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Ao longo do tempo, a trajetória econômica de um território, seja na escala de um país ou região, seja na de cidade, nunca é uniforme ou linear, mas, sim, pontuada por períodos de crescimento, estagnação, ou mesmo involução econômica. Conforme aponta Arantes (2011, p. 68), “é sabido que, num sistema cuja essência é a polarização e a permanente reinvenção das hierarquias, simplesmente não podem todos [as cidades] ‘vencer’ – ou se ‘desenvolver’, para ficar no eufemismo – ao mesmo tempo”.

Dessa forma, numa perspectiva histórica, sempre haverá alternâncias na importância econômica dos países (ou das cidades). Países ou cidades que estavam entre os de maior importância econômica são ultrapassados por outros; da mesma forma, territórios estagnados podem vir a tornar-se os mais dinâmicos.

A Figura 10 mostra a evolução da participação relativa das principais civilizações num hipotético PIB mundial, desde o século I. Por exemplo, potências orientais, como Índia e China, perderam importância econômica relativa a partir da ascensão do Ocidente. Mas, a própria China, desde as últimas décadas do século XX, vem ganhando participação na produção da riqueza mundial. Já a Rússia, segunda potência econômica na maior parte do século XX, foi deixando de sê-lo a partir da década de 1980.

Figura 10 – Participação relativa das principais civilizações no PIB mundial Fonte: Thompson, 2012

Consequentemente, se for considerado que, conforme aponta Sachs (2008a), o crescimento econômico é a condição necessária (mas não suficiente) para ocorrer o desenvolvimento, pode-se afirmar que territórios não desenvolvidos podem tornar-se desenvolvidos, e vice-versa. E, assim, correlacionado ao ranking da riqueza econômica, um ranking do desenvolvimento também vai alterando-se, ao longo do tempo. 66

Este processo não linear de crescimento/estagnação/involução econômica de um território, que pode repercutir em seu desenvolvimento, é uma característica das cidades do Estado de São Paulo, desde os primórdios de sua ocupação.

Entre a segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do XX, em função da atividade do café, que impulsionou o complexo cafeeiro (CANO, 1983), muitas vilas/cidades estagnadas, algumas delas baseadas numa economia de subsistência, vivenciaram grande período de expansão econômica, ultrapassando outras cidades, em termos de riqueza econômica.

Selingardi-Sampaio (2009) ressaltou o papel dinâmico que a acumulação capitalista do complexo cafeeiro desempenhou na geração e/ou reativação de centros urbanos, naquele período:

Ao lado das cidades novas que surgiam, outras, como São Paulo, Campinas, Jundiaí, Sorocaba, Piracicaba, etc. – que já existiam antes do domínio da economia cafeeira, tendo surgido em fases anteriores da colonização, sob a

66 Embora todo desenvolvimento seja determinado/induzido pelo crescimento, nem todo crescimento

determina/induz o desenvolvimento. Conforme já apontado no Capítulo 2, existe ampla literatura que mostra que o crescimento econômico pode induzir o aparecimento de problemas sociais e ambientais, piorando as condições de vida de parcelas significativas da população que habita o território em expansão econômica.

influência de outras forças sociais e econômicas -, foram revitalizadas pela cafeicultura que, além de introduzir um novo uso para os espaços rurais dos respectivos municípios, veio imprimir-lhes (às cidades) dinamismo econômico, desencadear economias de aglomeração, fazê-las crescer (SELINGARDI-SAMPAIO, 2009, p. 107).

Talvez o exemplo mais representativo seja o da própria cidade de São Paulo, durante todo o século XVI, uma vila erma e atrasada, mais pobre do que muitas das aglomerações urbanas vizinhas, mas que, a partir do século XIX, veio a transformar-se no centro econômico estadual e, posteriormente, nacional.

Tão pequeno lugarejo não comportava grande aparelhamento diferenciado de ordem administrativa e judicial. [...] Durante o século XVI não consta a vinda, a São Paulo, de nenhuma visita de autoridade judiciária superior, ouvidor ou juiz-de-fora. A sede da ouvidoria era São Vicente e depois Santos onde funcionava o foro, o que irritava sobremaneira os paulistanos. À vista de suas reclamações transferiu-a D. Francisco de Sousa, em 1598, para São Paulo onde o juiz regional despacharia as apelações e mais papéis forenses não só do lugar como das demais vilas da capitania (TAUNAY, 2004).

A partir de 1930, pós-crise do café, o Brasil vivenciou, segundo a periodização de Mello (1986), as fases da industrialização restringida (1933/1955) e da industrialização pesada (1956/1961), que se manifestaram no Estado de São Paulo por meio da expansão, para o interior, de indústrias produtoras de bens de consumo não duráveis (principalmente setor alimentício e têxtil) e de bens intermediários, configurada como uma industrialização complementar e mais restrita às necessidades da indústria metropolitana (NEGRI, 1996).

Dessa forma, muitas das cidades cafeeiras, outrora dinâmicas, estagnaram e assim permaneceram, sendo ultrapassadas por outras que diversificaram suas economias com novas atividades dinâmicas, embora, segundo Selingardi-Sampaio (2009), na maioria das vezes, as cidades industriais paulistas mais relevantes da década de 1950 eram justamente as outrora principais cidades cafeicultoras, as quais haviam alcançado concentrações populacionais relativamente expressivas e construção social e territorial mais bem elaboradas.

Já a partir da década de 1970, com a industrialização desconcentrada no Brasil, que originou a interiorização do desenvolvimento no Estado de São Paulo (TARTAGLIA; OLIVEIRA, 1988), aumentou a complexidade industrial do interior, que foi transformando-se no segundo polo industrial e econômico do País. Segundo Cano (1988), esta dinâmica de crescimento estava baseada no Pró-álcool, nos investimentos e estímulos federais e estaduais em informática e microeletrônica, na implantação das duas maiores refinarias nacionais de petróleo (Paulínia e São José dos Campos) e na política de incentivos às exportações, as quais

frutificaram devido à agricultura e à agroindústria do interior paulista serem as mais desenvolvidas do País.

Assim, as diversas fases da história econômica do Estado de São Paulo foram “premiando” (ou “punindo”) determinadas regiões ou cidades, que conseguiam (ou não) desenvolver atividades econômicas dinâmicas e que, assim, adiantavam-se (ou atrasavam-se) em relação às outras (NEGRI, 1996), trazendo novas configurações na importância econômica (e no desenvolvimento?) das cidades.

5.2 Jaboticabal, Olímpia e Bebedouro: evolução de sua economia e de seu