Ao lado de suas amigas, Meire Anne posa para a foto. Sua mão toca os ombros da colega, que não se incomoda com seu gesto. Esse é um dos momentos que pode retratar um vínculo de amizade. A expressão de carinho aparece naturalmente no gesto de Meire Anne ao colocar seu braço sobre os ombros da amiga. Observamos uma postura física que indica a presença de afeto e amizade. Todas as emoções podem ser vinculadas à maneira como o tônus muscular se forma, permanece ou se consome (GALVÃO, 2002).
O corpo é um elemento importantíssimo para que as emoções e os sentimentos se tornem perceptíveis. Tornou-se um meio de comunicação, pois dois seres humanos em
diálogo não são mais do que dois corpos em comunicação (FONSECA, 1995 apud BEZERRA, 1998, p. 15).
A postura de Meire Anne ilustra claramente a idéia de que o corpo fala. Lê-se nas entrelinhas que existe uma relação de carinho entre ela e sua amiga. A foto só vem comprovar os laços de amizade que unem as duas, pois, durante a permanência delas na escola, conversam, brincam e dividem os afazeres cotidianos.
Segundo Marina, professora de Meire Anne, ela se relaciona bem com os alunos da escola.
Ela tem um ótimo relacionamento, é assim... tem amizades recíprocas né? Todos ajudam, quando ela pede. Ela se integra com todos, seja nas atividades de sala, seja no pátio ou numa atividade extra-sala. O relacionamento dela não poderia ser melhor.
Ainda de acordo com a professora de Meire Anne,
(...) todo mundo gosta dela (...) Ai às vezes a gente faz pergunta a ela, os outros já querem responder, querem ajudar Os demais alunos não vê ela com outros. Vê como uma pessoa amiga, uma pessoa com necessidade de aprendizado assim, como qualquer outro.
Professora Marina, ao comentar sobre a integração da aluna e da satisfação que ela demonstra em estar na escola, deixa transparecer certa emoção em sua fala. Em seu relato, menciona a satisfação que tem do trabalho que desenvolve em sala de aula com sua aluna.
Percebe que a boa socialização de Meire Anne é fruto também de seu esforço. A satisfação dela é grande. É tanto que ela num quer sair da escola
de jeito nenhum, ela não falta, ela quer participar (...). É essa satisfação assim que, a gente ver que o trabalho que a gente está fazendo com ela, num é em vão. Porque eu acredito assim... que se fosse assim uma coisa está aqui solta, sem muito sentido, talvez ela num tivesse com essa vontade toda. (...) ela se integra com outras crianças, com outros (...) Então com isso a gente fica até assim, a gente vê um novo retorno de nosso trabalho.
A professora Marina orgulha-se do trabalho que faz e reconhece que seus esforços não são em vão. Acredita que sua aluna conseguiu progresso em seu processo de escolarização. Alías, nunca pôs em dúvida suas potencialidades, daí talvez por que trabalhe de modo tão confiante e alcance com sucesso e satisfação os objetivos traçados.
Marina tem 43 anos, é formada em Pedagogia, possui pós-graduação em Planejamento Educacional e em Psicopedagogia. Trabalha há 18 anos no magistério e, apenas
há um ano e seis meses, diretamente com alunos com deficiência mental. Atualmente a professora exercita a docência em duas escolas. Em cada qual uma carga horária de trabalho de 120h/a.
Embora passe a maior parte de seu tempo em sala de aula, a professora Marina tem o hábito de reservar dois dias na semana para leituras. Gosta de ler escritos espíritas, textos pedagógicos etc. Em suas horas livres, costuma ouvir música e viajar. É uma professora meiga, delicada e atenciosa para com seus alunos. Com seu jeito manso de andar e falar consegue administrar sua sala de aula e desenvolver sua prática docente de forma natural. Não dispensa a Meire Anne tratamento diferenciado, entretanto dedica-se um pouco mais a ela na hora das atividades.
Até agora falamos de carinho, atenção, respeito às diferenças por parte de alunos e professores das escolas onde ocorreu a pesquisa. Descrevemos características comportamentais de alunos com deficiência, alunos ditos normais e de algumas professoras.
Os comentários acerca das professoras sempre enfatizaram a maneira dócil, meiga e carinhosa com que tratam seus alunos. Lílian, Lidiane, Marina e Lena foram mencionadas como professoras que lançam mão da afetividade para desenvolver sua prática docente.
No transcorrer da pesquisa, porém, nos deparamos com uma professora que se diferencia um pouco das outras professoras aqui mencionadas. Referimos-nos a Estela, professora de Anita. Ela difere das demais por conta de seu jeito de dar aula, de se dirigir aos alunos. Não estamos com isso a insinuar que ela não seja uma pessoa amável, carinhosa e atenciosa, apenas estamos querendo destacar seu modo irreverente de querer bem.
Estela tem 49 anos, é formada em Pedagogia e se dedica exclusivamente à escola na qual foi desenvolvida a pesquisa. Possui hoje uma carga horária de 240h semanais de trabalho efetivo em sala de aula. Sempre ensinou crianças ditas normais. Sua primeira experiência com crianças com deficiência foi com Anita. Dos 28 anos de magistério, tem apenas um convivendo em sala de aula com uma aluna com deficiência mental. Lamenta não ter muito tempo para leitura, pois para essa atividade, destina por dia apenas meia hora e nas horas de lazer gosta de dançar forró, participar de serestas, que segundo ela é a maneira que encontra para agüentar o “rojão” de sala de aula.
Durante o trabalho de campo, verificamos como Estela exerce sua docência. Fala alto, tem voz forte e altiva, movimenta-se pouco e preocupa-se demais com o silêncio que deve existir na sala de aula, antes, durante e após as atividades programadas. Costuma ficar sentada a maior parte do tempo em que dá aula, ficando de pé sempre que vai explicar algum
conteúdo ou tarefa. Não permite que os alunos conversem, mesmo que seja sobre a tarefa que estão fazendo, durante as explicações de conteúdos e nem que fiquem transitando no espaço de sala de aula. Recordamos de uma cena em que um menino se levantou para ir fazer a ponta do lápis e deixou o exercício de classe sobre a mesa. A professora fala alto para todos ouvirem:
Ei menino, ei menino “maluvido”! O que tu faz em pé? Vai te sentar! Ora era só o que me faltava esse menino andando na sala como se não tivesse o que fazer. Não quer nada mesmo né, fulano?(diz o nome do menino nessa hora). (ANOTAÇÕES feitas por nós no Diário de Campo no dia 27 de setembro de 2006).
Nesta hora, o menino olha para ela e diz, sorrindo, aparentando não se ofender com as palavras da professora.
- Desculpa aí, desculpa aí viu, tia.
Os demais alunos não têm nenhum tipo de reação, parece que já estão acostumados com o jeito da professora. Após essa cena, a professora senta-se próximo ao birô e continua pedindo silêncio, enquanto a turma faz a tarefa de classe.
Na primeira fila, está sentada Anita, que faz sua atividade calmamente, sem se incomodar com o que acontecera há pouco tempo. De imediato a Professora se levanta e diz:
Mas será possível. Olhe, eu vou deixar tudinho de castigo, ninguém vai para o recreio hoje (...)
Os alunos obedecem ao seu implícito pedido de silêncio. Ficam quietos e nada falam sobre seu comportamento. O clima da sala de aula é tranqüilo agora. Não escutamos uma só respiração. Todos ficam calados, fazendo a tarefa.
Em meio a essa situação, Anita se levanta e vai tirar uma dúvida da tarefa com a professora. Ela se dirige até ela e fala:
Tia, é assim mesmo? É assim que é para fazer?
A professora Estela responde delicadamente:
É sim Anitinha. É assim mesmo, minha linda, que é para fazer. Faça tudinho bem direitinho, viu?