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Desde sua criação, a CNMT colocou em prática a realização de pesquisas sobre a situação da mulher no mercado de trabalho. Essas pesquisas normalmente são feitas em parceria com setores de universidades e com o DIEESE. Essa ação teria como decorrência a realização de cursos e seminários visando ao estudo desses trabalhos e à apropriação dos resultados de pesquisa na atividade sindical. A

implementação de uma estratégia sistemática de formação exerceu-se na produção e divulgação de saberes.

No que concerne às configurações gênero e trabalho, é recorrente, na atividade sindical, a desagregação de dados sobre o mercado de trabalho que indicam a situação de homens e mulheres, de modo a ressaltar a posição desvantajosa dessas últimas em relação a vários critérios analisados. Nesse aspecto, além das pesquisas do DIEESE, há também a utilização de informações produzidas por núcleos acadêmicos e organizações feministas que se dedicam a compreender as relações gênero e trabalho, gênero e políticas sociais. São saberes elaborados fora do âmbito sindical, mas no mesmo domínio de saber, e incorporados em publicações coletivas.

Nessa análise tratarei dos enunciados dos Cadernos do Núcleo Temático

Relações de Gênero produzidos pela Comissão Nacional sobre a Mulher Trabalhadora – CNMT – e pela Secretaria Nacional de Formação da Central Única dos Trabalhadores (SNF). Os dois Cadernos que compõem essa análise foram elaborados no interregno de 1997 a 2001 a partir da seguinte metodologia: oficina de discussão, com a participação de formadores e formadoras, dirigentes e assessores (as) sindicais representantes das instâncias estaduais; debates com pesquisadoras acadêmicas convidadas; publicação de uma síntese contendo as exposições das pesquisadoras, indicações bibliográficas e, no caso do Caderno publicado em 2001, indicações para o trabalho com a temática nos variados programas de formação desenvolvidos pela SNF.

Trata-se de um material que alcançou todos os pontos da estrutura organizativa da central sindical, com tiragem de três mil exemplares e distribuição nas sete escolas sindicais, nas confederações ligadas à CUT e nos maiores sindicatos do país, revelando-se, pelas condições de produção e pelas táticas de divulgação e utilização, um acontecimento discursivo. Seus enunciados consolidam uma determinada prática discursiva.

Caderno 1 – Gênero: construindo as relações sociais

Esse material é resultado da oficina O que são relações de gênero? realizada em 1997. A abordagem introdutória destaca o “momento conjuntural perverso” no contexto da reestruturação produtiva que atinge homens e mulheres, enfatizando a incidência mais nefasta sobre essas. Indica ainda o que se poderia considerar um plano de lutas para o movimento sindical: garantia de condições igualitárias de acesso e permanência no mercado de trabalho formal; superação das desigualdades salariais entre homens e mulheres e a valorização e requalificação profissional das trabalhadoras, e por fim, a eliminação das situações de discriminação referentes à educação, saúde e violência que atingem diretamente as mulheres. (CADERNO DO NÚCLEO TEMÁTICO RELAÇÕES DE GÊNERO, 1998, p. 9)

A definição do conceito de gênero e de seus significados na atividade sindical é o tema do primeiro artigo do Caderno, intitulado Relações de gênero:

distinção sexo / gênero e da articulação gênero-classe-raça. A discussão privilegia a denúncia da permanência desfavorável da mulher nos locais de trabalho e na sociedade, enfatizando a necessidade da organização de mulheres para combater as desigualdades. Essa formulação reitera as dificuldades de se ultrapassar os limites da categoria mulher e considerar o aspecto relacional da categoria gênero na ação política. A interrogação colocada ao final do artigo pretende acenar com possibilidades de extrapolar os âmbitos de uma oposição binária: “como se expressa o ser homem e o ser mulher em nosso meio?” (RIBEIRO, 1998, p. 16). Levada às últimas conseqüências essa interrogação revela, em lugar do “ser”, formas distintas de existir.

O segundo artigo, Gênero, saúde e trabalho, reitera aspectos conceituais da categoria “gênero” com base na clássica definição formulada por Joan Scott (1995) e amplamente adotada nos estudos produzidos no Brasil. O aspecto relacional da categoria “gênero” é aplicado nesse artigo para a compreensão das situações de trabalho e adoecimento. A análise do lugar de homens e mulheres no mercado de trabalho considera aspectos desfavoráveis para ambos, enquanto o que em geral circulava nos documentos da CUT sobre o adoecimento no trabalho, predominantemente sobre as Lesões por Esforço Repetitivo (LER) –, enfatiza sua incidência em postos de concentração da presença feminina:

Os homens são colocados nos postos mais perigosos e que requerem maior esforço físico, porém têm maior acesso à dinâmica de promoção formal (ligada à capacitação) ou informal; ao contrário, as mulheres são destinadas a postos de menor risco, porém realizando tarefas de atenção pessoal e com menos possibilidades de promoção (BARRETO, 1998: 24).

Nesse artigo, enuncia-se uma problematização que dispersa o discurso tradicional: “as lesões por esforço repetitivo invadem o universo masculino naquelas funções onde a atividade é repetitiva e associada a ritmo intenso”. A autora observa ainda que “em conseqüência da construção social quanto aos valores masculinos” na maioria das vezes o homem procura o tratamento em estágio avançado da doença (BARRETO, 1998, p. 26).

A apresentação de dados da pesquisa efetuada no setor químico indica a ação nociva de determinados agentes sobre homens e mulheres. Chama atenção a demarcação dos efeitos quanto à saúde reprodutiva por indicarem malefícios causados em homens e mulheres. Nesse caso, considera-se a reprodução para além da maternidade e do corpo feminino, num enfoque que rompe a perspectiva biologizante para enfatizar que a saúde reprodutiva não é só das mulheres.

Um conjunto de indicações bibliográficas comentadas, seguido de um quadro sinóptico sobre a conceitualização de gênero, dão contornos finais à escrita do Caderno 1.

Caderno 2: Reestruturação produtiva, formação profissional e gênero.

O segundo caderno se organiza tendo como eixo a problemática que, naquela conjuntura, incidia sobre a atividade sindical: a reestruturação produtiva e uma de suas conseqüências, o desemprego formal. Nessa associação, a diminuição

da capacidade organizativa e ativa dos sindicatos cutistas decorre da perda significativa de suas bases – redução do número de trabalhadores e trabalhadoras filiados – e da retração de sua capacidade de negociação em face do desemprego.

O conjunto de três oficinas que serviu de base para a elaboração desse material discutiu a experiência de alguns ramos de atividade – Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM); Confederação Nacional dos Trabalhadores da Agricultura (CONTAG); Confederação Nacional dos Bancários (CNB) e dos projetos nacionais de formação profissional da CUT. Vale destacar que a diminuição da capacidade organizativa da Central, associada às conseqüências da reestruturação produtiva no debate sobre qualificação profissional, operaram um deslocamento da formação político-sindical para o desenvolvimento de projetos no âmbito do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) – com enfoque na educação escolar (Educação de Jovens e Adultos Trabalhadores) e profissional.

A abordagem introdutória dessa publicação utiliza o conceito de divisão sexual do trabalho, reiterando os aspectos que definem o lugar das mulheres: postos de trabalho menos qualificados, periféricos e com menores salários; crescimento da presença feminina no setor de serviços; maior incidência entre as mulheres do desemprego, informalidade e pobreza. Ressalta-se a qualificação como estratégia visando à reversão desse quadro, embora se reconheça que não implicaria necessariamente em “ascensão profissional ou em empregabilidade, seja para homens ou mulheres”. Nesse sentido, a estratégia anunciada é “oferecer instrumentos para que não se reproduza, nos programas de qualificação, a divisão

sexual do trabalho” (CADERNO DO NÚCLEO TEMÁTICO RELAÇÕES DE GÊNERO, 2001, p. 4).

O primeiro texto do caderno, Relações de gênero e sindicatos no contexto da

reestruturação produtiva, traça um histórico que atesta a ampliação da presença feminina no espaço sindical. Destaca a atuação da CNMT, que de acordo com a avaliação, impulsionou o processo de mudança de valores e atitudes dos homens no interior dos sindicatos:

A discussão sobre as questões de gênero obrigou os dirigentes sindicais a pensarem sobre si mesmos, sobre suas relações pessoais e sobre sua relação com o movimento sindical, o que potencializa uma reavaliação de suas próprias identidades de militantes e de homens (ARAÚJO e FERREIRA, 2001, p. 15).

No que se refere à reestruturação produtiva, a análise apresentada recorre a dados do mercado de trabalho que corroboram a tese de que a atual ampliação da presença feminina é verificada em segmentos precarizados de inserção, diminuindo sua presença na organização sindical. O quadro dos anos noventa, nessa proposição, caracteriza-se pela “perda de espaço da mulher no plano simbólico e concreto da ação sindical” (ARAÚJO e FERREIRA, 2001, p. 31).

O segundo texto, Reestruturação produtiva, qualificação profissional e gênero, adota o mesmo plano analítico, qual seja, a divisão sexual do trabalho. Ao crescimento da presença feminina no mercado de trabalho opõe as formas de segmentação por gênero, “com a concentração feminina em determinados guetos ocupacionais e em postos de trabalho mais instáveis e piores remunerados (sic)” (NEVES, 2001, p. 40). Sobre a formação profissional, indica-se que a qualificação

atribuída às mulheres é definida pela educação informal, pela experiência em tarefas domésticas, que não lograram o reconhecimento e formalização, situando-se no enquadre de “aptidões”. A permanência das mulheres em postos de atividades repetitivas sujeitos à intensificação do ritmo de trabalho e distanciado das inovações tecnológicas agrava o quadro de adoecimento no trabalho.

A caracterização das relações de gênero apresentada no segundo caderno reconstitui elementos do discurso das relações “gênero e trabalho” desenvolvido em diversos âmbitos da organização sindical e das pesquisas acadêmicas. Trago aqui as elaborações produzidas em outros campos e que integram o mesmo domínio de saber. A intenção é ampliar a trama dessa tessitura para compreender os enunciados que circulam e sustentam a prática discursiva. Utilizo-me da produção do DIEESE, que desde 1999 elabora um Boletim Especial sobre a situação das mulheres no mercado de trabalho42. Entendo que não se trata de uma análise de gênero e sim de

uma análise da situação das mulheres conforme os títulos das publicações indicam. Entre os fios dessa trama cotejei trabalhos de pesquisa acadêmica que interligam gênero e mercado de trabalho por meio do conceito de divisão social do trabalho.

42 O referido boletim é elaborado com base nos dados coletados pela Pesquisa de Emprego e Desemprego realizada em Regiões Metropolitanas brasileiras selecionadas, sendo divulgado por ocasião das comemorações do Dia Internacional da Mulher, no mês de março.

3.3 Divisão sexual do trabalho: a situação das mulheres nos

Benzer Belgeler