O Ensino Superior Mexicano é marcado pela intensiva influência da Igreja, que como no Brasil, teve papel preponderante, fundando a primeira universidade mexicana, por volta de 1536. Durante todo o século XIX e início do XX foram sendo criadas instituições de Ensino Superior que questionavam a autonomia universitária e a influência do Governo, dando origem, assim, à primeira universidade do México, denominada de Universidade Nacional do México, cuja autonomia só foi alcançada em 1929, dezenove anos após sua criação.
Desde então, ocorreu um grande aumento na criação de instituições de Ensino Superior, levando à implementação da reforma da Lei Orgânica que enfatizou a independência e autonomia das universidades perante o Poder Executivo. Essa reforma se deu em 1933.
Somente nos anos de 1950, entretanto, e em meados dos anos 1970, pode–se considerar aumento significativo do Ensino Superior Mexicano, marcado pelo crescimento
59 das matrículas, aumento de instituições publicas e privadas, criação de novas licenciaturas, diversificando o campo educacional com outras formas de organização acadêmicas e de planos de estudo, e instituindo-se um sistema de formação de professores e de planejamento da Educação Superior nacional (SVERDLICK; FERRARI; JAIMOVICH, 2005).
Apesar de o setor público ainda ser mais numeroso, de perfil particular começou a se destacar e possuía maior prestígio. O ingresso no Ensino Superior estatal do México era irrestrito, pois bastava apenas a conclusão do Ensino Secundário, o que acarretou um volume gigantesco das principais universidades estatais, com cerca de 200 mil alunos na Universidade do México.
Em síntese, portanto, as políticas de ingresso irrestrito resultaram não só no crescimento desmesurado do setor público de Ensino Superior como também, mais tarde, quando os recursos governamentais se contraíram, em perda progressiva de qualidade desse setor. Fechou-se, com efeito, um ciclo em que o feitiço virou contra o feiticeiro: ao se expandir no ritmo da demanda, o setor público foi perdendo gradativamente sua eficácia na formação de profissionais, técnicos e pesquisadores (KLEIN, L.; SAMPAIO, H., 2009).
O sistema de Ensino Superior era basicamente público, de acesso irrestrito e gratuito, laico, autônomo e politizado. A universidade funcionou, por décadas, como um dos espaços de maior liberdade política do sistema partidário único. O estado buscava controlar o risco de instabilidade política sem vinculação entre financiamento, planejamento e a coordenação, responsabilizando os dirigentes universitários pelo controle interno de suas instituições. Assim, houve a expansão espontânea das matrículas dentro das grandes universidades, o que redundou no agigantamento e posterior ingovernabilidade destas instituições quando os recursos pararam de crescer nos anos de 1980.
Assim como aconteceu com outros países da América–Latina, aqui estudados, as ações foram pensadas para controle das matrículas, que estavam em expansão, promover as diversas fontes de financiamento, diminuição dos recursos fiscais estatais, estimulando o crescimento do setor particular e uma desaceleração do setor público. Todas essas ações foram importantes para subsidiar as reformas que ocorerram nos anos de 1990.
As transformações da década de 90 estiveram fundamentalmente relacionadas ao fortalecimento do planejamento e da administração de uma perspectiva economicista. Foi dada ênfase aos conceitos de racionalidade, eficácia e eficiência; em orientar a demanda educacional para a área de serviços e empregos assalariados em detrimento de disciplinas científicas ou humanísticas e na promoção
60 do setor privado, o qual evidenciou um significativo crescimento. (SCHWARTZMAN, 1994, p.73)
Com o crescimento do setor particular, o repasse de recursos para o setor público foi alterado, sendo vinculado a novos mecanismos de financiamento, como projetos inovadores e pesquisas, demonstrando a intensa relação entre produtividade e recompensa financeira. Tal é a característica predominante nos setores públicos que vêm, ao longo das últimas décadas, pelejando para atender as necessidades de mercado, em favor da formação da sociedade e de bens culturais.
Assim como aconteceu no Chile, o México também introduziu condições de ingresso nas universidades, cobranças de mensalidades nas matrículas, por meio de novas modalidades de formação, como as universidades tecnológicas que oferecem cursos de curta duração, voltados prioritariamente para o mercado de trabalho.
No início dos anos de 1990, com o enfraquecimento do Ensino Público, algumas medidas foram tomadas para um equilíbrio entre os setores. Dentre elas, diferenciação das instituições pelo sistema superior de ensino; criação de uma comissão nacional de avaliação, objetivando orientar processos simultâneos de autoavaliação, avaliação institucional e individual de professores; novos incentivos de financiamento relacionados com projetos e pesquisas em cooperação com a indústria; adoção de exames de seleção para ingresso nas universidades e exames de certificação para os concludentes, com destaque para os cursos de Saúde, Engenharia e Direito (SCHWARTZMAN, 1994).
Atualmente, o sistema educativo superior mexicano é composto por universidades públicas e privadas, universidades tecnológicas, interculturais, politécnicas, institutos tecnológicos (Its). A certificação é adquirida por meio de projetos que podem ser individuais ou coletivos, e precisam ser submetidos a uma banca ou colegiado de especialistas, prova geral de conhecimento, projetos de investigação, diploma obtido pela média, dissertação, estudos conquistados por meio dos estudos de pós-graduação.
Como é possível observar, o sistema de Educação Superior mexicano é tributário de grandes influências do Processo de Bolonha que obrigou os mexicanos a introduzirem mudanças significativas para atender às necessidades da comunidade mundial e das agências de financiamento, que vinculam cada vez mais produtividade com o conhecimento e o mercado consumidor. Os grandes agentes potencializadores dessas ações implementadas são os sistemas avaliativos adotados.
61 O sistema de avaliação institucional realizou-se por intermédio de autoavaliações vinculadas aos financiamentos das instituições. A instituição submete projetos inovadores a comissões de pares ad hoc, diretamente vinculadas ao Governo. Outra forma de avaliação é por meio dos departamentos da própria Instituição. Professores e pesquisadores são avaliados individualmente.
São os programas de pós-graduação avaliados pelo Conselho Nacional de Ciência que vincula o financiamento à produtividade, elaborando um ranque dos melhores cursos, privilegiados com mais financiamentos e mais bolsas.
Os sistemas avaliativos mexicanos estão cada vez mais estimulados a segregar o Ensino Superior entre boas e más instituições, valorizando cada vez mais as que conseguem se adaptar às novas exigências e abandonando à própria sorte aquelas são consideradas de baixo rendimento. Como é possível observar, é um sistema avaliativo prioritariamente punitivo, que aumenta a distância entre as instituições e que não promove uma avaliação institucional capaz de superar de dificuldades e de lograr melhorias da qualidade educacional.
O Estado passivo e benevolente que se limitava a repassar recursos para universidades autônomas, mas decadentes, cedeu lugar a um Estado ativo que vem gerenciando o setor público através de financiamentos indutivos e de recomendações específicas para com as políticas das IES. No interior das universidades, o corporativismo docente e discente cedeu lugar ao fortalecimento da comunidade acadêmica e de reitores e administradores universitários imbuídos de espírito gerencial e modernizador. Discute-se os benefícios ou malefícios do maior intervencionismo governamental, especialmente, pela pouca transparência de alguns dos novos processos e bases de relacionamento recém introduzidos, mas percebe-se também mudanças importantes de mentalidade e de gestão interna orientadas para eficiência e para o aproveitamento das novas oportunidades abertas pela nova política governamental. (SCHWARTZMAN, 1994 p.16)
A avaliação do Ensino Superior está baseada na acreditação das instituições, tanto públicas quanto privadas. As de caráter público buscam a manutenção de sua autonomia e as particulares demandam o reconhecimento de seus planos de estudos, seguindo um conjunto de normas gerais.
Outra modalidade muito utilizada foi a feita por pares, cujo objetivo era retroalimentar o funcionamento dos programas. A instituição interessada preenchia um formulário solicitando a avaliação. Por ser verificação e não uma avaliação institucional propriamente dita, o Comitê Avaliativo gera muitas informações e critérios de avaliação para que a instituição possa constituir os projetos, seguindo as indicações e tendo, assim,
62 aprovação para a instituição. Essas avaliações são realizadas por especialistas das áreas mensuradas e não por especialistas. Não existe nenhum tipo de sanção, apenas recomendações de melhorias, por via de relatórios.
Em 2001, um programa de avaliação das instituições superiores foi implementado, visando melhorar a instituição com suporte na experiência. Esse programa, definido como Programa Integral de Fortalecimento Institucional (PIFI), objetivava uma planificação estratégica, reestruturação da instituição de baixo para cima. Consistia em reorganizar as instituições, propondo efetivar–se em dependências de Educação Superior, em que os acadêmicos se agrupassem e definissem as próprias linhas de conhecimento, criando um projeto que será apresentado pelos gestores na busca de mais financiamentos.
Em 2002, outra forma de avaliar as instituições foi implementada, a acreditação. Essa nova modalidade avaliativa não se destinava a todas as formações, mas apenas a algumas profissões, determinando que ofícios são mais importantes e fazendo um controle sobre a quantidade de profissionais necessários. Esses organismos formulam listas de verificação sobre os planos de cursos e determinam o tempo para a realização da reforma curricular. São processos caros de avaliação que o estado financia.
Os organismos de acreditação cobram por cada trabalho entre 7 e 15 mil dólares de honorários, ao que se soma os gastos indirectos, tais como as ajudas de custo, os ateliês de auto-avaliação, que podem elevar o custo de acreditação a 50 mil dólares⁷. O custo total do processo de acreditação recai sobre os fundos públicos. Nalguns casos, e nas palavras de alguns or- ganismos de acreditação, fala-se de um mercado potencial de 300 mil dólares. A acreditação converteu-se num mercado protegido (BARRIGA, 2009. p. 24).
Existe em curso alguns institutos que realizam as avaliações de estudantes e professores. O Centro Nacional de Avaliação da Educação Superior (CENEVAL) é encarregado de avaliar os alunos. Empresa privada que lucra com avaliações de estudantes, não fornecendo nenhum resultado relevante para a Educação Superior como um todo, apenas para as instituições que contratam seus serviços.
O sistema avaliativo do Ensino Superior Mexicano se caracteriza pela pluralidade de instituições avaliativas e pela força do setor particular nesse segmento institucional. Não existe nenhuma função pedagógica e de melhoramento das instituições de ensino, apenas enriquecimento de uns em detrimento de todo um sistema educacional, fundamental para a produção de conhecimento, e de bens culturais para a comunidade mexicana como um todo.
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