Como visto, em que pesem serem doutrinas econômicas antagônicas, tanto a teoria clássica quanto o marxismo tinham um ponto de partida em comum, a saber, a ideia de que o valor de um bem é mensurado pela quantidade de trabalho humano empregado para sua produção e distribuição, bem como de que o mercado oscila em torno dessa premissa. Note-se ser esta uma noção basilar para a construção de uma teoria de justiça econômica, mormente no que se refere à justa distribuição no processo de geração de rendas e riquezas de uma nação.
Tal proposição, todavia, mostrava-se falha ao se analisar a questão da terra, cuja atividade humana estaria presente, tão somente, nas práticas de cultivo e colheita. Para os clássicos liberais, o valor da terra deveria ser mensurável partindo-se da ideia de que existem bens reproduzíveis, cujo valor é mensurado pela quantidade de trabalho humano, e bens não reproduzíveis, cujo valor, por sua vez, é mensurado por sua escassez. Contudo, este critério mostrava-se igualmente incompleto, vez que existem bens cuja atividade de reprodução e extração leva, inevitavelmente, ao seu esgotamento. Para os adeptos do marxismo, a terra não teria valor, mas teria preço, a ser determinado pela mensuração do produto de sua renda.36 Entretanto, a premissa marxista peca, pois os bens que não têm valor, via de regra, são ofertados de forma gratuita, não tendo relevância econômica. Dessa forma, se as pessoas se propõem a adquirir algo que, a princípio, não tem valor, individualizando-o em sua esfera de domínio privado em troca de uma quantia previamente estipulada, a premissa marxista
36 Na concepção de Marx, a terra não possui valor porque não é fruto do trabalho humano, mas uma
dádiva da natureza. (...) O capitalista arrendatário paga ao proprietário da terra uma quantia em prazos estipulados como renda da terra. A terra não possui valor, e seu preço pode ser determinado pela capitalização da renda da terra. (...) A renda assim capitalizada constitui o preço de venda, por exemplo, do solo ou de um terreno. (OLIVEIRA; GENNARI. Op. cit. 136-137).
está a desconsiderar outros aspectos de ciência econômica que envolve a questão da propriedade imóvel, baseando-se apenas em observações empíricas.
Há outras divergências entre as teorias econômicas mencionadas, quando se analisam demais aspectos das relações econômicas. Para os liberais, por exemplo, faz-se distinto o valor de uso, mensurado por meio da utilidade que a aquisição do bem proporciona, e o valor de comércio, aferido através da procura que o bem possui no mercado. Nesse entendimento, quando um bem perde seu valor de uso, perde também seu valor de mercado. Por outro lado, se o valor de uma coisa é mensurada por sua utilidade, a premissa básica de aferição por meio da quantidade de trabalho humano que é empregada na sua produção nem sempre será verdadeira. Ainda, determinadas coisas possuem utilidade vital para a sociedade, a exemplo da água, porém possuem valor inferior a outros bens, como o diamante, que não tem tanta utilidade prática ao homem.37
Diante de diversas questões que permaneciam em aberto, em que as teorias clássicas e marxistas não ofereciam uma base científica satisfatória para a explicação de como seus valores oscilavam, surgiu a chamada escola austríaca, também conhecida como marginalista. Nela se destacam os seguintes autores: Stanley Jevons (1835-1882), na Inglaterra, Leon Walras (1834-1910), na França, e Carl Menger (1840-1921), na Áustria, sendo este seu maior expoente.38
Para os marginalistas, o valor não era algo mensurável por meio de sua utilidade, sendo este um critério subjetivo e variável. Isso porque o que varia em uma relação comercial, cujo objetivo é a aquisição de um bem, não é sua utilidade, mas a quantidade de dinheiro que o consumidor se propõe a pagar por ele, considerando o custo- benefício, ou seja, se o bem adquirido compensa, por sua utilidade, o valor que se paga. Seguindo esse raciocínio, aduzem Oliveira e Gennari ao tratar da teoria de Carl Menger:
Uma vez que sabemos que as coisas podem ser consideradas como bens e que esses bens possuem utilidade, podemos apresentar o conceito central de sua teoria [de Menger], a saber, o conceito de valor. Para ele [Menger], o
37 Aproveita-se, aqui, do clássico exemplo de Adam Smith, que ele utiliza para explicar os dois
significados de valor. “Importa observar que a palavra VALOR tem dois significados: às vezes designa a utilidade de um determinado objeto, e outras vezes o poder de compra que o referido objeto possui, em relação a outras mercadorias. O primeiro pode chamar-se „valor de uso,‟ e o segundo, „valor de troca.‟ As coisas que têm o mais alto valor de uso frequentemente têm pouco ou nenhum valor de troca; vice-versa, os bens que têm o mais alto valor de troca muitas vezes têm pouco ou nenhum valor de uso. Nada é mais útil que a água, e no entanto dificilmente se comprará alguma coisa com ela, ou seja, dificilmente se conseguirá trocar água por alguma outra coisa. Ao contrário, um diamante dificilmente possui algum valor de uso, mas por ele se pode, muitas vezes, trocar uma quantidade muito grande de outros bens.” (SMITH, Adam. Op. cit., p. 85-86).
valor dos bens “está fundado na relação que têm com nossas necessidades, mas não nos próprios bens. Ao variar essa relação de interdependência, necessariamente surge ou desaparece o valor.” Assim, por exemplo, os habitantes de um oásis não dariam valor algum à água, pois tal bem estaria ali disponível em abundância. Por outro lado, caso ocorresse uma catástrofe natural ou algo da mesma dimensão que dificultasse o acesso à água, surgiria o valor daquele bem imediatamente, e, de acordo com sua escassez, poderia subir indefinidamente. Ao percorrermos as ideias de Menger, vai ficando cada vez mais evidente que, na avaliação da Escola Neoclássica, o valor é algo totalmente subjetivo, nada tendo a ver com as qualidades intrínsecas do bem, mas com o valor que os homens lhe atribuem subjetivamente.39
Portanto, a utilização do bem para o atendimento das necessidades é fator de forte influência na oscilação dos preços. Se um indivíduo adquirir determinada quantidade para si e durante seu consumo, dispondo-se a oferecer algumas unidades do todo, que lhe são excedentes e não lhe agregam mais nenhuma utilidade, configura-se que essa margem de excesso na utilização terá reflexo direto na formação de preços. Por sua vez, se ao invés de excesso, tiver uma margem de escassez, necessitando adquirir mais unidades para satisfação de suas necessidades, tal margem de utilização igualmente influenciará na mensuração do preço.
A essa utilidade, que se origina da procura pelo bem em virtude da necessidade de se adquirir margens extras ou se disponibilizar parcelas em excesso, denominou-se de utilidade marginal, que configura fator de influência na formação do preço. Na aquisição de bens, cada qual tende a obter os que lhe são de maior utilidade, em troca daqueles que lhe são de menor necessidade. Se uma pessoa tem excesso de algum bem e precisa adquirir algo que não possui e outro indivíduo tem excesso deste e precisa adquirir aquele, haverá equilíbrio e equivalência em eventual troca, uma vez que os dois envolvidos terão suas necessidades satisfeitas. Logo, em toda relação comercial, ambas as partes negociantes sairão ganhando, mediante critérios subjetivos de atendimento de suas necessidades pessoais.
Para essa escola, portanto, a antiga premissa de equivalência nas trocas comerciais é falsa, posto que o valor dos bens não pode ser mensurado de forma objetiva, mas de acordo com uma escala de satisfações individuais, isto é, de acordo com uma graduação para aquisição de bens, consubstanciada na necessidade pessoal que cada indivíduo irá avaliar. Tal escala toma por base critérios de relevância na aquisição do bem e a quantidade que se pretende adquirir para satisfação de necessidades pessoais. Dessa forma, através do critério utilidade, pode-se estabelecer
uma relação entre o valor de uso e o valor de troca. Não obstante, o valor de uso de um bem nada mais se trata que sua utilidade marginal no meio em que é ofertado. Por sua vez, o valor de comércio dependerá tanto da utilidade para quem a oferta, quanto da necessidade para quem a procura.
Partindo dessa premissa, explica-se satisfatoriamente a diferença de mensuração de preços que existe entre a água e o diamante, uma vez que a mensuração de seus valores é fruto tanto da quantidade em que tais bens são encontrados, quanto da utilidade que cada indivíduo lhes outorga.
A escola austríaca tem como mérito levar em consideração critérios subjetivos para explicar a oscilação de preços de um produto em seu mercado, representando grande avança em relação aos clássicos e aos marxistas, que pretendiam explicar a questão da mensuração de valores por critérios objetivos, desconsiderando os desejos e ambições do consumidor final. Este, sendo o último destinatário dos bens e responsável por sua utilização e consequente satisfação de suas próprias necessidades, também é fator que influencia no processo de formação de preços.
No campo das ciências jurídicas, a busca pela devida quantificação do valor dos bens e do trabalho humano, de maneira a garantir a equidade nas relações de trocas na sociedade, levou à construção de diversos institutos que objetivavam assegurar sua sociabilidade.
Se diante do modelo econômico liberal o direito preocupava-se em assegurar que os negócios jurídicos pactuados fossem integralmente cumpridos, ainda que uma das partes envolvidas experimentasse enriquecimento sem causa em face da outra ou ainda que o exercício regular de seus direitos privados representasse prejuízo a toda a coletividade, no modelo intervencionista o foco de preocupação passou a ser direitos e interesses de caráter difuso e coletivo, que transcendiam a mera individualidade nas relações sociojurídicas.
Princípios de direito consagrados, até então, em caráter absoluto, como a livre iniciativa, a autonomia de vontade privada e o dirigismo contratual, são relativizados e cedem espaço para princípios como a função social da propriedade, a função social da empresa, a função social do contrato, a solidariedade, a defesa do consumidor, a defesa do meio ambiente, a liberdade de concorrência, a busca do pleno emprego, dentre outros que visam a dar à justiça econômica um viés social, sendo um norte inafastável da outra. Insta salientar que, não por coincidência, muitos desses princípios encontram-se
elencados no art. 170 da Constituição Federal brasileira como princípios norteadores da ordem econômica, os quais serão analisados no Capítulo 3.
Nessa linha, destacam-se no campo econômico as doutrinas de John Maynard Keynes, que, em sua obra “Teoria geral do emprego, do juro e da moeda,” expôs suas teses sobre economia política, demonstrando que o nível de emprego e, por corolário, o do desenvolvimento socioeconômico, se devem mais às políticas públicas implementadas pelo governo, bem como a certos fatores gerais macroeconômicos, e não meramente ao somatório dos comportamentos individuais, microeconômicos dos empresários.40
O pensamento econômico assume contornos mais coletivos, preocupando-se, nesse momento, não mais com o comportamento individualizado de cada agente econômico, mas exatamente com os efeitos que a conduta destes terá sobre a de seus competidores diretos e imediatos. Assim, a postura do Estado, que dentro da clássica teoria liberal era meramente absenteísta, é substituída por um modelo estatal intervencionista, cujos ordenamentos jurídicos constitucionais consagram e legitimam a interferência do Poder Público no processo de geração de rendas e riquezas da nação.41
Ainda, a moderna doutrina econômica segue novas tendências de pensamento, mormente a teoria dos jogos, desenvolvida pelo matemático suíço John Von Neumann42 e aperfeiçoada pelo ganhador do Prêmio Nobel, John Nash,43 que aprofundou os estudos de equilíbrios entre os agentes econômicos, mormente em relação à sua aplicação em ambientes não cooperativos.
A aplicação da teoria dos jogos é hoje amplamente usada e difundida, sendo imprescindível instrumento de interpretação teleológica para o Direito Econômico da Concorrência na análise de condutas anticoncorrenciais. Nas palavras de Calixto Salomão Filho:
40 “A teoria de Keynes é uma contundente crítica a alguns postulados dos fundamentos da Escola
Neoclássica (Pigou, Marshall e outros a denominam como clássica), no que tange à visão microeconômica, ligada a um olhar baseado nas relações entre compradores e vendedores individuais. Sua crítica vai além e ataca alguns pilares centrais das teorias hedonistas, que, segundo Paul Hugon (1959), individualizaram ainda mais os problemas econômicos. Para Hugon, „trata-se, para Keynes, de combater e ultrapassar esse ponto de vista microeconômico, para considerar o problema em termos mais gerais de „rendimentos globais‟, „procura global‟, „emprego global‟, ou seja, raciocinar com base em dados de conjunto.‟” (OLIVEIRA; GENNARI. Op. cit., p. 245).
41 Vale aqui uma observação no que se refere à atuação direta do Estado na economia segundo a CF.
Conforme dispõe seu art. 173 da Constituição Federal: “Ressalvados os casos previstos nesta Constituição, a exploração direta de atividade econômica pelo Estado só será permitida quando necessária aos imperativos da segurança nacional ou a relevante interesse coletivo, conforme definidos em lei.”
42 Theory of games and economic behavior (1944), em coautoria com Oskar Morgenstern. 43 Equilibrium points in N´-person games (1950).
A teoria dos jogos é talvez uma das teorias econômicas de maior potencial transformador da teoria neoclássica, em especial em matéria de análise das condutas, apesar de sua íntima ligação aos pressupostos individualista desta última. A razão é que a teoria dos jogos oferece instrumental muito interessante para a análise de dois elementos-chave para a análise das condutas: seu resultado e sua motivação. O primeiro decorre diretamente da teoria dos jogos. O segundo, indiretamente, a partir de sua crítica.44
Vale ressaltar que a verificação econômica das condutas de agentes em ambientes não cooperativos é fator primordial para a indicação de eventual infração à ordem econômica, uma vez que, se dois ou mais agentes maximizam seus resultados, concentrando poder de mercado em torno de si em detrimento dos demais competidores, pode indicar a prática de conduta cartelizada.
Apesar dos avanços da doutrina keynesiana sobre a economia e o direito, esta foi considerada, durante a década de 1970, responsável pelo grande déficit experimentado nas contas do Estado, pois, na prática, o endividamento público, objetivando garantir o crescimento econômico e consequentemente o desenvolvimento social, revelou-se inoperante e ineficiente, resultando movimentos de desestatização da ordem econômica. Assim, buscou-se afastar a presença do Poder Público nas atividades de geração de rendas e riquezas, retornando aos ideais de liberalismo econômico, sem perder o norte do compromisso com o social. Presenciou-se um avanço no ideário político da socialdemocracia, a qual representava a junção da crisma de aprovação popular, legitimando a autoridade política, dentro de planejamentos públicos para se alcançar metas de crescimento econômico, com a consecução de resultados socialmente desejáveis e previamente estipulados.
Atualmente, grande é a influência do pensamento de John Rawls no processo de gênese de uma teoria de justiça, em sua vertente econômica. Segundo o pensador norte- americano, uma ideia de justiça estaria intrinsecamente ligada à garantia de tratamento isonômico, principalmente no que se refere às oportunidades, cabendo ao estado assegurar que todos tenham acesso às mesmas chances.
Analisar-se-á, a seguir, o pensamento de Rawls e a sua contribuição para a teorização da justiça.