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Belgede Performans Denetim Rehberi (sayfa 69-105)

No entanto, no período republicano e imperial não houve sepultamentos em sarcófagos nem em monumentos funerários. Segundo Vítor Dias (apud ALMEIDA, 2007, p. 55), isso se dá em virtude das práticas da mumificação e incineração. Apesar disso, com a influência acentuada e a expansão do Cristianismo introduziu- se nos costumes a solução inumatória. Logo, foi na Roma Cristã que emerge o hábito da inumação, na medida em que os romanos cristãos passam a enterrarem- se nas catacumbas fora das cidades.

As catacumbas eram galerias subterrâneas em que eram sepultados os cristãos perseguidos que não podiam dedicar-se a religião. Esses locais também eram usados para reunião e estudos de doutrina, bem como templos para culto, já que era perseguida a religião cristã. Nesses corredores eram abertas alas onde eram sepultados de dois a três corpos nas paredes. Eles eram envolvidos em lençóis e por substâncias aromáticas. Segundo Queiróz,

A importância simbólica destas relíquias [sepulturas dos mártires] cedo criou nos cristãos a aspiração de virem a ser inumados o mais junto possível dos santos mártires, ou seja, ad sanctos [ao ponto de que] no século V já existiam basílicas em cujas naves laterais se encontravam pequenos compartimentos preparados para receber os cadáveres dos defuntos (QUEIRÓZ, 2000, p. 3).

Vê-se, assim, que esse hábito, iniciado nas catacumbas, inspirou a invenção no século V de uma tradição que perduraria, pelo menos, até o 1900 (sendo prolongada até os dias de hoje por alguns párocos e líderes religiosos). Tinha-se, como já exposto, um valor simbólico ao ser enterrado junto com outros seguidores da mesma fé e crenças, o que lhe atribuiria um valor espiritual no pós-morte.

Figura 6 - Catacumbas romanas45

Como pondera Ariès (1977, p. 44-45), “os mártires eram enterrados nas necrópoles extraurbanas, comuns aos cristãos e aos pagãos. Os locais venerados dos mártires atraíam, por sua vez, as sepulturas”. Isso efetuou-se dada a fé dos cristãos, sendo identificada como catalisador da mudança de comportamento de muitos fiéis sobre a prática de enterramento.

A partir disso, vê-se o surgimento dos primeiros cemitérios cristãos. Longe do que se entende dos sepulcrários de hoje, estes eram locais reservados a cristãos, que faziam suas atividades na clandestinidade. Outro fator que merece ressalva é a concepção que esses primitivos tinham a respeito desse local destinado aos mortos que se diferenciava da forma que entendemos hoje. Para eles, esses locais depositários de mortos, ou coemeterium, termo em latim e usado à época, referia-se ao lugar de enterramento dos seus mortos. O historiador Ariès afirma que,

A palavra cemitério designou mais particularmente a parte externa da igreja, o atrium ou aître (átrio). Aître é também uma das palavras da linguagem corrente para designar o cemitério, sendo que a palavra cemitério pertence mais especificamente, até o século XV, ao latim dos clérigos [...] Existia uma outra palavra em francês com o sinônimo de aître: charnier46 [...] Permaneceu em sua forma mais

antiga, a mais próxima do latim carnis, quando se diz popularmente

45 Fonte: Disponível em: <http://blog.cancaonova.com/felipeaquino/2015/09/17/o-tempo-das-

catacumbas>. Acesso em 5 de outubro de 2015.

une vieille carne, e sem dúvida já era, antes de Roland, uma gíria

para designar o que o latim clássico não designava e que o latim de igreja chamava por uma palavra grega e erudita: cemeterium [...] Originalmente, charnier era sinônimo de aître. No fim da Idade Média, charnier designou apenas uma parte do cemitério, ou seja, as galerias que se alinhavam ao longo do pátio da igreja e que eram recobertas de ossários (ARIÈS, 1977, p. 42).

Partindo da vastidão semântica que é imbuído o conceito “cemitério”, interessante se faz discorrer sobre como outros autores o definem, para Almeida (2007, p. 98), “cemitério está ligado ao grego Koumetérion, Kiomão [que significa] “eu durmo”, e do latim coemeterium, [que] nomeava inicialmente o lugar onde se dormia: quarto, dormitório, pórtico para os peregrinos”, tendo, com a influência da ideologia cristã, assumido um novo sentido e passado a ser o local de descanso após a morte. Já de acordo com Maria Amélia Loureiro,

[...] A palavra cemitério aplica-se, propriamente, a um lugar em que é dada a sepultura por inumação, por enterramento direto no solo. É, pois, por abuso, por extensão de sentido, que é empregada para designar os hipogeus egípcios, os ajuntamentos de sepulturas cavadas na rocha, como na Assíria, na Fenícia e na Índia, os túmulos gregos e outros, os columbários romanos [...] os cemitérios propriamente ditos, só aparecem em plena Idade Média, quando se enterravam os mortos de categoria dentro das igrejas e os pobres nos adros, tudo nos limites paroquiais (apud ALMEIDA, p. 99).

Com isso, vê-se que desde o início do ocidente cristão se cria uma ideia de unidade entre vivos e mortos no que tange ao espaço de culto e sepultamento na concepção cristã. Ainda vale acrescentar a ideia de que os mortos estavam em uma situação transitória (à espera) do Juízo Final47.

A propósito da religião cristã, e que essa tem compilado seus mitos e histórias em um Livro, se faz necessário saber o que esse livro trata a respeito da morte e do que se tem após ela e de como proceder para atingir esse fim.

Embora a Bíblia Sagrada confirme a proposta de uma ressurreição aos Céus para aquele que se reconhece como um pecador e que vê em Jesus o filho de Deus e responsável pela sua salvação, o mesmo livro nada trata de rituais fúnebres. Com isso, vê-se uma não valorização com o corpo (matéria), e sim com o espírito, pois “é o espírito quem vivifica, a carne em nada se aproveita” (BÍBLIA, João 6:63).

Tendo no Livro no quais estão presentes os mitos e estórias cristãs, passagens como “do pó viestes e ao pó retornarás” (BÍBLIA Gênesis, 3:19), fazendo

uma clara referência não só a precária origem do homem e sua limitação de poder, mas também a sua finitude, essa passagem denota um não valor à matéria e, assim, ao cadáver. A valorização da matéria se dá a partir de Santo Agostinho, grande expoente da filosofia patrística48. A respeito dessa valorização da matéria por Agostino, João José Reis defende que

Se o corpo ressuscitaria, ele devia estar espiritualmente íntegro, embora fisicamente estivesse decomposto. E para essa integridade contava o local da sepultura. A preocupação desses católicos com o destino do cadáver passava ao largo do pensamento agostiniano de que ‘pouco importa que um corpo sem vida esteja aqui ou lá [...] pelo menos no que se refere à integridade de sua ressurreição (AGOSTINHO, O cuidado devido aos mortos, p. 32-3 apud REIS, 1991, p. 172).

Assim, sob sua influência, a Igreja Católica do séc. V adota a ideia de uma guarda da matéria, surgindo assim a concepção de salvaguardar o corpo do morto. Tão logo, emerge aqui, no século I, o culto aos mortos no ocidente cristão, visto que ser sepultado em uma catacumba remetia ao fato de ter sido perseguido e, assim, de não se envergonhar do Evangelho de Jesus Cristo em vida49, tendo estes se tornado mártires por não negarem ao Cristo nem sobre as adversidades da vida. Corroborando com essa assertiva, Ariès utiliza-se de um texto de Máxime de Turin, autor do século V, para justificar a ideia do ad sanctos. No referido texto, diz-se que

Os mártires – explica Máxime de Turin, autor do século V – cuidarão de nós, enquanto vivemos com nossos corpos, e se encarregarão de nós quando tivermos deixado nossos corpos. No primeiro caso, impedem-nos de cair em pecado; no segundo, protegem-nos do horrível inferno. Por isso nossos ancestrais cuidaram de associar nossos corpos à ossada dos mártires (ARIÈS, 1977, p. 42-43)”. Baseado nesse pensamento, a prática de enterrar ad sanctos (em solo sagrado) foi se ampliando ao longo do medievo e muitos cemitérios em espaços abertos foram sendo deixados de lado, passando a localizarem-se próximos às igrejas cristãs. Todavia, nem todas as pessoas poderiam ter seus corpos depositados nesses locais, que eram reservados à elite e também àqueles que

48Por Filosofia Patrística entende-se o conhecimento gerado no interior da Igreja cristã durante os primeiros sete séculos da Idade Média. Foi assim denominada por ter sido criada pelos padres, que elaboraram as primeiras indagações sobre a fé e doutrinas do Cristianismo, sendo amplamente expandida devido ao poderio da instituição da Igreja Católica nessa época.

49Segundo consta na epístola de Paulo aos Romanos, porque não me envergonho do evangelho de

Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que nele crê; primeiro do judeu, e também do grego. (Romanos 1:16).

possuíam influência na sociedade local. Eram os sepultamentos ad sanctos, cujos corpos ficavam no interior da igreja, no coro ou na cave, ou à sombra das paredes, no exterior. De acordo com Petruski (2006, p. 97) haviam cemitérios privilegiados mais próximos do santuário e altar, perto da entrada das capelas sepulcrais, das estatuas, cruzes de pedra ou das estações de procissões.

Com este culto aos mortos já consolidado, as visitas aos mártires tornaram- se frequentes ao ponto de Papas tomarem decisões a respeito destas visitas. Segundo Almeida,

Foi a partir dos séculos VII, VIII e consolidadamente IX que principiam as trasladações dos restos cadavéricos dos mártires sepultados nas catacumbas, embora tenha havido ações dos Papas Adriano I e Leão III no sentido de manter as comemorações dos aniversários dos mártires nos cemitérios subterrâneos. Entretanto a visita às catacumbas já era um hábito em desuso. As igrejas começaram a receber relíquias, passaram a ser locais de peregrinação, lugar privilegiado para inumação (ALMEIDA, 2007, p. 55).

Como já dito a respeito, os sepultamentos precedem a ideia de igreja, logo a prática de sepultamento ad sanctos é anterior aos enterros nas igrejas. A respeito disso, comenta Francisco Queiroz que

Em toda a Cristandade, o enterramento ad sanctos foi sempre um hábito anterior à própria concepção de “igreja” como espaço de culto. Os hábitos de inumação no interior de igrejas, claustros e terrenos envolventes continuaram ao longo de séculos. [...] Na Roma clássica, as necrópoles situavam-se fora das cidades normalmente nas suas vias de aceso. Quando algumas das necrópoles romanas dos primeiros séculos dos Cristianismo foram transformadas em basílicas, estas se situavam ainda nos subúrbios das cidades. No entanto, as basílicas – locais de peregrinação e polos aglutinadores de população – em breve passaram a estar rodeadas de habitações50. Sendo assim, na Idade Média, as igrejas (e,

consequentemente, os cemitérios) situavam-se já bem no centro das povoações (QUEIRÓZ, 1997, p. 2).

Dessa maneira, quando da tradição de se enterrar no interior das igrejas já solidificada, ficaram escassos os espaços para mais sepultamentos no interior das mesmas, tendo chegado ao limite na segunda metade do século XIV, quando a Peste Negra assolou o território europeu, provocando a morte de milhares de

50 Vale aqui ressaltar que no caso do Alecrim houve o mesmo segmento. A data da fundação do cemitério do Alecrim consta de 1856, sendo o bairro do Alecrim fundado em 1911. Trataremos deste fato mais à frente.

pessoas em poucos meses, fazendo com que os espaços destinados aos enterros nas igrejas ficassem lotados. Tamanha foi a lotação e preenchimento das covas que a historiadora Petruski (2006, p. 98) afirma que a única saída para esse momento foi enterrar os corpos, também, no pátio das igrejas, o que gerou a criação dos cemitérios ao lado ou aos fundos delas.

Assim, seguiu-se a linha de enterros das catacumbas ao interior das igrejas e destas, quando lotadas, para os arredores no perímetro da mesma. Já nesta segunda fase, tem-se uma divisão entre túmulos individuais>coletivos>individuais, quando das catacumbas para os cemitérios eclesiásticos e destes para os cemitérios extramuros. Trataremos dessa questão mais à frente.

É com este pano de fundo que remetemos à principal causa desse trabalho: a secularização da morte em Natal. Partindo da premissa de que o leitor já está familiarizado com a temática da morte, que envolve: o morrer, a ideia de finitude, a conscientização da guarnição do morto e, a posteriori, a ideia de culto ao morto e a concepção salvífica que havia entorno do ad sanctos, trabalharemos com a ideia de que a secularização da morte foi favorecida com a construção dos cemitérios extramuros no Brasil e na província do Rio Grande do Norte, sendo essas construções um remédio às epidemias – em especial a da Cólera – que se espalhavam pelo Brasil.

Belgede Performans Denetim Rehberi (sayfa 69-105)

Benzer Belgeler