1. BÖLÜM: TÜRKĠYE’DE DEVLET MUHASEBESĠ SĠSTEMĠ
1.10. Devlet Muhasebesi Standartları
Numa manhã de muito sol observo o trabalho do ribeirinho apurando um tacho de garapa fervendo na fornalha, fazendo rapadura. Nossa conversa versava sobre a capacidade dos seus parentes antigos (avós, bisavós e os fundadores da comunidade dos quais é descendente) que apenas com facão, machado e enxadas desbravaram as terras, construíram a paisagem cultural e a rica cultura da qual ele é parte. O ribeirinho aponta para os equipamentos do carro de boi e afirma: Tudo feito a mão. É artesanato mesmo. E foi tronco esculpido no facão.
A necessidade de construção de moradia, de ferramentas, de coleta de alimentos levou-os a transformar os recursos da natureza em possibilidades de vivência. Tudo era feito por homens e mulheres que, distante do mundo industrial, do comércio diversificado, transformaram madeira, folhas, grãos, sementes, frutos, cipós, palha, tronco, barro, couro, pena em equipamentos, em utensílios, em culinária, em imagens, em meio de transporte, em combustível, em ferramentas, em meios de subsistência.
“Foi esta comunidade e a inteligência desses viventes que fez eles ficarem aqui. Construir seu patrimônio. Plantar seu canavial, e agora estou eu com um engenho movido a luz elétrica, mas no tempo de minha mãe e do pai dela o engenho era movido por boi. Eu ainda dependo do carro de boi. Não fosse a cangalha feita por mãos rústicas de homens simples, sem estudo não tinha como trazer a cana do canavial pra moer”.
“Quando eu vim pra Bonsucesso pra ser professora em 1952, era bem diferente. Não tinha luz elétrica, e por muito tempo usamos lamparina com banha de peixe. Lampião veio mais tarde. Era muito difícil. Pra ir na Várzea Grande só de carroça ou de canoa. Muita gente ia a pé” (Professora aposentada, moradora da comunidade, 75 anos).
“A enchente é uma riqueza pra nós. Ela traz todas as coisas que as plantação precisa pra desenvolver. Era muito bom quando plantava roça de praia. Hoje não tem mais como plantar essa roça, por causa da lei. Mas a gente plantava
milho, arroz, batata doce, melão, fumo. Todas as coisas de comer. Mas vendia também, na feira. A cana, a banana e a mandioca a gente plantava no alto”. A capacidade dos ribeirinhos de resistir, de buscar na natureza seu fortalecimento, e a necessidade de resistir flexivelmente às diversidades do meio levou-os ao aprendizado do funcionamento do sistema e construíram, com os componentes do ecossistema, um saber que os identifica como comunidade tradicional pantaneira. Os grandes problemas como a obtenção de alimentos, construção de moradias, tratamento das doenças, a necessidade de ir e vir e a obtenção de renda foram bem administrados por essa comunidade.
Esse poder de adaptar-se às adversidades, esse empoderamento frente aos problemas locais como adaptar-se ao pulso das enchentes, à temporalidade da produção vegetal, aos ciclos dos animais fez o ribeirinho movimentar-se da calha do rio ao terreno firme. Neste transecto construíram uma base cultural e um saber tradicional sobre a biodiversidade, sobre o tempo clima, sobre os ritmos das águas, sobre o pantanal.
Diante dos relatos e da observação em campo é possível afirmar que os ribeirinhos são resilientes, no sentido em que Yunes e Szymanski (2001) conceitua resiliência – como respostas de adaptações ou ajustamentos de pessoas ou grupos a situações de risco, estresse e experiências adversas.
Na trajetória de vida das pessoas das comunidades ribeirinhas do rio Cuiabá, é possível perceber o sentido da sustentabilidade e a capacidade de superação e de desenvolvimento de diferentes gerações.
“na minha vida eu vejo três etapas. A primeira é quando eu vivia com meu pai. Ele não tinha o tino do futuro. Era trabalhador de roça e redeiro. Vivia da pesca, mas não via a importância do estudo pros filhos. Fui criada pra casá e cuidar dos filhos. Estudo, só até a 4ª série, mas foi muito importante pra lutar pros meus filhos estudar. A segunda etapa foi depois de casada e a criação dos 12 filhos que tivemos. Plantando roça, fazendo rapadura e pescando, estudamos todos. Só o mais velho não fez o curso superior. São dois formados em matemática, 2 formadas em biologia, em letras. Este ano forma outro lá em Rondônia. Agora estamos na terceira etapa, só contemplando nossos filhos progredir. Estão todos trabalhando. Uns moram em Cuiabá, outros em Várzea Grande, 2 em Porto Velho.
Mas, é aqui que reúne pra comer peixe que a gente cria no tanque lá no fundo. De baixo do arvoredo, na sombra do bambu que é a nossa varanda” (Dona de casa, 76 anos).
Este relato demonstra as condições de uma geração (os experientes) desta comunidade. O caráter ruralista é mantido pelos experientes que souberam preparar seus filhos para o momento em que a sociedade vive. O momento de comunicação em que o “valor da educação reafirma-se como fator de desenvolvimento das sociedades, tanto mais que o aprofundamento do conhecimento constitui uma exigência fundamental para a compreensão de expectativas pessoais e sociais, é de igual modo, um importante contributo para definição de novos objetivos das instituições, atividades e práticas profissionais” (SOUZA, 2008, p. 10).
Hoch e Roccal (2007) afirmam que resilir é vencer as provas e as crises da vida, isto é, resistir a elas primeiro e superá-las depois, para seguir vivendo o melhor possível. É a capacidade para desenvolver-se bem, para continuar projetando-se no futuro apesar dos acontecimentos desestabilizadores, de condições de vida difíceis e de traumas às vezes graves. É a capacidade humana de lidar com a diversidade e de superá-la, ou melhor, ter-se transformado com a diversidade criando novas perspectivas. Não é uma técnica nem uma solução mágica. É uma área de tratamento interdisciplinar é um processo dinâmico.
O esforço das pessoas da comunidade de Bonsucesso em formar seus filhos, levá- los à universidade, é uma atitude que, no coletivo, é resultante do desejo do grupo de promover o bem-estar na comunidade.
Os experientes demonstram que não somente enfrentaram situações adversas (enchentes, secas, mudança de legislação, desconforto do calor, falta de meios de comunicação, dificuldade de acesso às condições de saúde, entre outros), como também souberam ultrapassar esses confrontos com a aquisição de novas competências. Esse processo vivido por diferentes gerações resultou na capacidade de a comunidade buscar alternativas na falta de peixe ou na impossibilidade da lavoura de praia, serviços de provisão. Ocorre então a migração dos ribeirinhos da calha do rio para a gastronomia e implanta-se a rota do peixe – conjunto de peixarias para atendimento ao público externo, denominado por eles de turistas. Os ribeirinhos souberam promover a transformação dos
serviços de produção em serviços culturais (Figura 46). Hoje a comunidade envolve-se cada vez mais direta ou indiretamente com o turismo, empoderada com os saberes incorporados ao longo da trajetória transformadora de ruralistas para empreendedores do turismo.
Figura 46 Atividades desenvolvidas por diferentes gerações na comunidade de Bonsucesso. A transformação é resultado do saber construído que empoderou a comunidade para novas formas de vivência.
Concordamos com Pinheiro (2004, p.75) ao afirmar que:
diversas variáveis e processos precisam ser estudados sempre que o tema da resiliência estiver em destaque. No entanto, os diversos autores e pesquisas parecem levar-nos a concluir que a capacidade de amar, trabalhar, ter expectativas e projeto de vida - consequentemente, de dar um sentido a nossa existência - denota ser a base onde as habilidades humanas se apóiam para serem utilizadas diante das adversidades da vida – que certamente todos, em menor ou maior intensidade, teremos que enfrentar enquanto estivermos vivos.
A CTR de Bonsucesso, por meio dos serviços de informação demonstra serem resiliente, e por esta razão estão construindo uma comunidade sustentável.