• Sonuç bulunamadı

O memorialista demonstra ser natural de Portugal, por sua própria confissão e denota claramente uma proximidade com os membros da Casa Real, dotado de amplos conhecimentos sobre a geografia da época, dos assuntos internos de Portugal e da atividade exploratória dos portugueses em terras de África.284 É fundamental desde já referenciar que este documento não se encontra datado nem assinado, sendo contudo exequível, extrapolar sobre a natureza do seu autor e a sua contextualização temporal. Trata-se de um manuscrito dirigido à rainha Isabel a Católica e evidencia que o seu autor é um português desagradado com o seu rei D. João II. O memorialista demonstra desejos de vingança e uma grande revolta contra o monarca português, em nome daqueles que foram perseguidos, oprimidos e destituídos dos seus bens, claramente relacionados com a Casa de Bragança.285

Ainda como príncipe, o filho do rei D. Afonso V foi testemunhando o poder ascendente dos grandes senhores do reino, com especial relevo para o duque de Bragança que não viu com bons olhos o projeto político joanino posto em prática a partir de 28 de agosto de 1481.286 Não é de descartar a simpatia que D. João II nutria com a regência de seu avô materno, o infante D. Pedro, de cuja governação já tinham sido opositores os membros da Casa de Bragança e que acabou com o desfecho de Alfarrobeira. Para contextualização do quadro emocional que conformou a educação do príncipe D. João, assinala-se também a morte prematura de sua mãe, D. Isabel de Coimbra, filha do infante D. Pedro. Neste sentido, aceita-se a influência que exerceu a

                                                                                                                         

283 BNP, Reservados, Cód. 2912 A, fol. 38; BNP Reservados, Cód. 2913 A, p. 131 (transliterado). 284

István Szászdi LEÓN-BORJA, Las paces de Tordesillas en peligro, pp. 118-119.  

285

BNP, Reservados, Cód. 2912 A, foll. 39-42; BNP Reservados, Cód. 2913 A, pp. 132-133 (transliterado).

286 Maria Helena da Cruz COELHO, O Final da Idade Média, in José TENGARRINHA (org.), História de Portugal, São Paulo, Editora da Universidade do Sagrado Coração e Editora Universidade Estadual

sua tia D. Filipa, filha do infante D. Pedro e portanto irmã de D. Isabel de Coimbra para que o príncipe D. João vingasse a morte do seu avô, mostrando inclusivamente ao seu sobrinho, a camisa ensanguentada que D. Pedro vestia quando foi morto na batalha de Alfarrobeira.287 Ao avivar estas memórias, D. Filipa promovia a dor e fomentava o ódio, na busca de discórdia entre o príncipe D. João e o duque, procurando o desejado castigo para a Casa de Bragança.288 Esta condenação chegaria em junho de 1483 com a decapitação do 3º duque de Bragança e no ano seguinte seria morto D. Diogo, duque de Viseu, pelas próprias mãos do rei D. João II, aureolado por uma imagem de Messias consubstanciada no lema «por sua ley e por sua grey».289 Humberto Baquero Moreno referiu que o júri que decidiu a condenação do duque de Bragança poderia eventualmente ter levado em consideração as condições que obedeciam a um desejo de vingança pela morte do infante D. Pedro em Alfarrobeira. No entanto este historiador adiantou que esta leitura não corresponde aos factos, apesar de aceitar que esse pensamento poderia estar dissimulado na mente de D. João II.290

Convém estabelecer que os principais conspiradores contra D. João II, D. Diogo seu cunhado e D. Fernando II, 3º duque de Bragança eram representantes das duas famílias mais poderosas do reino, respetivamente descendentes do duque de Viseu, D. Fernando, filho do rei D. Duarte, e de D. Afonso de Bragança, filho bastardo de D. João I.291 As circunstâncias que levaram D. João II a encetar este processo persecutório estão relacionadas com a correspondência que o duque de Bragança mantinha com os Reis Católicos, através da qual se veiculavam informações contrárias à política dirigida por D. João II.292 Os assuntos versados nesta troca de correspondência estão diretamente relacionados com a dissolução do tratado das Terçarias, com a integração do reino de Portugal no reino de Castela e com a revelação do segredo da Mina,293sendo que estes

                                                                                                                         

287 Manuela MENDONÇA, Problemática das conspirações contra D. João II, p. 31.

288 António Caetano de SOUSA, op. cit., tomo V, 1948, p. 244, in Manuela MENDONÇA, Problemática das conspirações contra D. João II, p. 31.

289 Maria Helena da Cruz COELHO, O Final da Idade Média, pp. 25-26. 290

Humberto Baquero MORENO, A conspiração contra D. João II, O julgamento do Duque de

Bragança, Paris, Fundação Calouste Gulbenkian, 1970, pp. 50-51.

291 Manuela MENDONÇA, Problemática das conspirações contra D. João II, p. 33. 292

Rui de PINA, Chronica d'El Rey Dom João II, pp. 42-52, in Manuela MENDONÇA, Problemática

das conspirações contra D. João II, p. 33.

293 ANTT, Gaveta 2, maço 2, nº 2, publicado por Anselmo Braamcamp FREIRE, As conspirações no reinado de D. João II, AHP, vol. I, Lisboa, 1903, in Humberto Baquero MORENO, A conspiração contra D. João II, O julgamento do Duque de Bragança, p. 50.

dois últimos tópicos constituem uma centralidade na mente do memorialista, sobretudo a cobiça das riquezas de S. Jorge da Mina.294

O comportamento do memorialista insere-se numa perspetiva feudal, onde o que importava eram as alianças com aqueles que partilhavam dos mesmos interesses, independentemente da fidelidade que deveriam devotar ao seu monarca. Estas famílias estabelecem uma relação muito estreita com os Reis Católicos, na prossecução de objetivos particulares, despidos da ideia de nacionalismo.295

Do memorial ressaltam três ideias centrais: a dissuasão dos projetos das Índias de Cristóvão Colon e da conquista de Melila; incentivo à conquista do reino de Fez e consequentemente, da obtenção de proveitos decorrentes do comércio da Guiné; e finalmente, a explanação das razões histórico-jurídicas para o direito ao trono lusitano, da rainha Isabel, e a argumentação intrínseca à tirania de D. João II.296 O memorialista demonstra um conhecimento aprofundado sobre as atividades dos portugueses na região da Guiné e no Norte de África, assumindo a sua vasta experiência como navegador por todas as partes conhecidas à navegação, incluindo as paragens nórdicas, afirmando que esteve presente em Ceuta, facto que se justifica mais por razões militares do que por motivações comerciais.297 O documento denuncia claramente o fracasso do projeto de Cristóvão Colon, sob a prespetiva financeira, através do qual, D. João II dissimulou um permanente jogo de interesses para manter os Reis Católicos convencidos do sucesso e benefícios deste projeto.298 Neste capítulo, o memorialista teria as suas razões. Após 1496 perfilou-se uma oposição a Cristóvão Colon por parte das elites andaluzas, sobretudo comerciantes e homens esclarecidos.299 O projeto colonino não tinha ainda respondido aos interesses da conquista e às aspirações comerciais tão ansiadas pela escol de Castela e proliferavam as queixas silenciosas sobre os investimentos avultados aplicados neste projeto, cujo retorno era pouco expressivo até então.300 No quadro desta imbricação existe um facto assaz importante, relacionado com a atitude decidida de D.

                                                                                                                         

294 BNP, Reservados, Cód. 2912 A, foll. 8-12; BNP Reservados, Cód. 2913 A, pp. 122-123

(transliterado).

295 Manuela MENDONÇA, Problemática das conspirações contra D. João II, p. 33. 296

István Szászdi LEÓN-BORJA e Katalin KLIMES-SZMIK, op. cit., pp. 10-11.

297 Ibidem, p. 25. 298 Ibidem, pp. 101-102. 299

Demetrio Ramos PÉREZ, Las elites andaluzas ante el descubrimiento colombino: La acogida en el

retorno y la critica sobre lo descubierto, Granada, Excma. Diputación Provincial, 1983, pp. 50-51, in

István Szászdi LEÓN-BORJA e Katalin KLIMES-SZMIK, op. cit., p. 59.

300 Andrés BERNÁLDEZ, Historia de los Reyes Catolicos, cap. 131, in Martín Fernandez de

Álvaro de Bragança de tomar conta das rendas e dos assuntos das Índias, em finais de 1502, fornecendo um parecer favorável para que se fizessem as viagens de descobrimento à costa das Pérolas.301 Este facto vem demonstrado na carta de Cristóbal Guerra, navegador e comerciante espanhol, dirigida a D. Álvaro de Portugal, em 28 de setembro de 1503, dando conta da capitulação que determinava a viagem à região compreendida entre a foz do rio Orinoco e a baía de Santa Marta na atual Colômbia. O autor deste documento expressa claramente a sua preocupação sobre a desmotivação e pouca atratividade que estas viagens representavam para as gentes de Andaluzia.302 Cristóbal Guerra esperava a influência de D. Álvaro de Bragança para animar as gentes Andaluzas a participarem nesta viagem.303

No alvorecer do século XVI, o ritmo da afirmação do império castelhano contrastava com o sucesso da construção do império marítimo português. O plano estratégico no Índico, sob a direção do rei D. Manuel I, a partir de 1502, evoluía segundo duas orientações: alicerçar o comércio das especiarias e controlar as redes comerciais dos muçulmanos.304 No que respeita à estratégia relativamente ao Novo Mundo, depois de 1500, assistiu-se à destituição de Cristóvão Colon do cargo de Vice- rei para ter início um novo ciclo diretivo sob a responsabilidade de Nicolás de Ovando.305 Este comendador veio substituir no cargo de governador, Francisco de Bobadilla, conforme nomeação real de três de setembro de 1501, com amplos poderes administrativos e sob apertado controlo das autoridades reais, no contexto de uma conjuntura muito difícil que se vivia na ilha Hispaniola.306 Anos mais tarde, o rei Fernando, o Católico, viria a expressar o seu desagrado com a governação de Cristóvão Colon, referindo explicitamente a ausência de proveitos provenientes dessa ilha, através de carta real de 23 de fevereiro de 1512,307 dirigida a Diogo Colon, filho do almirante e de Filipa Moniz Perestrelo.

Sobre a argumentação da data do documento atribuída pelos historiadores István

                                                                                                                          301 Juan GIL, op. cit., p. 30.

302 Martín Fernandez de NAVARRETE, op. cit., tomo II, 1859, pp. 325-328. 303 AGI, Patronato Real 26, R. 3, in Juan GIL, op. cit., p. 47 (Nota 66). 304

João Paulo Oliveira e COSTA (coord.), José Damião RODRIGUES e Pedro Aires OLIVEIRA, op.

cit., p. 106.

305 Juan GIL, op. cit., pp. 30-31. 306

Esteban Mira CABALLOS, Nicolás de Ovando y los orígenes del sistema colonial español, 1502-

1509, Centro de Altos Estudios Humanistas y del Idioma Español, Santo Domingo, Patronato de la

Ciudad de Santo Domingo, 2000, p. 42.

307 Real Cédula a Diego Colón, Burgos, 23 de fevereiro de 1512, AGI, Indiferente General 418, L. 3, ff.

León-Borja e Katalin Klimes-Szmik, não merece qualquer objeção porque os factos correlacionados apontam para critérios verosímeis e coerentes. Quanto à potencial autoria do documento, atribuída por aqueles investigadores, a D. Pedro de Noronha, mordomo-mor de D. João II, os factos já não oferecem uma firmeza argumentativa. O memorialista demonstra uma total revolta para com o monarca, classificando-o de tirano e incitando a comportamentos de vingança em defesa daqueles que foram injustiçados pelo rei de Portugal. Em primeiro lugar, sob o ponto de vista cronológico, o ano de 1494 atribuído ao memorial não é compatível com a documentação que aponta o ano de 1492 para a morte de D. Pedro de Noronha. Este nobre exerceu o cargo de mordomo-mor de D. João II, comendador da Ordem de Santiago e do seu Conselho, até à sua morte, ocorrida em 1492.308 D. Pedro de Noronha desempenhou essas funções desde 20 de outubro de 1475, data determinada pelo recebimento de 20.000 reais brancos de tença, com início em janeiro de 1476.309 Depois de D. João II ter sido aclamado rei de Portugal, D. Pedro de Noronha mereceu a sua confiança que o manteve durante toda a sua vida como mordomo-mor, tendo ainda sido nomeado comendador-mor da Ordem de Santiago, em quatro de julho de 1487.310 Em quatro de setembro de 1487, D. João II fez-lhe doação do senhorio da vila de Vilar Maior, intitulando-o seu muito amado sobrinho, o que demonstra a afeição que o monarca nutria por este nobre.311 Mas em 14 de fevereiro de 1492, D. Pedro de Noronha já seria falecido, conforme carta de doação da vila do Cadaval, a seu filho D. Martinho de Noronha, na qual vem referido: «D. Pedro de Noronha, meu sobrinho, que Deus haja, e nosso mordomo mor que foi».312 Apesar das razões bem sustentadas por Istvan León-Borja e Katalin Klimes-Szmik, na identificação de D. Pedro de Noronha como o melhor candidato para a autoria do documento, a incompatibilidade cronológica sobrepõe-se com evidência.

                                                                                                                         

308 António Caetano de SOUSA, História Genealógica da Casa Real Portugueza. Desde a sua origem até o presente. Com as Familias Illustres que procedem dos Reys e dos Sereníssimos Duques de Bragança,

tomo III, Lisboa, Joseph António da Sylva, 1737, p. 125.

309 ANTT, Chancelaria de D. Afonso V, livro 6º, fl.95 v., in Anselmo Braamcamp FREIRE, Brasões da Sala de Sintra, Livro Segundo, 2ª edição de Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921-1930, Lisboa, INCM, 1973, p. 78.

310 ANTT, Livro 4º de Místicos, fl. 53 v., in Anselmo Braamcamp FREIRE, Brasões da Sala de Sintra,

Livro Segundo, pp. 78-79.

311

ANTT, Chancelaria de D. João II, livro 21º, fl. 35 v., in Anselmo Braamcamp FREIRE, Brasões da

Sala de Sintra, Livro Segundo, pp. 78-79.

312 ANTT, Livro 10º da Estremadura, fl. 131 v., in Anselmo Braamcamp FREIRE, Brasões da Sala de Sintra, Livro Segundo, p. 79.

Segundo o referido memorial, D. Álvaro de Bragança estava a par dos acontecimentos, concretamente, da audiência feita ao Papa Inocêncio VIII, em 1485, 313 não constituindo grande motivo de admiração, na sua qualidade de presidente do

Consejo Real y Alcaide de los Reales Alcázares de Sevilla.314

O memorialista também confessa ter estado presente na audiência ao Papa Inocêncio VIII e na presença de D. Jorge da Costa, cardeal de Portugal.315 Esta embaixada enviada ao Papa Inocêncio VIII, para além de D. Pedro de Noronha, contou também com a presença do Doutor Vasco Fernandes de Lucena, Rui de Pina, fidalgos, cavaleiros e outros membros da nobreza, qual comitiva apresentou uns pedidos em nome do rei D. João II que foram graciosamente satisfeitos, por intermédio de D. Jorge da Costa, servidor de confiança de Inocêncio VIII.316 Segundo a crónica de Rui de Pina, no que concerne à composição desta embaixada, torna-se evidente que são vários os potenciais candidatos à autoria do Memorial Portugués de 1494.

O cardeal de Portugal, conhecido por cardeal Alpedrinha, também merece uma breve referência. D. Jorge da Costa desde cedo que tomou algum receio de D. João II, mesmo ainda quando este era príncipe, o que o motivou a partir para Roma em 1479 e nunca mais regressou ao reino.317 De acordo com o testemunho de Duarte Nunes de Leão, na crónica do rei D. Afonso V, quando o então princípe D. João passeava na marginal em Santos, juntamente com o 3º duque de Bragança e o cardeal D. Jorge da Costa, pediu conselho sobre a receção que deveria prestar a seu pai, o rei D. Afonso V.318 O duque D. Fernando aconselhou-o então a recebê-lo como rei e como pai, ao que o príncipe respondeu com um lançamento brusco de uma pedra ao mar. Assistindo a este comportamento, o cardeal D. Jorge da Costa respondeu: «eu vos asseguro que ela não me dará na cabeça» e passado pouco tempo deu início ao seu périplo pela Cúria Romana.319 O príncipe D. João nunca prestou muita satisfação com a personalidade de D. Jorge da Costa, nem tão pouco concordava com as reverências que seu pai D. Afonso

                                                                                                                         

313 BNP, Reservados, Cód. 2912 A, foll. 31-32; BNP Reservados, Cód. 2913 A, p. 129 (transliterado). 314 István Szászdi LEÓN-BORJA, La Casa de La Contratación de la Coruña en el contexto de la política regia durante el reinado de Carlos V, La Coruña, Anuario da Facultade de Dereito da Universidade da

Coruña, 12, 2008, p. 907.

315 István Szászdi LEÓN-BORJA e Katalin KLIMES-SZMIK, op. cit., p. 25. 316 Rui de PINA, Chronica d'El Rey Dom João II, pp. 66-67.

317

Humberto Baquero MORENO, Uma carta do cardeal Alpedrinha ao Principe D. João sobre a

situação política da Itália em 1480, Separata da Revista de História, vol. I, Porto, Universidade Livre de

Portugal, 1984, p. 9.

318 Manuela MENDONÇA, Problemática das conspirações contra D. João II, p. 45. 319

V fazia a este prelado.320 Apesar de certa conflitualidade na relação entre D. João II e o cardeal Alpedrinha, regista-se a privança que este prelado gozou com os Papas Sixto IV, Inocêncio VIII, Alexandre VI e Júlio II, tendo sido relevante para a eleição de Inocêncio VIII, merecendo as seguintes palavras de Júlio II, no momento da posse da cadeira de S. Pedro: «Amigo esta cadeira a vós se devia e vós ma destes; eu serei Papa no nome e vós na realidade».321 Pouco antes de sua morte, o rei D. João II consciente de um sentimento de arrependimento e no quadro de um ato de contrição, deixou escrito um pedido de perdão ao cardeal D. Jorge da Costa, à rainha D. Leonor, sua esposa e à infanta D. Beatriz, sua sogra.322 Não constituindo objetivo desta dissertação o aprofundamento da vida e dos feitos do cardeal D. Jorge da Costa, releva-se o interesse do estudo desta figura, no contexto do período relativo à perceção do Império Português, particularmente nas negociações de Tordesilhas, cujos objetivos em prol dos interesses preconizados por D. João II contaram com a proteção inabalável do cardeal Alpedrinha, no seio da cúria papal.323

Paralelamente, o autor do memorial denuncia uma identidade com a antiga Casa de Borgonha, pelo desdém que expressa ao rei D. João I, fundador da dinastia de Avis, não obstante, demonstrar uma simpatia e proximidade com D. Álvaro de Bragança e com os membros da Casa de Bragança.324 Este nobre português foi o mais destacado e o mais brilhante da família de todos os nobres exilados em Castela.325 D. Álvaro de Bragança, inicialmente não foi considerado entre os suspeitos envolvidos na conspiração contra D. João II, de acordo com as crónicas de Garcia de Resende e de Damião de Góis. Mas desrespeitou as ordens régias, contrariando as indicações dadas pelo monarca português, de que não deveria estabelecer-se nem em Castela, nem em Roma mas permanecendo no reino vizinho, onde recebeu o senhorio de Gelves e a alcaidaria-mor de Sevilha, acabando por ser perseguido por D. João II.326 Apoiou o almirante Cristóvão Colon no diferendo que este teve com o comendador Francisco de Bobadilla quando este destituiu Colon dos seus cargos, em 1500. D. Álvaro de

                                                                                                                         

320 Garcia de RESENDE, op. cit., cap. XVIII, fl. x-xi.

321 Humberto Baquero MORENO, Uma carta do cardeal Alpedrinha ao Principe D. João sobre a situação política da Itália em 1480, p. 9.

322

Rui de PINA, Chronica d'El Rey Dom João II, pp. 191-192.

323 Manuela MENDONÇA, D. Jorge da Costa “Cardeal Alpedrinha”, Lisboa, Edições Colibri, 1991, p.

62.

324

István Szászdi LEÓN-BORJA e Katalin KLIMES-SZMIK, op. cit., p. 23.

325

Juan GIL, op. cit., p. 26.

326 Garcia de RESENDE, op. cit., cap. XLIII, foll. xxvi v.-xxvij, in João Paulo Oliveira e COSTA, O conde de Tentúgal e a linhagem dos Melos na política ultramarina manuelina, in João Paulo Oliveira e

Bragança, ficou de tal modo indignado pelo humilhante trato dado ao seu protegido, que chegou a ameaçar aquele cavaleiro da Ordem de Calatrava.327 Acresce-se ainda que este nobre foi cunhado da marquesa de Montemor-o-Novo, D. Isabel de Noronha, também exilada em Castela, onde ficou conhecida com o nome de D. Isabel Henriques. Esta nobre enfrentou solitariamente vários anos no desterro em Sevilha, mas permanece um mistério a sua residência definitiva nesta cidade.328 Entre as amizades de D. Isabel de Noronha ou Henriques, encontrava-se uma mulher chamada Briolanja Moniz, irmã de Filipa Moniz Perestrelo e portanto, cunhada de Cristóvão Colon. Não parece haver qualquer casualidade na movimentação do almirante nesse ambiente português em Sevilha.329 Excluindo a possibilidade de D. Pedro de Noronha, mordomo-mor de D. João II, ser o memorialista, não deixam de assumir particular interesse, as conexões da família Perestrelo com os Noronhas e por esta via relacionados com Cristóvão Colon. Esta rede de ligações familiares é ainda extensível à Casa de Viseu e de Bragança conforme desenvolvimento no subcapítulo que se segue.

Benzer Belgeler