3. MATERYAL VE METOT
3.3. Deneysel Kısım
Foi na lacuna deixada pela criação da CEDMP que os movimentos de direitos humanos e, sobretudo, grupos de familiares de vítimas da ditadura militar lutaram pela criação de outro dispositivo, com poderes mais amplos. Uma reivindicação que, como recordaram Renan Quinalha e Edson Teles, em um artigo de 2013 publicado na versão brasileira do jornal Le Monde Diplomatique, remete ao período do retorno dos governos civis nos anos 1980 (QUINALHA; TELES, 2013). Lembraram ainda os pesquisadores Alessandra Gasparotto, Renato Della Vechia e Marília Brandão Amaro da Silveira (2012), que o processo de elaboração da lei teve início em 2008, durante a 11a Conferência Nacional de Direitos Humanos, quando
foi aprovada a proposta de criar uma “Comissão da Verdade e da Justiça” e o tema foi incluído
nas bases do que deveria se tornar no futuro o Programa Nacional de Direitos Humanos – 3 (PNDH-3), a ser conduzido pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. As resistências que as políticas públicas na área recebem com frequência de militares, partidos políticos conservadores e até de integrantes do governo não demoraram a aparecer. Gasparotto, Vechia e Silveira (2012) pontuaram que logo na elaboração do texto final do PNDH-3, lançado em dezembro de 2009 pelo Executivo, o projeto sofreu uma alteração
significativa: foi suprimido o termo “justiça”. Mais tarde, o presidente Luiz Inácio Lula da
Quinalha e Teles argumentaram que a pressão de integrantes do Ministério da Defesa e Relações Exteriores resultou em:
Um recuo programático justamente nos temas humanitários mais politizados e que provocaram maior tensão. Uma breve análise comparativa entre o texto original e o final, documento básico para a criação da CNV, torna explícita a supressão de referências fundamentais, tais como: “repressão ditatorial”, “resistência popular à repressão”, “pessoas que praticaram crimes de lesa- humanidade” e “responsabilização criminal sobre casos que envolvam atos relativos ao regime de 1964-1985” (Idem).
Na proposta original, os autores recordaram que a intenção era criar uma Comissão da Verdade que também pudesse promover alguma forma de justiça em relação aos crimes do período. Na Diretriz 25 do PNDH-3, havia uma clara referência à revogação da Lei de Anistia
de 1979, ao afirmar que estava posta a tarefa de “suprimir do ordenamento jurídico brasileiro
eventuais normas remanescentes de períodos de exceção que afrontem os compromissos
internacionais e os preceitos constitucionais sobre Direitos Humanos”.
Todo o período de discussão e tramitação dessa proposta, entre 2008 e 2010, foi simultâneo à sucessão do presidente Lula. Após oito anos de governo, o líder do PT preparava o caminho para sua sucessora, a então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Como foi de notório conhecimento público, Dilma integrou grupos de resistência política armada durante a ditadura e, como tantos outros, foi perseguida, presa e torturada em centros de repressão criados pelo regime militar.
Nas escolhas políticas feitas pelo presidente Lula para a promoção de sua candidata, ficou evidente a tentativa de fugir da polêmica, uma vez que a escolhida para sua sucessão trazia em sua própria trajetória os símbolos da luta das vítimas da ditadura. Assim, um projeto de lei para criar a CNV chegou a ser enviado para o Congresso ainda em 2010,220 mas ficou parado
até o início do governo da presidente Dilma Rousseff, em 2011. O impulso final para o governo auxiliar a tramitação da matéria pode ter ocorrido após a condenação do Brasil na Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), no caso Gomes Lund, relativo às vítimas do Araguaia. A sentença foi dada em dezembro de 2010, após a eleição de Dilma.
A difícil tarefa de aprovar a legislação logo no início do mandato da primeira mulher a ocupar o cargo máximo da República mobilizou diversos ministérios. Nesse período, Dilma contava com algumas vantagens para o prosseguimento de uma matéria considerada polêmica,
220 EBOLI, Evandro. Projeto de lei que cria Comissão da Verdade ficou parado na Câmara. O Globo, Rio de Janeiro, 1 abr. 2011.
em geral, para o Congresso Nacional. A presidência da Câmara dos Deputados era ocupada por um integrante de seu partido, o deputado Marco Maia (PT/RS). Além disso, a base governista com diversos partidos mostrava solidez.
De modo geral, o país ainda sentia os efeitos da alta popularidade com que o presidente Lula deixou o Palácio do Planalto: 87% de aprovação, segundo uma pesquisa do Ibope encomendada pela Confederação Nacional da Indústria, em dezembro de 2010.221 Em meio a um governo de continuidade, Dilma manteve uma grande parte dos ministros de Lula na primeira montagem de sua equipe.
Após meses de negociações, o plenário da Câmara dos Deputados votou e aprovou o projeto com relatoria do deputado Edinho Araújo (PMDB/SP), em 22 de setembro de 2011.222 Como na Lei de Anistia, o governo levou o assunto ao plenário pedindo que os deputados da base governista tentassem aprovar a matéria em regime de urgência urgentíssima. A tramitação acelerada impediu maiores debates e reflexões, conduzindo a votação de modo célere. O mesmo também ocorreu à época da Lei nº 9.140, em 1995.
A vitória do governo, porém, não ocorreu sem decisivas baixas para os idealizadores da proposta. Entre as modificações feitas, ficou ampliado o período inicial de investigação de 1964 (ano do golpe) para 1946, no fim do Estado Novo. O argumento usado pelos deputados é que a concessão de anistia política também se estende ao fim do governo ditatorial do presidente Getulio Vargas. Uma das mudanças mais significativas, porém, foi uma emenda do Partido dos Democratas (DEM) pedindo a obrigatoriedade de que os membros escolhidos para integrar o
colegiado “fossem imparciais”.
Como previsto na legislação criada, a escolha do grupo era prerrogativa da presidente da República. Ao saber da inclusão da emenda do DEM, Dilma tentou resistir. A discussão entre a presidente, que estava em viagem no exterior, e seus ministros ocorreu no banheiro da presidência da Câmara.223 Na ocasião discutiam com ela ao telefone, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, o então presidente da Câmara, Marco Maia, a então ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, e o assessor especial da Defesa à época, José Genoino. Todos
221 BONIN, Robson. Popularidade de Lula bate recorde e chega a 87%, diz Ibope. Portal de Notícias. Disponível em: <http://g1.globo.com/politica/noticia/2010/12/popularidade-de-lula-bate-recorde-e-chega-87-diz- ibope.html>. Acesso em: 18 jul. 2016.
222 LOURENÇO, Iolando. Câmara aprova criação da Comissão da Verdade. Portal de Notícias. Disponível em: <http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2011-09-21/camara-aprova-criacao-da-comissao-da-verdade>. Acesso em: 18 jul. 2016.
223 BRAGA, Isabel; CAMAROTTI, Gerson; MALTCHIK, Roberto. Dilma cedeu para aprovar Comissão da Verdade. O Globo, Rio de Janeiro, 22 set. 2011.
integrantes do PT e o último, também ex-guerrilheiro e vítima da repressão política. No entanto, a pressão da oposição para aderir ao projeto foi maior e a emenda foi incluída na aprovação.
A redação barrou, desse modo, que sobreviventes do período ou parentes das vítimas compusessem o grupo. Suzana Lisboa, por exemplo, a despeito de toda a experiência pessoal e o trabalho de dez anos na CEDMP, ficou impossibilitada de trabalhar no grupo. O mesmo ocorreu a Ivan Seixas, que já havia trabalhado com a Secretaria de Direitos Humanos (SDH) no tema224 e às irmãs Maria Amélia de Almeida Teles e Criméia Alice Schmidt de Almeida, que atuaram tanto pela abertura da Vala de Perus, como nas investigações das vítimas da Guerrilha do Araguaia, além de todo o restante dos integrantes da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos.
O resultado acabou, por consequência, impedindo que algumas das pessoas mais envolvidas diretamente nas pesquisas sobre mortos e desaparecidos desde o regime militar pudessem trabalhar no grupo oficialmente. Outra reação para tentar ampliar a legislação foi ensaiada no Senado, sem sucesso. Um mês depois, em novembro de 2011, os senadores aprovaram o texto da Câmara que foi à sanção presidencial. Neste documento, ficou estabelecido que a CNV tinha sete objetivos, segundo seu artigo 3º:
I - esclarecer os fatos e as circunstâncias dos casos de graves violações de direitos humanos mencionados no caput do art. 1o;
II - promover o esclarecimento circunstanciado dos casos de torturas, mortes, desaparecimentos forçados, ocultação de cadáveres e sua autoria, ainda que ocorridos no exterior;
III - identificar e tornar públicos as estruturas, os locais, as instituições e as circunstâncias relacionados à prática de violações de direitos humanos
mencionadas no caput do art. 1o e suas eventuais ramificações nos diversos
aparelhos estatais e na sociedade;
IV - encaminhar aos órgãos públicos competentes toda e qualquer informação obtida que possa auxiliar na localização e identificação de corpos e restos mortais de desaparecidos políticos, nos termos do art. 1o da Lei no 9.140, de 4
de dezembro de 1995;
V - colaborar com todas as instâncias do poder público para apuração de violação de direitos humanos;
VI - recomendar a adoção de medidas e políticas públicas para prevenir violação de direitos humanos, assegurar sua não repetição e promover a efetiva reconciliação nacional; e
224 Ivan Seixas trabalhou no livro Habeas Corpus: que se apresente o corpo – a busca dos desaparecidos políticos. 2010.
VII - promover, com base nos informes obtidos, a reconstrução da história dos casos de graves violações de direitos humanos, bem como colaborar para que seja prestada assistência às vítimas de tais violações. 225
Assim, apesar das inúmeras disputas ocorridas ao longo da edição da Lei nº 12.528/2012, enfim foi criada no país uma norma jurídica que reestabelecia a obrigação do Estado em investigar os crimes cometidos por agentes públicos contra cidadãos brasileiros. A despeito do contexto ditatorial, a instauração de inquérito por homicídio, desaparecimento ou sequestro sempre foi obrigação da União por meio das polícias. Contudo, pela interpretação vigente da Lei de Anistia, a maioria dos crimes cometidos pelo Estado contra opositores políticos durante a ditadura continuavam, até 2012, sem esclarecimento – não obstante o fato de que a própria União havia reconhecido as mortes e desaparecimentos, por meio da Lei nº 9.140, de 1995.
Passada a fase de reconhecer a existência de mortes e desaparecimentos forçados nesse período, havia chegado então o momento de detalhar as circunstâncias, os locais e os responsáveis pelos crimes. Todas as informações obtidas deveriam ser encaminhadas aos órgãos competentes para que fossem tomadas medidas de localização de restos mortais e
também para possibilitar uma “reconstrução” dessas histórias. Essa última, uma tarefa sensível.
Como salientou o historiador Rodrigo Patto Sá Motta, o que a Comissão pretendia fazer era mais próximo a “uma história defendida pelo ponto de vista do Estado”. 226 Em 2012, um Estado
que poderia permitir espaço a versões e vozes proibidos anteriormente.
Além disso, os trabalhos da CNV deveriam resultar em recomendações de políticas públicas para a memória das vítimas e para prevenir a repetição dos crimes de lesa-humanidade. Processar e julgar os militares que cometeram crimes jamais foi uma atribuição do grupo na norma aprovada no Congresso Nacional e sancionada pela presidente Dilma Rousseff.