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No capítulo quatro escrevemos sobre a importância do relacionamento entre mãe e filho no Japão, atentando especialmente para o fato da dedicação em tempo integral das mães japonesas como garantia de um futuro promissor aos seus filhos. Também aparece na educação infantil no Japão a questão da liberdade. Nesse país, quando as crianças ainda são bem pequenas elas têm uma enorme liberdade, e conforme vão crescendo, vão aprendendo, com o passar dos anos, as proibições e restrições impostas. Com relação à liberdade, segundo Camacho (1993, pg.78), no Brasil, as mães nipo-brasileiras demonstram uma postura mais aproximada da ocidental do que da oriental, ou seja, contrariamente à mãe japonesa, nos primeiros anos a mãe impõe uma disciplina mais rígida com receio que seus filhos tornem-se indisciplinados e à medida que vão crescendo irão adquirindo mais liberdade.

Camacho (1993, pg.78-79), relata ainda que a participação dos pais descendentes de japoneses na criação de seus filhos tem um papel secundário34:

As mães, muito mais que os pais, lembram de como se deu o processo de aprendizagem da fala, do caminhar, e do controle esfincteriano. Como já foi dito anteriormente, a presença delas junto às crianças é muito marcante, visto ser sua, a função de ensinar as normas de etiqueta, de orientar e acima de tudo, de incutir nelas o sentimento de obrigação e de responsabilidade, com a perspectiva de conduzir os filhos para o caminho da disciplina, da dedicação e da obediência.

O relato de um casal de nipo-brasileiros, descrito na dissertação de Camacho, aponta o que ocorre normalmente no trato com as crianças:

Ah...jogava pra mãe (risos). Eu ainda tenho uma criação machista de japonês que é a mãe que tem que cuidar, né? Hoje acho que não. Hoje seria diferente. Teria mais participação nesse sentido (H. K., 43 anos, comerciante, sansei, pai de três filhos)

Sua mulher, T.K., 42 anos, professora, nissei, diz que:

Hoje ele fala que ajudou a cuidar, mas eu não lembro que ele ajudou. Foi bem minha função mesmo. Ele podia até ficar com eles enquanto eu almoçava. Mas não foi significativo a ponto de ele ter participado na criação (...) (Camacho 1993 pg. 80)

No Japão as restrições ficam a cargo de advertências verbais e uma persuasão implícita, que nós denominamos “ensino subliminar’ no capítulo quatro. Segundo Camacho (1993, pg.83) as famílias nipo-brasileiras também não costumam recorrer ao castigo físico. A autora faz o seguinte relato sobre esse comportamento nas famílias destes descendentes:

Não é comum nas famílias nipo-brasileiras encontrar pais que castiguem fisicamente seus filhos; quando isso acontece, fica mais a cargo das mães. Uma advertência mais dura ou até um olhar mais severo são suficientes. O encaminhamento dos filhos para a direção traçada pelos pais se faz muito mais pela persuasão implícita e silenciosa do que pelas vias do castigo físico.

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Quanto à postura da mãe nipo-brasileira Camacho (1993, pg.89) ainda diz:

A mulher japonesa é educada para ser discreta, obscura, mas ao mesmo tempo, para ser forte, controlada e capaz de suportar tudo estoicamente. Pelo tipo de formação que recebeu, ela raramente grita, castiga fisicamente ou recomenda até a exaustão e com a freqüência da mãe ocidental. Sua ação sobre os filhos se dá muito mais através de exemplo ou do modelo, do que através das palavras.

A importante atribuição do papel da mãe na criação dos filhos é comum às mães japonesas tanto quanto às mães nipo-brasileiras. No Brasil, podemos considerar ainda mais uma atribuição dessas mães: a missão de educar seus filhos segundo os códigos japoneses, transmitindo valores culturais tradicionais entre as gerações.

Esse contato permanente da mãe com os filhos, faz dela um sujeito formador e detentor de significativo poder. Por estar restrita à mãe, a tarefa de educar, cuidar ou criar os filhos, acaba fazendo dela, a responsável direta pela transmissão dos valores, dos padrões de comportamento e dos princípios que ela própria havia herdado da mãe. Em outras palavras: a mãe nipo-brasileira educa seus filhos segundo os códigos japoneses, reproduzindo a educação embasada nos moldes que recebeu de sua mãe e que por sua vez, recebeu de sua avó. A transmissão dos valores e traços culturais japoneses se faz, portanto, basicamente através da mãe. (Camacho 1993 pg. 87-88)

Como vimos anteriormente, no Japão as crianças aprendem desde cedo que são responsáveis por seus atos e conseqüências. Na pesquisa feita por Camacho (1993, pg.89-90) percebemos que as crianças nipo-brasileiras também são criadas com este sentimento. Sobre isto, a autora diz:

Apesar do contato direto e constante entre mãe e filhos, o diálogo é problemático. Desde muito cedo, a mãe ensina a seus filhos que a responsabilidade e o cumprimento das obrigações são valores indispensáveis. Desde pequenas, as crianças nipo-brasileiras sabem que são responsáveis por seus atos e pelas decorrentes conseqüências. Por isso, desde muito cedo, os nipo-brasileiros aprendem a resolver seus problemas, sem recorrer aos adultos (à mãe, mais especificamente). É raro exteriorizarem ou mesmo procurarem os pais para um diálogo em busca de soluções para questões de cunho pessoal. [...]

Por meio dos depoimentos colhidos, Camacho (1993, pg.91) percebe o seguinte: “O

grupo de mães que delegam afazeres domésticos a seus filhos estão convencidas e convencem eles de que a responsabilidade e o cumprimento dos deveres começam em casa e são posteriormente transferidos para o contexto social mais amplo.”

Esse tipo de atribuição não acontece em todas as famílias entrevistadas, mas mesmo aquelas que não delegam tarefas domésticas aos filhos, advertem constantemente sobre suas responsabilidades. No caso de crianças que não ajudam em casa, a cobrança fica evidenciada nos resultados escolares, como ilustra o depoimento abaixo:

R.I., 46 anos, mãe de dois filhos, faz doces e salgados sob encomenda, não tem empregada, declara que:

Eles não precisam fazer nada, sempre só estudaram. Por isso, que a obrigação deles é estudar. Eu sempre falei, eles têm que tirar mais que 7,0, porque eles não têm nada pra fazer em casa. Só estudar. Então, menos que 7,0, eu não aceito muito não, porque eles têm o dia inteiro, não faz nada. (Camacho 1993 pg. 91-92)

Sobre a intencionalidade das atribuições domésticas aos filhos, ou não, Camacho (1993, pg. 93-93) chega à seguinte conclusão:

Concluo que não importam os caminhos percorridos, o que importa é o objetivo proposto, ou seja, formar um indivíduo responsável, sério e comprometido com a realização dos seus deveres. O grande segredo em jogo é a capacidade da mãe de fazer com que seus filhos compreendam e assumam esse objetivo proposto. Realizando ou não as tarefas domésticas, os jovens acabam por entender que sua meta última e definitiva é a educação escolar que lhes abrirá os caminhos para o futuro do sucesso profissional. A mãe desde muito cedo, transmite aos filhos o alto valor que ela confere à educação. O resultado disso é o desempenho escolar bem sucedido.

Benzer Belgeler