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A reflexão histórica sobre as relações entre sociedade e meio ambiente faz emergir a intrincada relação entre conhecimento e poder. O domínio do conhecimento, da informação e da tecnologia, sobretudo na modernidade, estruturam novos domínios de hierarquia social, econômica, política e cultural, aprofundando cada vez mais os processos de degradação ambiental, marginalização e pobreza de grandes contingentes populacionais, concentração de renda, injustiças sociais.

Na modernidade, uma das conseqüências dessa utilização quase dogmática do conhecimento em forma de ciência e tecnologia, é a legitimação das desigualdades sociais e ambientais pela construção das diversas racionalidades que objetivaram a exploração mercadológica, imediatista e utilitarista dos recursos naturais e sua industrialização, bem como a legitimação de sua desigual distribuição. Nesta direção, Boaventura de Sousa Santos argumenta:

“(...) a ciência moderna, que o projecto da modernidade considerou ser a solução privilegiada para a progressiva e global racionalização da vida social e individual, tem-se vindo a converter, ela própria, num problema sem solução, gerador de recorrentes irracionalidades” (2003, p. 34).

No decorrer da história da ciência, a própria fragmentação do conhecimento e a correspondente superespecialização em disciplinas e pesquisas isoladas têm reforçado, ideológica e economicamente, processos de utilização e apropriação de seus resultados pelos setores dominantes da sociedade.

Os setores que detêm o monopólio econômico, ditam as leis do mercado e os rumos de decisões sociais e políticas importantes, que têm afetado diretamente a saúde e qualidade de vida das populações. Esse modelo de desenvolvimento vem diminuindo drasticamente os recursos ambientais por sua exploração desenfreada, e limitado o usufruto desses recursos a parcelas seletas da sociedade, economicamente privilegiadas, aumentando a miséria e fomentando a pobreza em escala mundial.

O autor observa ainda que o capitalismo, ao deparar-se com as suas próprias crises de acumulação, tem utilizado a mercantilização da vida, e chega atualmente a limites “inultrapassáveis”.

Pesquisadores de diferentes áreas, sobretudo da sociologia, ciências políticas e economia, têm elaborado pesquisas, análises e teorias que buscam clarificar esse caráter racionalista, tecnocrata e mercantilista que domina a ciência e a tecnologia. Refletem criticamente sobre as aplicações dos avanços e inovações tecnológicos que se aceleraram vertiginosamente, sobretudo a partir das duas grandes guerras mundiais. Nesta perspectiva, apresentam propostas para a elaboração de novas categorias conceituais e metodológicas, voltadas a compreender as atuais estruturas sociais, sua historicidade e as instâncias que as reconfiguram e legitimam.

Ao mesmo tempo, desvelam com suas análises críticas as contradições e efeitos deletérios da modernidade industrial, de suas promessas de desenvolvimento, progresso econômico e social para a humanidade, efeitos contraditórios que tornam urgentes e incontornáveis os debates em torno dos temas desenvolvimento, progresso, gestão de recursos naturais e renováveis, tecnologias e suas aplicações e riscos, economia e globalização, degradação ambiental, democracia e poder, informação e conhecimento, sociedade e meio ambiente.

Não se pode deixar de retomar a gênese da história quando se procura analisar as conjunturas sociais, políticas, culturais ou científicas do presente. Não se trata de menosprezar ou desvalorizar as conquistas da ciência no decorrer da história humana. Antes, analisar os caminhos e propósitos, os discursos, significados, representações e ideologias que orientaram o desenvolvimento e aplicação do conhecimento.

Esses fatores estão ligados diretamente às questões atuais de degradação social e ambiental, vinculados à falência do ideário de neutralidade e apoliticidade da ciência e da tecnologia. Ideário que assumiu, no âmbito das legitimações e representações sociais, o condão de promotor incontestável de desenvolvimento e progresso sem fronteiras para o ser humano. De tal forma impregnou as representações do senso comum, que se autolegitima e realimenta o seu vínculo incondicional com a racionalidade econômico-instrumental, bastando somente aparecer nas embalagens ou propagandas o selo “cientificamente comprovado”.

As raízes da ciência moderna provêm das primeiras tentativas nos séculos XV e XVI de desenvolver um conhecimento desvinculado das explicações religiosas sobre a realidade e pautado nas observações empíricas. O conhecimento deveria, a partir de então,

encontrar sua comprovação através da observação e experimentação, sem vínculos com as questões irracionais da fé, do mito, da subjetividade.

Esta nova ciência se prestará à funcionalidade e ao pragmatismo, requerimentos das novas estruturas econômicas e sociais que surgiam entre os séculos XVIII e XIX, e se sustentará em sua utilização imediata para transformar os novos conhecimentos em tecnologias de caráter utilitário e imediatista. Sua legitimação se constrói pelo novo conceito de racionalidade, baseado na exploração produtiva da natureza, sob a alegação de progresso material ilimitado da sociedade, desrespeitando espaços de relações, territórios, culturas e conhecimentos tradicionais e milenares.

Assim, a ciência moderna toma como eixo de seu objetivo central, como observa Horkheimer, detectar regularidades no curso da natureza através de experiências sistematicamente organizadas para, a partir do conhecimento de tais regularidades, poder desencadear ou evitar voluntariamente determinados efeitos, ou melhor, exercer sua dominação, de forma mais ampla possível sobre a natureza.

Boaventura de Sousa Santos (2006) aponta para essa característica da natureza teórica do conhecimento científico, que aspira a conhecer as regularidades empiricamente observadas e testadas, no intuito de formular leis que possibilitem prever o comportamento futuro dos fenômenos para controlá-los:

O determinismo mecanicista é o horizonte certo de uma forma de conhecimento que se pretende utilitário e funcional, reconhecido menos pela capacidade de compreender profundamente o real do que pela capacidade de o dominar e transformar (p. 31).

É a partir desta concepção de conhecimento que se construirá a validação e legitimação da ciência moderna, sobre os princípios nos quais se estruturam a natureza e a sociedade, trazendo as noções de uniformidade e regularidade como duas características chaves para sustentar o desenvolvimento de uma forma de conhecimento que será útil ao desenvolvimento material da humanidade.

O desenvolvimento do método científico irá se aprofundar dando origem ao

pensamento moderno da ciência. Um modelo global de racionalidade científica, o

paradigma científico se fundamentou no raciocínio lógico indutivo e dedutivo, na atitude metodológica de descobrir ordem e uniformidade, na busca de relações ordenadas entre causas e efeitos, na previsibilidade, na regularidade e assim, na possibilidade de controle.

Desse modelo de racionalidade hegemônica da ciência origina-se também os pressupostos dos estudos científicos da sociedade. As ciências sociais emergentes no século XIX buscam a sua legitimidade a partir do campo das ciências naturais. As ciências sociais acabam por produzir reduções e distorções dos fatos sociais em seu esforço de enquadramento e compatibilização com os critérios de cientificidade das ciências naturais (Ibid. p. 35): os fatos sociais são reduzidos a coisas24, observáveis e mensuráveis, portanto passíveis de previsibilidade e controle.

Isto traz implicações profundas para as visões de mundo e interpretações positivistas da conduta humana e suas relações sociais e culturais. Há a separação entre ser humano e natureza, o senso comum é desconsiderado, assim como toda forma de conhecimento não proveniente do conhecimento científico, que adquire status de única via para se atingir a verdade; esta, por sua vez, só poderia ser revelada pela ciência, fechada doravante em seu círculo de autointerpretação e autolegitimação.

Recuperar o movimento da história revela que o desenvolvimento da ciência, na modernidade, serviu intensamente à industrialização desde meados do século XVIII. Permite analisar a indissociabilidade dos processos de industrialização, ciência, desenvolvimento social e modernidade. No contexto da modernidade, o processo de industrialização trouxe em seu bojo a especialização industrial, a divisão social do trabalho e a fragmentação das atividades profissionais.

Esses temas, tão em evidência na atualidade, requerem estudos e intervenções conjuntos, pois são frutos de efeitos que se potencializam pelas influências múltiplas e recíprocas de fenômenos sociais e ambientais. Fenômenos que não se tornaram perceptíveis pela ausência de uma visão sistêmica, relacional de ambiente e sociedade, ser humano e natureza, de uma ciência que conjugasse o ser humano em seu contexto cultural e material, no cerne das relações de produção na sociedade industrial, e os efeitos dessa interferência antrópica no ambiente global.

A complexidade da problemática ambiental implica em aprender novos caminhos, que considerem a complexização do conhecimento. Como uma nova perspectiva para todas as áreas da ciência, através de uma nova racionalidade e um novo pensamento sobre a

produção do mundo com base no conhecimento, na ciência e na tecnologia; é o espaço onde se articulam a natureza, a técnica e a cultura (LEFF, 2003, p. 7-8).

Silvio Funtowicz e Bruna De Marchi (2003) trazem uma importante reflexão sobre o consenso já alcançado em torno da problemática da tecnologia moderna: uma cultura tecnológica que atinge um momento limite e precisa mudar substancialmente para enfrentar os problemas referentes às conseqüências de sua própria atuação sobre o meio ambiente e as decorrentes conseqüências para sociedade, quer em forma de seus efeitos visíveis, constatáveis, quer em forma de riscos potenciais.

Apontam a resistência dessa cultura científica como um dos obstáculos, ao lado da cultura da economia e do desenvolvimento, para realizar mudanças estruturais necessárias a remediar as patologias de nosso sistema industrial, pois, até o momento, a ciência foi a legitimadora e utilizada como salvaguarda para políticas de gerenciamento que garantam a assunção dos riscos das inovações tecnológicas.

As urgências da crise ambiental impõem novos desafios à ciência e à educação, não só em termos de conhecimento, pesquisa e descobertas, mas desafios éticos e morais. Impõem que a ciência abdique da pretensa postura de neutralidade e apoliticidade; que assuma a intencionalidade de construir metodologias de pesquisa e aplicação científica com metas direcionadas a critérios de sustentabilidade socioambiental.

Que decisões adotar acerca das inovações tecnológicas? Quem as legitima? Quais os problemas mais críticos a serem enfrentados para o desenvolvimento sustentável, em que contexto social? Pode a ciência contemporânea dar respostas à atual crise ambiental e suas decorrências sociais?

A esse respeito, Funtowicz e De Marchi (2003, p. 67) alertam:

Os avanços científicos estão abrindo novos domínios na inovação tecnológica, com potenciais conseqüências para a saúde humana, na oferta energética, a produção de alimentos e a engenharia ambiental. Esses campos de conhecimento avançado contribuem para aumentar as esperanças da humanidade, mas, ao mesmo tempo, a ciência e tecnologia trazem novos problemas para a sociedade e novos desafios para assegurar a qualidade do processo de decisão sobre as inovações a adotar.

Ciência e tecnologia podem se constituir numa esperança ou numa ameaça à própria humanidade. Os riscos de intervenções tecnológicas nos ecossistemas e seus processos físico-químico e biológico complexos não podem ser avaliados no tempo e no espaço em que são aplicados. Os impactos ambientais futuros são imprevisíveis e podem

levar à ingovernabilidade dos riscos, com conseqüências irreversíveis para a humanidade. É preciso desconstruir o mito de que mais conhecimentos científicos e avanços tecnológicos impliquem automaticamente em processos benéficos de mudanças sociais e ambientais.

Quantidade em inovação tecnológica não desencadeia automaticamente soluções para os processos de degradação ambiental, saúde, melhoria das perspectivas econômicas, sustentabilidade dos recursos essenciais como água, solo, e ar. A tecnologia não gera, por si própria, qualidade nas relações entre os limites ecológicos, sociedade e sustentabilidade.

Funtowicz e De Marchi, elegem a ‘ciência pós-normal’, referindo-se a uma ciência capaz de responder aos desafios dos riscos postos pela ciência moderna. Essa ciência não tem mais como princípio organizador a Verdade, mas a Qualidade. Será orientada aos problemas da sustentabilidade, transdisciplinar, capaz de reconciliar razão e emoção.

Essa nova ciência deve admitir que as paixões sempre foram motores das descobertas e aplicações tecnológicas, que não há razão sem paixão, sem motivos desencadeados pela emoção. As diferenças nos resultados residem na qualidade ética dessas emoções, na qualidade moral dos encaminhamentos posteriores a que são direcionadas as aplicações científicas no contexto da produção material da vida humana.

Neste sentido, argumentam que a comunidade científica precisa colocar a si mesma, como principal interrogação, se a ciência realmente pode contribuir de modo efetivo para o desenvolvimento sustentável. Lembrando a não neutralidade da prática científica, seus valores devem fundamentar-se, neste novo contexto, nas preocupações sociais prioritárias, impulsionando “o processo de resolução social de problemas, incluindo a participação e a aprendizagem mútua entre os agentes envolvidos, em vez de a busca de ‘soluções’ definitivas ou impostas” (Id. 2003, p. 68).

2. 2. MODERNIDADE “TRADICIONAL”–MODERNIDADE “CONTEMPORÂNEA”, AS

Benzer Belgeler