Se signo é tudo o que exprime ideias e provoca na mente daqueles que o percebem uma atitude interpretativa68, então facilmente pode-se entender porque os
signos são tão importantes no ramo do cinema. Afinal, quanto melhor os signos são usados, mais informações estes podem gerar, já que é impossível abordar tudo que eles representam por meio de texto.
A imagem de uma cidade, por exemplo, pode suscitar inúmeras interpretações, mesmo porque deve-se levar em conta a subjetividade do receptor; contudo, se tal cidade for Jerusalém, dificilmente poderá ser dissociada da ideia de religião. Sendo considerada por séculos Terra Santa, sua imagem remete a importantes lugares de peregrinação para as três principais religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo e islamismo. Impossível ver ou falar de Jerusalém sem lembrar os séculos de história e conflitos religiosos que ela presenciou e, por que não dizer, que presencia até os dias atuais. Isso sem mencionar o território em que está localizada (Israel-Palestina), palco de constantes conflitos (étnicos, ideológicos etc.). Nesta análise, focada na leitura fundamentalista da Bíblia, qualquer imagem ou menção a Jerusalém69 ou Israel é
importantíssima, pois é para lá que os olhos devem estar voltados se há o desejo de se conhecer os acontecimentos dos últimos dias. O fundamentalismo considera Israel o relógio do mundo, isto é, um indicador dos acontecimentos no espaço-tempo da humanidade. Nesse sentido, os fatos históricos atuais, sejam políticos, econômicos,
68 JOLY, Martine. Introdução à Análise da Imagem. Campinas: Papirus Editora, 2008, p. 29.
69 Note-se que a existência e localização de Jerusalém é central tanto para o enredo do filme quanto para a
religiosos etc., que acontecem com Israel refletem antigas expectativas proféticas bíblicas, tanto para ele mesmo (Israel) quanto para o mundo. Logo, sem compreender o que se passa com Israel, também não se consegue entender a história do Homem. Por extensão, a imagem de Israel não é apenas um indicador, mas, devido ao povo que representa (o “povo de Deus”), passa a ser um símbolo do que muitas vezes acontece (ou deveria acontecer) com os crentes em geral.
Um símbolo como a cidade de Jerusalém pode evocar mais do texto bíblico do que se possa exprimir.
3.8.1. Dinâmica texto-imagem e suas consequências para a significação da vida
Pela análise percebe-se uma ampla interação entre texto e imagem. Pode-se até dizer que, “na medida em que os textos vão explicando as imagens, as imagens, por sua vez, vão ilustrando os textos”70. Contudo, ao seguirmos a reflexão flusseriana, temos de admitir num primeiro momento que os textos favorecem a conceituação71, enquanto que as imagens favorecem a imaginação72. Com isso, à medida que se privilegia a dialética
texto-imagem, a imaginação vai se tornando conceitual, e a conceituação, sempre mais imaginativa. Parece ser essa a dinâmica que fornece as bases para a construção de crenças e ensinamentos que já não fazem uso da adequação aos textos e sim da imagem que deles se pode extrair. Ironicamente, num meio que preza a “fidelidade” ao texto (o que para Flusser seria textolatria), este é usado como fonte depositária de imagens que serão aproveitadas conforme dão sentido ao enredo. O perigo maior parece residir ao lado do observador das imagens técnicas (aqui o filme) que, segundo Flusser7 3, vê tais
imagens como se fossem janelas, quando deveriam vê-las como símbolos que são, como o são todas as imagens. Assim, se um filme é visto como uma realidade conceitual e não em seu caráter de imagem simbólica, é possível que a interpretação que ele favoreça já não tenha mais nada a ver com o texto que lhe serviu de base. Agora sua função é servir de referencial interpretativo para a leitura e interpretação desses textos. De fato, se
70 FLUSSER, Vilém. Filosofia da Caixa Preta, ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Rio de
Janeiro: Relume Dumará, 2002, p. 66.
71 Capacidade de compor e decifrar textos. 72 Capacidade de compor e decifrar imagens. 73 Ibidem, p. 14.
alguém tentar a partir do filme para escrever um texto, se deparará com uma nova narrativa, totalmente diferente daquela que se supõe estar em sua base.
3.8.2. O uso de signos como produtores e sustentadores de ideologias
Sintética e superficialmente, pode-se refletir sobre os signos imagéticos como geradores ou mesmo promotores de ideologias. Para a filosofia flusseriana, a definição ontológica de imagem técnica é a seguinte: uma abstração de terceiro grau, uma vez
que “são imagens que imaginam textos que concebem imagens que imaginam o mundo”7 4; pode-se intuir que a essa fluidez de ideias subjaz um sistema que abrange interesses, compromissos, convicções de vários aspectos. Sendo assim, a obra final estará realizada não sem um critério de escolhas que possam atender a convenções intencionais. Em outras palavras, ela opta por algum tipo de ideologia. Nesse sentido, imagens nunca refletem puramente a verdade de um texto; elas fatalmente usam do texto para fabricar e reforçar cosmovisões. De algum modo, o que move ou sustenta as interpretações são sistemas de ideias, e não simplesmente a “verdade” do texto. Sem querer emitir juízo de valor a respeito de uma ou outra forma de ideologia, posto que esta sempre existirá, importa atentar para o perigo de acriticamente não perceber efeitos paralisantes num tipo de ideologia determinista, por exemplo, que podem ocorrem sobre o receptor das imagens.
Alguns tipos de ideias têm sido alvo de crítica75 nesse tipo de leitura divulgadas pela série Deixados para trás. Pode-se, por exemplo, distinguir duas, a partir de suas teologias de condenação e determinista: a teologia de condenação, por trabalhar muito com o eixo recompensa-castigo, salvos -perdidos, e a teologia determinista, por transmitir a ideia de que os eventos da história humana estão rigidamente demarcados na Bíblia, não havendo nada a fazer para alterá-los, a não ser esperar por sua realização. Contudo, o aprofundamento dessas questões é possível apenas na consideração geral da série, o que escapa ao objetivo de nossa dissertação. As poucas cenas analisadas apenas
74 Ibidem, p. 13.
75 Como são encontradas no livro The Rapture Exposed: The Message of Hope in the Book of Revelatio, de
Barbara R. Rossing, e no artigo Marketing the Beast: Left Behind and the Apocalypse Industry, Media Culture Society, de Torin Monahan.
evidenciam e exemplificam que existe no conjunto da obra uma seleção e ordenamento de signos conforme o propósito de seus idealizadores.