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A fotografia abaixo, datada do dia 02 de maio de 2004, ilustra os momentos finais dos moradores na comunidade, os quais, no dia seguinte, seriam deslocados compulsoriamente.

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Expressão recorrente nas falas de muitos moradores ao longo de toda pesquisa de campo. Destaca-se a seguinte fala: “Livre espontânea pressão porque não tinha nem condições, não tinha outro jeito. Tinha ou vir ou vir. Não tinha outro jeito uai!. Ah eu não fiquei satisfeita não. A gente não fica satisfeita porque a gente não quer sair, largar casa” (Moradora R, 49 anos, solteira, assalariada).

68 Era entardecer na comunidade e todos se reuniam em uma das ruas sob a eminência do acontecimento do dia seguinte. Conforme relato dos moradores, já neste dia, o fornecimento da energia elétrica foi interrompido pela Companhia Energética de Minas Gerais - CEMIG, como também o abastecimento de água e as linhas telefônicas. Neste momento, foi organizada uma reunião pelo MAB, juntos aos moradores restantes, para discutirem como iriam proceder frente à chegada dos policiais. A moradora aponta que “muitos estavam com medo e desorientados. Não sabiam o que fazer”.

Os moradores relembram este momento ao destacarem que

A polícia foi lá no dia 02 de maio de 2004. Daí logo depois, já no outro dia, as máquinas já foram juntando tudo, o caminhão carregando. Tava maior tristeza lá. E daí a poucos dias, eles começou a encher lá. Rapidinho

(...) e ganha um mundo de dinheiro né (Moradora M, 59 anos, solteira, pensionista).

Seria um dia assim, imitando assim, por exemplo, que nunca aconteceu com vocês espero em Deus, que nunca aconteça com nenhum de nós, mas como se a gente tivesse perdido todo mundo da família, inclusive os amigos e você olha pra todo o lado e só via pessoa estranha e procurava a sua casa e você não encontrava mais ela e sem saber pra onde ir (...) eles

chegaram à noite cercaram todo o povoado nosso lá, com cães farejador, com atirador de elite, tudo enquanto foi tipo de polícia, e inclusive polícia da inteligência e tal, cercaram tudo, passaram a noite toda acordado vigiando nós. Aí quando foi no outro dia só foi chegando as carreta, com armamento, armamento praticamente pra guerra e carro de bombeiro, ambulância, tudo que você possa imaginar (...) Nessa noite o povo, a maior parte do povo fechou a casa lá e veio pra aqui porque muita gente não resistia de ver a tratação deles com o povo (Morador J, 63 anos, casado, autônomo).

Figura 16 - Os últimos instantes em São Sebastião do Soberbo. Fonte: Arquivo cedido pelos moradores - pesquisa de campo, 2012.

69 Neste ponto, intercala-se fotografias e as lembranças dos moradores concernentes ao episódio do dia 03. Acentua-se a repressão policial, a violência simbólica com a demolição da igreja e das casas, os traumas psicológicos da expulsão e os abalos à integridade psíquica. Sobretudo, pelo descaso com os pertences pessoais dos moradores, pelos sentimentos de repulsão, aversão e ressentimento ao deslocamento, como sintetiza Borges e Silva (2011), sentimentos que remetem à expropriação por meio de perdas dos aspectos naturais, sociais e culturais. Diante do exposto, segue a descrição do episódio pela evocação e localização das lembranças das testemunhas. Conforme Halbwachs (2006, p.69) “a memória coletiva tira sua força e sua duração por ter como base um conjunto de pessoas, são os indivíduos que se lembram, enquanto integrante do grupo” ou comunidade. Desta maneira, destaca-se, nos depoimentos, um passado em comum vivenciado pelos moradores no sentido de que

Não, nós não mudamos, ficou quatorze casa lá, eles chegaram e quebraram as casas (...) Nos viemos andando...nós veio. Eles veio e julgou os troço aí...bagunçou tudo...e nós viemos depois. Era casa velha mais a gente tinha amor nela...tinha amor. Quebrou o guarda-roupa. Mas nós

não esperou cento e noventa e dois policiais lá, nós ia espera lá?!, Nós saímos, fechou a casa e saímos fora...(Morador A, 68 anos, casado, aposentado). Aqui é a venda [moradora descrevendo as fotografias abaixo]. Essa dona dessa venda, aqui no dia tava fazendo almoço. Ela e o marido teve que sair e deixou tudo lá. Teve que sair uai, o marido saiu, teve que largar tudo, não pode sair com nada (...) Eu e L. tava na estrada vimo um monte de polícia, tentei

tirar a foto só que não saiu não. Eles [os policiais] não deixavam não. Se eles visse a máquina eles não deixavam fotografar não (...) eles não deixaram não. Essas fotos foram tiradas escondidas. Foi uma coisa horrorosa

que eles fizeram lá. Tinha até um rapaz lá, ele também ficou muito triste. Ele tava com um menino, acho que com os três meses, aí a esposa dele tinha lavado um tanto de roupa das crianças né, tava lá no varal (....) esse rapaz é filho desse moço dessa venda, ele é casado. Tava com o nenê pequeninho, ele tava catando as roupas lá no varal, e nós tava de cá olhando, aí os policial chegou e falou: ‘Cata depressa, depressa depressa’...aí ele tava puxando os pregador, aí ele pegou e rapou a corda e enfiou tudo lá pro meio da poeira coitado. Ele pegou as roupas e não podia falar nada, jogou lá dentro do caminhão de qualquer jeito e veio embora pra cá. E daí a pouco a casa dele tava tudo destruída. P: O pessoal agia com violência? Com violência e

muita! Uma falta de educação. Não tô falando com você que pra tirar essas

fotos, teve que tirar escondido. Tirava e muitas nem saia porque não podia não (...) P: A mulher dona da venda teve que desligar o fogão fazendo comida? Teve que desligar o fogão fazendo comida. Ela mesmo adoeceu e ficou muito tempo doente (Moradora R, 49 anos, solteira, assalariada).

70 Figura 17 - O arrombamento da venda.

Fonte: Arquivos cedidos pelos moradores - pesquisa de campo, 2012.

(...) Aqui eles isolaram e eles quebrando [moradora descrevendo as

fotografias abaixo]. P: Ah, isso aqui é o pessoal vindo quebrando? P:

Quebravam a noite, qualquer hora tava quebrando? Quebrou até meia noite. Veio tropa mesmo até tropa de choque e falavam assim: ‘Ah não, eu queria ver é sangue’. Um tinha que reagir, mas só que ninguém fez nada, graças a Deus. P: Quem tinha que reagir? O povo...a polícia falou que pelo menos um tinha que reagir, porque eles queriam ver sangue. Eles passavam com cachorro, com porrete...P: E os policiais eram de onde? De Ponte Nova? Não. Era batalhão mesmo. Veio umas três guarnições. Eu nem sei quanto de tanto policial que veio. Tinha cachorro, cavalo de todo jeito. Eles achou que o pessoal lá era uma turma de bandido. E bandido perigoso mesmo. O pessoal quando viu aquilo, ninguém não podia nem falar (Moradora M, 59 anos, solteira, pensionista).

(...) Lá era muito humilde (...) praça era com calçamento. A praça em frente a igreja. Só que o pessoal também era muito simples. P: E aí tinha um caminhão, tinha umas polícias aqui o dia que o pessoal saiu...É. Eles pegaram

os móveis, jogavam tudo lá pra dentro. Quebraram muita coisa. E tem

muita gente que tá no prejuízo até hoje. Minha prima mesmo saiu de lá no dia que eles quebraram as coisas dela tudo. Entrou na justiça mas não resolveram não. Até hoje (Moradora M, 59 anos, solteira, pensionista).

Eu mudei pra cá em 2002, mas os meus menino ficou...os menino ficou pra vê se recebia um dinheiro dele..meu filho acabou que botaram polícia em cima e tocaram todo mundo de lá e derrubaram...ficaram esperando para receber. Acabou que nós perdemos que tinha que tirar lá, né! Porque

jogaram tudo pro chão, misturou aquele trem tudo, ainda não pagaram pros menino...A., L. e P. e G [filhos] (...) Ahhh! ficou ficou muito...ficou muito nervoso, ficou muito nervoso há muitos dias, até hoje, né?!, até hoje eles é revoltado com isso (Morador D, 73 anos, casado, aposentado).

71 Figura 18 - A mudança no percurso do deslocamento.

Fonte: Arquivos cedidos pelos moradores - pesquisa de campo, 2012.

Nós tiramos muita foto do Soberbo, o dia que tava destruindo. Aí a gente tem lembrança de lá. As lembranças de lá, são boas né. Mas o dia que foi coisa lá, não foi não. Lembro, eu vi pra cá [referindo-se a Velho Soberbo] ver a destruição deles lá. A gente não podia nem chegar perto deles de tanta polícia que tava. Foram jogando as casas no chão. Com aquelas máquinas grandonas, derrubou tudo, demoliu tudo. Na hora que tava demolindo a igreja, aí todo

mundo arrumou aquela choradeira danada. E as polícias mandou a gente sair e ir embora, com a maior falta de educação. E foi mais polícia, tinha

mais polícia do que atingido (risos). É, muita gente, muita gente chorou. Não

podia nem tirar as coisas dentro de casa, o pessoal saiu tudo fugido. A gente não esperavamos isso não, mas o resto, que ficou lá sofreu muito. E a

gente sofreu junto né. Porque a gente foi lá pra dar ajuda eles, mas a gente não podia dar. Eles não deixavam. Foi muito triste assim (...) Ah!, eu senti muita tristeza o grupo que a gente participava de tudo. Aí foi muito triste. Muita

gente entrou em depressão depois que destruiu (Moradora M, 59 anos,

solteira, pensionista).

(...) Chorei muito para largar. Olhava para minhas coisas e falava ai meu Deus, Deus levou, me deu saúde para poder fazer as minhas plantas aqui agora tem minhas verduras e agora não vou poder ficar mais. Daí com

pouco pegou a cortar, começou a derrubar tudo, motosserra derrubando tudo. Aí começou a entrar trator atrás. P: E a senhora viu? Vi tudo. Cada pé de manga, a manga gostosa, dessa grussura. Ah, acabou tudo! (...) vim pra cá depois que pegaram o caminhão grande aí, pegaram minha mudança e trouxeram pra cá (Moradora M, 89 anos, viúva, aposentada).

O povo ficou muito triste vendo a Igreja sendo destruída. Nosso Deus! Muita tristeza. O santo padroeiro de lá se não tira ele de pressa lá ela tava

debaixo d'água também, nem respeito pra isso eles nunca tiveram (...) o resto deram uma pancada lá embaixo que a torre da Igreja desceu direto! Vi tudo. É terrível, é terrível (Morador J, 63 anos, casado, autônomo).

72 (...) Minha menina é que ela sempre foi muito sensível, então quando ela viu demolindo a igreja, mas a menina entrou em depressão, ela chorou

[sustentou a palavra indicando que chorou muito], ela era muito católica, até hoje graças a Deus. Então quando ela...poucas pessoas queriam que demolissem e derrubassem a igreja. Chorou! Ficou deprimida uns tempos aí que foi conversando com ela (...) P: Você viu a destruição? Vi. Fomos lá vê.

Benzer Belgeler