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BÖLÜM 2. MUHASEBE DENETİMİ

2.3. Denetim ve Muhasebe İlişkisi

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destinatário-enunciatário interpreta o que é apresentado e aceita ou não o que se constrói diante de si, levando em consideração se os valores propostos no discurso pelo destinador-enunciador estão de acordo com a sua visão de mundo. Aceitando os valores em jogo, o destinatário-enunciatário é manipulado, sendo esta manipu- lação uma doação de competência para a performance, para fazer o destinatário- enunciatário ser esta mulher brasileira.

O quadro Retrato Falado mostra-se como a sanção positiva (“apa- recer na tevê”) do destinador-julgador, que entendemos ser o próprio destinador Rede Globo. Ao assumir ou manter – caso já tenha aderido anteriormente – os valores propostos pelo discurso, o destinatário-sujeito vai em busca do valor funda- mental “renome”. E quando tem sua história veiculada pelo quadro em questão, o destinatário-sujeito é sancionado euforicamente, cumprindo, assim, o percurso o qual já mostramos na análise da primeira vinheta de abertura no capítulo 2. Este destinatário-sujeito é a manifestação no enunciado da mulher brasileira apregoada pelo destinador, a concretização em última instância do fazer ser do destinador. Com isso, esta mulher (destinatário-sujeito) que tem sua história contada torna-se co-destinador juntamente com a Rede Globo.

Para se dá esta aceitação ao discurso, é necessário que haja confiança do destinatário-enunciatário para com o destinador-enunciador, sendo assim possí- vel o manipulador (destinador-enunciador) se utilizar de seu fazer persuasivo para convencer o seu destinatário-enunciatário. No caso em questão, uma das formas de convencimento ao que se passa na tela são os efeitos de sentidos criados pela construção discursiva.

O efeito de sentido de subjetividade, de aproximação ao discurso, criado a partir da relação “eu/tu” da enunciação projetada no discurso-enunciado, faz com que o enunciatário sinta-se próximo, pertencente ao que vê na tela da tevê. Além disso, é mais uma vez convocado quando se utiliza “nós”, “nosso”, “prá gente”, “vocês”; é convidado a fazer parte da história contada, a participar do dis- curso, identificando-se com o simulacro da brasileira ou com os outros construídos na história.

Ainda sobre este efeito, entendemos que há uma reiteração quando qualquer ator do discurso fala diretamente com o telespectador – olhando para a câmera. Este efeito é criado primeiramente pelo ator-apresentadora Denise que, ao dirigir-se ao enunciatário, envolve-o pela sua forma de falar e seu posicionamento olhando para o telespectador, a câmera.

No episódio “Entre o brasão e o passaporte”, por exemplo, o ator- Célia figurativizado por Denise, olhando todo o tempo para o telespectador (para a câmera) e conversando com ele, estabelece uma situação de diálogo com o enun- ciatário. Com uma moeda na mão, o ator-Célia explica ao telespectador que, num “cara-ou-coroa”, vai decidir entre os dois namorados com que estava se relacionan- do (Figura 32). Toda a sua tomada de decisão é compartilhada com o telespectador pelo seu modo de falar, por exemplo, quando ela diz: “Vamos fazer o seguinte...”. O “nós” – como já dissemos – aproxima o enunciatário ao discurso.

O seu posicionamento diante da câmera também reitera esta aproxi- mação pelo seu enquadramento em plano próximo (busto da atriz). Este efeito de sentido de aproximação ao discurso, criado pelo verbal oral, é reiterado, diríamos até de forma exacerbada pela plástica do televisual, criando assim uma intimidade com o telespectador, pois é com ele que o ator-Célia vai tomar a sua “importante” decisão. A cena nos remete a uma conversa de Célia com uma “amiga próxima” com quem ela pode dividir as suas dúvidas e decisões. A composição desta cena também se utiliza da dimensão sensível do telespectador para persuadi-lo, como veremos no próximo tópico.

FIGURA 32 Conversando com o telespectador, Célia faz “cara-ou-coroa”

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Uma outra estratégia de manipulação é a criação do efeito de sentido de suspense para manter o telespectador assistindo ao quadro. Isto se dá quando o narrador-Denise estabelece a proximidade com o telespectador através do efeito de sentido de subjetividade e, em sua onisciência manifestada durante a sua apresen- tação, não revela mais detalhes sobre o que acontecerá no episódio do dia. É como acontece no episódio “De cabelo em pé”, quando o ator-apresentadora diz: “Isabel foi para a praia com a família... só que aí...”; a afirmação deixa o enunciatário na expectativa do que virá pela frente na história.

Com os efeitos de sentido de verdade e realidade, Retrato Falado se constrói como uma peça televisiva que “reproduz”, com todos os seus recursos te- levisuais, um fato da história “real” de uma mulher brasileira. Esta mulher fala com sua própria voz este fato simples e risível de seu cotidiano, rindo de si mesma. Cite- mos um episódio que se utiliza de forma mais intensa desses efeitos, é o episódio “Anjos da guarda, ou melhor, da aeromoça”. Ainda no início da história, quando o ator-Márcia está fazendo o percurso de carro entre a praia do Guarujá, litoral norte do estado de São Paulo, à cidade de São Paulo; ele depara-se com um grande en- garrafamento na estrada. Neste momento, entra uma seqüência de imagens aéreas de uma longa fila de carros parados numa estrada sob o crédito de uma matéria veiculada no telejornal local, o SPTV, em dezembro de 1999 (Figura 33). As imagens são acompanhadas pelo off de um repórter da Rede Globo que informa sobre a off

queda de uma barreira na Via Anchieta que causou um engarrafamento de mais de 15 quilômetros.

FIGURA 33 Imagem aérea de telejornal exibida no episódio “Anjos da guarda, ou melhor, da aeromoça”

Entendemos que a inserção deste trecho da reportagem cria e reitera os efeitos de sentido de verdade e realidade. Por ter sido uma matéria veiculada em um telejornal, apresenta-se como um “fato real”, que aconteceu “de verdade”; pois, em nossa cultura, o que é veiculado em telejornais e programas de notícias são acontecimentos tidos como reais e verdadeiros. Com isso, Retrato Falado se utiliza do recurso da exibição de uma reportagem de arquivo para evidenciar que a história que está sendo contada é verdadeira e real, que sua protagonista, de fato, viveu o que está contando.

Simultaneamente aos efeitos de sentido de verdade e realidade, cons- trói-se o efeito de sentido de verossimilhança, criado no quadro pela utilização da ficção que é uma construção discursiva de objetividade. Entendemos que a encena- ção da história também cria os efeitos de sentido de verdade e realidade por trazer elementos do mundo natural e cultural no qual vivemos. No entanto, a exacerbação desta objetividade construída, como já apontamos antes, cria o efeito de verossi- milhança. “E, em Retrato Falado, acrescentamos ainda que o paralelismo entre a utilização da construção discursiva da ficção e a construção discursiva do documen- tário – manifestado, por exemplo, pelas entrevistas (como apontamos anteriormen- te) – reitera os efeitos de sentidos de verdade e realidade e de verossimilhança, ao mesmo tempo que eles fazem sentido nesta interdependência. Entendemos como uma construção discursiva que se utiliza de um sincretismo de formatos televisivos. Voltaremos a este ponto mais adiante.

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Ainda no episódio citado antes, observamos que o efeito de verossi- milhança se apresenta, por exemplo, na cena em que o ator-Márcia, na figura de Denise Fraga, conversa com o ator-Mãe, no quarto, enquanto o primeiro se arruma para ir ao trabalho – e que, no caminho, ficará preso no engarrafamento (Figura 34). O cenário do quarto da moça traz elementos do nosso mundo natural e cultural – efeitos de verdade e realidade – e, ao mesmo tempo, cria-se o efeito de verossi- milhança, de que podemos ver algo que é possível ou provável por não contrariar o nosso mundo cultural e natural, além de ser plausível3. A cena constrói esta verossi-

milhança pela conversa entre os dois atores, o modo como o ator-Márcia se veste e usa a maquiagem (Márcia é aeromoça), a mãe arrumando a cama da filha etc.

Apontamos como mais uma estratégia de manipulação a construção discursiva que leva ao “riso”. No capítulo 4, explicamos a dinâmica utilizada pelo enunciador para fazer com que o telespectador ria do que ele vê na tela. Pelo que já observamos, é pela figuratividade e o seu plano da expressão que o quadro nos faz

rir; é uma predominância de um fazer rir que se dá primeiramente pela cognição.

Por exemplo, no episódio “Passando a noite em claro”, Ivanildo, o marido de Luciana, assustado com as atitudes agressivas de sua esposa quando está sonâmbula, decide ir conversar com o pai da moça sobre o assunto. Nesta cena, en- contram-se em primeiro plano Ivanildo e o pai de Luciana sentados em torno de um pequena mesa redonda numa cozinha. Eles conversam sobre a noite em que Luciana pegou uma faca na cozinha e cortou frutas. O pai dela responde: “Ainda bem que é só frutas que ela corta”. Ivanildo pergunta: “O que o senhor está querendo dizer com isso?” E o pai acena com a cabeça negativamente. Ivanildo, desconfiado, olha para as suas “partes”. Neste momento, entre eles, ao fundo, está Luciana (na figura de Denise) com uma enorme faca na mão e olha séria para os dois (Figura 35).

3 O Dicionário Eletrônico Houassis traz o termo “verossímil” com o seguinte significado: “que parece verda- deiro; que é possível ou provável por não contrariar a verdade, plausível”.

Na seqüência, entra a interlocutor-entrevistada Luciana que lembra que o pai contou ao marido “histórias do interior” de possíveis mortes causadas por pessoas sonâmbulas. Em seguida, volta a cena da cozinha, com o ator-Luciana, na figura de Denise Fraga, com a faca na mão, cortando pedaços de queijo na mesa na frente do pai e do marido (Figura 36). Ela está séria e mostra-se decidida, utilizando- se de força ao usar a faca. Os dois homens demonstram medo com a atitude dela. A cena ganha força com a música usada, a famosa trilha que marcou o filme “Psi- cose”, de Alfred Hitchcock.

FIGURA 36 –

FIGURA 35 Luciana, em segundo plano, com uma faca na mão. Em primeiro plano, o seu marido e o seu pai conversam sobre ela

Neste exemplo, temos uma percepção cognitiva para compreender a situação e isto é o que nos causa o riso. Ivanildo está sentindo-se ameaçado pela esposa e a música reitera a sensação do marido, entretanto, causa-nos o riso, pois, até ali, o discurso nos mostra uma história jocosa que está sendo narrada. Com este tipo de construção discursiva do quadro – como também já citamos anteriormente, cria-se no telespectador uma expectativa ao riso, ele sabe que Retrato Falado vai lhe

fazer rir. E espera por isso.

A manipulação criada pela articulação textual sincrética faz com que o enunciatário-telespectador seja levado também a observar em sua vida cotidiana Neste exemplo, temos uma percepção cognitiva para compreender a

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acontecimentos risíveis, que o seu dia-a-dia também pode ser engraçado, que pode rir de si mesmo. Este telespectador é envolvido ao ponto de querer assistir ao pró- ximo episódio no domingo seguinte. Enfim, o principal regime de interação entre destinador e destinatário em Retrato Falado é a manipulação. Entretanto, como dissemos, o sensível, o estésico, também é usado para convocar e conquistar o enunciatário como veremos a seguir.

CONTÁGIO POR IMPRESSÃO: O FAZER SENTIR