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Tek Dereceli Seçim – İki Dereceli Seçim

F. Tek Dereceli Seçim İlkesi

2. Tek Dereceli Seçim – İki Dereceli Seçim

Fonte: Acervo - Velhochico.net/index_arquivos/Page%20870jjhtm Fotografia: Velhochico.net

O Mangal durante muito tempo foi local para o abastecimento dos vapores que passavam pelo São Francisco, aqui as embarcações paravam para o abastecimento de lenha. Essa prática existe desde o século XIX, na viagem de estudo do engenheiro Teodoro Sampaio, ele já faz menção a essa parada no porto de Mangal.

No dia 18 deixamos o Urubu32 em direção do Mangal, onde deveríamos

renovar a provisão de lenha para prosseguir rio acima. O Mangal não nos correspondeu á expectativa e foi mister procurar ponto mais azado, navegando um dia inteiro até o lugar Sítio do Matto, cerca de uma légua abaixo do rio das Éguas (SAMPAIO, 1905, p. 86-87).

É claro que a chegada do vapor era um momento de troca e venda de outros produtos, os moradores esperavam pelas embarcações com ansiedade e traziam para as barrancas do rio o que tinham para oferecer. A possibilidade de conseguir algum ganho em um local limitado pelo acesso às embarcações que aqui atracavam provavelmente era disputada entre os moradores para que pudessem vender algum dos seus produtos.

O vapor passava aqui tinha o porto de lenha ali (aponta para o local), ele lenhava aqui. É ai os vapozeiros encostavam ali, a gente que tinha imbu, assim na época eles saiam comprando, ovos de galinha a gente vendia, eles vinha procurar, vinha procurar, quem tivesse os ovos vendia, vendia tapioca, o beju, imbu, tudo vendia no vapor quando eles passavam.33

Falando sobre a presença dos vapores em Mangal, seu Juvenal traz suas memórias do tempo de menino, se recorda que também foi lenhador e que ajudou a cortar muita lenha, que servia como combustível para as embarcações. Ao falar de quando era criança conta que em determinado período o fazendeiro Avelino, grande criador de gado, matou muitos animais e as mulheres da comunidade tratavam das vísceras dos animais e cozinhavam o fato do animal depois de limpo.

Cortei muita lenha pra qui, ele parava ai no porto, carreguei muito no tempo deu menino, mais outro que era encarregado ai, chamado Ventura, comandava o porto do vapor ai, o Arvelino conheci muito, era dono dessa fazenda que tá aqui, onde foi a Vale Verde depois, passava na ida e na volta, era muito vapor, teve uma época esse Arvelino fez uma matança de gado ai pra cidade da Barra ai trouxe o matador da cidade da Barra pra matar o gado, aqui enfardou num fardo de esteira a carne salgada pra quando o vapor passar ai pegar, a finada minha mãe, mais a irmã dela, a mãe da mulher de Firminio, eram as tratadeiras dos fatos eu era menino, mais eu comi muito bofe de boi assado, era a noite toda, elas tratando esse fatos e salgando aquelas carnes, nesse tempo aqui tinha muito umbu, quando o vapor botava a cabeça naquela ilha lá eu saia aqui pegava mais os meninos pra vender, minha mãe ia pra beira do fogo fazia beju, tinha os passageiros, vinha aqueles marinheiros ali comprava o umbu, era bom de mais.34

O fazendeiro ganhava com o comércio de carne seca. Os moradores e trabalhadores

32 Urubu, ou Urubu de Cima, hoje é o município de Paratinga.

33 Lídia Guedes dos Santos. Entrevista concedida em 18 de março de 2013. 34 Juvenal Gomes dos Santos. Entrevista concedida em 27 de julho de 2012.

vendiam beiju, umbu, tapioca, lenha etc.

Seu Juvenal ainda se recorda com tristeza o tempo que o vapor foi acabando, as relações com o rio foram se modificando, modificaram-se também o modo de trabalhar, essas são percepções apontadas por ele com o fim da circulação dos vapores pelo rio. A construção de barragens, pelo rio São Francisco, no final dos anos setenta do século passado, foi um dos principais motivos para o fim da navegação dos vapores, em consequência disso à comunidade vivenciou nesse período uma nova faze de isolamento onde apareceram outras dificuldades.

O vapor foi acabando, foi cabando, foi cabando, ele compravam muito, não tinha horário não às vezes chegavam de noite, chegava de dia, não tinha horário, pegava lenha viajava, pegava vinte metros de lenha, saindo daqui o lugar que tinha era Angico, Paratinga, um lugar aqui que chama Garimã, outro lugar perto de Sítio do Mato eram só nesses lugar que eles pegavam a lenha, no tempo o beradão35 era fundo não tinha essas ilhas, o rio passava lá mais era direto,

tinha as vezes de passar dois vapor num dia, a meninada corria tudo pra beira do rio quando apitava o vapor, tinha uma cachorra, ela lá em cima quando o vapor pontava lá na ponta daquela ilha, ela já vinha na estrada o vapor chegava botavam aquela comida pra ela. Em dois mil e dez ainda passou um, o que reformou ele passou aqui, barca também tinha muita. Hoje tem essa Juriti, uma barquinha que eu vi passar um outro dia aqui, tinha tanta lanchona grande aqui, então foi acabando a navegação do rio São Francisco, roda essa que é a das placas, aquele rebocador falado, o rio foi secando não tem mais condições desses transportes navegar né, então de qualquer maneira as coisas foi diminuindo, aumentou umas coisas e diminuiu outras.36

Ao trazer a narrativa do tempo em que ainda era menino, Carlos Alberto Gomes, uma das lideranças da comunidade observa:

É porque o vapor parou de pegar lenha, inclusive o tirador de lenha levava os meninos, a gente pra ajudar a cortar a lenha pra botar no carro de boi, e ai quando parou foi muito ruim, nos ganhava alguma coisa do dono, ele vendia pro vapor e depois pagava a gente. E ai quando parou foi uma situação muito difícil.37

A relação com o rio São Francisco vai se modificando, mas a pesca continuou sendo importante.

Seu Juvenal traz em suas memórias de outros tempos onde a maioria das casas era construída nas barrancas do rio São Francisco, segundo ele “aqui tá muito mudado”, essas

35 Correspondem as barrancas do rio São Francisco.

36 Juvenal Gomes dos Santos. Entrevista concedida em 27 de julho de 2012. 37 Carlos Alberto Gomes. Entrevista concedida em 06 de outubro de 2013.

mudanças são decorrentes de períodos de vazante e também de grandes enchentes que o rio sofreu, principalmente no final dos anos 70.

Contei coisas que eu sei que eu vi isso aqui tem muita mudança, onde era terra aqui hoje é água, então pra quem viu, pra quem não viu, no meu tempo pra agora o que era aqui esse Mangal só as casa que tinha pra lá que eu nem alcancei, to vivo e nem alcancei, ai mesmo pra cá da casa de Isauro era casa da oficina, oficina de farinha pro lado do rio, depois essa oficina ela mudou, descendo aqui não tem um bar Beira Rio, de lá essa oficina mudou pra cá, eu era já mulecote naquele tempo, tinha muita roça, muita fartura de feijão, abobora.38

Seu Arnaldo, em sua simplicidade, narra o tempo dos mais velhos, as dificuldades que sofreram por parte dos fazendeiros que foram tomando suas terras, as proibições que vivenciaram nesse período, a luta e as conquistas para poderem chegar aos dias de hoje. Antes ocorre a perda de terra para o fazendeiro, depois do reconhecimento tem as terras para trabalhar, tranquilidade para viver na comunidade sem serem perturbados por ninguém.

Os mais velhos sempre plantava, a gente botava roça, a gente caçava um peixe, dai foi mudando de uns pra outros, ele morreu (se refere ao fazendeiro Arlindo), o genro dele tomou, a mulher dele que era dona dali do amansador e foi indo ficando, ai foi tocando serviço, foi encolhendo a gente caçar um peixe, foi encolhendo nós botar roça, ele vape direto, botou essa cerca aqui, ainda tem uns pau velho ai, botou essa divisa ali naquela beira de pau lá da beira do barranco (aponta) nós fiquemos só daqui pra li, nesse pedacinho até ali assim de lá pra traz tomou tudo, nos fiquemos aqui, até pra caçar um peixe, aqui tinha uns gerentes que abusava, e nós fiquemo aqui nessa presilha aqui, abafado igual farinha no saco, ai depois foi indo pura aqui pro acula, foi entrando essa lei e Deus abençoou nós fomos feliz, ganhemos essa terra de novo aqui toda, toda, o INCRA deu, hoje em dia nos tamos tranquilo, nós trabalha.39

Essa relação forte com o rio pode ser observada na imagem abaixo, mesmo com água encanada em casa, muitas mulheres ainda vão lavar as louças na beira do rio.

38 Juvenal Gomes dos Santos. Entrevista concedida em 27 de julho de 2012. 39Arnaldo Gomes Pereira. Entrevista concedida em 26 de Julho de 2012.