Guimarães e os demais trabalhadores e/ou pequenos criadores também estão envolvidos na organização de suas áreas de criação, principalmente para adequação da infraestrutura do curral, de acordo com os moldes exigidos e adequados para a vacinação. O antigo curral, por não possuir a “manga”, não é mais apropriado para vacinação, estando ultrapassado. O criador que não possuir um curral apropriado tem que conduzir seu animal até outro ponto, isto é, uma fazenda, ou outro local onde possa vacinar os animais. Por exemplo, os que possuem um total dos 20 animais levam para as fazendas onde os técnicos já estavam vacinando e isso provoca uma circulação de pessoas e de animais de um lugar para outro.
Os fazendeiros que possuem muitos animais compram as vacinas e os técnicos do Estado as aplicam; assim; muitas vezes, as fazendas se tornam postos de vacinação e as pessoas que possuem menos cabeças de gado e não têm o curral apropriado vacinam seus animais nesses “postos”; dentre os que vacinam assim estão aqueles que possuem apenas um animal.
O amigo vaqueiro e agora novo criador construiu um curral apropriado, isto é, com as exigências técnicas. O curral novo possui separação, comportando subcurrais. Ele mesmo os construiu, juntamente com os filhos, e explicou que foi arquiteto, engenheiro, mestre de obras e madeireiro. Para isso fez uma planta do curral, de uma área de 8x16 metros, as fundações, derrubando árvores, serrando madeira e construindo. Guimarães contabilizou os custos para a compra do material necessário (madeira, arame, prego). Segundo ele, o esforço foi necessário para que o custo não fosse alto. A
construção de um curral no padrão para comportar 50 animais é onerosa, chegando, aproximadamente, a um montante de R$ 12.000,00 (doze mil reais) ou mais. Assim, o novo desenho do curral, para vacinação, gerou novos aprendizados para as pessoas envolvidas. (Figura 4)
Figura 4: Cópia do desenho do curral feito
por Guimarães no meu caderno de campo
Fonte: Desenho feito por Guimarães
no caderno de campo da autora.
O desenho acima é a cópia do modelo feito, detalhadamente, pelo vaqueiro/criador, com a contabilidade do material necessário para a construção do curral. Ele mostrou que de 4 em 4 o tarogo102 deve ser duplicado para reforçar o curral. Veja-se também que existem cinco subcurrais e uma manga103 para aplicação da vacina. Na ilha, os currais eram, em geral, divididos em dois e mais currais, propriamente ditos, e o barracão para a ordenha. Com a orientação para vacinação
102 Nome dado por ele para as hastes que são o apoio da cerca.
houve o acréscimo de outras áreas, ou seja, outros currais e uma área apropriada para vacinação. Esse fato trouxe mudanças que parecem estar apenas na estrutura do curral, mas que proporciona a entrada de uma nova categoria determinada “de fora”, por uma necessidade que não foi desejada, nem solicitada pelo grupo local, mas projetada pelo poder do Estado, na medida em que a vacinação obriga o proprietário a vacinar o animal dentro de um curral, de novo modelo, criando uma motivação local para a construção deste.
1.8.2 Orientação de registro de vacinação
No escritório da ADEPARÁ, em Muaná, solicitei informação relacionada ao procedimento de vacinação e, além disso, foi fornecido pelo funcionário técnico administrativo um modelo de ficha de classificação dos animais, como se apresenta abaixo na figura nº 5. A partir dessa ficha e ouvindo as conversas dos pequenos criadores e vaqueiros, pude compreender que as exigências para adequação da criação do gado são: instalação física, armazenamento da vacina em locais refrigerados; preenchimento da ficha que apresenta uma classificação por sexo e por idade. (Figura 5)
Figura nº 5: Ficha de vacinação e classificação dos animais (bovino e bubalino) Idade Sexo Macho Fêmea 0 a 1 ano 1 a 2 anos 2 a 3 anos + 3 anos Total de gado
Fonte: elaborado pela autora com base na ficha da ADEPARÁ, 2014.
O pequeno produtor104, principalmente, precisa ter conhecimento das planilhas de controle dos animais, a sua propriedade,105 com titulação no seu nome ou documento
104Trato aqui do pequeno produtor porque ele não tem formação e nem tem pessoal com os
conhecimentos que o Estado exige. O grande produtor, denominado, na Ilha de Marajó, fazendeiro, aquele que possui grande quantidade de gado, também precisa se adequar às exigências; no entanto ele, muitas vezes, tem ou é capacitado (médico veterinário, zootecnistas, técnicos em pecuária) e muitas vezes
de autorização de animais em “terra de terceiro”, pois no cadastro é necessário constar local de origem (precisando colocar os documentos da terra em ordem); assim há uma reordenação na vida local e, com isso, as pessoas adquirem uma nova função. No entanto elas devem saber ler e conhecer os trâmites da documentação, porque a relação com os técnicos, nos órgãos públicos, é frequente, por exemplo, dar baixa do gado quando os comercializam, ou quando morre ou nasce um animal.
Há, claramente, uma nova função instalada que, necessariamente, obriga. O trabalhador (pequeno criador e/ou vaqueiro ainda não letrado) a ter escolarização. A pouca ou nenhuma escolaridade dos antigos vaqueiros e pequenos criadores dificulta-os a fazerem o controle dos animais. Muitos não sabem ler os manuais, anotar nas fichas de controle a quantidade de animais. Nesse sentido, a linguagem oral praticada por estes agentes é a única forma de transmissão de conhecimento, o que os prejudica nessa nova ordenação da produção de gado e da lida do vaqueiro no Marajó.
A classificação dos animais fora, historicamente, construída pelas pessoas da microrregião (entre elas pessoas como o Guimarães) da seguinte maneira: vaca, boi, novilho, novilha, garrote, garrota, bezerro e bezerra. Agora, com as fichas de vacinação, a classificação passou a ser por sexo (macho ou fêmea) e idade (0 a 1 ano, 1 a 2 anos, 2 a 3 anos e + de 3 anos). Diante dessa classificação, alguns animais, como as fêmeas em fase de procriação e os animais de 0 a 1 ano de idade, recebem vacinação diferenciada.
Nesse sentido, entendo que os novos agentes, o governo, seus técnicos e o mercado internacional, entram no “espaço social” devido à exigência documental do gado, o que de acordo com o pensamento de Bourdieu (1996), vai redesenhando-o e dando lugar a outra ordem de dominação. Mas, aos poucos, percebi que há processos de continuidade de dominação, agora com a inserção de uma nova categoria (com o evento da “Vacinação”106): o mercado.
Essa mudança se verifica como forma de permanência de dominação, tendo em vista que o Estado é fonte determinante das mudanças (BOURDIEU, 1996). Assim, as pessoas mudam suas práticas e passam a utilizar outras, por exigência externa, e elas passam a obedecer internamente.
têm um escritório para tratar da empresa pecuária. São poucos técnicos na região para uma grande demanda.
105Na Ilha de Marajó a criação é extensiva e é costume as pessoas ganharem, comprarem ou possuírem
poucos animais e deixarem na propriedade de terceiros.
106Segundo Sahlins (2003, p.50), “enquanto a categoria dada é reavaliada no curso da referência histórica,
No entanto não se cumprem, muitas vezes, as novas determinações, porque a fiscalização não é intensiva, por haver, por exemplo, apenas dois técnicos da ADEPARÁ para visitar os domicílios em Muaná. Muitos criadores de gados fazem o abate e a comercialização da carne nas proximidades de sua propriedade, para atender a vizinhança. Muitas vezes, o abate é de apenas um animal.
A vacinação é uma etapa da reorganização do gado para adequá-lo ao quadro do país ou deixá-lo sem febre aftosa; a aplicação é anual, com campanha no mês de setembro. O proprietário precisa ter o gado cadastrado, curral adequado, pistola para aplicação da vacina, ambiente para conservar a vacina em baixa temperatura e propriedade própria ou de alguém indicado pelo pequeno proprietário, para que haja a vacinação de seu rebanho.
Tornar a Ilha de Marajó uma área de exportação de carne bovina e bubalina sob exigências internacionais exige das pessoas criadoras de gado a certificação de seus animais a fim de que tenham condições sanitárias compatíveis com as necessidades do mercado. Isso, segundo os técnicos do Estado, é um processo lento, porque culturalmente as práticas locais eram outras. Por outro lado, a maior parte da Ilha não possui energia elétrica ou de outra natureza para a instalação de refrigeradores (frigoríficos). A região precisa adequar-se aos novos padrões dos órgãos fiscalizadores para que o sistema opere totalmente, mas muitos não têm recursos para cumprir com essas exigências.