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O Estado Democrático de Direito requer a conformação de um modelo de devido processo legal apropriado ao fenômeno da constitucionalização do Direito. A superação de anacrônicas teorias processuais, inclusive daquela que trata o processo como relação jurídica, é essencial para a delimitação de uma jurisdição que não coloque o juiz em posição de superioridade em relação às partes ou à sociedade.

Nessa toada, o modelo atual de devido processo legal, constitucionalmente adequado à democracia moderna, ultrapassa a mera concepção de vínculo jurídico entre os sujeitos processuais (seja de subordinação ou de coordenação). Diferentemente, o due process

of law de um Estado Democrático de Direito é concebido como um procedimento direcionado

ao resguardo dos direitos e das garantias processuais de índole constitucional, como forma de expressão da democracia, da cidadania, da soberania popular, da dignidade da pessoa humana, enfim, da força normativa da suprema Constituição.

Os anseios populares clamam que o devido processo legal transpasse a órbita

garantista, para que alcance também uma aptidão de natureza realizadora. Processo justo e democrático, sob a ótica do Estado Democrático de Direito, é aquele que, além de garantir às

partes o exercício de seus direitos processuais, também realiza transformações práticas que permitem à parte exitosa o concreto gozo do bem jurídico a que faz jus.

De nada adianta um processo que respeite ao máximo a garantia do contraditório, se a parte exitosa não obtém o concreto usufruto do direito material que lhe foi reconhecido. De maneira semelhante, um processo absolutamente célere e eficaz, mas no qual tenha sido proferida uma decisão totalmente desconectada das alegações e provas das partes, também não atende aos ideais de um Estado Democrático de Direito.

Não basta, é certo, um processo realizado em simétrica igualdade de oportunidades entre as partes, cuja decisão é objetiva e racionalmente fundamentada, proferida por um juízo natural, porém sem aptidão alguma para produzir modificações concretas na prática social. Faz-se necessário, na verdade, que a decisão judicial tenha sido motivada através da influente participação das partes, bem como que seja apta a possibilitar o efetivo gozo do bem jurídico tutelado, como consequência de um processo realizado em simétrico contraditório entre as partes.

É por isso que, a nosso ver, o processo justo deve conciliar o resguardo das mais básicas garantias processuais – retratadas pelo contraditório, pela ampla defesa, pela motivação das decisões judiciais e pelo juízo natural –, com a necessidade de imprimir real efetividade à tutela jurisdicional. O juiz se legitima pela fundamentação constitucionalmente séria de sua decisão, proferida em paritário e influente debate entre os interessados, com o objetivo de assegurar efetividade à tutela jurisdicional.

Não há, nessa afirmativa, qualquer paradoxo ou incongruência lógica. Ao revés, o contraditório e a motivação das decisões judiciais, como ferramentas de controle da atividade jurisdicional, constituem garantias fundamentais intimamente relacionadas a uma concepção de efetividade processual destinada à plena concretização das normas constitucionais, das liberdades públicas e dos direitos fundamentais.

Disso decorre a impossibilidade – ou melhor, a proibição – de que juízes supostamente fundamentem os provimentos jurisdicionais com base em suas crenças pessoais, opiniões e ideologias particulares, juízos axiológicos, na sua própria vontade ou em qualquer outro elemento subjetivo de convicção ou sensibilidade do julgador. O modelo constitucional de devido processo legal se contrapõe veementemente a um indevido processo sentimental, que privilegie o decisionismo judicial e a colocação do juiz como um sujeito processual solipsista, protagonista e soberano, cuja função é desvinculada da atividade das partes.

Nesse contexto, a crise que assola o sistema judiciário nacional não pode servir de pretexto para a eliminação das garantias constitucionais do processo justo, as quais legitimam o exercício da função jurisdicional. A realização do processo justo, como fundamento democrático da jurisdição, reforça o papel cívico dos juízes de protetor e de concretizador dos direitos fundamentais e dos anseios populares.

De fato, a magistratura exerce uma indeclinável função social. É premente a efetivação da garantia constitucional do acesso à justiça, que resulte em uma maior aproximação dos juízes com os cidadãos. A democratização do Judiciário requer a plena concretização da cidadania, por intermédio de uma prestação jurisdicional que prime pelo absoluto respeito ao devido processo legal.

Nesse contexto, torna-se imperativa uma mudança da mentalidade cultural dos agentes jurídicos, assim como uma melhoria da administração da justiça e da política gerencial do Judiciário, que tenham como objetivo o aprimoramento dos serviços judiciários destinados a materializar o acesso à justiça e a efetividade da tutela jurisdicional. A inaceitável morosidade da prestação jurisdicional não se coaduna a uma gestão eficiente e eficaz do serviço público jurisdicional. A concretização de um Estado Democrático de Direito relaciona-se à necessidade de realização, na prática social, do direito fundamental ao processo justo, que torne realidade uma prestação jurisdicional efetiva, adequada e tempestiva.

É preciso, outrossim, superar o dogma do formalismo do processo. A superação da teoria pela prática, da forma pela matéria, é imprescindível para que se obtenha a efetiva realização prática de um processo envolto nas mais elementares garantias processuais. Torna- se urgente a atribuição de um conteúdo prático ao direito fundamental ao devido processo legal, com vistas à obtenção de uma decisão jurisdicional racionalmente motivada e apta a transformar a realidade social, proferida tempestivamente por um juízo natural, no âmbito de um processo que assegura o contraditório e a ampla defesa.

Decisão jurisdicional legítima, portanto, é aquela que respeita simultaneamente as garantias constitucionais do processo, sinteticamente consideradas:

a) o contraditório, retratado pela construção do provimento por meio da influente e cooperativa participação dos interessados, no âmbito de um procedimento realizado em simétrica paridade e em igualdade de amplas oportunidades de defesa;

b) a motivação racional e objetiva, retratada por um público provimento, exarado por um juízo natural, que seja fundamentado não só com base em todas as lícitas alegações e provas deduzidas pelas partes, como também de modo coerente e íntegro com a história

institucional da sociedade, sendo vedada a utilização de convicções particulares ou de íntimos sentimentos de justiça do julgador;

c) a efetividade da tutela jurisdicional, retratada por um processo estruturado de forma adequada e tempestiva (com razoável duração), que seja apto a materializar as normas constitucionais e os direitos e as garantias fundamentais (vedação ao retrocesso, entrenchment ou eficácia non cliquet), de modo a transformar a realidade social e a possibilitar que a parte exitosa tenha condições de usufruir, na prática, do direito material que lhe foi reconhecido.

Nesses termos, o due process of law consiste em autêntica manifestação da democracia. Além disso, ao impor o exercício da função jurisdicional em nome do povo e ao possibilitar a ampliação do acesso dos cidadãos à jurisdição, o processo justo é também expressão dos princípios constitucionais da cidadania e da soberania popular, combinados sob a ótica de tutela à dignidade da pessoa humana e de supremacia da Constituição.

Dentro de uma perspectiva constitucional, o devido processo legal, como garantia basilar da sociedade, aparece como o fundamento de legitimidade da jurisdição, freando e contrapesando o exercício da atividade judicante pelos magistrados. A legitimidade da função jurisdicional, em um regime democrático, deve ser concebida a partir das garantias constitucionais que compõem o processo justo, as quais, justamente porque fundamentam a atividade judicante, também legitimam a função jurisdicional.

Em síntese, a justificação democrática das decisões judiciais decorre de um modelo constitucional de devido processo legal que represente a imperatividade das garantias processuais constitucionais. Na perspectiva da jurisdição, processo justo é a própria Constituição, norma suprema que conforma, limita, fundamenta, enfim, legitima a jurisdição.

Benzer Belgeler