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3. GEREÇ VE YÖNTEM
3.2 Deney Hayvanı Model
Vimos que Michelet e Ranke encaravam a história como uma estória que se desenvolve.Tocqueville concebeu-a como um intercâmbio entre elementos irreconciliáveis da natureza humana e da sociedade; para ele, a história avança para a colisão de grandes forças no presente ou no futuro imediato do historiador. Já Burckhardt, o último historiador a ser estudado por White, não via nada em desenvolvimento; para ele, as coisas aconteciam de modo a formar um tecido de maior ou menor brilho e intensidade, maior ou menor liberdade ou opressão, maior ou menor movimento.
“Burckhardt queria ver as coisas como elas são, ele libertou a história dos mitos da estória romanesca, da comédia e da tragédia e narrou-a como sátira. Nesse modo de elaboração de enredo o conhecimento histórico se divorcia definitivamente de qualquer pertinência para os problemas sociais e culturais de seu próprio tempo e lugar.” (WHITE. Meta-História: A Imaginação Histórica do século XIX.p241.)
Burckhardt observou um mundo em que a virtude era habitualmente traída, o talento pervertido e o poder posto a serviço da causa mais torpe. Sua única devoção era à cultura da velha Europa. Entretanto, a considerava como ruína e não alimentava nenhuma esperança de restaurar essa ruína. Satisfazia-se simplesmente em recordá-la. Burckhardt era irônico a respeito de tudo, até de si mesmo, visto que não acreditava em sua própria seriedade. Em sua juventude, gostava do liberalismo, mas nunca a ponto de lutar por ele ou de expressa-lo em suas narrativas. Sua teoria da história não podia tentar oferecer a “natureza real” dos acontecimentos porque seu pessimismo lhe negava o luxo de admitir que os acontecimentos tivessem afinal qualquer “natureza”. Burckhardt encontrou justificação intelectual para sua teoria na filosofia de Schopenhauer.
O objetivo da filosofia pessimista de Schopenhauer era o de negar a espécie e o meio para realizar esse objetivo era através da faculdade imaginativa. O pensamento histórico nesse esquema está destinado a ocupar uma posição secundária. Só possuía algum valor quando se aproximava da poesia, o que significava fazer o que se quer com os materiais históricos, aceitando-os ou rejeitando-os à vontade, a fim de converte-los numa imagem agradável de contemplar. A história deve aproximar-se da arte, mas nem mesmo a arte, melhor fuga do homem, é capaz de livrar o homem do mundo. O pessimismo de Schopenhauer é total e é esse pensamento que vai influenciar o pensamento após 1850.
É por isso que o tema favorito de Burckhardt é o Renascimento. Sua escolha não foi por acaso. Segundo o autor, o Renascimento foi um período em que o momento cultural se libertou da subordinação à política e à religião para
determinar as formas que elas assumiriam. Seu estudo sobre o Renascimento se limita ao estudo das diversas formas de arte da época. Ele não possui uma história geral, não tem propriamente um começo e um fim, era todo transição. O Renascimento foi concebido como um “jogo livre” do momento cultural no intervalo entre duas tiranias: a Idade Média e a Idade Moderna. O que Burckhardt fez foi pintar um quadro impressionista do renascimento. O realismo do assunto provém da recusa a esconder o que há de cru ou de violento, mas durante todo o tempo o leitor é levado a recordar as flores que cresciam nesse monte de esterco da imperfeição humana. A finalidade, porém, é irônica. Ao longo da obra, a antítese tácita dessa época de realização e brilho é o mundo cinzento do próprio historiador, a sociedade européia da segunda metade do século XIX.
O processo histórico é metaforicamente explicado por Burckhardt com as imagens da onda e da metástase. A primeira imagem sugere a noção de mudança constante, a segunda, a falta de continuidade entre os impulsos. O processo histórico é visto como mudança constante, mas as mudanças não seguem nenhuma lei ou ordem, são impulsos ocasionais e imprevisíveis. O que precisa ser explicado na história são os momentos de esplendor e realização cultural; eles constituem o problema. A vontade de potência (base da conquista política) e o desejo de redenção (a base do compromisso religioso) não precisam de explicação; são as bases fundamentais da natureza humana. Eles fluem e refluem constantemente. Em contraste a isso, a cultura é descontínua e só pode florescer quando os poderes coercivos – Estado e religião – estão adormecidos. Foi exatamente isso que parece ter acontecido no Renascimento na Itália. Sua
unificação tardia e a intensa luta entre Estado e religião abriram espaço para um livre desenvolvimento da arte. Mas o próprio florescimento é um mistério.
“A linguagem empregada por Burckhardt era a da ironia, tanto na forma em que era apresentada quanto no conteúdo para o qual ela dirigia a atenção. Ele era possuidor de um saber mais elevado e via o campo histórico como um campo cujo significado é esquivo, indeterminável, só perceptível para a inteligência refinada, sutil demais para ser tomado de assalto e sublime demais para ser desconsiderado.” (WHITE. Meta- História: A Imaginação Histórica do século XIX.p.265)
Ele apreendia o processo como uma satura literal, uma miscelânea, fragmentos de objetos destacados de seus contextos originais ou cujos contextos são incognoscíveis, capazes de ser agrupados de várias maneiras diferentes, de simbolizar um grande número de diferentes sentidos possíveis, e igualmente válidos. A estrutura de enredo dessa estória era irônica; vale dizer, o ponto principal disso tudo era que não havia ponto principal para o qual as coisas em geral tendem. Burckhardt era um cético e um pessimista.
A história da arte ocidental é vista por Burckhardt como um desenvolvimento dentro de uma tríplice tensão gerada pelas tendências para a representação alegórica, histórica e simbólica. O estilo do renascimento é visto como produto da gradual dissolução do impulso alegórico, ou metafórico, de sua tradição – através da arte narrativa de Giotto. Impulso que foi sustentado pela força da religião na civilização medieval. Uma vez suprimida essa tendência
teológica, a grande arte do Renascimento podia entregar-se à tensão criadora entre dois tipos de representação, as idéias sublimes por um lado (atividade simbólica) e a narração (atividade “histórica”) por outro.
“A própria historiografia de Burckhardt se desenvolveu no meio-termo entre simbolismo e narração. Era essa a base do realismo de seus estudos, que pretendiam ser concebidos como obras de arte à maneira renascentista. Sua teoria de explicação é contextualista, pois supõe que uma explicação histórica está dada quando os fatos estão diferenciados e a ligação entre os eventos está exposta. Mas esse relacionamento entre um acontecimento e seu contexto não é do tipo sinedóquico. Ele é concebido metonimicamente como um estado de cisma e conflito de interesses.” (WHITE. Meta-História: A Imaginação Histórica do século XIX.p.273)
É uma luta irremissível de forças que têm sua origem nas profundezas da natureza humana e são, em última análise, misteriosas em suas operações. Pode- se escrever uma história desses produtos na forma de uma narrativa, mas essa narrativa não descreverá uma linha de desenvolvimento conducente a uma redenção ou a uma reconciliação, necessárias em virtude de sua revelação. A história que Burckhardt contou do passado foi sempre a estória de uma queda da alta realização para a servidão.