O entendimento de sua linha editorial – (1) resistência simbólica através do texto e da imagem ao modelo político e social da ditadura militar, (2) práticas que evidenciem um discurso atrelado à contracultura e (3) a diferenciação à “grande imprensa” como imprensa alternativa –, possibilitará aos leitores um conhecimento do contexto de criação de tipos e personagens caricaturais pelo semanário. Isto torna possível também que estes sejam assimilados humoristicamente, mesmo que sejam representados nas “entrelinhas”, o que traz uma variedade de opções de construções imagéticas.
A necessidade de ciência do “universo cultural” para a compreensão da comicidade, repito, é importante para o entendimento não só dela, como de quaisquer outras formas de expressões comunicativas. Daí é fácil entender a construção simbólica e de estereótipos que dão sentido aos desenhos e às criações de personagens e tipos cômicos, colocando-os em narrativas.
A concepção de caricatura no Pasquim une as duas propostas que a vêem, em uma síntese do que foi desenvolvido no tópico 2.2.3.1: (1) tanto como gênero de humor (2) quanto como manifestação simbólica humorística, através do desenho, que evidencia de forma cômica aspectos da fisionomia e comportamento de tipos humanos. Neste subtópico, trataremos dela sob esses dois aspectos, dando relevância ao segundo, como técnica. Do segundo subtópico em diante, a caricatura deve ser vista com relevância ao primeiro sentido, como gênero, sem excluir o segundo, que o complementa.
A caricatura pessoal no Pasquim sob censura não era muito praticada, já que logo após a decretação do AI-5 era praticamente inviável retratar políticos governistas e militares satiricamente. O principal alvo da caricatura praticada no Pasquim nos seus primeiros anos, portanto, passou a ser principalmente a classe média “conservadora” que apoiou o golpe, sob certa construção estereotipada e simbolizada por boa parte dos desenhistas de um tipo particular de comportamento que representaria (geralmente com feições cômicas grotescas)
um sujeito que popularmente poderia ser chamado também de “conservador”. Esse sujeito seria o defensor, lembrando José Luiz Braga ao se referir a classe média que ele chama de “moral”, a verdadeira base ideológica do regime. Os seus interesses seriam aqueles já levantados: conformismo, mesquinharia, necessidade de segurança e de imagem social e moralismo. (BRAGA: 1991, P. 216).
Em geral, a criação das características humanas desse tipo era feita sob alguns estereótipos e simbolismos, como: obesidade, carrancudo, bigode, terno e gravata, atitudes autoritárias, feições de rosto fortes caminhando para o grotesco, corcunda, etc. Essa universalização de sentido é comum nos quadrinhos, como destacamos em citação do livro de Will Eisner sobre narrativas gráficas (EISNER: 2008, p. 21). Ela é muitas vezes inevitável como construção satírica ou cômica. Mas obtém sucesso e é de fácil entendimento entre o público leitor, que vê a aproximação estética entre esses tipos e o cotidiano.
A maioria dos desenhos deste tipo denota um homem velho, sobretudo, mas com características particulares. Seu sentido conotativo contribui para uma construção cultural compartilhada que caracteriza esse sujeito peculiarmente, cujos estereótipos levantados aqui podem reforçar características como: carrancudo (conotando mau-humor), bigode (conotando vontade de firmeza, masculinidade), terno e gravata (conotando status social e superioridade), atitudes autoritárias (conotando autoridade, mesmo), feições de rosto fortes caminhando para o grotesco e certa corcunda (conotando aspectos físicos rudes como aspectos morais também rudes).49
Serão apresentados agora alguns exemplos desse tipo caricaturesco. São charges, por sua natureza factual e política, de Ziraldo nas páginas 05 e 06 da edição de nº 49, que circulou em 28 de junho de 1970 (anexos 35 e 36). As páginas debatem o assunto em pauta no período, a reforma ortográfica. O título da série de charges é Ziraldo & a reforma ortográfica. O cartunista aproveita o ensejo e o trabalha comicamente, principalmente através de trocadilhos,
49 Inclusive, se o leitor pesquisar algumas fotos dos generais que governaram o país durante os anos de ditadura
militar (Humberto Castelo Branco, Costa e Silva, Garrastazu Médici, Ernesto Geisel e João Batista Figueiredo), muitas das características caricaturais aqui descritas sob a forma de estereótipos se assemelham às suas características físicas. Isso lembra um pensamento de Millôr que diz “O que ninguém percebe é que esses retratos oficiais maravilhosos, em que ditadores aparecem lindos, de faixa cívica trançada no peito, é que são as caricaturas. E que as caricaturas feitas por Nássara, Lan, Ziraldo, Paulo e Chico Caruso são retratos absolutamente realistas”. (FERNANDES: 2000, p. 69).
fazendo um paralelo com palavras como “reformas” e “assento/acento”, dentre outras formas de comicidade.
Na página 05 (anexo 35), a charge do canto superior direito reforça a idéia do estereótipo em torno do tipo “conservador” defendida aqui. Um sujeito do tipo “brutamontes”, corpulento, com um cigarro na boca enquanto fala, diz com a mão direita estendida e a mão esquerda no bolso, em tom de opinião: Sou contra!!! Sabe como é uma reforminha aqui, outra
ali... A charge pode ser interpretada conotativamente, por exemplo, como uma posição dos
conservadores contra o que anos atrás João Goulart tentou implementar no país: as Reformas de Base, abortadas pela marcha da classe média que apoiaria o golpe militar. Pode ser interpretada também como uma posição contra as mudanças que a década de 1960 trouxe nos hábitos e comportamentos da juventude, sobretudo a leitora do Pasquim. Enfim, a charge se dá justamente no trocadilho textual do sentido da(s) palavra(s) “reforma/reforminha”, mas é a imagem, no processo de ancoragem, que reforça a comicidade, com uma forma do cômico que se dá através da natureza física do homem, segundo a acepção de Vladímir Propp.
Na página 06 (anexo 36) aparece outro sujeito com tais características estereotipadas de “conservador”, no quadrinho inferior. Desta vez, são dois os personagens que compõem a cena, sendo o do lado direito o com tais características. O do lado esquerdo pergunta, em tom ao mesmo tempo de curiosidade e (não intencionalmente) de duplo sentido, ao que parece, dada suas características de sujeito visivelmente subserviente ao outro: cabeça baixa e inclinação corporal, conotando essa idéia, tratando o assunto que mistura a temática da reforma ortográfica com os traços do conservadorismo cultural.
A piada visual se complementa no processo de ancoragem como um alogismo, seguindo a tipologia da comicidade de zombaria de Vladímir Propp, já que a intenção do raciocínio do sujeito que formula a pergunta sofre uma reviravolta inesperada. Quando o tipo subserviente pergunta ao “conservador”: Na época que o senhor nasceu, química se escrevia
chímica... Aquiles se escrevia Achiles. O senhor tem certeza de que se chama Chagas? está
implícita a comicidade alógica do riso de zombaria no final da pergunta, já que ela teria duplo sentido não intencional, mas ao mesmo tempo “desmoralizante” ao sujeito em questão, com uma ação que visava agradar mas que acaba ofendendo, já que a pronuncia do nome viria a ser “Cagas”, que remete a flexão do verbo “cagar”, defecar.
Outro exemplo de caricatura na construção de personagens a partir do estereótipo e do simbolismo está ainda na edição de nº 02, página 04, de julho de 1969 (anexo 37). A série de cartuns, por sua universalidade e não referencialidade a fatos jornalísticos específicos, é do
cartunista Claudius, e trata dos concursos de miss. O título é Campeonato de Mulher. As mulheres que Claudius representa nos cartuns podem ter ruborizado as “feministas” e as defensoras de “minorias de gênero”, pelo teor e construção das piadas. Hoje, essas mesmas piadas podem soar até ingênuas, pela leveza com que foram feitas e pela forma como os meios de comunicação as representam na contemporaneidade.
Em cima, há logo um comentário de Sig: em matéria de miss, Claudius é um
entendido. Abaixo, os cinco cartuns. Vamos destacar dois deles. O primeiro, acima, há a
presença de pelo menos três tipos de personagens. Uma mãe, muito gorda, obesa (conotando aspectos físicos grosseiros como aspectos morais idem), de vestido no joelho (conotando um estilo de vestir contido), com braços enormes, empurra (conotação de força, vigor de ação) sua filha vestida de maiô (conotando sensualidade, mas paradoxalmente ingenuidade) para uma matilha de lobos sedentos (conotando o público masculino, a audiência televisiva, patrocinadores, etc.). O cartum pode ser entendido como a mãe que a todo custo quer ver a filha vencer o campeonato das mais bonitas, nem que para isso seja preciso colocá-la em perigo, à exposição.
Já no cartum abaixo, aparecem dois “extraterrestres” assistindo a uma televisão onde outra miss dá uma entrevista. O texto que ancora a imagem diz: Você tinha razão, não há vida
inteligente na terra. O cartum reitera a imagem da miss como imbecil, tola. Esse tipo de
concurso era muito comum nas décadas de 1960 e 1970, e pode-se tomá-lo dentro de um ponto de vista como “espaço de alienação”, o que era inadmissível pelas esquerdas políticas perante a gravidade política do contexto daqueles anos.
Esses exemplos acima apenas demonstram a diversidade de tipos construídos no jornal pelos cartunistas. Personagens ou anti-personagens, caracteres ou anti-caracteres, heróis e anti-heróis de cunhos político, social ou cultural aparecem e somem variavelmente nas edições do Pasquim. É vasta a variedade construída pelos humoristas, dentro das possibilidades postas tanto em situações jornalísticas (charge), como universais (cartum). O conjunto do estilo, o assunto, o contexto histórico do momento, o humorista, a rotina produtiva da edição é que definirá o que será caricaturado, alvo de sátira e de zombaria.
Importa saber que, para além do texto, ferramentas discursivas que compõem a narrativa dos quadrinhos, da construção de personagens, é que possibilitarão uma expressividade humorística e cômica ao objeto e/ou sujeito desenhado(s), dando a imagem características discursivas que tanto ancoram como funcionam independentes do texto verbal.
São essas construções que funcionarão como ferramentas iconográficas para tornar possível o discurso que orienta o traço humorístico no Pasquim.