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7. DEEYSEL ÇALIŞMALAR

7.1 Deney Ekipmanları

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões, não falaria em Deus nem no Pecado — muito menos no Anjo Rebelado e os encantos das suas seduções, não citaria santos e profetas: nada das suas celestiais promessas ou das suas terríveis maldições... Se eu fosse um padre eu citaria os poetas. Rezaria seus versos, os mais belos, desses que desde a infância me embalaram e quem me dera que alguns fossem meus! Porque a poesia purifica a alma ...e um belo poema — ainda que de Deus se aparte — um belo poema sempre leva a Deus! Mário Quintana

A busca pela identificação dos aspectos religiosos da cultura é comprometidamente devedora dos esforços de Paul Tillich. O otimismo de Paul Tillich recaía sobre a possibilidade da percepção do(s) elemento(s) revelador(es) de uma substância espiritual que fosse capaz de indicar, a partir da cultura e de suas múltiplas expressões, algo incondicional e sagrado, mesmo que sua interpretação da realidade estivesse confrontada com um ambiente claramente desteificado tal como os primeiros decênios do século XX.146 O empenho de Paul Tillich em construir uma análise do dado religioso na cultura considera, portanto, como ele mesmo aponta, o desaparecimento da fenda que supostamente separa o sagrado do secular.147

No pensamento de Paul Tillich, a percepção de que a cultura encontra-se impregnada de um conteúdo que assume um sentido incondicional, sagrado ou absoluto pode ser manifestamente revelada através das artes. A noção tillichiana de teonomia seria responsável pela estrita relação entre a revelação de conteúdos

146 Kandinsky faz o seguinte comentário crítico em sua obra de 1910, intitulada Do espiritual na arte:

“Nessas épocas mudas e cegas, os homens atribuem um valor especial e exclusivo aos êxitos exteriores. Apenas os bens materiais têm importância; cada progresso técnico que só serve e só pode servir ao corpo é saudado como uma vitória. As forças puramente espirituais passam despercebidas.” Cf. KANDINSKY, Do espiritual na arte, p. 37.

religiosos e cultura. No interior da cultura, tal responsabilidade pode recair sobre as manifestações artísticas. O que Tillich chama de cultura teônoma tem a ver com o sentido transcendente expresso e que se encontra presente em determinados elementos da cultura, pelo fato mesmo de tal sentido ser o fundamento da cultura. Portanto, a revelação do sentido incondicional de uma manifestação artística não poderá se comportar como um corpo estranho no interior de uma cultura teônoma, pois para Tillich a religião é a substância da cultura e a cultura a forma mesma da religião, que por seu turno se manifesta através de múltiplas expressões como nas artes.

Religión, como preocupación última, es la sustancia que confiere significado a la cultura, y esta es la totalidad de las formas em que se expresa la preocupación fundamental que constituye la religión. Em resumen: la religión es el contenido de la cultura, y la cultura es la forma de la religion.148

A importância de se reconhecer a dimensão teônoma da cultura pode ser atribuída ao evento da secularização e pela conseqüente perda dos referenciais transcendentes da vida que tal advento provocou. Paul Tillich analisava a fragilidade do mundo ocidental salvaguardando, porém, uma compreensão teônoma da cultura e conseqüentemente de suas expressões artísticas, tanto que via, nos movimentos expressionista e surrealista, com suas aparentes representações de um real desmaterializado, a manifestação de certa base religiosa relacionada a uma rebelião que se produzia a partir do lado vital humano e que fazia oposição ao idealismo burguês (na arte e na literatura).149 Uma análise teônoma da cultura identificava, sem fazer qualquer referência à religião organizada, o elemento religioso oculto nesses movimentos que eram cons iderados anti-religiosos e anticristãos. Para Tillich, “em todos esses movimentos havia certa preocupação suprema, incondicional, decisiva, absolutamente séria e, portanto, sagrada, mesmo ao se expressar por meio de termos puramente seculares.”150 Uma observação de Kandisnky serve de complemento ao apontamento de Paul Tillich quando aquele afirma que a religião, a ciência e a moral são abaladas pela rude mão de Nietzsche e, quando os apoios externos que sustentavam tais dimensões ensaiam desmoronar, o homem passa a desviar seu olhar

148 Paul TILLICH, Teologia de la cultura y otros ensayos, p. 45. 149 Cf. Paul TILLICH, A era protestante, p. 86.

das contingências exteriores para si mesmo e que as principais conseqüências dessa movimentação são assimiladas pela literatura, pela música e pela arte. Embora tais manifestações refletissem uma grande escuridão que se anunciava, deixavam por outro lado pressentir certa grandeza e desviavam-se, naquela época, do conteúdo sem alma da vida presente.151 Talvez seja essa a constatação que Kandinsky encontra para o esvaziamento de um conteúdo presentificador daquilo que ele chama de espiritual na arte, ao afirmar que o objeto material que a arte busca deve ser o próprio conteúdo da arte, sua essência, sua alma, sem a(s) qual(is) os meios que a servem nunca serão mais do que órgãos lânguidos e inúteis. Esse conteúdo, afirma Kandinsky, só a arte pode captá-lo e exprimi-lo claramente com os meios que lhe pertencem.152

A experiência de um vácuo afirmou-se como uma necessidade eminente de perguntar em que dimensão da realidade encontrava-se uma porta para uma experiência com o incondicional. Tillich argumentou que pouca coisa restava à civilização ocidental que não representasse a presença de um vazio. Mesmo uma teologia da cultura apontava, com base na maioria das expressões culturais, uma experiência do fim e um de profundo abismo. Contudo, as experiências radicais do vazio e de um mundo desmaterializado municiam-se de um poder que habita, segundo Tillich, num fundamento mais profundo que a própria cultura. Tal fundamento é a profundidade de uma preocupação suprema. Mesmo dentro de num quadro em que se experimenta o vazio, as manifestações artísticas conseguem, através da criação, expressar o que Tillich chama de vazio sagrado. Uma afirmação deve, portanto, ser apresentada: a experiência do fim, do vazio e de tudo que representa determinados estados de dissolução da concretude da vida não afetam, para Paul Tillich, a idéia de teonomia.153

A compreensão tillichiana de que a cultura é originalmente teonoma desfaz também a caduca tentativa de situar a religião numa única dimensão do espírito humano ou como uma das funções dele. Parece-nos, de maneira muito clara, que Tillich recusa a idéia de enquadrar a religião em uma dimensão isolada do espírito humano como a moral e a estética, por exemplo. Diante de um mundo em franco processo de desteificação, como aquele que se revelava para Tillich durante as primeiras décadas do século XX, cabe, portanto, e assim cremos, uma pergunta pela

151 Cf. KANDINSKY, Do espiritual na arte, p. 45. 152 Cf. KANDINSKY, Do espiritual na arte, p. 38. 153 Cf. Paul TILLICH, A era protestante, p. 88.

religião, que para ele não poderia ser uma função ou estar apenas numa dimensão do espírito, porque a religião “no es una función especial de la vida espiritual del hombre, sino la dimensión de la profundidad en todas sus funciones.”154 Essa compreensão sustenta a metáfora que faz existir, no nível do sentido, uma comparação eqüitativa entre o que o próprio Tillich chamou de Realidade Última e o que também nomeou de Incondicional. Como afirma Etienne Higuet,

esse sentido – aquele que expressa a incondicionalidade por meio de símbolos e mitos presentes nas manifestações artísticas ou por meio dos dogmas da própria teologia , não pode ser apreendido por uma análise objetiva e científica: só é acessível a uma ‘percepção ou intuição imaginativa’ e pressupõe uma atitude de participação pessoal e existencial no Fundamento do Sentido, que é ao mesmo tempo a Realidade Última.155

A estética, por meio de suas expressões, conseguiria presentificar o Incondicional mesmo que seu desejo não fosse o de mantê-lo sob seu domínio. A experiência estética revelaria o Incondicional através do impacto que a obra de arte, por exemplo, provoca sobre o sujeito. Ao apontar para o abismo que separa o ser humano de sua Realidade Última, as expressões artísticas apontariam também para o senso de finitude, traço característico da condição humana, e também para possibilidade transcendê-lo. Portanto, a arte seria portadora da propriedade de nos impressionar e de nos fazer conscientes de algo (que pode ser o Incondicional ou o que Tillich chama de Realidade Última) que, de outra forma, não seríamos capazes de atingir.156 Por isso o próprio movimento expressionista foi muito caro a Paul Tillich não porque se configurava como uma degenerada expressão artística, mas porque era portador de elementos que, através da desfiguração da superfície do real, representavam a restauração do poder do simbólico e a busca pelo fundamento da realidade, num momento específico e historicamente construído.157 Seria a religião, por meio das expressões criativas do ser humano, o estado em que o ser humano passaria ser tomado por algo incondicional, sagrado e absoluto, em suma, sua preocupação última. A religião, se vista pelas lentes tillichianas, deixaria de ser um

154 Cf. Paul TILLICH, Teología de la cultura y otros ensayos, p. 15.

155 Cf. Etienne HIGUET, A atualidade da teologia da cultura de Paul Tillich, Revista Eclesiástica

Brasileira, nº. 213. Petrópolis, ITF, 1994, p. 52.

156 Cf. Carlos Eduardo B. CALVANI, Teologia e MPB, p. 80. 157 Cf. Paul TILLCH, A era protestante, p. 96.

lugar de enraizamento de sistemas simbólicos rígidos ou de ritos para se tornar o espaço mesmo de nossa preocupação suprema.158 Como afirma Paul Tillich:

La religión es la dimensió n de la profundidad en todas ellas, es el aspecto de la profundidad en la totalidad del espíritu humano [...] En el sentido más amplio y fundamental del término, religión es preocupação última. Y la preocupación última se manifiesta en absolutamente todas las funciones creativas del espíritu humano.159

As reflexões de Paul Tillich nos deixam várias portas abertas para a identificação dos aspectos religiosos particulares à literatura de Machado de Assis, embora privilegiasse, em suas análises, as artes plásticas. Cabe-nos a tarefa de entender a dinâmica interna da presença do aspecto religioso e a forma pela qual se traveste, se metamorfoseia, se deixa representar ou se expressa na estética machadiana.

Determinadas manifestações artísticas dos séculos XIX e XX recriaram de maneira peculiar as aspirações e os desejos mais profundos de um ser humano que permitiu ser retratado ou criado artisticamente pela literatura, isto porque a imaginação do artista não inventa arbitrariamente as formas das coisas; ela nos mostra estas formas em sua verdadeira imagem, fazendo-as visíveis e reconhecíveis.160 A insistência da imagem humana na literatura nos encaminha,

como sugere Antonio Blanch, para a formação de uma antropologia literária. Uma antropologia que é construída pela capacidade criativa e enunciadora que a literatura tem quando projeta artisticamente determinadas imagens humanas. O estudo apresentado por Antonio Blanch em sua obra El hombre imaginario trouxe uma importante contribuição ao processo de sistematização de certos temas presentes na literatura ocidental, pois entender a literatura para além dos seus aspectos formais e estruturais significa também acentuar o seu conteúdo, sua intencionalidade e principalmente seu campo de significação. Isto porque:

[...] la literatura ha ejercido en la cultura de todos los pueblos y de todas las épocas la función primordial de traducir simbólicamente las experiencias, más o menos profundas, del individuo humano, con la evidente intención de comunicarlas a los demás.161

158 Cf. Paul TILLICH, A era protestande, p. 87.

159 Paul TILLICH, Teología de la cultura y otros ensayos, p. 16-17. 160 Cf. Ernst CASSIRER, Antropología filosófica, p. 218.

A idéia de construção de uma antropologia literária nos serve, portanto, como abertura para a compreensão de uma das múltiplas faces do humano e de suas experiências de maior profundidade. Experiências que podem ser interpretadas como de natureza religiosa. Diante do que Antonio Blanch chamaria de forças de coesão da literatura e, em nosso caso, tal coesão dar-se-ia através da presença de certa imagem do ser humano na literatura machadiana, destacaríamos as que apontam para o aspecto que demarca a incondicionalidade da vida do humano no espaço ficcional. Sem dúvida, o desejo de viver, por exemplo, apresenta-se como um traço da imagem humana que se metamorfoseia em muitas outras expressões notadamente humanas e que podem perfeitamente ser interpretadas como expressões incondicionais no sentido tillichiano. Portanto, tais experiências podem ser relacionadas aos humanos

criados artisticamente como experiências fundamentais. Assim, podemos entender

que a literatura é, de algum modo, o lugar de sobrevivência de determinadas experiências relacionadas à existência humana. Neste locus de sobrevivência residem certamente múltiplas formas de experiência religiosa. A literatura e tantas outras manifestações artísticas têm conservado para cada época histórica um maravilhoso arcabouço de imagens e representações que correspondem aos mais genuínos desejos e temores do ser humano.162 Uma advertência, porém, deve ser considerada: não podemos correr o risco de ver a imagem do ser humano atomizada, já que, durante a idade moderna, as representação estéticas incumbiram-se de apresentar importantes e incontáveis faces do enigma humano; todavia temos de reconhecer que tais representações, mesmo que múltiplas, não são reproduções de uma realidade dada. Constituem uma das vias que nos conduzem a uma visão mais objetiva das coisas, do nosso entorno e principalmente da vida humana. Trata-se, pois, não de uma imitação, mas de uma forma de desvelamento de uma realidade.163 Por isso, entendemos que as manifestações artísticas – as que chamaríamos de mais “autênticas” – renunciam ao simples caminho de emulação da realidade dada para assumir um processo de recriação e de interpretação dessa mesma realidade, o que gera, conseqüentemente, a revelação de uma outra realidade. Por exemplo, engana-se artisticamente ou não verá a obra de arte, afirma Ortega y Gasset, quem procura comover-se com os destinos de João e Maria. A questão subjacente é que só pode se comover com a desgraça

162 Cf. Antonio BLANCH, El hombre imaginario, p. 27. 163 Cf. Ernst CASSIRER, Antropología filosófica, p. 213-214.

humana presente na literatura ou, por exemplo, com os destinos das persona gens dos irmãos Grimm, enquanto expressão artística, quem a toma como realidade. Todavia, a arte ou o objeto artístico só poderá ser artístico na medida em que não for totalmente real.164 Construir algo que não seja cópia do “natural” e que, não obstante,

possua alguma substantividade, implica, segundo Ortega y Gasset, o dom mais sublime.165 Poderíamos dizer, na esteira de Ernst Cassirer, que as expressões

artísticas podem ser também uma intensificação da realidade. Paul Tillich entende que a intenção de encontrar a verdade deve ser apenas um elemento na função estética da arte e a intenção principal deve ser a de expressar qualidades do ser que podem ser captadas somente pela criatividade artística. O conflito que é brilhantemente problematizado por Tillich e que também retoma o ponto de vista de Ortega y Gasset tem a ver com o que é autenticamente artístico. Para Tillich, poder- se-ia falar da verdade ou inverdade artística. Todavia, entendia ser melhor falar da autenticidade da forma expressiva ou de sua inautenticidade. A arte, segundo Tillich, pode ser inautêntica porque copia a superfície em vez de expressar a sua profundidade; ou porque expressa a subjetividade do artista criador em vez de expressar seu encontro artístico com a realidade; e autêntica quando expressa o encontro da mente e mundo no qual uma qualidade, de outra forma escondida de uma porção do universo (e implicitamente do próprio universo), está unida ao poder receptivo doutro modo escondido (e implicitamente da pessoa como um todo). 166

Por isso, o olhar que vamos perspectivar sobre a literatura machadiana não deve se manter necessariamente em torno dos aspectos que a tornam impecavelmente verossímil; todavia, devemos mantê-lo sobre os aspectos que dão à estética de Machado de Assis determinada força de coesão temática para que se consiga, portanto, encontrar um caminho até as particularidades de natureza religiosa, que certamente não estão à primeira vista na superfície do texto. Um elemento, portanto, representaria de maneira modelar as expressões humanas construídas artisticamente no espaço literário de Machado de Assis. Este elemento, inicialmente suspeitamos, manifesta-se como um desejo fundamental, que por sua vez se revela sob a forma de um árduo desejo de viver, de ser e de permanecer, em oposição à possível condição existencial de não-ser.

164 Cf. José ORTEGA Y GASSET, A desumanização da arte, p. 27. 165 Cf. José ORTEGA Y GASSET, A desumanização da arte, p. 43. 166 Paul TILLICH, Teologia sistemática, p. 434.

A tentativa de Blanch de mapear a imagem humana dentro do espaço literário do mundo moderno – e aqui por nossa conta incluímos o legado machadiano – fez com que entendêssemos que a expressão artística deste momento não estava mais preocupada em representar somente os ideais ou os desejos de auto-realização do ser humano, todavia expressava de maneira contundente as fatalidades da idéia de progresso em todas as suas dimensões (ciência, política, economia, religião etc.). Este mesmo espaço literário também dá lugar a um tipo de “herói” que tentou separar-se das leis da moral burguesa, elegendo-se a si mesmo como lugar de desenvolvimento dos valores da própria consciência individual frente a uma sociedade inautêntica e negadora do humano.167 Esta imagem humana poderia ser bem representada, segundo Antonio Blanch, pelas personagens de Nietzsche (Zaratustra, Dionísio e o Super-homem) e as suas evidentes exaltações das expressões vitais. Há uma outra imagem humana representada no espaço literário que é a do desencanto. A imagem do ser humano triste e degradado é uma imagem da época pós-romântica. O precursor deste movimento, que faz desta imagem humana uma imagem possível na literatura do século XIX, é Charles Baudelaire.

Él fue, en efecto, uno de los en acusar en su alma el desencanto ante el progreso material del siglo, que generaba una alarmante decadencia espiritual y um triste embotamiento de aquella sensibilidad y de aquellas vivencias primarias del individuo, que el romantismo había restaurado con tanto vigor.168

Para Baudelaire, o herói seria o homem da multidão, o homem-massa, marginalizado pelo progresso e por ele inativo e derrotado. As personagens de Baudelaire assumiram a forma do homem desfigurado pela vida cosmopolita. A literatura de Baudelaire apresentava conteúdo desencantado, porém com uma ênfase em sua forma sedutora. A beleza estética transforma-se, num espaço sem Deus, no lugar de onde se podia esperar a salvação do indivíduo. Podemos dizer que a vida das personagens de Baudelaire se mantém presentificada num espaço de profunda desteificação ao apresentar, por meio de sua miséria espiritual e desapego moral, a imagem de um ser humano enraizado na volatilidade do mundo. O poema em prosa de Baudelaire, intitulado A perda da auréola, certamente consegue dizer mais que nossa breve apreciação.

167 Cf. Antonio BLANCH, El hombre imaginario, p. 114. 168 Antonio BLANCH, El hombre imaginario., p. 115-116.

‘O quê! Você aqui, meu caro? Você, num lugar desses! Você bebedor de quintessências!, O comedor de ambrosia! Francamente, é de surpreender.’

‘Meu caro, bem conhece o pavor que tenho dos cavalos e dos coches. Agora há pouco, quando atravessava apressado o bulevar, saltando sobre a lama, através desse caos movente em que a morte chega a galope, por todos os lados ao mesmo tempo, minha auréola, num movimento brusco, escorregou de minha cabeça para o lodo do macadame. Não tive coragem de apanhá-la. Julguei menos desagradável perder minhas insígnias do que quebrar os ossos. E depois pensei cá comigo, há males que vêm para bem. Agora posso passear incógnito, praticar ações baixas, entregar-me à devassidão como os simples mortais. E aqui estou eu, igualzinho a você, como pode ver.’

‘Deveria ao menos dar parte do desaparecimento dessa auréola, comunicar o ocorrido ao comissário.’

‘Ah, não. Me sinto bem. Só você me reconheceu. Aliás, a dignidade me aborrece. Depois, penso com alegria que algum poeta medíocre vai achá-la e com ela, impudentemente, se cobrir. Fazer alguém feliz, que prazer! E principalmente um felizardo que faça rir! Pense em X ou Z! Hein? Como vai ser engraçado!’169

Ao lado do desencantamento das personagens de Baudelaire e da

Benzer Belgeler