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3. LEAVITT YOL CEB˙IRLER˙I

3.5. Z-DERECE

Para ingressar em pesquisas históricas, direcionadas ao estudo do Império Romano tardio, particularmente sobre a administração imperial, tal como nossas fontes históricas solicitam, julgamos oportuno discorrer brevemente sobre algumas abordagens historiográficas veiculadas por pesquisadores e suas obras-referência contemporâneas a fim de que estabeleçamos os parâmetros a partir dos quais as narrativas sinesianas podem ser pensadas, entre eles, destacamos: o irlandês J. B. Bury (1861- 1927), o britânico A. H. M. Jones (1904-1970), o irlandês Peter Brown (1935 - ), a britânica Averil Cameron (1940 - ) e, finalmente, Liebeschuetz, os quais influenciaram uma gama significativa de pesquisadores e colaboraram para o refinamento temático a ser apresentado nesse capítulo. Não almejamos, com essas breves considerações, apresentar quadros sinópticos desses pesquisadores de cujas ideias, muitas vezes, discordamos ou problematizamos; ao contrário, demonstraremos o olhar dinâmico e criativo desses estudiosos que, em momentos históricos distintos, tiveram como objeto de estudos a administração imperial romana tardia. Observaremos, em linhas gerais, que fatores eles consideraram importantes, que aspectos foram negligenciados e como suas seleções foram influenciadas por correntes historiográficas. É, então, sob essa perspectiva, que repensaremos alguns trabalhos investigativos.

Até o fim do século XIX, a história do Império Romano do IV e V séculos estivera associada predominantemente às concepções de queda, fim ou declínio. Essa abordagem histórica se fortaleceu, tudo leva a crer, em razão da forte inclinação dos historiadores em explicar os desdobramentos históricos por meio de acontecimentos políticos. Para explicar o fim da Antiguidade e o início da Idade Média, por exemplo, verifica-se, até hoje, em livros didáticos de história, a demarcação do fim da unidade político-administrativa do Império Romano ocidental em 476, quando seria deposto o último imperador do Ocidente - Rômulo Augusto - e do Império Romano oriental em 1453 com a tomada de Constantinopla pelos turcos; acontecimentos históricos que detiveram pouca ressonância política até mesmo em sua época.

Advertimos que, com o estabelecimento desses marcos cronológicos, não se consideram, no limite, a complexidade e as dissonâncias do fenômeno histórico, nem o fato de que as periodizações derivam de interesses de historiadores específicos, ou, mais frequentemente, de um grupo de historiadores que elege determinadas vertentes interpretativas, como importantes, em determinado momento histórico.

Como tentativa de problematização tanto do enfoque eminentemente político quanto da periodização sugerida pela história tradicional – particularmente aquela surgida no século XIX – salientamos as duas obras de J. B. Bury, History of the Later Roman Empire: from the death of Theodosius I to the death of Justinian – História do Império Romano tardio: da morte de Teodósio I à morte de Justiniano, publicada em 1958, e A History of the Later Roman Empire: from Arcadius to Irene (395-800) – Uma história do Império Romano tardio: de Arcádio a Irene (395-800), publicada em 1966, em que, em ambas as obras, o historiador não se desvencilha do princípio de decadência do Império particularmente veiculado pelo inglês Edward Gibbon (1737-1794) em The History of the Decline and Fall of the Roman Empire – A história do declínio e queda do Império Romano, publicado entre 1781 e 1789, historiador com o qual Bury dialoga31. Tanto Gibbon quanto Bury sinalizam, como indícios

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É curioso observar que a despeito da manutenção da unidade político-administrativa do Império Oriental, as noções de decadência e declínio permanecem na historiografia. A nosso ver, tal perspectiva deriva da abordagem adotada pelos próprios pensadores romanos tardios que, por diferentes razões, mantiveram uma postura pessimista acerca das circunstâncias político-culturais em que estavam inseridos, tendência que foi reproduzida por historiadores

sobre a queda do Império, o abandono gradual da virtude cívica, o que possibilitou o ingresso expressivo de grupos étnicos não-romanos para assegurar a defesa do Império e a conversão ao cristianismo, que colaborou para o desvio de recursos humanos e materiais.

Além desses aspectos, Bury (1966, p. 308-09) acrescenta, o progressivo despovoamento do Império, o que comprometia a produção de bens e riquezas e, principalmente, a opressão do sistema fiscal, que ambicionava sustentar não só o crescente número de soldados romanos e não-romanos, mas também a organização administrativa. O pesquisador também se questionava sobre o motivo pelo qual o Império Romano do Oriente assegurou a unidade político- administrativa mais longamente, já que os motivos do declínio do Império, acima expostos, estavam em operação tanto no Ocidente quanto no Oriente.

Ainda sob abordagem semelhante a de Gibbon e Bury, no interior da qual este período de mudanças, em ambas as partes do Império, era visto como o último suspiro do passado clássico glorioso, destacamos o vasto trabalho de Jones, The later Roman Empire: a social economic and administrative survey (284-602) – O Império Romano tardio: um esboço social, econômico e administrativo (284 – 602) e The decline of the Ancient World – O declínio do mundo antigo (1966), no interior dos quais Jones destaca a significativa burocratização do Império Romano pós-Diocleciano, o gradativo esmaecimento da participação das famílias abastadas locais em ocupações cívicas, as quais eram designadas como bocas osciosas (1964, p. 1045), em razão da discrepância entre a pequena quantidade de produtores (camponeses) que sustentavam uma grande quantidade de citadinos, especialmente a aristocracia, bem como o agravamento da inflação no terceiro e quarto séculos, provocado pela intensa cobrança de impostos. Adicionado a isso, a Igreja e suas concepções filosófico-religiosas também emergiam, segundo o pesquisador, como causa do desequilíbrio da vida cívica, uma vez que a ascensão do cristianismo desarticulava os aspectos culturais em vigor desde o início do período imperial e desviava recursos materiais necessários à manutenção da estrutura administrativa e à defesa das fronteiras, como Bury já havia orientado. De maneira geral, assim como Bury, Jones arrola um conjunto

contemporâneos a nós, sem que houvesse um questionamento acerca da visão desses escritores tardios especialmente sobre a política imperial.

de elementos sócio-econômicos e administrativos que justificam o colapso da unidade política do Império Romano.

Particularmente em O Império Romano tardio (1964), Jones atribui às chamadas invasões bárbaras a principal responsabilidade pela queda do Império Romano do Ocidente e sustentou que a sobrevivência do Oriente se deveu ao intenso processo de burocratização, com especial atenção à cobrança de impostos, que incidiu sobre uma população mais numerosa e mais rica em oposição ao Ocidente (1964, p. 606; 1066). No entanto, delinear as causas da queda do Império não era o objetivo do estudioso, porquanto ele estava mais inclinado em explicar como o Império Romano Oriental se sustentou por tanto tempo.

Em relação à abordagem histórica empregada por Jones, Bowersock adverte-nos de que é possível falar do declínio de Atenas, dentro do Império Romano; ou o declínio de Roma, como cidade, depois do IV século, todavia os desdobramentos históricos dessas cidades não podem atuar como parâmetro para mensurar a saúde do Império, observado em sua totalidade (2000, p. 177- 8). Descobertas arqueológicas têm-nos mostrado que, na Antiguidade Tardia, tanto no norte da África quanto na Gália havia significativa prosperidade quanto ao uso da terra, logo inferimos que tais regiões não foram tão afetadas pela demanda de impostos que incidiam sobre as províncias do Império, o que não justifica a ideia generalizada de declínio.

Com isso, Bowersock orienta-nos a pensar no declínio, colapso ou fragmentação político-econômica de lugares específicos do Império, sem que haja generalização. Tornar-se-ia, por exemplo, ilegítima, a seus olhos, uma investigação histórica assentada em Sardes, uma cidade da Ásia Menor, como referência para pensar os aspectos político-culturais nas demais regiões do Império Romano tardio, tendo em vista as características singulares de cada província. Por tudo isso, o historiador advoga que o mundo da Antiguidade Tardia não pode ser visto como um mundo em declínio. Esta concepção se tornou inadequada, tendo em vista a heterogeneidade dos procedimentos político-administrativos nas diferentes províncias do Império. Bowersock acrescenta que, para pensar o momento histórico em questão, o termo adequado é transformação, reforma ou recolocação. Trata-se, no limite, de um

mundo em transição (2000, p. 180). Enfim, transformações ou mudanças nem sempre significa declínio, como muitos historiadores imaginavam.

A obsessão por estudos que abordam o fim do Império Romano tem sido, enfim, completamente alterada. Investigações históricas contemporâneas ambicionam, ao contrário, negar tal processo de decadência, orientado em grande medida pela ótica da teoria de Gibbon. No entanto, essa vertente interpretativa só se consolidou, na historiografia brasileira, a nosso ver, com a publicação do livro póstumo do francês Henri-Irénée Marrou (1904-1977), Décadence romaine ou antiquité tardive ? – Decadência romana ou antiguidade tardia ? (1977), no interior da qual o estudioso salienta as rupturas e continuidades que singularizam a sociedade romana do IV, V e VI séculos, tendo em vista seus aspectos culturais e estéticos em oposição a uma abordagem que demarcava o retrocesso cultural e a crescente integração dos germanos no Império como fator de fragmentação da unidade político- administrativa da sociedade romana tardia. Em geral, Marrou (1977, p. 13) dedicou-se a estudos que consideravam o intercâmbio cultural entre cristãos e não-cristãos, no período em questão, e enveredou sua análise aos modos de produção dos discursos, isto é, dedicou-se ao estudo das estratégias retóricas que sustentavam a veiculação das ideias por pensadores de ambos os grupos filosófico-religiosos. Importa-nos ressaltar, diante disso, que o estudioso colaborou para disseminação de uma tendência historiográfica voltada para valorização dos aspectos culturais e dos aspectos retóricos a partir dos quais os discursos eram compostos entre os séculos IV e VI.

Peter Brown, por sua vez, em The World of Late Antiquity (1971) – O mundo da Antiguidade Tardia – e Power and Persuasion in Late Antiquity: towards a Christian Empire – Poder e Persuasão na Antiguidade Tardia: em direção a um Império cristão (1986), possivelmente influenciado pelas discussões da chamada Nova História e da valorização dos estudos sobre a análise do discurso no campo da História, empreendeu uma nova visão sobre o período pós-constantiniano, em que a sociedade romana tardia deixou de ser vista como uma continuação linear e unidirecional do chamado mundo clássico, embora se remetesse a ele por meio de diferentes perspectivas.

Adicionado a isso, Brown mantém a vertente culturalista, enunciada previamente por Marrou (1977), bem como o olhar dirigido à produção do

discurso. Tal obra influenciou sobremaneira as pesquisas acadêmicas brasileiras sobre o Império Romano tardio, dado que alude a uma pluralidade de temas, tais como religião, arte, gênero, modelos de vida social bem como a interrelação entre estes tópicos. Tais pesquisas nos legaram uma compreensão mais aprofundada da extensão das dissensões sociais da sociedade romana tardia e despertou nosso interesse em relação a tópicos importantes, a saber: o papel do homem santo (holy man), a origem e os desdobramentos da vida monacal, o culto de relíquias e suas implicações políticas, a cristianização da sociedade, a adoção pela sociedade em geral de discursos cristãos, o papel organizacional de ritos e cerimônias, as vantagens e desvantagens da corrupção e suborno na vida pública, a confluência de aspectos religiosos a serviço da construção da imagem de imperadores, entre outros.

Além disso, com Peter Brown e seus seguidores, fortalece-se uma escola histórica inclinada a uma investigação de caráter sincrônico, ou seja, menos preocupada com a cronologia dos eventos e também menos inclinada a questões político-administrativas e econômicas, que foram centrais para a história do Império. Outro aspecto digno de reconhecimento se dirige ao aprofundamento sobre as estratégias retóricas que subsidiam a produção dos discursos e sua relação com a filosofia e a política. Por fim, salientamos o fortalecimento da expressão Antiguidade Tardia para os estudos dos séculos IV, V, VI e VII, em oposição a Baixo Império Romano ou Primeira Idade Média.

De acordo com o historiador brasileiro Ronaldo Amaral (2008, p. 3-6), o rótulo Baixo Império corrobora a ideia de crise, decadência, fim ou colapso do Império Romano, porquanto o vocábulo baixo, em oposição a alto, denota aquilo que é decadente, debilitado ou decrépito. Para estudiosos que defendem a existência de traços característicos e essencialmente medievais, na sociedade romana tardia, pode-se adotar o termo Primeira Idade Média. Ambas as expressões acima mencionadas, adotam como parâmetros, respectivamente, o esboroamento de traços da Antiguidade e, em tese, o surgimento de traços da medievalidade. Já a expressão Antiguidade Tardia valoriza as especificidades históricas da sociedade romana entre os séculos IV e VIII, sem que esse período seja compreendido sob a ótica da Antiguidade Clássica como se houvesse desdobramentos históricos lineares e contínuos.

Convém ressaltar, no entanto, que o primeiro passo acerca do emprego da expressão Antiguidade Tardia, no meio acadêmico, foi dado pelo alemão Alois Riegls com o primeiro volume de Spätromischen Kunstindustrie – Indústria artística dos romanos tardios, em 1901. De fato, Riegl atribuiu uma unidade ao estilo de época da Antiguidade Tardia (Spätantike) tendo em vista as inclinações artísticas de momentos históricos anteriores. Em vez de enxergar um período decadente, Riegl evidenciou a autonomia do processo estético por meio da concepção de tradição de Estilo-Época de Burckhardts e Wölfflins (HERZOG, 2002, p. 336). Segundo Reinhart Herzog (2002, 337), as predileções artíticas, defendidas por Riegl, para caracterizar as especificidades da sociedade romana tardia, disseminou-se pelas ciências humanas, entre elas, a Filosofia, Teologia, Direito e, por fim, a História.

Em 1993, a britânica Averil Cameron publicou The Later Roman Empire, 284-430 – O Império Romano tardio, 284 – 430; e The Mediterranean World in Late Antiquity, 395-600 – O mundo mediterrâneo na Antiguidade Tardia 395- 600, em ambas as obras a historiadora nos apresenta uma síntese tanto da produção historiográfica do século XX sobre a então chamada Antiguidade Tardia, quanto de temas específicos a serem aprofundados no campo da história social, especialmente, do Império Romano Oriental. Trata-se de dois grandes manuais úteis à introdução dos estudos sobre o momento histórico em questão.

Assim como Brown, Cameron tangencia, nessas obras, tópicos de história social, cultural, política e militar bem como se preocupa com questões atinentes à análise de discurso e à linguagem na escrita da História. Ela define discurso como todas as estratégias retóricas e formas de expressão que eu considero ser particularmente características da escrita (...) (CAMERON, 1991, p. 5). Pode-se perceber, ainda que vagamente, em sua concepção de análise documental, contribuições de Foucault no que diz respeito a concepções de formação discursiva e práticas discursivas bem como estratégias desconstrutivistas de Derrida. O princípio básico da análise documental empregado por Cameron consiste em ler as fontes históricas principais, objeto de investigação do historiador, em consonância com outros documentos históricos, a partir dos quais se torna possível apreender códigos culturais que dialogam ou influenciam os textos com os quais trabalhamos (1989, p. 4-5); por

isso tais obras perfazem um excelente material de consulta acerca das fontes históricas escritas entre os séculos IV e VII e os possíveis diálogos que estabeleciam entre si, especialmente, no campo da retórica.

Sua abordagem histórica destaca as continuidades da sociedade romana tardia em relação ao passado greco-romano em detrimento das rupturas ou descontinuidades. Em vez de ancorar suas observações sobre o Império Romano tardio na centralização e opressão da administração imperial, na excessiva corrupção administrativa, na opressão fiscal, no irracionalismo religioso, na fraqueza militar e no declínio cultural, abordagem adotada por muitos de seus contemporâneos, Cameron propõe um Império tardio conectado ao seu passado, isto é, com fortes reminiscências econômicas, culturais e político-administrativas do início do Império. Até mesmo a emergência do chamado cristianismo ortodoxo como orientação religiosa oficial, já que legitimada pelo imperador e por bispos em concílios, é explicada em circunstâncias históricas e condições de produção do discurso que pressupõem continuidades e mudanças graduais.

No que diz respeito às mudanças político-administrativas, ela menciona, em O Império Romano tardio, a reforma do exército (1993, p. 53), o sistema de impostos (p.36-8), a cunhagem de moedas (1993, p. 38-9) e a burocracia (p.39- 41; 53). A historiadora também admite que a fragmentação política do Ocidente relaciona-se a fatores políticos e econômicos, tais como recrutamento e estabelecimento de bárbaros federados, falta de legitimidade política dos imperadores ocidentais, perda de recursos, concentração de poder na categoria senatorial, além da fragilização do exército (1993, p. 190). No que tange ao Oriente, a pesquisadora salienta o vigor econômico e a dinâmica cultural e política de diversas províncias romano-orientais por meio de pesquisas arqueológicas recentes. Outro aspecto digno de reconhecimento dirige-se à ênfase na vida urbana, especialmente da plebe urbana, distribuição de cereais, jogos, motins, festivais religiosos, discussão em espaços públicos bem como outros tópicos que instigaram novos pesquisadores a aprofundar estudos sobre a cultura cívica na Antiguidade Tardia.

Outro pesquisador britânico que contribui para o desenvolvimento de pesquisas sobre aspectos político-administrativos do Império Romano chama- se Wolfgang Liebeschuetz que em Antioch: City and Imperial Administration in

the Later Roman Empire (1972) – Antioquia: cidade e administração imperial no Império Romano tardio – e em Decline and Fall of the Roman City (2001) – Declínio e queda da cidade romana - traz novamente à cena historiográfica o que Brown e Cameron apontavam como visão pessimista do Império Romano tardio. Em ambas as obras, Liebeschuetz noticia o significativo fortalecimento da administração central quanto a suas atribuições político-administrativas e número de funcionários em oposição à importância das cidades. Sobre elas, ele declara que o declínio é, expressivamente, a única palavra para exprimir o que aconteceu (2001, p.29). Sua investigação diferencia-se, no entanto, de Jones (1966) no que tange à precisão com que diagnosticou, em diferentes regiões e por diferentes motivos, o declínio das instituições políticas provinciais, o abandono de construções urbanas, a estagnação econômica, o empobrecimento de famílias abastadas provinciais e a diminuição de suas contribuições à promoção de jogos e festivais públicos, disputas político- religiosas bem como a freqüência com que sublevações urbanas ocorriam.

No âmbito das instituições citadinas, Liebeschuetz salienta o fato de que as cidades eram dominadas pela aristocracia local, ou seja, grandes proprietários de terra ou oficiais locais, designados pela corte imperial, que, em grande parte, era isenta de impostos em decorrência dos serviços prestados aos concílios municipais, fator que contribuiu para a concentração de riquezas nas mãos de famílias abastadas. No interior desse contexto, influências pessoais se sobrepunham às atribuições das instituições cívicas e, nas cidades orientais, o fim do controle dos curiais também significou o fim do controle citadino de acordo com um estatuto conhecido e aceito (2001, p. 121).

Tal como já havia defendido Jones (1964, p. 448-62), Liebeschuetz sustenta que, após as reformas do imperador Diocleciano, estabeleceu-se um rigoroso sistema de tributação, com elevados tributos, pagos em parte em espécie. A responsabilidade pela arrecadação de impostos recaía por sobre os decuriões. Eles eram obrigados não só a coletar os tributos, mas também a dispor de grande parte do tempo administrando a arrecadação, o transporte e o armazenamento das mercadorias coletadas, o pagamento de salários bem como o registro dessas movimentações (BROWN, 1992, p. 53-8). Se algo estivesse errado, os decuriões estavam sujeitos a castigos corporais ou reporiam o déficite com suas próprias riquezas, situação que, segundo os

pesquisadores, colaborou tanto para o empobrecimento das elites locais que compunham o decurionato quanto para o aumento das estratégias de fuga do exercício da função (JONES,1992, p. 6).

Essas dificuldades contribuíram para a desmoralização da categoria dos curiais; desmoralização entendida como perda da capacidade de os curiais representarem suas cidades, representatividade política que passou a ser exercida por principales e honorati32, como esclareceremos no próximo

capítulo. Para a administração imperial, esse foi um perigoso desenvolvimento, pois os curiais eram considerados a alma de suas cidades, porquanto a arrecadação de impostos perfazia um importante papel como centro de distribuição de recursos econômicos, a saber: pagamento de serviços civis e do exército. Diante dessas circunstâncias históricas, o historiador esclarece que bispos e clérigos – mais no Oriente do que no Ocidente - preencheram o vácuo político derivado da perda de legitimidade política de líderes políticos locais e a

Benzer Belgeler