Os processos de criação da Compagnia Laboratorio, até o ano de 2009, tem a forma de um rizoma, conforme tratei no segundo capítulo desta dissertação. O rizoma cresce e se espalha livremente sem uma hierarquia e os elementos, sígnicos e não sígnicos, simbólicos e não simbólicos associados às
perguntas funtamentais – microtemas que provocam os sujeitos envolvidos no processo criativo –conectam-se em diferentes pontos, metamorfoseando-se sem que haja um centro ou uma essência de maior importância.
Observei que o fato do processo criativo ser rizomático, enquanto imagem, não quer dizer que os sujeitos envolvidos no processo de criação não possuam elementos essenciais entre si.
Os termos do discurso dos atores revelaram alguns dados comuns que traduzi na tabela abaixo. Esses termos não são a essência do fenômeno que é processo de criação da Compagnia Laboratorio, mas relacionam-se com
uma “essência ética” dos sujeitos envolvidos na Compagnia Laboratorio.
puo incontrare risposte chi sono sempre molti relative, però che non esauriscono le domande. Per che la domanda è viva e per che viva, continua. Non troverà mai la risposta e questo è anche secondo me un spirito della ricerca, nel senso di che quando cerca, cerca per che non trovi.O che tu fa è dare forma alla domanda, ma è sempre a domanda che dai forma, non alla risposta”.PASELLO,Silvia.Pontedera, Itália, fevereiro de 2009. Entrevista a mim concedida.
162 PRINCÍPIOS DO ATOR - EMANCIPADO PROCEDIMENTOS PRINCÍPIOS DO DIRETOR IGNORANTE PROCEDIMENTOS Igualdade nas relações Frequentemente é o ator quem explica ao diretor a natureza daquilo que fez.
Igualdade nas relações
Resiste a sedução de dar uma resposta, apontar um caminho. Afina e limpa as propostas que o ator cria.
Nega-se a instruir. Liberdade
Experimento artístico é prática pedagógica. O que importa é como se faz e não o que se faz. O erro é ferramenta de uma aprendizagem ampla. Liberdade Assiste, e observa tranquilamente. Confia nas potencialidades do ator porque não existe um caminho certo e errado, mas um caminho.
Autodidatismo
Instinto e intuição fazem parte do trabalho. Busca o que falta e o que é preciso melhorar, continuamente. Observação (é um espectador mudo ao invés de diretor e árbitro)
Tem um olhar atento, discreto e confiante. Suas intervenções são mínimas. Orienta o ator dizendo-lhe se aquilo que ele fez
“funciona” ou “não funciona”.
Autonomia
(extrai de si mesmo)
Improvisa, trabalha sobre tentativa e erro. Crê no experimento artístico. É empírico. Repete. Provocação Usa a provocação como ferramenta de superação. Devolve ao ator a tarefa de encontrar o seu lugar.
Veracidade
Não finge para si mesmo, não busca o conforto. Vai ao extremo de suas possibilidades.
Criador de Zonas de risco
O que pode contribuir para que o ator saia de sua zona de conforto? Sente-se um mediador Permanece em estado de alerta. Responsabiliza-se, oferece-se, doa-se, expõe-se. Tem consciência do processo de criação de maneira ampla Imprime o próprio ponto de vista sobre o espetáculo, o tema, a cena. Espiritualidade laica (sente-se um evocador de outra dimensão e um interventor do mundo cotidiano e superior) Crê na potência humana e, por isso, em si mesmo. O exercício de igualdade o coloca como interventor, como sujeito emancipado.
163 Parti dos termos do discurso dos atores e, portanto, de ordem mais individual para agora entender estas falas num sentido mais amplo, ou seja, busquei compreender a Compagnia Laboratorio como um todo, como coletivo, neste momento.
Este método é bastante arriscado porque, em primeiro lugar, conforme afirma Andrea Fiorentini, a Compagnia Laboratorio não é um grupo fixo de pessoas:
A Compagnia Laboratorio di Pontedera, como a vivo
pessoalmente, não é um grupo fixo de pessoas. Ao longo dos anos, Pontedera estabeleceu contatos com muitíssimos atores a partir das necessidades relativas ao espetáculo os simplesmente logísticas; são muitos os atores que se alternaram dentro do grupo. Portanto é possível encontrar inclusive duas produções cronologicamente próximas, com a maior parte das pessoas substituídas.
Outro elemento que cria esta alternância de presença e ausência é sem dúvida devida à falta de continuidade de trabalhos, que o teatro não pode oferecer aos atores. Não podendo haver uma relação deste tipo, muitos atores se veem obrigados a envolver-se também em outras companhias e quando esses trabalhos coincidem com os da Compagnia Laboratorio, se deparam com renúncias necessárias.211
Observo, todavia, alguns princípios do teatro de grupo – igualdade nas relações, liberdade, autodidatismo, autonomia e responsabilidade sobre a qualidade do espetáculo e do processo de criação. Os pilares edificantes da
Compagnia Laboratorio não são para mim os sujeitos envolvidos e nem um
modo de viver coletivo, mas um modo de fazer teatro cujo experimento é prática pedagógica e cujo diretor é um espectador de profissão que não possui
211“
La Compagnia Laboratorio di Pontedera, per come la vivo io personalmente, non è un gruppo fisso di persone. Negli anni Pontedera ha acquisito contatti con moltissimi attori e sulla base delle necessità relative allo spettacolo o semplicemente logistiche, molti sono gli attori che si sono alternati all'interno del gruppo. È quindi possibile anche trovare due produzioni vicine temporalmente, con la maggior parte delle persone cambiate.Un altro elemento che crea questa alternanza nelle presenze o assenze è certamente dovuta alla mancanza di continuità di impegni che il teatro non può proporre agli attori. Non potendo esserci un rapporto di questo genere, molti attori si vedono costretti a impegnarsi anche su altre compagnie e quando questi impegni coincidono con quelli della Compagnia Laboratorio, ci troviamo di
fronte a delle necessarie rinunce”. FIORENTINI, Andrea. Pontedera, Itália, fevereiro de 2009. Entrevista a mim concedida.
164 uma visão sobre o espetáculo, mas que a constrói juntamente com o processo de criação dos atores. O foco está no trabalho desses atores sobre si mesmos e não no espetáculo teatral.
Acredito que esses são princípios de resistência que tornam a história da Compagnia tão longa. Roberto Bacci, sem dúvida, é uma figura mantenedora desses princípios, é o elo entre o que foi o teatro de grupo e o que é hoje esse teatro em grupo. A Compagnia Laboratorio que conheci equilibra-se sobre um fio que, de um lado, tem o teatro de grupo e, do outro, o teatro de diretor; não o diretor ignorante, o diretor como espectador de profissão, mas o diretor tradicional, que parte de um ponto de vista seu para realizar a criação.
O que aconteceria se um dia Roberto Bacci se cansar de ser elo dos princípios do ator emancipado e do diretor ignorante? O fio se romperá e poderemos falar no fim da Compagnia Laboratorio pois teremos um teatro essencialmente de grupo ou um teatro de diretor? Ou os próprios atores serão guardiões destes valores e deste modo de fazer? Por enquanto, o que percebo nas formações até 2009 é o cuidado com os elementos em um movimento que não é grandioso, como foram os grandes movimentos revolucionários do teatro de grupo. É um movimento silencioso, sinuoso, como o caminhar do equilibrista, mas esse para mim é sim um caminhar de resistência.
Destaquei a essência dessa resistência a partir das palavras dos atores, elas se repetem no próximo item, em que busquei constituir uma análise ampla da Compagnia Laboratorio 2008-2009. A análise é qualitativa e não quantitativa, visto que nem todos os atores responderam aos questionários e entrevistas.