1.5. Yığma Yapılarda Hasar Biçimleri
1.5.3. Deprem Hasarı
Como o período que deveria ser investigado pela CNV era muito extenso (1946-1985), o grupo estimulou a criação de outras comissões regionais e setoriais nos estados, universidades e demais instituições interessadas em auxiliar a pesquisa. A partir disso, foram criadas Comissões da Verdade estaduais em diversos estados como São Paulo, Pernambuco, Paraná, Paraíba, Minas Gerais, entre outros. O mesmo ocorreu no Rio de Janeiro, que por meio da lei nº 6.335/2012, instituiu a Comissão Estadual da Verdade (CEV-RIO).
Os trabalhos iniciaram em 8 de março de 2013. Foram escolhidos pelo então governador Sérgio Cabral para integrar o colegiado o jornalista Álvaro Caldas, ex-membro do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) e ex-preso político; a advogada Eny Moreira, defensora de presos políticos que participou do Projeto Brasil Nunca Mais; o sindicalista Geraldo Cândido, ex-senador da República; o advogado João Ricardo Dornelles, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio); o advogado Marcello Cerqueira, também defensor de presos políticos e vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) em 1964; e a advogada Nadine Borges, ex-coordenadora da CEMDP e
assessora da CNV.245 Para a presidência da CEV-RIO, foi nomeado o advogado Wadih Damous, então presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos da OAB e ex-presidente da Seccional do Rio de Janeiro da OAB por dois mandatos (2007-2012).
A composição de membros da CEV-RIO guardava semelhança ao perfil da própria CNV. A maioria dos integrantes eram profissionais do Direito, mas ocorreram algumas sginificativas diferenças com as escolhas do jornalista Álvaro Caldas e do sindicalista Geraldo Cândido. Caldas, por exemplo, havia sido vítima do regime, torturado no Batalhão da Polícia do Exército do Rio de Janeiro em 1970, que ainda naquele ano daria espaço para a instalação do DOI-CODI. Na legislação fluminense não foi vetada a nomeação de presos políticos ou familiares como membros do grupo. Por isso, foi possível que o jornalista, autor de um livro sobre sua experiência no cárcere, pudesse integrar oficialmente os trabalhos.
Do mesmo modo que ocorreu na CNV, a CEV-RIO tinha um mandato de dois anos determinado por lei e foi contratado um grupo de pesquisadores para auxiliar as investigações sobre as violações de direitos humanos. No Rio de Janeiro, segundo o Relatório Final da CNV, existiram, ao menos, nove locais utilizados como cárcere de opositores políticos pelas Forças Armadas ou de Segurança Pública. Além disso, a capital fluminense era sede dos centros de inteligência da Marinha, do Exército e da Aeronáutica.
Com experiência em reportagens investigativas sobre o período, o jornalista Marcelo Auler foi contratado como assessor da CEV-RIO. Segundo Auler, ele já apurava informações sobre o desaparecimento de Rubens Paiva desde o início de 2013. Nessa época, trabalhando como repórter freelancer para a revista Carta Capital, ele buscou contato com os agora capitães Jacy e Jurandyr Ochsendorf e Souza. Sem sucesso, Auler telefonou para o general Raymundo Ronaldo Campos, capitão da diligência no Alto da Boa Vista em 1971, que aceitou conceder uma entrevista sobre o assunto. O resultado foi uma reportagem publicada em março de 2013 na revista Carta Capital.246
Nessa primeira conversa, o general não admitiu ter participado de uma farsa em torno
da versão divulgada pelo Exército sobre a “fuga” de Rubens Paiva da viatura conduzida por
Campos. Auler contou que, em uma conversa com o jornalista Elio Gaspari, foi aconselhado a
245 Em junho de 2014, a presidência foi assumida interinamente por Nadine Borges. Wadih Damous retomou a presidência em outubro do mesmo ano ficando até junho de 2015, quando Rosa Cardoso da Cunha é nomeada presidente da Comissão da Verdade do Rio. Rosa é advogada, atuou em defesa de presos políticos e foi membro da CNV. Em 07 de agosto de 2015, Vera Ligia Huebra Neto Saavedra Durão, jornalista e ex-presa política, juntou- se à equipe. Ver Estrutura da CEV-Rio, disponível em http://www.CEV-RIO.org.br/CEV-RIO/estrutura. Acesso em 20 jul. 2016.
manter contato com o militar para convencê-lo a falar sobre o que se passou dentro do DOI- CODI do Rio de Janeiro, em 1971. Alguns meses depois, Auler se tornou assessor da CEV-
RIO e “disse que estava fazendo o trabalho [caso Rubens Paiva] e o Wadih [presidente da CEV]
falou para continuar. Mas eles não queriam que eu, como assessor, fizesse contato direito.”247 Na visão do jornalista, os membros não queriam que ele assumisse sozinho compromissos sobre a permissão de anonimato nos depoimentos.
Auler fez pesquisas nos arquivos existentes e recuperou, no Ministério Público Militar, o inquérito movido entre 1986 e 1987. Depois disso, passou a entrevistar os envolvidos naquela investigação, conforme ficou registrado no Relatório Final da CEV-RIO.248 O trabalho era coordenado pelos membros Wadih Damous, presidente do grupo, e Nadine Borges. E, ao longo de dez meses, Auler contou que manteve diversas conversas por telefone com o general Raymundo Ronaldo Campos até que o mesmo aceitou recebê-lo em novembro de 2013. Nessa ocasião, o militar admitiu a farsa, depois que Auler disse a ele que:
Toda vez que surge o caso Rubens Paiva os três únicos nomes lembrados é o do senhor e o dos irmãos [sargentos Ochsendorf e Souza]. Porque para seu azar o seu nome ficou registrado no boletim de ocorrência da polícia do sequestro que não houve. Em 1978, eu levei a matéria, o senhor deve lembrar, o Fritz derrubou a tese do sequestro. É inverossímil. O senhor já imaginou que quando o senhor vier a falecer, seus filhos e seus netos vão continuar ouvindo
que foi o senhor que matou o Rubens Paiva?249
A conversa foi gravada e transcrita. Na semana seguinte, ainda em novembro de 2013, o jornalista e Wadih Damous estiveram novamente com o militar em sua casa para a leitura do depoimento e assinatura. Naquele momento, o general pediu sigilo de sua identidade, o que foi aceito pela CEV-RIO. De acordo com Marcelo Auler, alguns meses depois, o Grupo de Justiça de Transição do Ministério Público Federal do Rio ficou sabendo da existência do depoimento e também convocou Campos para ser ouvido no inquérito do caso conduzido pelo MPF. Marcelo Auler disse que, após a iniciativa dos procuradores, a CEV-RIO decidiu tornar o depoimento público – uma vez que o depoimento ao MPF servia para instrução de uma denúncia à Justiça Federal e não manteria a identidade de Campos em sigilo.
Depois de novo contato com o militar, Campos autorizou a divulgação de seu nome no documento. Assim, em 6 de fevereiro, o jornal de maior audiência da TV Globo, o Jornal
247 AULER, Marcelo. Entrevista de Marcelo Auler a Juliana Dal Piva. [S.l: s.n.], 7 abr. 2016
248 Além do contato com os militares, foram ouvidos durante a pesquisa o juiz auditor, Oswaldo Lima Rodrigues Junior, o procurador militar Paulo César de Siqueira Castro, o médico e ex-preso político Edson Medeiros e o chefe do JB à época, Walter Fontoura.
Nacional, veiculou uma reportagem a partir do depoimento do general Raymundo Ronaldo Campos, obtido com exclusividade junto à Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro (CEV-RIO).250 Na ocasião, a divulgação das informações não contou com audiência pública. O restante dos órgãos de imprensa e interessados tiveram acesso ao depoimento por meio do site da Comissão ou após solicitação por e-mail. No novo depoimento, o general admitiu que:
Na noite do dia 21 para 22 de janeiro de 1971, em dado momento, sem se lembrar da hora exata, o chefe do setor de operações que estava de plantão o Major Francisco Demiurgo Santos Cardoso, o chamou e disse, ‘olha, você vai pegar o carro, levar em um ponto bem distante daqui, vai tocar fogo no carro para dizer que o carro foi interceptado por terroristas e vem para ca’. Que chegou a questionar seu superior perguntando “ue, por quê?” tendo ouvido como resposta que era “para justificar o desaparecimento dum prisioneiro”. Que nesta hora o major Demiurgo não lhe deu o nome do prisioneiro e so depois, quando voltou ao quartel e preencheu o Mapa de Missão, e que foi informado de que se tratava de Rubens Paiva, motivo pelo qual no Mapa de Missão aparece o nome do preso político; que saiu do quartel sem saber o nome do preso político; que a justificativa para o desaparecimento do preso, segundo ouviu do major Demiurgo, foi que a pessoa que deveria estar no carro morreu no interrogatório; que não lhe foi dito em que condições esta pessoa morreu no interrogatório; que o major apenas informou “morreu, morreu, morreu no interrogatório.251
Até aquele momento, CNV e CEV-RIO faziam audiências públicas de modo coordenado e esses eventos sempre contavam com integrantes de ambas as comissões. Para citar apenas dois exemplos, em janeiro de 2014 os integrantes dos dois grupos fizeram uma visita de reconhecimento à Vila Militar do Rio de Janeiro e depois promoveram uma audiência pública conjunta para tomada de depoimentos de vítimas de tortura naquele local. Em dezembro de 2013, uma pesquisa da CNV produzida por pesquisadores da PUC-Rio sobre violações de direitos humanos no pós-golpe foi apresentada no auditório da Caixa de Assistência dos Advogados do Rio de Janeiro (Caarj), onde a CEV-RIO era sediada, e teve participação de membros de ambos os grupos.
No entanto, como já foi possível perceber, as investigações em si eram conduzidas de
modo separado. Marcelo Auler afirmou que a “Comissão Nacional da Verdade não falava com a gente e havia disputa”.252 Na prática, o assessor diz que não havia compartilhamento de
informações sobre as diligências e convocações realizadas sobre desaparecidos no Rio de
250 Militar desmente versão oficial para o desaparecimento de Rubens Paiva. Jornal Nacional. [S.l.]: Globo. Disponível em: <http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2014/02/militar-desmente-versao-oficial-para-o- desaparecimento-de-rubens-paiva.html>. Acesso em: 18 jul. 2016.
251 Depoimento do general Raymundo Ronaldo Campos à CEV-RIO (2013). Disponível em http://oglobo.globo.com/arquivos/Depoimento-Raymundo-Ronaldo-Campos.pdf. Acesso em 20 jul. 2016. 252 Idem.
Janeiro. Auler disse que só tomou conhecimento do depoimento do coronel Armando Avólio Filho, por exemplo, quando a CNV fez uma audiência pública em fevereiro de 2014, na divulgação do documento ao público.
Essa falta de coordenação entre os trabalhos da CEV-RIO e da CNV no caso Rubens Paiva se aprofundaria nos meses seguintes. Uma situação de difícil compreensão uma vez que os resultados que ambos os grupos procuravam eram semelhantes. Essa mesma separação se repetiu em relação ao inquérito conduzido no MPF, que também demonstrou independência total em relação aos trabalhos das comissões. No entanto, os procuradores tinham um objetivo diferente das comissões. Devido às suas atribuições constitucionais, o MPF possui prerrogativa funcional de processar os acusados pelo caso e, como também sentenciou a Corte Interamericana de Direitos Humanos, denunciá-los à Justiça.