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Na vida cultural, em que se insere o Direito, os princípios e os valores perfilham normatividade de alto teor axiológico e constituem mesmo objetivos a serem colimados, pois o Direito é obra do homem e haverá de ser compreendido precipuamente deste prisma. Como anota Gustav Radbruch, “não pode, portanto, haver uma justa visão de qualquer obra ou produto humano, se abstrairmos do fim para que serve e do seu valor. Uma consideração cega aos fins, ou cega aos valores, é pois aqui inadmissível, e assim também a respeito do direito ou de qualquer fenômeno jurídico.”127

A busca incessante da justiça é dever supremo do jurista consciente da contribuição instrumental do Direito, superando a estreiteza empirista dos que renunciam à tarefa axiológica, mal percebendo que nesta atitude renunciam à ideia mesma de racionalidade e necessária legitimidade que acompanha a compreensão e

justificativa do fenômeno jurídico. Neste sentido, a inserção da justiça social como fim da ordem econômica há de ser tida como o reconhecimento de que todos se encontram em face de um destino comum, numa inescapável empresa comunitária, onde a coexistência deve ser vista de frente ou nos atordoará pelas costas.

Esta perspectiva metaindividual, coletiva, superando individualismos exacerbados, onde o humano deságua e se confunde com o solidário, inspira a compreensão normativa da justiça social. O fim da ordem econômica é possibilitar a todos uma existência digna, conforme os ditames da justiça social, como assim está escrito no caput do art. 170 da Constituição. Se a expressão “existência digna” remete ao princípio da dignidade da pessoa humana, considerada, preponderantemente, na sua individualidade, a “justiça social” diz respeito a uma espécie de dignidade coletiva. Não basta alguém possuir digna existência se aquele que está ao lado não possui nenhuma dignidade.

Por isso que a justiça social está relacionada com a correção das grandes distorções que ocorrem numa sociedade, diminuindo distâncias e diferenças entre as diversas classes que a constituem, favorecendo os mais humildes. Evitar que os ricos se tornem cada vez mais ricos às custas de um gradual e contínuo empobrecimento dos mais pobres, oferecendo idênticas oportunidades a todos, constitui uma variação semântica do termo sob comento.

Esta referência, contrária à situação individual de extrema riqueza, deve-se, senão por outros motivos, pelo menos a duas singelas razões: em primeiro lugar, à indisfarçável ameaça à concretização do mais caro princípio democrático – o de que o poder emana do povo e em seu nome será exercido; e, em segundo lugar, ao fato de que a realização de cada um e de todos prescinde da referida situação e, no mais das vezes, é apenas reflexiva da desproporcionalidade abissal que se vislumbra no comparativo dos benefícios atomística e individualmente amealhados na práxis socioeconômica no cotejo com as carências absolutas de grande parte de nossa população.

A busca de uma igualdade substancial e mesma a abolição de injustificados privilégios de alguns, distribuindo equitativa e proporcionalmente os ônus, os favores e as riquezas da produção social, sem se deixar cair num sociologismo divorciado da ideologia constitucionalmente adotada, é um dos objetivos visados pela justiça social. Pertinentes são as observações de Fábio Comparato, ao acentuar o individualismo que marca certas ideologias, afastadas do caráter fraternal e solidarista que inspira a justiça social, conforme transcrito a seguir:

Em todos os continentes, e com penetração até mesmo em grupos culturais perfeitamente homogêneos e tradicionais, assiste-se também à difusão de um modo de vida individualista, frequentemente apresentado como último avatar da modernidade. Os prosélitos desse novo estilo de cidadania gabam-se de prezar, mais do que seus antepassados, os valores democráticos da liberdade e da igualdade. Mas quanto à ideia de fraternidade, ela foi, ao que parece, definitivamente expulsa do panteão político. É a atomização da soberania popular, na autonomia concorrencial de cada ego.128

Apesar de a inserção constitucional do termo “justiça social” estar se repetindo desde a Constituição de 1946,129 é fácil perceber que o impasse atual que se vai gerando no convívio social, pela crescente tensão ocasionada pelos bolsões de miséria, de desemprego, de fome e de outras carências extremas, constitui gravíssimo problema a desafiar atitude inteligente e perscrutadora dos operadores do Direito, que devem estar voltados, todos, a dar concretude à finalidade da ordem econômica, para a realização da justiça social.

Vale, neste ponto, a advertência sobre a suposta e inadvertida assertiva da falta de eficácia das normas constitucionais atinentes à justiça social. Como adverte a doutrina, a existência dos chamados conceitos vagos, fluidos ou imprecisos, nas regras concernentes à justiça social, não impede que o operador do Direito lhes reconheça, in concreto, o âmbito significativo. Uma correta análise das dicções constitucionais relativas à justiça social impõe concluir que, a partir delas e independentemente de normação ulterior, já são invocáveis direitos sociais muito mais amplos e sólidos do que se supõe habitualmente.130 Toda norma constitucional é norma jurídica, portanto, com função prescritiva.

Referindo-se à Constituição anterior, disse Celso Antônio Bandeira de Mello:

Em suma, o que o art. 160 faz é obrigar, impor, exigir que a ordem econômica e social se estruture e se realize de maneira a atender os objetivos assinalados. Igualmente obriga, exige, impõe que a busca destas finalidades obrigatórias se faça por meio de certos caminhos, também obrigatórios: aqueles estampados nos itens referidos, os quais são erigidos ao nível de princípios.131

128 COMPARATO, Fábio Konder. Papel do jurista num mundo em crise de valores. RT, São Paulo, v. 84,

n. 713, mar. 1995, p. 278.

129 Art. 145 da Constituição de 1946: “A ordem econômica deve ser organizada conforme os princípios de

justiça social.”

130 MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Eficácia das normas constitucionais sobre justiça social. Revista

de Direito Público, São Paulo, n. 84, out.-dez. 1987, p. 255.

131 Ibidem. Refere, ainda, o autor, verbis: “As normas constitucionais atinentes à justiça social podem ser

agrupadas em três espécies tipológicas: a) algumas são concessivas de poderes jurídicos, os quais podem ser exercitados de imediato, com prescindência de lei; b) outras são atributivas de direito a fruir, imediatamente, benefícios jurídicos concretos, cujo gozo se faz mediante prestação alheia que é exigível judicialmente, se negada; c) outras, que apenas apontam finalidades, a serem atingidas pelo Poder Público, sem indicar a conduta que as satisfaz, conferem aos administrados, de imediato, direito de se oporem judicialmente aos atos do Poder Público acaso conflitantes com tais finalidades” (p. 255).

A assertiva vale também para a atual Constituição Federal. Esta é impositiva quanto ao modelo de desenvolvimento adotado: aquele em que a justiça social seja observada, acatada, respeitada.

Neste momento da exposição, há que se fazer uma referência a Otfried Höffe, pois a ideia de justiça social está ligada à ideia de um discurso ético do Direito e do Estado. Para o grande professor, a ideia de justiça é irrenunciável: a perspectiva histórica universal, já em Atenas, assume que leis e formas de Estado são recusadas e até não aceitas no caso de excessiva dureza e injustiça. Daí que a simples significação de uma ordem jurídica positiva não pode dispensar uma camada elementar de justiça, sob pena de se tornar ilegítima.132 Uma ordem de Direito e de Estado, que se exercita de forma coercitiva, restringe a liberdade de todos e apesar disso é legítima em nome da liberdade.

Entretanto, como o próprio autor adverte, são necessários princípios de justiça, que vão além da pura definição jurídica,133 os quais ficam formulados numa hipótese tripartite. Se a convivência humana deve assumir uma figura legítima, então este é o caráter do Direito; logo, o Direito deve atingir a realidade da justiça; por fim, como o Direito está estruturado, precipuamente, no Estado de Direito, ele deve assumir a figura de um Estado justo, daí se falar em justiça social.134

Haverá, então, de se compreender a expressão “justiça social” como indicativa de que a solução jurídica adotada para o caso concreto reafirme a efetiva participação de todos, de modo direto ou reflexivo, nos benefícios frutificados pelo convívio social, certo de que o malogro ou sucesso da vida em sociedade a todos envolve e a todos alcança. Daí, portanto, não guardarem adequação ao ideal de justiça formas de

132 Como anotou: “Somente se a justiça é compreendida como conceito jurídico e não, por exemplo, como

categoria de moral pessoal, e somente se a justiça (política) depende por si da realização num Estado, podem ser preservadas as instituições contidas no positivismo do direito e do Estado e, ao mesmo tempo, ser impedida a consequência única de entregar direito e Estado ao arbítrio dos dominadores. Do mesmo modo vale: somente se direito e Estado estão obrigados originalmente à justiça, pode ser reconhecido o interesse justificado das teorias críticas, o não incondicional contra qualquer opressão, exploração e despotismo, filtrando-se, porém, aquele momento da fantasia, de acordo com o qual a convivência humana somente encontrará uma figura legítima após a eliminação de toda coerção” (HÖFFE, Otfried.

Justiça política. São Paulo: Martins Fontes, 2001, p. 14).

133 Como refere o autor: “Se desacredita quem apenas fala de direito à liberdade e de direitos

democráticos de cooperação, mas não os converte em realidade. Ainda se desacredita quem age contra o princípio fundamental da justiça política procedimental, que, portanto, em vez da divisão dos poderes e de um pluralismo político, cultiva uma concentração sem igual de força. E, por fim, se desacredita, e novamente por razões de justiça, quem atribui aos dominadores, portanto, a si mesmo, privilégios extremos. Não em última instância, reagimos contra uma economia planificada e sob comando, pois não somos determinados apenas por considerações econômicas” (idem, p. XV).

desenvolvimento que sejam medidas exclusivamente em função do crescimento econômico.

A centralidade da pessoa humana, em sua dignidade, como fonte inspiradora do agir hermenêutico, põe em destaque que o verdadeiro desenvolvimento há de significar a transposição de melhores condições de vida para todos, realizando a justiça social. Preciosa a lição de Néri da Silveira, antes mesmo, inclusive, do advento da atual Constituição, ao anotar que o aperfeiçoamento institucional do Estado de Direito não se dá sem a realização da justiça social. Nas suas palavras, é necessária:

(...) a criação de condições sociais básicas, para que todos os membros da convivência, e não apenas alguns, no exercício das liberdades, possam alcançar o efetivo desenvolvimento de sua personalidade, notadamente em face das situações adversas, criadas pela conjuntura real, econômica e financeira, agravadas, de forma substancial, nos tempos atuais, com a inquietante ampliação das áreas de populações menos favorecidas da fortuna ou em estado de extrema pobreza.135

A justiça social é mesmo uma primordial vocação da ordem constitucional econômica, sua finalidade, destino obrigatório de toda tarefa exegética. Fica então fácil entender a assertiva de Cristiane Derani, ao afirmar que o Direito Econômico,

(...) como tradução do que há de expresso ou latente numa sociedade, não desenrola uma rota sem conflitos. Ao espelhar as diferenças e divergências sociais ao mesmo tempo em que incorpora seu papel político de objetivar o bem comum da sociedade, transita pelas mais distintas esferas do relacionamento social. Assim, justifica-se, e mais, torna-se imprescindível esta dupla dimensão do direito econômico: garantidor da iniciativa econômica privada e implementador do bem-estar social.136

Como examinado no tópico “liberdades substanciais,” do capítulo 2, a liberdade para cada um e para todos, na acepção ampla em que a questão foi abordada, é mesmo um motor do desenvolvimento, mas este somente se estabelecerá onde a justiça social se torne mais presente no convívio da sociedade. Por isso que a justiça social diz respeito ao que toca a cada um como membro da sociedade, como semelhante, como humano.

Benzer Belgeler