O primeiro aspecto relevante a respeito das produções impressas, a exemplo da edição mostrada na Figura 3, é a precariedade da formatação. Não há uma organização do
layout jornalístico em cadernos e/ou em folhas agrupadas, tampouco a impressão dos
exemplares segue uma padronização. As letras e imagens são muito borradas e, às vezes, até mesmo apagadas e pouco legíveis. Essas características foram, inclusive, relatadas pelo presidente do Clube do Jornal em alguns momentos de entrevista com a pesquisadora, as quais estão registradas na primeira parte da discussão dos dados da pesquisa.
Essa reivindicação dos educandos talvez fosse seguida caso a escola, enquanto instituição de ensino e agência de letramento, estivesse mais atenta em tutorear projetos de escrita como o CJ. Muito possivelmente, essas formatações e impressões seriam de melhor qualidade, uma vez que os atores pedagógicos – principalmente professores de língua materna e gestores escolares – estariam participando mais ativamente da orientação quanto à elaboração desses textos em seus mais diversos aspectos, tanto discursivos quanto linguísticos e visuais. Do mesmo modo, possivelmente poderiam estar até estabelecendo parcerias com pequenas empresas ou com associações que tivessem o interesse em patrocinar uma impressão de melhor qualidade desses jornais para a comunidade local.
Essa ocorrência de má disposição do material impresso reflete bastante as dificuldades pelas quais os estudantes afirmaram passar durante o processo para concretizar cada edição. Entre as principais dificuldades estão: falta de papel na escola, escassez de toner para a impressão, dificuldade em utilizar o laboratório de informática para realizar melhorias de formatação, tempo limitado na rotina escolar dos educandos para se dedicar ao Clube do Jornal, pouca assistência da professora responsável pelo projeto por causa da própria dinâmica da escola para o cumprimento de carga horária.
Nesse sentido, a crítica aqui ilustrada não visa desqualificar os professores, haja vista sabermos que esse e outros projetos certamente dividem o tempo dos profissionais com muitos afazeres, tais como: o planejamento pedagógico, a elaboração de aulas, o preenchimento de diários, as correções de provas, as reuniões de pais e mestres, o projeto diretor de turma etc. Quanto a essa complexidade de demandas vivenciadas pelo local da pesquisa, podemos aludir à Tabela 3, que demonstrou aspectos relevantes da gestão, os quais podem justificar, em parte, o porquê de o projeto de escrita do CJ não receber o cuidado devido por parte dos educadores.
Ainda de que forma muito amadora, a organização na escrita do jornal foram sofrendo alterações de uma edição para outra. Apesar de ainda percebermos uma
comprometida qualidade na impressão dos exemplares do jornal, a organização textual já apresentou modificações como se pode visualizar na figura 4, a seguir.
Figura 4 – Jornal 2: divulgação em junho de 2017
VERSO
Como podemos notar, a disposição visual dessa produção, em relação à primeira, não segue um padrão fixo de fonte nem de organização espacial dos textos e das imagens. Isso se difere dos jornais convencionais, os quais prezam por uma identidade imagética a fim de personalizar uma marca editorial, assim como para diferenciá-la da concorrência, produzindo, no leitor, o fácil reconhecimento daquele material impresso dentro do mercado midiático. Para finalizar a visualização das três amostras recolhidas dos exemplares, a seguir, a figura 5 ilustra a materialização da edição que acompanhamos no decorrer da nossa pesquisa.
Figura 5 – Jornal 3: divulgação em outubro de 2017
É válido ressaltar que o jornal 3, como representado na figura 5, recebeu um tratamento especial antes de sua impressão, quando a diretora solicitou – na presença da pesquisadora – que o professor de informática organizasse os textos, os quais, na versão apresentada pelos estudantes, estavam bastante desformatados. Do modo como estavam, apresentavam-se bastante confusos para o leitor e, por isso, suscitou na diretora da escola a atitude de permitir a promoção de melhorias na publicação impressa. Esse momento nos levou a perceber que a nossa presença, como a “tia do jornal”, colaborou para que o trabalho do clube em questão fosse mais reconhecido pela gestora da escola, possibilitando um maior diálogo desses estudantes-jornalistas com quem poderia auxiliá-los no processo de editoração. Nessa mesma ocasião, também na presença da pesquisadora, a diretora incentivou a entrega de três exemplares do jornal impresso por sala, o que nas edições anteriores nunca ocorrera. Era apenas um exemplar para cada sala, conforme o que os partícipes nos relataram em entrevistas e em conversas informais durante o processo de observação e de registro no diário de campo. Portanto, aspectos ligados à produção editorial do jornal, tais como a formatação, a impressão, a organização visual e a disposição gráfica, configuram-se como conteúdos de aprendizagem que os estudantes do jornal vão se apropriando de modo intuitivo, pois, pelo que percebemos, há pouca orientação a respeito dessas práticas mais superficiais – porém significativas - da publicação, as quais estão incluídas também na perspectiva do letramento midiático-jornalístico.
A seguir, passaremos a analisar o jornal como resultado do processo anteriormente discutido, ou seja, faremos uma reflexão sobre a escrita materializada desses estudantes, em cada exemplar exposto, com base nos aspectos conceituais do letramento jornalístico.
4.2.2 Considerações específicas: gêneros discursivos/textuais da esfera jornalística e