Os dados foram analisados em três momentos distintos. Inicialmente, procedeu-se à análise dos dados secundários que fundamentaram empiricamente parte do referencial teórico do estudo. Posteriormente, foram analisados os dados quantitativos, utilizado-se o teste de hipótese Qui-Quadrado para Independência das variáveis pesquisadas. Finalmente, os dados qualitativos foram tratados, complementando as análises, que estão descritas nos subitens a seguir.
Os dados quantitativos do presente estudo foram processados e analisados utilizando-se as premissas da estatística descritiva, que, segundo Lima e Magalhães (2002, p. 2) é “um conjunto de técnicas destinadas a descrever e resumir dados, afim de que possamos tirar conclusões a respeito de características de interesse”. Após aplicação dos testes e questionários, os dados obtidos foram digitados e tabulados em planilha Excel, o que permitiu gerar tabelas e gráficos comparativos. Posteriormente, foram realizados cruzamentos entre os dados, de modo a testar a independência entre as variáveis, duas a duas, por meio do teste de hipótese conhecido como Teste de Independência, utilizando-se o modelo qui-quadrado como estrutura probabilística (LIMA e MAGALHÃES, 2002).
Os parâmetros utilizados pelo ISSL foram recriados em um programa desenvolvido no Excel (APÊNDICE B), gerando cinco planilhas de lançamento e análises de dados o que permitiu que a correção do teste pudesse ser pelo computador. Desse modo, lançaram-se as respostas dos entrevistados, e o programa calculou os dados previstos: presença ou ausência de estresse, fase de ocorrência do estresse e predominância dos sintomas, de forma individual e por agrupamento (trabalhadores com e sem carteira assinada).
O programa também permitiu agrupar os dados do questionário, gerando tabelas e gráficos, e possibilitando a análise do perfil predominante dos motociclistas profissionais. Esses dados foram relacionados entre si, de modo a estabelecer outras correlações, associadas ou não com o teste, por meio do teste qui-quadrado. Segundo Levine et al. (2005), esse é um teste de hipóteses que visa encontrar um valor de dispersão para variáveis nominais, avaliando a associação entre variáveis qualitativas. Trata-se de um teste não paramétrico, uma vez que não depende dos parâmetros populacionais. Seu princípio básico é comparar proporções por meio das divergências entre as frequências observadas e as esperadas para certo evento. Assim, podem-se buscar evidências de que dois grupos se comportam de forma semelhante se as diferenças entre essas duas frequências forem pequenas. As hipóteses nula e alternativa desse teste são as seguintes:
Ho: As variáveis categóricas são independentes. Ou seja, não existe nenhuma relação entre elas.
H1: As suas variáveis categóricas são dependentes. Ou seja, existe uma relação entre elas.
[3]
Em que:
fo: é a frequência observado de cada cruzamento de categorias na tabela de contingência. fe: é a frequência esperada caso a hipótese nula de independência fosse verdadeira.
O nível de significância alfa adotado foi de 0,05 e a premissa fe igual a 1.
A frequência esperada é calculada por meio da multiplicação do total da linha pelo total da coluna, dividido pelo tamanho total da amostra. A regra de decisão é rejeitar a hipótese nula no nível de significância alfa se o valor calculado da estatística do teste for maior que o valor crítico da cauda superior, a partir de uma distribuição qui-quadrada com (L – 1) (C-1) graus de liberdade.
Segundo Levine et al. (2005), a utilização do teste qui-quadrado ao lidar com tabelas de contingência L x C requer que todas as frequências esperadas sejam grandes (pelo menos igual a 1). Para os casos em que há violação desta premissa, o autor sugere uma fusão entre categorias, o que deve resultar em frequências esperadas suficientemente grandes.
Assim, foram comparadas, duas a duas, todas as questões do questionário entre si, entre a presença ou ausência de estresse, entre as fases do estresse e entre os sintomas possíveis. Os resultados encontrados compõem o APÊNDICE D.
4.4.2 Das análises qualitativas
Não foi intenção desta etapa da pesquisa fornecer elementos de análise que gerassem novos quadros, tabelas ou gráficos. Também não buscou-se um padrão único de respostas que fosse representativo de uma análise psicológica das atividades projetivas realizadas pelos sujeitos. O que se buscou foram as falas dos motociclistas profissionais, desencadeadas não a partir de um roteiro de entrevista, mas de sua livre-associação por meio de atividade catártica. Assim, da técnica expressiva, utilizada decorrem duas grandes categorias de respostas:
(
)
∑
−
=
células todas e e of
f
f
2 2χ
[...] as respostas integradas, nas quais a sensação, o afeto, a imagem, o humor permanecem controladas pelo ego, isto é, nas quais a “forma” predomina; e as respostas desintegradas, onde são libertados os impulsos, a emoção, a representação fantasmática, isto é, onde predominam outros determinantes, e não a “forma” (ANZIEU, 1981, p. 26).
Buscou-se com a atividade realizada obter “retratos” ou “metáforas” do cotidiano de alguns trabalhadores entrevistados, complementados por suas falas, orientadas pelos próprios sujeitos, a partir dos elementos que traziam ao longo do estudo.
Informações que haviam sido verbalizadas pelos sujeitos durante a realização dos testes e questionários, mas não registradas, porque não compunham o quantitativo, voltaram em seus discursos, agora ilustrados pelos seus desenhos, recortes e textos. Esse procedimento, inspirado nos testes projetivos da psicologia e na livre-associação psicanalítica, teve por objetivo trazer à realidade elementos que pertencem ao nível simbólico, por meio de momentos catárticos. Para Anzieu (1981, p. 30)
[...] quando se trata de projeção catártica, o indivíduo atribui à imagem do outro não mais as suas características ou as que desejaria fossem suas, [como na projeção especular] mas as que erradamente pretende não ter, recusa considerar como suas e das quais se livra (catarse) deslocando-as para outro.
Para Godoi e Balsini (2006, p. 92) “ao ocupar-se das formas simbólicas, a visão qualitativa passa a interessar-se não pela sua gramática ou estrutura interna, mas pelo seu caráter comunicativo de mediador e formador das experiências e das necessidades sociais”.
Pode-se dizer que foi um processo de construção de uma projeção. Desse modo, não foram analisados por meio de juízos de valor como certo ou errado, falso ou verdadeiro, mas sim descritos enquanto elementos representativos de uma compreensão individual da realidade do motociclista profissional, mas que também pode dizer de um coletivo. Portanto, essa etapa buscou superar os limites do quantitativo, contribuindo para iluminar a dimensão subjetiva de cada um dos entrevistados, cuja singularidade não pôde ser percebida nos questionários.
A intenção, assim, foi verificar até que ponto os dados obtidos nesta etapa qualitativa apoiavam ou refutavam aqueles obtidos pelo instrumento quantitativo. É válido ressaltar que, independente do método de pesquisa adotado, a revitalização do aspecto epistemológico é uma necessidade diante da tendência de monopolizar o científico meramente a partir da
relação entre os dados coletados com os instrumentos que os produzem (GONZÁLEZ-REY, 2005).
É importante compreender que a questão central da pesquisa qualitativa é a ênfase na interpretação do sujeito. A teoria, assim, mostra-se como um pano de fundo e não pode ser vista como algo estático, mas como um sistema aberto, parcial e em constante desenvolvimento, que não é, em si, o resultado final e que pode, inclusive, ser replicado e contraposto. A pesquisa qualitativa possui uma série de particularidades, principalmente porque lida com a subjetividade dos pesquisados e do pesquisador, sendo esta uma de suas grandes contribuições.