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As cidades brasileiras estão repletas de poderosos circuitos de acumulação populacional marcados pelas desigualdades de condições de vida. A grande maioria das metrópoles e cidades de médio porte do País, caracteriza-se por possuir áreas supervalorizadas, sitiadas por favelas, mocambos e áreas onde, de modo geral, o habitat é precário em termos de condições construtivas, localização e acessibilidade aos serviços urbanos essenciais à reprodução social na cidade. (CRIVELLA, 2007b) No início de sua organização, o Morro da Providência, como é conhecido atualmente, era popularmente denominado Morro da Favella. Sua história faz-se necessária para compreender a noção do que se entende por “favela”. No final do século XIX, houve um expressivo crescimento populacional na cidade do Rio de Janeiro, então capital do país. A pobreza estava generalizada na cidade, após a abolição da escravidão em 1888, e os empregos eram escassos.

Com o aumento populacional expressivo e a alta taxa de pobreza, as pessoas passaram a se organizar em estruturas de moradias populares coletivas, conhecidas como “cortiços” – considerados uma semente da favela atual. Havia um temor geral, principalmente dos políticos, com os cortiços porque eles estavam localizados na região central e podiam ser locais de abrigo de assassinos e de pervertidos, sem contar que representavam um afrontamento à saúde pública. “Caracterizado como verdadeiro ‘inferno social’, o cortiço era tido como antro não apenas da vagabundagem e do crime, mas também das epidemias, constituindo uma ameaça às ordens moral e social” (VALLADARES, 2000, p.7, grifos no original). O discurso de higiene pública culminou na lei que proibiria a implantação de novos cortiços e na demolição do cortiço Cabeça de Porco em 1893:

O prefeito Candido Barata Ribeiro (1843-1910) justificou o desalojamento de cerca de duas mil pessoas em nome da higiene pública. (...) Um grupo de ex-moradores do Cabeça de Porco conseguiu autorização para levar consigo ripas de madeira – muitos quartos ali se assemelhavam aos barracões das futuras favelas. Caminharam então poucos metros até o Morro da Providência, onde levantaram novas moradias. (...) Pouco tempo depois, em 1897, soldados retornados da Guerra de Canudos instalaram-se no já habitado Morro da Providência. (MATTOS, 2007)

Quanto à nomeação do morro como Morro da Favella, e posteriormente Morro da Providência, há uma diversidade de opiniões. As mais freqüentes estão ligadas ao conflito de Canudos, porém elas também se divergem no enfoque: uma diz respeito à vegetação e a outra ao simbolismo da topografia.

Primeiro, a existência neste morro da mesma vegetação que cobria o Morro da Favella do Município de Monte Santo, na Bahia; segundo, o papel representado nessa guerra pelo Morro da Favella de Monte Santo, cuja feroz resistência retardou o avanço final do Exército da República sobre o arraial de Canudos. Se, no primeiro caso, a explicação está baseada numa similitude

tout court, no segundo, a denominação Morro da Favella vem revestida de

um forte conteúdo simbólico que remete à resistência, à luta dos oprimidos contra um oponente forte e dominador. (VALLADARES, 2000, p. 9)

Muitas são as críticas quanto à associação à vegetação porque não haveria no Rio de Janeiro tal planta leguminosa do sertão, a qual se dá o nome de faveleiro ou favela, mas teria apenas uma vegetação rasteira que lembraria a região nordestina. A versão mais aceitável é a posição estratégica do Morro no Rio semelhante ao que os ex-combatentes ocuparam na serra baiana. “Isolado, oculta de quem olha de baixo o que se passa em cima” (VALLADARES, 2000, p. 11). Já o nome Providência, como é conhecida a região hoje, passou a ser utilizado depois da década de 1920, como referência a um rio das proximidades de Canudos. Tais características e denominações podem ser encontradas em “Os Sertões” de Euclides Cunha (1982), obra clássica da literatura nacional.

Muitos historiadores não defendem o Morro da Providência como a primeira organização conhecida como favela, mas concordam que foi aquela que teve maior visibilidade. Isso porque outras regiões já apresentavam uma organização semelhante em morros. De qualquer forma, “o nome próprio ‘Morro da Favella’ passou-se ao substantivo ‘favela’, o qual serviria desde então para denominar os casos cada vez mais freqüentes de terra invadida e/ou ocupada ilegalmente por moradias precárias e população pobre” (PRETECEILLE; VALLADARES, 2000, p. 461, grifos no original). É a partir dessas concepções que se surgiu o arquétipo de favela.

A esses espaços se associaram representações que serviriam para identificar a favela: ocupação ilegal, situada nas encostas de um morro ou localizada em bairro relativamente central, com moradias precárias, sem infra-estrutura e serviços urbanos. O favelado, morador da favela, passou a simbolizar o migrante pobre, semi-analfabeto, biscateiro, incapaz de se integrar e se adaptar ao mercado de trabalho da cidade moderna, industrial. A fórmula ‘favela é igual a pobreza’ logo se tornou consensual, sendo compartilhada pelo meio acadêmico e político e sendo difundida pela mídia. (PRETECEILLE; VALLADARES, 2000, p. 461-462, grifos no original) Além da ilegalidade, havia também o problema da violência urbana e da criminalidade: “No fim da década de 1900, o Morro da Favela passou a ser considerado o lugar mais perigoso da capital, reforçando a má fama conquistada por seus moradores depois da participação na Revolta da Vacina, em 1904” (MATTOS, 2007). E a pobreza e a

criminalidade passaram a se confundirem, pois tinha-se a crença de que as pessoas mais pobres eram os principais suspeitos na prática de um crime. Assim, houve uma concepção difundida – e muitas pessoas ainda apostam nela – de que para acabar com a criminalidade deveria segregar a pobreza em um local afastado. O que as pessoas que têm tal pensamento não percebem é que deslocar a pobreza não resolve os problemas de criminalidade. Contudo, de uma certa forma, o deslocamento para outras áreas colaboram para o crescimento da criminalidade, já que os moradores passam a se organizar em um mesmo ambiente e aprender técnicas criminosas, uns com os outros.

Nos anos que se seguiram, houve várias ações governamentais para promover o fim das favelas no Rio de Janeiro, como o Código de Obras de 1937 que vedava qualquer tipo de melhoramento nesses locais. Porém, mais recentemente, as políticas públicas passaram a promover, principalmente, o aperfeiçoamento desses espaços, e não mais a sua remoção, como o projeto Favela-Bairro que foi implantado no Morro da Providência.

Foram investidos no Favela-Bairro da Providência R$ 14 milhões que foram usados não só na construção de redes de água e esgoto, praças e creche, como acontece nas demais favelas, mas também na viabilização de um ‘roteiro turístico’ que instituiu a localidade como atração. Neste contexto, foi inaugurado um cybercafé e ‘pontos históricos’ foram recuperados: a igreja de Nossa Senhora da Penha (que abriga imagens sacras valiosas); a centenária capela do Cruzeiro; a escadaria de granito construída por escravos no século 17; a casa de Dodô da Portela, porta-bandeira campeã do primeiro desfile oficial; o antigo reservatório de água. (FREIRE-MEDEIROS, 2006, p. 17, grifos no original)

Outras políticas assistencialistas foram implantadas nas regiões carentes do Rio de Janeiro, mas o foco parece ser amenizar a vida precária nas favelas e o combate ao tráfico. Por exemplo, no Morro da Providência atua a facção criminosa conhecida como Comando Vermelho (CV). As pessoas dessa favela convivem constantemente com drogas e traficantes armados. Um dos projetos que buscam melhorar as condições precárias e dar uma visibilidade mais positiva ao Morro da Providência é conhecido como Cimento Social.

Benzer Belgeler