• Sonuç bulunamadı

Se os pretendentes não manifestam preocupação com os demais presentes na “Assembléia de Telêmaco”, posteriormente, em outra reunião, se comportam de ma- neira diferente, temendo a reação do povo (dêmos) contra os atos que vinham prati- cando. Trata-se de uma reunião restrita. Embora tenha ocorrido na agorá, eles não deixaram ninguém participar dela, nem jovens, nem anciães. Eles se dirigiram para lá após tomarem conhecimento de que Telêmaco, escapando da emboscada que haviam preparado para ele, voltara de sua viagem. Antínoo foi quem começou a fa- lar, dizendo que era necessário que eles pensassem em um meio para matar Telê- maco, pois não cria que eles pudessem realizar seus intentos estando ele vivo

Que contrariedade! Por que seria que os deuses salvaram este ho- mem da morte? Os nossos homens iam postar-se todo o dia nas fa- lésias batidas pelos ventos, revezavam-se sem descanso, e quando o sol se punha nunca passávamos a noite em terra firme, mas vogá- vamos pelo mar, sobre a nossa nau ligeira, à espera da brilhante Au- rora e à espreita de Telêmaco, para o apanharmos e lhe darmos a morte. E durante esse tempo uma divindade conduziu-o a casa. Nós, aqui, preparemos-lhe uma má morte, a esse Telêmaco, e quem dera que ele nos não escapasse; porque, enquanto viver, pelo menos as- sim o creio os nossos planos não se realizarão. Ele é cauteloso, pos- sui inteligência, decisão, e o povo já não se mostra favorável a nosso respeito! Não deixemos a esse adversário tempo para reunir os A- queus na ágora; sentirá aversão por nós; de pé, dirá diante de todos que tramávamos traiçoeiramente a sua perda, e que falhamos o nos- so golpe. E o povo não nos aprovará, quando lhe contarem as nos- sas censuráveis acções. Acautelemo-nos para que não nos inflijam um castigo severo, expulsando-nos de nossa terra, obrigando-nos a procurar refúgio num outro pais. Antecipemo-nos ao nosso inimigo; apoderemo-nos de sua pessoa, longe da cidade, no campo, ou na estrada que conduz até lá; deitemos mão às suas riquezas, a todos os seus bens; partilhemo-nos equitativamente entre nós; e dêmos a sua casa a sua mãe e a quem a desposar. Se esta proposta não vos agrada, se quereis que ele viva e conserve todo seu patrimônio, não

voltemos a nos reunirmos aqui para lhe devorar à porfia os seus re- cursos, caros ao coração do homem, e que cada um, da sua própria casa, prossiga o despique por meio da oferta de presentes. Em se- guida, Penélope desposará aquele que lhe tiver dado mais, e que a sorte lhe destina.33

Antínoo agora não demonstra o mesmo desprezo que Evenor manifestou ante- riormente pelo povo. Ele teme a sua reação e não quer que Telêmaco convoque uma assembléia para contar-lhe que sofrera uma tentativa de assassinato, por parte dos pretendentes. O seu temor tem seus motivos, pois seu pai já havia sofrido na própria pele a ira do povo, fato que Penélope lhe lembra, ao saber da trama contra seu filho

Antínoo, homem insolente e pérfido, dizem em Ítaca levas a palma a todos da sua idade em sabedoria e eloqüência; mas afinal afinal não eras o que se diz! Insensato! Que leva, a ti, a maquinar assassínio e morte contra Telêmaco? Não tens respeito algum pelos suplicantes, cujo queixume é no entanto ouvido por Zeus. Constitui-se um sacri- légio tramar-se a perda dos outros. Que! Não sabes que teu pai che- gou aqui fugitivo, por receio do povo, cujo furor era extremo; ele ha- via se conluiado com os piratas Táfios e molestara os Tesprotos, que eram nossos aliados. Queriam tirar-lhe a vida, arrancar-lhe o cora- ção, devorar os seus recursos, cuja quantidade excitava a inveja. Mas Ulisses parou, conteve o povo, não obstante o seu furor. E é agora a casa de Ulisses que tu devoras, sem puxar pelos cordéis à bolsa; requestas a sua mulher, querer matar o seu: e a mim torturas- me o coração. Ah! Suplico-te que cesses, e que acalmes os outros.34 (grifo nosso)

O mesmo povo que os pretendentes diziam não temer agora aparece de ma- neira ameaçadora. Mudo na reunião de Telêmaco, um dia já quis dar cabo do pai de

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Odisséia 16.364-92.

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Antínoo, arrancando-lhe o coração e devorando-lhe os bens. Quem eram eles, que Telêmaco acusa de conivência com os pretendentes, mas que, segundo Antínoo, os perseguiria se soubessem que tentaram matar o filho de Odisseu?

A questão envolvida nessa reunião difere da que foi discutida na assembléia convocada por Telêmaco. Aqui se trata do assassinato de um descendente da casa real. Assunto da mais alta gravidade como bem expressou Anfínomo, respondendo à proposta de Antínoo

Amigos, pela minha parte não consentirei em matar Telêmaco; é ter- rível fazer perecer o rebento de uma raça real. Procuremos antes de mais conhecer a vontade dos deuses. Se a decisão do grande Zeus nos for favorável, serei o primeiro a querer matá-lo, a incitar todos os outros ao assassínio. Mas se os deuses nos desviarem disso, acon- selho-vos a renunciar35

Anfínoo é apresentado como um pretendente de coração reto cuja conversa era a que mais agradava a Penélope. A apresentação que lhe é feita antes de suas palavras, confere a ela um grau de adequação, demonstrando que sua opinião era a melhor a ser seguida. A aceitação de sua proposta, com a implícita concordância de todos que, para matar Telêmaco, seria necessário a anuência divina, expressa que aqui os pretendentes seguem um comportamento piedoso, demonstrando temor pe- las conseqüências de seus atos. Se juntarmo as palavras de Antínoo, temendo a reação do povo, e a de Anfínoo, temendo a ira divina, notamos que, nessa reunião,

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os dois argumentos levantados na “assembléia de Telêmaco”, para tentar coibir a ação dos pretendentes também estão presentes. Nela, Telêmaco de forma clara, alegando a péssima conduta dos pretendentes, clama para que os presentes na as- sembléia, o povo, se voltem contra eles, além de ameaçá-los com a vingança divina, que nesse caso seria irremediavel.

Se as duas possibilidades de sanção, a perserguição do povo e a vingança di- vina, estão presentes nos discursos, tanto na “Assembléia de Telêmaco”, como nes- ta reunião dos pretendentes, por que na primeira, os pretendentes não se sensibili- zaram com elas, e na segunda sim? Na primeira assembléia o assunto em questão era o casamento de Penélope, na segunda, o assassinato de Telêmaco. Seriam dois assuntos de gravidades diferentes, o que justificaria a inanição do povo na pri- meira, e a crença da sua pronta ação na segunda? Seja como for estamos diante de duas percepções completamente distinta do povo: uma envolvendo fraqueza, omis- são e conivência com os pretendentes, outra, força e intolêrancia para com os atos injustos. Como poderíamos resolver essa questão?

Embora deslocando o foco do argumento, das questões de ordem social, para o plano da composição da trama, Thorton com a sua discussão a respeito da contra- dição ou não da fala de Atena, quando aconselhou Telêmaco a matar os pretenden- tes após o casamento de sua mãe, nos põe diante de um problema de interpretação, que também nos foi posto pelo debate que apresentamos por meio das opiniões de Finley, Morris e Snodgrass, e que pode ser frutífero para pensarmos essa questão da apreciação do papel do povo na sociedade homérica. Trata-se do problema da coerência ou da incoerência que o texto homérico apresentaria.

Para Thorton, a Questão Homérica teria sido anulada pelo trabalho de pesqui- sa de Milman Parry, demonstrando o funcionamento do processo de composição da poesia oral e determinando o papel da tradição como elemento social nesse proces- so. Porém consideramos que, se o debate a respeito da múltipla autoria foi abalado pela noção de tradição poética oral, a substância que o animava continua viva, ou seja, a questão da coerência ou não dos conteúdos e situações apresentados nos poemas.

Talvez não se discuta mais se a Ilíada e a Odisséia foram compostas por vários autores, ou foram o resultado do gênio de um único poeta, mas a questão da coe- rência ou da inconsistência dos elementos, que se apresentam na narrativa, conti- nua viva. Tanto Finley, Morris ou Snodgrass, cada um a seu modo, aceitam o papel da tradição no processo de composição da épica, porém cada um deles continua argumentando em termos da coerência ou não das formas sociais contidas na épica, de maneira a considerar que um cenário coerente seria a validação de que os poe- mas retratriam uma sociedade histórica; por sua vez, um cenário incoerente seria indicação que se trata de ficção. Como, então, deveríamos encarar as distintas a- preciações do povo contidas na assembléia de Telêmaco e na reunião dos prenten- dentes. Elas formariam um conjunto conjunto coerente, ou seriam contraditórias en- tre si?

Pensar como contraditória ou não a maneira como o povo se apresenta descri- to nessas duas reuniões depende dos esquemas de referências que utilizamos para compreendê-las. Se considerarmos que o povo é passivo e não possui papel impor- tante no cenário social da épica, a observação dos pretendentes nos aparecerá pro- blemática. A mesma coisa ocorreria no sentido contrário, se considerássemos que na épica o povo teria um papel relevante. Nesse caso, o seu comportamento passivo

na primeira assembléia é que teria de ser explicado. A idéia de contradição pode surgir mesmo sem apelarmos diretamente para qualquer comparação com possíveis contextos externos ao poema. Ela pode ser obtida nos próprios termos da narrativa, observando neste caso que em uma assembléia ele fora passivo e os pretendentes não o temiam, na outra é descrito como irascível, e que estaria disposto a vingar qualquer malfeito. Essas duas formas de apreciação do povo. A que foi primeiramen- te apresentada por Liócrito ao dizer que não o temia, mesmo sendo em maior núme- ro, e a apresentada por Antínoo, mostrando temor pela sua reação e força, seriam contraditórias ou coerentes nos termos da narrativa?

A questão é da mais alta importância. A idéia de contradição,ou de elementos polares, que formariam um todo coeso têm papel determinante na crítica textual con- temporânea. Porém, para as preocupações que animam nosso trabalho não preci- samos optar por nenhum desses dois paradigmas, mas apenas explicitá-los, mos- trando suas implicações para a análise. Não julgamos necessário escolher nem um, nem outro. Muito pelo contrário, pensamos que o ideal é a utilização de ambos. O paradigma da contradição permite-nos perceber fissuras e ambigüidades, enquanto o da coerência possibilita-nos visualizá-las em termo de todo orgânico, de sua fun- cionalidade, tanto ao que se refere aos elementos puramente narrativos, quanto aos da estruturas sociais que servem de pano de fundo. Trata-se de executar um movi- mento de pêndulo, oscilando entre esses dois paradigmas de análise, percorrendo assim suas diversas possibilidades.

Benzer Belgeler