Através da análise de um dossiê elaborado pela etnofarmacóloga que coordenou o desenvolvimento do Projeto Krahô que, gentilmente, enviou-no no dia 20/03/2007, seguiremos seus passos durante a caminhada desta cientista pelo ambiente exterior ao laboratório. Entre o segundo semestre de 1998 e o primeiro semestre de 2003, esta cientista traçou, de acordo com sua própria definição, uma “odisséia”. Durante este período, registrou suas principais atividades acadêmicas em um histórico de pesquisa, quase que uma espécie de diário. Neste, a cientista descreve as principais situações que julgou relevante para a continuidade de sua pesquisa. Trata-se, como nos já sabemos, do projeto Krahô, P&D que objetivava o levantamento de plantas medicinais para o desenvolvimento de psicofármacos a
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Para além das semelhanças, deveremos salientar as diferenças entre os dois diários. Trataremos de uma pesquisa etnofarmacológica de cunho comercial. Neste universo, os conflitos e as tensões são explícitos, como veremos, revelando os desafios vivenciados pelos etnofarmacólogos na busca por princípios ativos.
partir da utilização do conhecimento dos indígenas da tribo Krahô. Mas, antes de chegar à tribo indígena, um outro longo caminho teve de ser percorrido pela equipe de pesquisa.
Optamos pela divisão da análise em três fases básicas, que compreendem a etapa de idealização do projeto de pesquisa, de realização e finalização. Embora o relato da cientista tenha sido interrompido pouco antes do fim da pesquisa, o diário configurou-se em um rico material de pesquisa, muito interessante e que, devido à riqueza dos detalhes, pôde trazer à tona a importante dinâmica social que é estabelecida durante uma P&D etnofarmacológica. Assim, portanto, observaremos as ações de uma cientista na busca por princípios ativos.
“2° semestre de 1998
·Primeiros passos: leituras de artigos e discussões para nortear a idealização do projeto de doutorado;
·Elaboração do texto do projeto intitulado inicialmente: "Usos tradicionais de plantas psicoativas por dois grupos humanos no Brasil: Uma reflexão sobre eficácia simbólica e princípios ativos".
·Aprovação do mesmo pelo Conselho de Pós-Graduação do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP durante Exame de Admissão em setembro;
·Encaminhamento do projeto para o órgão de fomento, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP em 17/11/98 (n.° de processo: XX/XXXXX-X).”
Como já podemos observar no primeiro fragmento extraído do diário de pesquisa, o Projeto Krahô, inicialmente, foi idealizado para ser uma pesquisa de doutorado a ser realizada na Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP. A “odisséia” da nossa cientista inicia-se com a elaboração do projeto de pesquisa, etapa comum para muitos pesquisadores: recorte do objeto de pesquisa, levantamento de artigos e a observação do debate sobre o tema, enfim, um projeto de pesquisa voltado para a seleção no curso de doutorado em Psicofarmacologia da UNIFESP.
Após a elaboração de um roteiro de estudo para seu doutorado, a cientista partiu em busca de financiamento para suas atividades de pesquisa através da solicitação de uma bolsa estudo. Neste caso, o projeto foi enviado à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Com a obtenção do financiamento, que viabilizou economicamente suas atividades acadêmicas, a cientista da UNIFESP canalizou seus esforços para um outro problema de pesquisa, que ocupou o semestre seguinte da empreitada científica. Após o financiamento, seria necessário viabilizar a pesquisa de campo, ou seja,
definir uma comunidade local/indígena para que o levantamento etnofarmacológico pudesse ser iniciado.
“1° semestre de 1999:
·Contatos com antropólogos de várias universidades federais do Brasil para a seleção de duas etnias;
·Viagens para os estados do Mato Grosso; Maranhão e Tocantins, com a mesma finalidade;
·Grupos inicialmente selecionados: índios Bakairi (Mato Grosso);índios Krahô (Tocantins) e quilombolas (Mato Grosso). O contato para trabalhar com a etnia Krahô foi feito através do antropólogo Gilberto Azanha do CTI – Centro de trabalho Indigenista, que assessora a Associação VYTY-CATI (representa parte da etnia Krahô);
·Solicitação de mais um financiamento à FAPESP para o desenvolvimento do trabalho, projeto de auxílio à pesquisa, intitulado: “Usos tradicionais de plantas psicoativas por dois grupos humanos no Brasil: Uma reflexão sobre eficácia simbólica e princípios ativos" n° processo XX/XXXXX-X.”
·Solicitação de autorização aos órgãos competentes para o acesso às áreas indígenas, de acordo com a tabela abaixo:
Instituição Envio Aprovação
UNIFESP Setembro/1998 Setembro/1998
FAPESP Novembro/1998 Janeiro/1999
CEP Janeiro/2000 Novembro/2000
FUNAI Fevereiro/2000 Julho/2001
CNPq Novembro/2000 Dezembro/2000
CONEP Encaminhado pelo CEP Junho/2001
A definição de uma população tradicional para a realização de um levantamento de conhecimentos é uma etapa crucial para qualquer projeto de pesquisa etnofarmacológico. Para tal, a cientista coordenadora buscou o auxílio de antropólogos, visando obter informações sobre grupos étnicos que pudessem se encaixar no perfil social delineado no projeto, especialmente para o atendimento do principal problema de pesquisa, a saber, o estudo e desenvolvimento de psicofármacos. De acordo com a cientista, eram cinco os critérios de maior relevância que foram buscados. Estes critérios estavam diretamente relacionados com a interface entre ambiente e sociedade, ou seja, características que atendessem tanto a requisitos humanos quanto às características biológicas do bioma onde esta população deveria residir e desenvolver suas atividades médico-espirituais. Em uma de suas publicações a pesquisadora expôs e justificou a adoção de tais critérios:
“1) Grupos sociais que vivem no bioma de cerrado e/ou pantanal, já que estas duas regiões foram menos estudadas do que as regiões da Mata Atlântica e da Floresta
Equatorial Amazônica; 2) Grupos indígenas, posto que estas populações detém, aparentemente, grande conhecimento sobre plantas que podem alterar o comportamento; 3) existência de práticas rituais associadas à utilização de plantas medicinais; 4) procedimintos de cura realizados por especialistas (Chamans [sic], curandeiros e outros) membros de populações indígenas, e finalmente, 5) isolamento geográfico com relação à assistência médica convencional governamental ou privada”. (RODRIGUES, 2006)
A partir desta pré-análise, realizada com o auxílio de especialistas em algumas das inúmeras tribos indígenas brasileiras e sociedades tradicionais, a pesquisadora da UNIFESP optou pelo desenvolvimento de seu trabalho etnofarmacológico junto aos povos indígenas Krahô e Bakairi e com uma comunidade de Quilombolas. O primeiro contato entre a pesquisadora e a comunidade indígena alvo foi intermediado por um antropólogo do Centro de Trabalho Indigenista (CTI).
Esta primeira fase da pesquisa deveria ser inteiramente desenvolvida em campo, ou seja, fora do laboratório. Embora possamos empregar o termo “externo ao laboratório” para caracterizar esta etapa da P&D, devemos lembrar que o trabalho de campo é tão importante para o etnofarmacólogo quanto aquele que é desenvolvido em ambiente de laboratório. Neste sentido, algumas viagens e reuniões foram realizadas com o intuito de operacionalizar a pesquisa de campo, dado que esta rede social é decisiva para o pleno desenvolvimento de qualquer atividade etnofarmacológica.
Com o intuito de obter um recorte de pesquisa mais específico, a cientista decidiu realizar o levantamento somente com os índios Krahô e com a comunidade Quilombola. De acordo com a coordenadora do projeto, este recorte teria sido diretamente influenciado por uma afirmação feita por antropólogos do CIT. Os Krahô desejavam que uma pesquisa, tal qual proposta pela UNIFESP, fosse desenvolvida. Portanto, existiria o interesse, por parte dos próprios índios, de que seus conhecimentos fossem utilizados para alguma finalidade e que, obviamente, algo em troca pudesse ser conquistado. Esse fator acabou facilitando a escolha, pela própria possibilidade de tornar a pesquisa de campo menos conflituosa. Realizada a escolha, os esforços da equipe voltaram-se para os tramites da solicitação jurídica de acesso e de uso dos conhecimentos tradicionais da tribo Krahô e da população Quilombola.
Nesta fase da solicitação, a ausência de algumas instituições federais de licenciamento científico, como o CGEN e o IBAMA, é facilmente explicada. Os tramites jurídicos do projeto Krahô foram realizados no ano de 1999, data em que não se observava a existência de um estatuto jurídico voltado para a regulamentação de um projeto de pesquisa e
desenvolvimento etnofarmacológico de cunho comercial. Trata-se, sobretudo, de um período histórico conturbado, uma fase de transição e de implementação de uma nova legislação aplicada ao licenciamento de pesquisas tecnocientíficas com auxílio de conhecimentos de povos locais no Brasil. Durante o período em que se compreende o desenvolvimento do projeto e, conseqüentemente, do histórico de pesquisa (que vai do ano de 1998 ao ano de 2003), podem ser observadas significativas mudanças operadas na legislação brasileira.20
Durante a transição entre um primeiro período jurídico, desprovido de uma legislação específica, para outro, onde a matéria passou a ser regida por uma Medida Provisória federal, inúmeras pesquisas que já vinham sendo realizadas foram postas em situação de “ilegalidade”. Uma destas pesquisas, obviamente, foi o projeto Krahô.21 A ausência do IBAMA nas petições da UNIFESP, por outro lado, possui outra explicação. Somente no ano de 2007 o IBAMA passou a ser o órgão federal competente para licenciar pesquisas científicas e/ou tecnológicas que empreguem amostras biológicas, obtidas em território brasileiro.22
Outro fator notório no relato é a discrepância entre a data de início da pesquisa e a data de solicitação legal de entrada em terras indígenas, dirigida à Fundação Nacional do Índio (FUNAI). A atividade de pesquisa foi iniciada no segundo semestre do ano de 1998, enquanto que somente no mês de fevereiro de 2000 foi enviada à FUNAI a documentação necessária para a solicitação de entrada. Antes de discutirmos este ponto, porém, vamos observar o que aconteceu no semestre seguinte de pesquisa.
“2° semestre de 1999:
·Início do trabalho de campo, ou seja, reuniões junto aos Krahô para discussão do projeto, integração com as aldeias, seleção dos entrevistados e coleta de algumas plantas junto a um único pajé e
·Aprovação do projeto de auxílio à pesquisa enviado à FAPESP (n° processo 99/05061-9) para custeio de parte do trabalho.”
20
No final do ano de 2001, foi aprovada a Medida Provisória nº 2.168-16/01, que institui o Conselho de Gestão do Patrimônio Biológico (CGEN), órgão federal que passou a ser responsável pela análise de projetos e pelo licenciamento de pesquisas científicas e tecnológicas em que sejam acessados e/ou utilizados material biológico e/ou conhecimento tradicional associado à biodiversidade de comunidades locais e/ou tribais.
21
Como relatado em matéria da Revista FAPESP (IZIQUE, 2003), muitos cientistas tiveram projetos de pesquisa paralisados, o que acabou prejudicando, assim, o cumprimento de prazos estabelecidos junto às agências de financiamento.
22
Inicialmente, era o CGEN o órgão federal incumbido desta tarefa. No entanto, as inúmeras críticas, por parte de cientistas, e a grande demora na análise e na emissão dos pareceres, levou o governo federal a reconsiderar as competências de ambos os órgãos. Com isso, o IBAMA passou a ser responsável pela emissão de pareceres quando o assunto é o patrimônio biogenético, enquanto que o CGEN centralizou suas atenções sob o conhecimento tradicional e a chamada divisão justa e eqüitativa de benefícios.
Podemos retornar, deste modo, ao tópico anterior, mas, agora, com a possibilidade de tratar com maior clareza e objetividade da controversa trajetória de licenciamento junto à FUNAI. Como dissemos, o trabalho de campo foi iniciado durante o segundo semestre de 1999, mas sem o consentimento da FUNAI, então pleiteada no ano 2000, como já verificado. No Brasil, o índio é um indivíduo tutelado pelo Estado, sendo que a interação entre indígenas e não-indígenas deve ser mediada pela FUNAI. Para entrar em território indígena, portanto, é necessária a obtenção de uma licença junto à FUNAI o que, de fato, não ocorreu, pelo menos no início do Projeto Krahô, como observamos através da descrição da própria coordenadora. Mas antes de tirarmos qualquer conclusão sobre a atitude tomada, vamos ouvir justificativa dada pela cientista com relação a esse importante tópico:
“Em julho desse mesmo [1999] ano foi realizada a primeira viagem para uma das aldeias Krahô, para a Aldeia Nova, com a finalidade de verificar a possibilidade de se desenvolver a pesquisa junto a esse grupo. O Sr. Gilberto Azanha havia contatado Alberto Hapyhi Krahô, uma das lideranças Krahô, para que recepcionasse Eliana nessa primeira viagem.” (RODRIGUES et al, 2005: s/p)
O primeiro contato, como dito acima, foi mediado por um antropólogo do CTI, o Gilberto Azanha. Uma das lideranças da tribo, Alberto Hapyhi Krahô, deveria recepcionar a cientista da UNIFESP durante este primeiro contato. Em uma entrevista, realizada no dia 11/04/2007, a coordenadora do projeto fez importantes observações sobre os primeiros passos tomados, ressaltando a importante participação da mediação de Gilberto Azanha. Para além da observação da conveniência do projeto, o antropólogo, de acordo com a coordenadora do estudo, orientou-a de que algumas exigências jurídicas não precisariam ser necessariamente cumpridas, de que sua pesquisa poderia correr livremente e sem o consentimento da instituição federal:
“ele [Gilberto Azanha] me falou: “olha, esse seu projeto tem o perfil dos Krahô, porque eles estão me pedindo para tirar as plantas medicinais deles há muito tempo”, já que ele trabalhava com os Krahô, acho que há 10 anos, disse-me que eu tinha livre acesso para entrar. Então eu entrei no território Krahô através do Gilberto. Ele me disse para ir à aldeia Nova. Fui para a aldeia Nova. Só que acontece que os Krahô ocupam uma área gigante que se divide como se fosse dois municípios, Goiatins e Tacamã [não sei se estes nomes foram corretamente transcritos]. Então, aqui está a aldeia Nova, indicada pelo Gilberto [mostrando-me um desenho feito em uma folha de papel]. Perguntei a ele se precisava comunicar à FUNAI, ele me disse para nem procurar a FUNAI, que não tinha nada haver com a FUNAI. Então, no primeiro
momento, eu segui todas as orientações do Gilberto. Afinal, ele é um antropólogo especialista na região.” (Entrevista realizada no dia 18/04/2007)
A orientação dada por Gilberto Azanha foi clara, não havia necessidade de que cientista da UNIFESP contatasse a FUNAI para entrar em território Krahô. Era uma solicitação desnecessária. O conselho dado pelo antropólogo foi inicialmente seguido e aplicado pela cientista, e, somente após aprovação do projeto pela FAPESP, foi finalmente solicitada à FUNAI a autorização para a entrada da equipe de pesquisa no território indígena. Em um capítulo de livro, a coordenadora relata a dificuldade vivenciada e os esforços empregados para a obtenção da anuência de todos os órgãos federais que atuam sobre o licenciamento de uma pesquisa etnofarmacológica comercial, com uso de conhecimento indígena:
“A dificuldade em se obter a aprovação do projeto por algumas dessas instituições, deveu-se ao fato de que tinham como pré-requisito a aprovação do mesmo por outros órgãos. Assim, a FUNAI só aprovaria o projeto se esse já tivesse sido avaliado e autorizado pela CONEP e pelo CNPq. No entanto, a aprovação da CONEP dependia do CEP e este, por sua vez, dependia da aprovação da FUNAI, assim, fechava-se o círculo, portanto, as instituições estavam “amarradas” entre si, sendo que uma delas precisaria dar o “primeiro passo” e aprovar o projeto, independente das outras, para que o processo de autorização tivesse início. Esse “primeiro passo” foi dado pelo CEP, na pessoa do Dr. José Osmar M. Pestana, a quem agradecemos. Outro fato que favoreceu este atraso foi a falta de esclarecimentos, por parte da FUNAI, quanto à necessidade de encaminhamento do projeto ao CONEP e CNPq pela pesquisadora. Quando deu-se conta de que o projeto teria que ser encaminhado àquelas instituições pela UNIFESP e não pela FUNAI, havia se passado quatro meses. (RODRIGUES et al, 2005: s/p)
Várias são as etapas que devem ser seguidas pelo cientista durante o período em que a pesquisa será licenciada. O grande problema, levantado pela coordenadora do Projeto Krahô, é que estes órgãos, federais ou regionais responsáveis pelas inúmeras autorizações e pareceres, não se encontram interligados. A elevada burocracia de pesquisa e a independência entre os órgãos fazem com que o cientista, que deseja obter determinada autorização, faça-o através de uma série de etapas, procedimento que, de acordo com a pesquisadora, atrapalha o desenvolvimento do trabalho interno ao laboratório.
Além da própria FUNAI, a coordenadora do Projeto Krahô ainda precisou da anuência do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) e da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP). Todos estes órgãos locais e federais possuem em comum o trabalho de licenciamento de
pesquisas. No fragmento acima, a afirmação da cientista de que “o tempo gasto para que todos os processos acima fossem concluídos, foi o mesmo despendido no trabalho de campo desse projeto, ou seja, dois anos”, é muito importante e de extrema relevância. A questão do tempo de pesquisa é essencial. Sendo assim, seria possível que a equipe da UNIFESP desenvolvesse todos os trabalhos, sem que fossem empregados dois anos de atividades externas ao laboratório? Por outro lado, a redução do trabalho externo ao laboratório poderia produzir uma pesquisa propriamente científica de qualidade superior? Para a cientista, a atividade externa impediu o desenvolvimento da empreitada propriamente científica. Como dito, o fator tempo e a questão do financiamento da pesquisa são temas essenciais:
“O tempo gasto para que todos os processos acima fossem concluídos, foi o mesmo despendido no trabalho de campo desse projeto, ou seja, dois anos. Isso significa que, caso a pesquisadora optasse por esperar pela aprovação do projeto em todas as instâncias indicadas como necessárias, não teria concluído o projeto em quatro anos, ou seja, dentro dos prazos de um curso de pós-graduação (nível doutorado). Sem contar o possível comprometimento do tempo disponível para o uso da Reserva Técnica oferecida pela FAPESP, indispensável para custear as despesas requeridas no trabalho de campo de um projeto dessa ordem.” (RODRIGUES et al, 2005: s/p)
As alianças construídas pelos cientistas objetivam viabilizar o desenvolvimento do projeto. Quando um projeto é enviado para uma fundação de fomento, os cientistas descrevem uma situação ideal de pesquisa. Mesmo quando são descritos alguns dos possíveis empecilhos, como possíveis atrasos na obtenção de certas autorizações e pareceres, o cientista dificilmente fará uma projeção pessimista em que a pesquisa e a análise tenham a mesma duração da etapa “burocrática”. No exemplo em questão, será que a cientista da UNIFESP obteria financiamento se, no cronograma de pesquisa enviado à FAPESP, constasse que dois anos (a metade do tempo de financiamento) seriam utilizados para o licenciamento da pesquisa e que, somente após este período, seriam iniciadas as análises propriamente científicas? Provavelmente este projeto seria, no mínimo, inconsistente. Algo estaria errado, pois, se o objetivo do projeto de pesquisa é levantar novas substâncias com potencial terapêutico, por que, então, gastar dois anos para o licenciamento da pesquisa?
No semestre seguinte, a situação da cientista e de seu projeto não mudou significativamente, como podemos ver logo abaixo. Para além dos órgãos locais e federais, a equipe de pesquisa também teria de viabilizar os procedimentos de pesquisa junto à etnia
indígena que forneceria seus conhecimentos sobre plantas medicinais. Tratando-se de uma P&D de cunho comercial, os pesquisadores buscaram aliados junto às aldeias Krahô.
“1° semestre de 2000
·Obtenção de cartas das 3 aldeias Krahô (Aldeias: Nova; Serra Grande e Forno Velho, sendo a primeira pertencente à Associação VYTY-CATI e as duas últimas da Associação KAPÉY) com as quais os trabalhos de acesso às áreas e início da pesquisa seriam realizados, enquanto aguardávamos pela aprovação da FUNAI;”
De acordo com a coordenadora do projeto, o trabalho de pesquisa deveria continuar, mesmo sem a prévia autorização da FUNAI, pois o financiamento e o prazo para o término da pesquisa continuavam em vigor. A lentidão no processo de licenciamento tornava a empreitada dispendiosa e sem objetivos científicos. Por outro lado, a atual dinâmica da divisão social do trabalho na pesquisa científica teria influenciado negativamente a trajetória do projeto, dado o desconhecimento da coordenadora com relação ao necessário licenciamento da FUNAI. O tempo passava e o financiamento continuava a ser gasto com outras atividades, que ficavam cada vez mais custosas.
“2° semestre de 2000
·Em assembléia realizada em julho pela Associação VYTY-CATI, onde estavam presentes lideranças das aldeias Krahô, inclusive da Associação KAPÉY, Eliana;