• Sonuç bulunamadı

Sumariamente, traçaremos um panorama histórico da evolução do pensamento científico ao longo dos séculos. Essa condição tende a situar-nos à época da publicação da obra e, com isso, facilitar o entendimento das argumentações defendidas por Augustus De Morgan.

A ciência, como defendida anteriormente, apresenta-se como um dos elementos mais essenciais do ser humano desde a mais remota das civilizações. Mas, de início, não existia um conceito formalizado para “ciência”. O que se instaurou foi a necessidade de descrever e explicar o sistema do mundo em sua totalidade. Assim, para que um sistema ao qual somos expostos “faça sentido”, é necessário indagar as crenças, tradições e sentimentos que alimentam implicitamente nossa existência, de modo que essa atitude especulativa mantenha distância da vida cotidiana e vislumbre para além dela (CHAUÍ, 2000). Com efeito, durante algum tempo a “ ciência” era chamada de “filosofia natural”, em virtude de estar atrelada à curiosidade do Homem acerca da Natureza, motivado por uma necessidade prática, ou mesmo por um fascínio pelo conhecimento.

Ou seja, o surgimento da filosofia resguarda a “decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as idéias, os fatos, as situações, os valores, os comportamentos de nossa existência cotidiana; jamais aceitá-los sem antes havê-los investigado e compreendido” (CHAUÍ, 2000, p. 12).

As primeiras filosofias começaram a aparecer e a se espalhar por lugares esparsos do globo em meados do século VI a.C. como consequência do amplo comércio difundido entre as várias civilizações, bem como pelas trocas culturais e conhecimentos que essas viagens comerciais proporcionavam. Nesse âmbito, a civilização grega desempenhou um papel importante, pois, ao instituirem um método de análise para compreender o Universo,

elaboraram as primeiras teorias científicas da Natureza ou cosmologia. Essa atitude atuava ora contrária ao senso comum, dizendo “não” aos pré-conceitos, aos pré-juízos, aos fatos e às idéias da experiência cotidiana; ora interrogativa, indagando sobre “o quê” e o “porquê” das coisas, das idéias, dos fatos, das situações, dentre outras; essencialmente, vivendo a filosofia (CHAUÍ, 2000).

Aliado a essas percepções, Chauí (2000, p. 43) destaca que “a filosofia manifesta e exprime os problemas e as questões que, em cada época de uma sociedade, os homens colocam para si mesmos, diante do que é novo e ainda não foi compreendido”. Dessa forma, o fato de a filosofia não aceitar, em princípio, o que é atribuído como verdade ou o que não seja compreensível, pode caracterizar uma aparente contradição e sugere uma investigação íntima do objeto. A conclusão, pelo menos a priori, é que, por trás desta aparente contradição, a verdade se escondia latente, a espera de ser descoberta, revelada. Nesse sentido, o movimento sistemático de compreensão dos fatos, envolvendo questionamentos e reflexões intelectuais acerca de determinado objeto de investigação, estabelece-se como a condição geradora para o início da pesquisa científica. Esse tipo de manifestação crítica ou filosófica deverá, eventualmente, promover uma reeducação geral do olhar e do pensar, o que, em outras palavras, significa afirmar que a filosofia constituiu o alicerce para a idéia de “ciência”; não sendo ela própria uma ciência, mas o processo para se chegar ao conhecimento verdadeiro.

A distinção entre ciência e filosofia baseada no “desvelamento” também será defendida mais tarde pelo filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1971). Para ele, “a filosofia não é uma ciência, ela lida com „o todo‟, enquanto que a ciência lida com um campo específico [...] à medida que uma ciência ultrapassa a exigência de correção, encaminhando-se para uma verdade, e isto significa para o desvelamento essencial dos entes enquanto tais, ela é filosofia [...] A ciência em crise torna-se filosofia” (HEIDEGGER, apud INWOOD, 1999, p. 15). Dessa forma, ao mesmo tempo que originou a ciência, a filosofia está implícita na própria ciência quando do advento de uma crise; a crise se institui quando há uma mudança conceitual nos princípios básicos que sustentam a teoria. Ainda segundo o filósofo, “O que acontece na ciência é uma mudança nas „questões propostas e no modo de ver – os fatos mudam em conseqüência disto‟... a ciência, essencialmente não descobre novos entes, apenas um modo novo de olhar para velhos entes [...]” (HEIDEGGER, apud INWOOD, 1999, p. 14). Consoante o dicionário de Heidegger, “desencobrimento” ou “desvelamento” é trazer à tona aquilo que estava oculto, ou seja, a verdade. Os “entes” caracterizam-se por crenças e pré- concepções oriundas de culturas anteriores ou, em outra perspectiva, do objeto de estudo. Sobre isso, Heidegger observa que “[...] o ente já foi descoberto só que ainda se deturpa [...] a

verdade deve sempre ser arrancada primeiramente dos entes. O ente é retirado do velamento. A descoberta em seu fato é, ao mesmo tempo, um roubo” (HEIDEGGER, 1989, p. 291).

A idealização do “roubo” sugerida por Heidegger implica na compreensão ontológica originária de si mesma. Em outras palavras, sugere que toda descoberta é um processo introspectivo, onde a verdade está atrelada à própria existência do problema. Assim, todas as verdades sobre o Homem estão resguardadas nele mesmo, não havendo necessidade de buscar fontes exteriores de investigação. O conhecimento, nesse caso, transita de dentro para fora.

A compreensão ontológica sugerida por Heidegger pode ser simbolicamente visualizada na filosofia e na forma de “fazer ciência” dos gregos. Chauí (2000) explica que os feitos científicos e consagrados dos gregos foram resultado de contatos profundos com outras civilizações contemporâneas ou anteriores às suas, dessa forma os gregos:

[...] transformaram em matemática (aritmética, geometria, harmonia) o que eram expedientes práticos para medir, contar e calcular [...] em astronomia (conhecimento racional da natureza e do movimento dos astros) aquilo que erm práticas de adivinhação e previsão do futuro [...] em medicina (conhecimento racional sobre o corpo humano, a saúde e a doença) aquilo que eram práticas de grupos religiosos secretos para a cura misteriosa das doenças [...] transformaram em ciência (isto é, num conhecimento racional, abstrato e universal) aquilo que eram elementos de uma sabedoria prática para o uso direto da vida (CHAUÍ, 2000, p. 27-28).

Um modo novo de olhar para velhos conceitos. Através do “roubo” heideggeriano sugerido, eles fizeram ciência.

As idéias cosmológica sobre a origem do mundo e antropológica sobre as questões humanas (ética, política, dentre outras) marcaram esse período inicial que se estendeu do final do século VII ao século IV a. C. Nele, o “fazer científico” grego fundamentou-se no “desvelamento”, extraindo e conquistando o conhecimento de coisas profundas e essenciais.

No período seguinte, final do século IV ao final do século III a. C., a filosofia procurou sistematizar o método científico clássico pela reunião dos problemas levantados durante o processo anterior. Platão (427-327 a. C.) e Artistóteles (384-322 a. C.) são figuras destacadas na nova empreitada de estabelecer critérios de verdade para a ciência. Nessa fase, também inaugura-se o interesse pelas questões divinas ou teológicas, que são investigadas com mais ênfase no período posterior denominado helenístico onde, do final do século III a. C. até o século VI depois de Cristo, a filosofia ocupa-se de “questões da ética, do

conhecimento humano e das relações entre o homem e a Natureza e de ambos com Deus” (CHAUÍ, 2000, p. 34). Aristóteles não descartava a experiência como parte de suas investigações, contudo, geralmente conduzia algumas delas confiadas apenas na razão.

O legado greco-romano constitui-se, por conseguinte, em um potente paradigma para as civilizações que emergiram após este período: a européia-cristã e a árabe-muçulmana. Nessa época, a Igreja Romana dominava a Europa e um dos temas de discussão constante entre os filósofos, ainda influenciados por Platão e Aristóteles, era as provas da existência de Deus. A forte influência do cristianismo desviou a rota para novas descobertas; a curiosidade sobre o mundo natural praticamente extinguiu-se. O único tipo de estudo aceitável era o de caráter teológico e as questões relacionadas ao estudo da Natureza eram consideradas “não só supérfluas como também perigosas para a salvação da alma” (GLEISER, 2006, p. 84). Os grandes tratados científicos da Alta Idade Média são, em sua maioria, sumárias compilações do conhecimento antigo sem nenhuma pretensão crítica, exceto por alguns trabalhos produzidos na porção oriental.

No século VIII, os muçulmanos retomaram de forma marcante os trabalhos de Aristóteles e Cláudio Ptolomeu (85-165 a. C) com relação aos movimentos do Sol, da Lua e dos planetas, assim como estabeleceram o desenvolvimento das artes e da arquitetura. Os árabes promoveram em seus domínios uma valorização pelo conhecimento que há muito estava esquecida e à Matemática, em especial, a novos níveis de sofisticação. O entusiasmo dos árabes pelo legado cultural dos gregos, lentamente, espalhou-se pelo continente e foi uma das causas principais para o clima intelectual que mais tarde culminou na Renascença, onde as idéias aristotélicas conquistavam um número cada vez maior de adeptos (GLEISER, 2006).

São Tomás de Aquino (1225-1274) é um dos grandes nomes do período medieval. Com ele, a teologia cristã abraçou idéias aristotélicas, promovendo a complicada reconcilição entre fé e razão. Dessa forma, o “tomismo” criou uma nova visão cosmológica e “a Terra voltou a ser esférica, ocupando seu trono no centro do Universo... era circundada por oito esferas, que a ligavam a Deus no exterior...” (GLEISER, 2006, p. 91). A ciência dessa época era concebida como um modo de apreciar as maravilhas de Deus e era tolerada pela Igreja desde que não conflitasse com seus ensinamentos doutrinários (SOLOMON e HIGGINS, 2001).

A importância do “fazer científico” de São Tomás de Aquino, ainda que atrelado aos dogmas religiosos, é identificado como fator indispensável no processo de busca do conhecimento que segue posteriormente. Segundo Gallian (2004), a “abertura tomista” apresentou-se como um dos fatores importantes para a descanonização e desdogmatização do pensamento científico. A partir desse momento, a relevância do conhecimento sobre a

Natureza ressurgiu e questões pertinentes a ele tornaram-se central para os filósofos modernos os quais separaram, como primeira tarefa, a razão da fé (CHAUÍ, 2000).

Nesta renovação científica marcas profundas foram deixadas; os episódios envolvendo Copérnico (1473 - 1543), Giordano Bruno (1548-1600) e Galileu Galilei (1564-1642) são exemplos característicos desta época. De acordo com Gleiser (2006, p. 131), “o conflito entre Galileu e a Igreja serve como uma excelente, embora trágica, metáfora da eterna batalha entre o novo e o velho”; os eventos que culminaram neste julgamento promoveram vários debates entre teólogos e historiadores, respingando recentemente na Igreja Católica30.

A defesa dessa nova ciência contra o dogmatismo da Igreja foi promovida de forma diferente por alguns filósofos modernos, entre os quais destacam-se o inglês Francis Bacon (1561-1626) e o francês René Descartes (1596-1650) . O primeiro rompeu com Artistóteles e defendeu um método experimental puramente empírico para a investigação do mundo, cuja orientação filosófica procura ligar o conhecimento à experiência (SOLOMON E HIGGINS, 2001).

A visão de Bacon era respaldada pela quantidade expressiva de fontes teóricas e instrumentos técnicos muito mais sofisticados que os disponíveis aos primeiros filósofos antigos. Desse modo, os cientistas modernos realizaram uma revolução de proporções consideravelmente maiores e introduziram a idéia de busca do conhecimento fundamentada na crítica, na investigação sistemática e no critério da razão matemática. Esta, sob forte influência de Descartes, que considerava a linguagem matemática e a experimentação os caminhos verdadeiros para a compreensão da natureza. Imersos nesse ambiente de rigorosidade intelectual, enveredamos para a época do surgimento do Iluminismo, movimento que emergiu primeiramente na Inglaterra, mas se espalhou junto ao pensamento europeu. O Iluminismo defendia a possibilidade de alcançar a verdade através das luzes da razão científica pela interação entre teoria e experimento. Por isso, o discurso científico oficial passou a não tolerar nenhuma menção à religião, ou seja, a ciência devia permanecer livre de qualquer conotação teológica (GALLIAN, 2004).

O projeto do Iluminismo que se esboça ao longo do século XVIII, para alguns “o século da razão”, torna-se alicerce para os novos cientistas. O século XIX, comumente definido como o “século da ciência”, é o momento em que, entusiasticamente, começa a se definir a verdadeira estrutura e funcionamento do universo e da Natureza, isto é, trata-se do período em que se credita total confiança no saber científico e na tecnologia para a redenção

e controle da Natureza, do Homem e das sociedades (CHAUÍ, 2000). Dessa forma, o dogmatismo religioso já não tinha o poder de influenciar a evolução da ciência e aliado a isso, com o advento da Revolução Industrial, ocorreu uma melhoria significativa nas técnicas de laboratório e de instrumentação, caracterizando-o como o século das grandes descobertas. Os trabalhos de Isaac Newton (1642-1727) representam o clímax dessa Revolução Científica; construindo uma estrutura conceitual dominante não somente nos campos da física, mas, sobretudo, na visão coletiva de mundo até o início do século XX (GLEISER, 2006).

Neste ponto, propositalmente, interromperemos a continuidade da investigação a que se propôs este item, simplesmente por se inserir na época em que o livro A Budget of Paradoxes foi publicado. A intenção, nesse caso, é promover uma articulação com a linguagem empregada e a posição assumida por Augustus De Morgan frente às descobertas científicas emergentes, respeitando as especificidades espacial e temporal a que estavam incorporadas.

Adiante, seguiremos com a investigação do livro, evidenciando as características relevantes em sua edição, bem como os conceitos fortemente esboçados ao longo de seus ensaios.

Benzer Belgeler