• Sonuç bulunamadı

4 SES OLAY VE AKUSTİK SAHNE TANIMA

5.2 Anlamsal Benzerlik

5.3.2 Deneyler ve Sonuçları

Estamos vivenciando na atualidade um contexto de crise civilizacional, quando, a partir dos anos de 1970, se instaurou em todo o mundo o assim chamado fundamentalismo de mercado, intensificando-se nas décadas seguintes. De conformidade com essa perspectiva, o mercado assume a soberania sobre as nossas vidas e, dentro de sua lógica, encontra-se a solução dos problemas.

A lógica do mercado consiste na competição, e não na cooperação. Quanto mais cresce a competição, tanto mais os valores individualistas de mercado se sobrepõem aos valores sociais de comunidade.

Os valores sociais expressam o interesse pelos outro, a sensibilidade diante da dor alheia. Pressupõem que o indivíduo esteja inserido em uma família, em uma comunidade, em uma nação e na humanidade, cujos interesses coletivos e individuais devem ser devidamente respeitados.

A discussão trazida por Marcel Mauss acerca do dom da dádiva, desde 1924, se torna fundamental para entender que a essência do ser humano está nas relações sociais, na coletividade, na cooperação entre comunidades, tribos e famílias. Tal relação e “contextualização permite entender que a obra de Mauss não tem apenas valor etnológico ou antropológico, mas uma grande atualidade sociológica para a explicação das sociedades contemporâneas” (MARTINS, 2008, p. 08).

A ideia do dom foi construída com base em uma reflexão que Mauss fez sobre as sociedades tradicionais. Ele não pesquisou sobre a sociedade europeia e sim sobre os povos da Melanésia, Polinésia, os índios do noroeste dos Estados Unidos da América. O intelectual francês foi buscar ainda as questões do direito romano, direito celta, direito grego, foi buscar informações na Índia e, em várias sociedades tradicionais para demonstrar que, em todas as sociedades existentes no planeta, a dádiva sempre existiu.

Pensando acerca da área da saúde, esta vem sendo progressivamente submetida à lógica de mercado, portanto recebe influência direta do mercantilismo vivenciado na atualidade. A mercantilização da saúde contribuiu, de certa forma, para a descaracterização do objetivo primordial dos profissionais da área, que significa, em sentido amplo, a manutenção dos indivíduos em condições plenas de exercer suas atividades cotidianas.

Diante do fortalecimento dessa realidade, em contrapartida, vem emergindo, no campo da saúde, movimentos de caráter social, buscando resgatar as questões humanitárias; inclusive, o próprio Ministério da Saúde implantou a política de humanização, conforme abordamos neste estudo. Essa humanização entendida como um tema transversal em todos os níveis de ação desenvolvidos pelos profissionais de saúde, desde a atenção básica, passando pela média e alta complexidade. A enfermagem, a exemplo das demais categorias, vivencia o antigo e, sempre atual, desafio de reorganizar sua ação aliando as competências técnicas às relações humanas e éticas.

A atuação como enfermeira intensivista durante a maior parte de nossa carreira nos proporcionou vivenciar alguns conflitos e indagações acerca de uma assistência humanizada, com responsabilidade ética e legitimidade profissional.

No nosso processo de trabalho, nos deparamos com várias atividades gerenciais, administrativas e assistenciais. Em geral, o processo de cuidar torna-se frustrante, sobretudo por causa das dificuldades decorrentes das condições de trabalho, mas não somente. Observamos que, ante a escassez de recursos materiais e humanos, os profissionais acabam justificando seu distanciamento dos pacientes, culminando em prejuízo para a qualidade do cuidar.

Para garantir a continuidade da assistência, a equipe de enfermagem assiste, diuturnamente, o paciente e, para a troca de informações entre os turnos de trabalho, existe a passagem de plantão, que pode ocorrer de diversas maneiras, dependendo do setor de internação.

Muitos estudos tratam da passagem de plantão, sobretudo, no que diz respeito aos aspectos técnicos de resolutividade, tempo despendido, fatores que colaboram ou que são dispersantes da equipe, porém poucos abordam a dimensão humana desse procedimento. Portanto, nesse estudo, buscamos conhecer o sentimento do paciente ao ver a sua história ser divulgada, ouvir os relatos sobre outros pacientes, sem muitas vezes, ser informado do que se tratava ou de quem estava falando sobre ele.

O percurso metodológico delineado, favoreceu a uma maior compreensão da pesquisa qualitativa, no que diz respeito ao relacionamento interpessoal entre profissionais e pacientes. Algumas dificuldades foram encontradas como, por exemplo, o cansaço dos pacientes no dia da entrevista sendo motivo para seu cancelamento ou adiamento. Aqueles que faziam parte do grupo a ser entrevistado

eram extremamente vulneráveis à instabilidade emocional e hemodinâmica devido ao seu processo de internação na UTI. Essas nuances sinalizavam a necessidade de cautela, zelo e prudência na abordagem do paciente, bem como durante toda a entrevista.

Algumas idas e vindas “perdidas”, entrevistas desmarcadas por motivo de algum desconforto como, dispnéia, indisposição do paciente ou sonolência, não foram suficientes para provocar, em nós, qualquer desânimo ou tristeza. Ao contrário, queremos registrar o enorme crescimento pessoal, profissional e na condição de pesquisadora, proporcionados pela oportunidade de realizar esta investigação. O relacionamento com o paciente e seus familiares, o exercício da arte de escutar, a sensibilização para perceber os gestos e apreensões do paciente, e mesmo, seus silêncios, foram fundamentais para enriquecer esse processo de interação e de aprendizagem. Um familiar sugeriu que a pesquisadora fosse apresentada por um membro da equipe do hospital, em vez de se dirigir diretamente ao paciente; assim, ele iria se sentir mais seguro e confiante. A sugestão não somente foi válida, mas, igualmente acatada, sendo verificado um maior êxito na aceitação dos pacientes, nas entrevistas subsequentes.

Os pacientes, aqui identificados por pedras preciosas, revelaram que a qualidade do cuidado dispensado pela equipe médica e de enfermagem se sobrepõe a qualquer sentimento danoso que possa ser vivenciado na UTI. A passagem de plantão, à beira do leito, foi presenciada por todos os entrevistados sendo que, para a maioria deles, não se mostrou como um momento específico de ansiedades, expectativas, medos e incertezas. Embora não tenha se configurado, pelo teor das falas dos entrevistados, como um momento que tenha gerado medo e ansiedade, podemos depreender pelas expressões de silêncio, lágrimas e outras sinalizações, durante as entrevistas, o quão difícil é vivenciar essa experiência.

As falas deixam transparecer a pouca expectativa sobre a privacidade no cuidado recebido na instituição. Para as pedras preciosas, a privacidade está relacionada à experiência dos profissionais que as atendem, associando idéias como prestatividade e gentileza no tratamento, minimizando as situações constrangedoras que muitos vivenciam no espaço da UTI.

Consideramos, nesse momento, a associação com a teoria da dádiva em relação à troca de bens simbólicos, gerados através da relação interpessoal do profissional com o paciente, diante da prestação do cuidado. O paciente aceita o

presente, e, imbuído de um sentimento de gratidão, o retribui em forma de elogios e gentilezas.

Os principais aspectos apreendidos e ressaltados pelos pacientes, em relação às falas dos profissionais, durante a passagem de plantão, foram os relativos ao quadro de saúde daqueles que se encontravam ao seu redor, seus vizinhos. As pedras preciosas revelaram que gerava dor e ansiedade, saber que alguém que está ao lado está muito mal e pode morrer, por exemplo. O clichê tranquilizador “você ficará bem”, frequentemente utilizado pela equipe que tenta confortá-lo, serve, apenas, para reforçar a sensação de insegurança que ele está sentindo. De certa forma, representa um obstáculo à expressão de temores e perguntas sobre o que com ele ocorrerá, a seguir.

Considerando a repercussão da escuta nos sentimentos dos pacientes, podemos inferir, através de suas falas e gestos, que houve sofrimento diante da passagem de plantão, à beira do leito, pela própria vulnerabilidade de se encontrar em um ambiente que, de alguma maneira, carrega o estigma da morte.

Entendemos que esta pesquisa tem um papel significativo no que diz respeito ao processo de comunicação da equipe de saúde, dentro do ambiente de UTI, especialmente na passagem de plantão, ou visita clínica à beira do leito, momento especial e esperado por cada paciente, quando este se encontra consciente.

É importante que o paciente conheça a equipe que dele cuida para que ele possa ter confiança nas informações fornecidas. A relação de confiança entre paciente e profissional precisa ser estabelecida, para que bons resultados sejam produzidos, considerando a ausência da família e sua vulnerabilidade, diante de uma situação nova e comumente inesperada, em sua vida.

Acreditamos na experiência da passagem de plantão multiprofissional, com abertura de espaço para a participação do paciente, como uma iniciativa de humanização que pode contribuir para uma melhoria da qualidade da assistência.

Recomendamos que a passagem de plantão seja realizada em dois espaços distintos: distante do leito e à beira do leito. Em um ambiente reservado, poderiam ser feitas as observações que se referem ao quadro clínico e prognóstico, grau de dependência, tipo de banho, eliminações, intercorrências, visto que podem causar ansiedade ou constrangimento ao paciente. Posteriormente, à beira do leito, seriam abordadas as questões práticas a respeito de acesso venoso, sondas, drenos e cateteres, sempre lembrando a relevância de se identificar e explicar ao paciente o

procedimento que será realizado, bem como reservar um espaço para ouvir suas necessidades.

Consideramos ser relevante, também, repensar o cuidado ao cuidador visto que o profissional de UTI vive, diariamente, situações de conflitos, entre vida e morte, gerando um clima de estresse no ambiente de trabalho. Daí enfatizar a importância de grupos de apoio psicológico, nos quais existam momentos de discussão entre os membros da equipe, acerca de situações vivenciadas.

Queremos, ainda, enfatizar a importância do dom da dádiva na sociedade contemporânea permeada pela competição, egoísmo, ganância, inveja, entre outras atitudes que negam a virtude da solidariedade. Ações, gestos e preocupações de um indivíduo para com seu semelhante estão se tornando exceções, quando, na verdade, deveriam ser a regra.

Em nosso dia-a-dia valorizamos muito pouco os pequenos gestos de ajuda e colaboração. É nesse contexto de crise que a teoria da dádiva parece nos mostrar uma luz que resgata na humanidade seu princípio fundante, de um ser humano que se preocupa com o outro, que tem a capacidade de dar alguma coisa a alguém, receber e retribuir.

Portanto, essa luz, cujo brilho foi refletido pelas pedras preciosas, nos ajudou e poderá ajudar a muitos outros profissionais, a acreditar na possibilidade de um mundo humano, demasiado humano, com suas virtudes e defeitos.

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Benzer Belgeler