Interessante observar, de início, nesses quatro materiais que temos em mãos, um fator que é comum a eles: todos apresentam, primeiramente, seja como prefácio (na coletânea de O
Pasquim e na compilação As capas desta história) ou como cadernos de apresentação (nas edições fac-símiles de Pif Paf e de Ex-), propostas dos editores, organizadores e mesmo patrocinadores para sua publicação. Dentre elas, apontamos e destacamos, inicialmente, por meio de alguns poucos e pequenos fragmentos dessas apresentações às coleções e coletâneas, indícios daquilo que „pretendem‟ – em todo esse material que contém textos e comentários de apresentação, trata-se especialmente, e na sua maioria, de textos de pessoas que fizeram parte da produção desses jornais e revistas na época, que contam um pouco de suas visões daquela e dessa história, da produção e do retorno, mas também de patrocinadores e organizadores desses projetos.
Nesse sentido, apresentamos, como forma de exemplificação, os seguintes trechos, divididos por publicação:
Pif Paf
● “A idéia de reunir num livro as oito edições pioneiras de Pif Paf tem como objetivo (mais do que justo) contribuir para o resgate dessa geração de brilho exemplar” (José Eduardo Dutra, presidente da Petrobras, p. 5);
● “O compromisso principal da Petrobras é contribuir para o desenvolvimento do Brasil. E um país que não conhece sua história, que não se encontra em seu passado –
não importa se recente ou distante – dificilmente será, algum dia, um país desenvolvido” (José Eduardo Dutra, presidente da Petrobras, p. 5);
● “O Pif Paf que Millôr lançava „agora direto do produtor ao consumidor‟, sem a intermediação de „O Cruzeiro‟, até hoje não foi citado por nenhum dos historiadores, sociólogos e memoriadores que mal ou bem, quase sempre muito mal, se têm ocupado das verdades e outras tantas inverdades sobre os anos de domínio militar. Calar é um dos vícios mais praticados pela história, ainda mais a que criou o grito do Ipiranga. Pois bem, o Pif Paf em revista foi a primeira iniciativa editorial de resistência ao arbítrio do regime policialesco. Não nasceu nem viveu para fazer militância política, muito menos partidária, mas só por ser uma revista de humor já era uma afirmação de liberdade” (Janio de Freitas, “Oito rodadas de Pif Paf”, p. 7).
O Pasquim
● “O volume que agora você tem em mãos é nitroglicerina pura! Trata-se de uma antológica antologia do Pasquim, nos seus melhores anos. Uma seleção cuidadosa e abalizada feita por dois dos maiores protagonistas desta verdadeira odisséia humorística: Jaguar e Sérgio Augusto” (Marcelo Madureira, na orelha do v.1);
● “Até o seu formato tablóide hoje está na moda e é apontado por especialistas da mídia como o futuro dos jornais” (Ancelmo Gois, na orelha do v.2);
● “[...] o extraordinário é como o material destas antologias não envelheceu. Nem frustra a saudade nem decepciona a descoberta. O humor continua afiado, a crítica continua forte, o quociente de inteligência continua alto. E – talvez a maior surpresa tanto para os saudosos quanto para os recém-chegados – tudo continua atual” (Luis Fernando Verissimo, na orelha do v.3);
● “Não foi só a linguagem que a patota do PASQUIM mudou. As capas também. O nosso negócio era ser do contra. Contra a ditadura, contra as capas (não confundir com contracapa) e a linguagem solene dos jornalões no final dos anos 1960” (Jaguar, na orelha da „Edição Comemorativa 40 Anos‟).
● “E nesses 40 anos não surgiu outro PASQUIM. Por quê? Porque o Brasil e o mundo mudaram, até o universo mudou [...]; a ditadura caiu; a censura acabou; a grande imprensa absorveu parte dos encantos, da linguagem solta (inclusive os palavrões) e
dos profissionais (por assim dizer) do PASQUIM” (Sérgio Augusto, na orelha da „Edição Comemorativa 40 Anos‟).
● “Mas seus efeitos, suas conseqüências, sua progênie, estão por aí. E isso exige uma celebração” (Sérgio Augusto, na orelha da „Edição Comemorativa 40 Anos‟).
● “[...] o PASQUIM chegou 1.072 vezes às bancas em seus 22 anos de (r)existência” (Sérgio Augusto, na orelha da „Edição Comemorativa 40 Anos‟).
● “Jornalistas tarimbados, sofisticados, com anos de profissão, juntaram-se na república de Ipanema pra fazer o país melhorar, rindo de si mesmo, das autoridades, do autoritarismo, de tudo. Se não fosse a censura, ou o fim dela, com a debandada e a absorção de seus talentos pela grande imprensa, o PASQUIM poderia ser hoje uma empresa sólida, rica, poderosa e esculhambada por jovens iconoclastas que hoje não mais existem...” (Chico Caruso, em prefácio da „Edição Comemorativa de 40 Anos‟). ● “Não, as capas, como o pessoal do PASQUIM, como o uísque do PASQUIM, não tinham ideologia. Isto é, tínhamos uma extraordinária, rara, pretenciosa ideologia, a do „Não estamos nem aí‟. Não era conosco. Não tínhamos nada a ver com a solução dos problemas da pobreza, com a nojenta utilização que os ricos fazem do dinheiro, com as mulheres fazendo indignados ataques aos homens e se apropriando indevidamente de termos como: „Não me enche o saco!‟ Não dávamos a menor pelota às ameaças da polícia (tremíamos apenas, necessariamente, quando a polícia batia na porta, utilizando a porta dos fundos como saída de incêndio). Mas estávamos em todas, gozando no mais amplo sentido” (Millôr Fernandes, em prefácio da „Edição Comemorativa de 40 Anos‟).
Ex-
● “[...] a reedição do ex-, e por que não dizer o renascimento do ex-, oferece aos leitores uma viagem na máquina do tempo. Os que viveram aqueles anos terríveis poderão relembrar suas capas memoráveis e seus textos transbordando inteligência. Os mais jovens poderão imaginar um pouco o que era ser jornalista sendo constantemente perseguido. A ditadura não poupava sequer os patrocinadores da chamada mídia alternativa ameaçando com represálias ou mesmo com corte de verbas governamentais, se esse fosse o caso” (texto “O renascimento”, p. 2);
● “Nossa missão é contribuir para a reflexão e produção de informações voltadas ao direito à vida e à justiça. O legado de Vladimir Herzog será levado adiante pelo Instituto que tem como uma de suas metas a busca incansável pelo jornalismo de qualidade. E o ex- é um exemplo único disso” (texto “O renascimento”, p. 2);
● “Esta publicação, editada no ano de 2010, trata com graça e elegância assuntos sem graça alguma e muito deselegantes, ocorridos entre 1973 e 1975, tempos de escuridão. Foram produzidos 1.500 exemplares. A caixa contém edição fac-similar da coleção completa do ex-, nanico corajoso que enfrentou ditadores usando criatividade e picardia. Um encarte de abertura conta – e mostra – como eram os bastidores da redação. Foi editado por Dácio Nitrini, Mylton Severiano e Amancio Chiodi, ex- sobreviventes. A direção de arte é de Kiko Farkas, (Máquina Estúdio), leitor do ex- desde pequenino.
Trata-se do primeiro projeto abraçado pelo Instituto Vladimir Herzog, presidido por Ivo Herzog, para resgate da memória da imprensa de resistência à ditadura militar. E só foi realmente realizado porque a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo concretizou esta publicação” (p. 8, do caderno de apresentação).
As capas desta história
● “O projeto „Resistir é preciso...‟ – jornais que fizeram história – é uma iniciativa de resgate de um importante período da história brasileira. Entre 1964 e 1979, o país viveu o momento mais crítico de restrição à liberdade e ao acesso à informação. Ao impedir a livre difusão de notícias e opiniões, a censura oficial procurava impor uma determinada visão da realidade política e social do Brasil e dificultar o acesso a pontos de vista divergentes. Aqueles que tiveram a coragem de expor fatos e opiniões que o regime autoritário tentava ocultar cumpriam uma missão heroica, fundamental para a redemocratização do país. A imprensa alternativa contribuiu para o retorno da liberdade ao oferecer outras perspectivas para a realidade brasileira, lutando com as armas mais poderosas contra a arbitrariedade: as ideias e as palavras.
A liberdade de expressão e o amplo acesso à informação são elementos essenciais à democracia. Se hoje a imprensa não precisa mais se submeter à censura e o debate de ideias não apenas é aceito, mas exigido, isso se deve em grande parte ao pioneirismo desses veículos. Nesse sentido, os jornais alternativos mantiveram acesa a chama
democrática durante as décadas de 1960 e 1970. Ao dar destaque a tais iniciativas, este livro não apenas exalta sua relevância, mas estimula o debate sobre o papel dos veículos alternativos na vida política brasileira e sobre a importância da liberdade de imprensa nos regimes democráticos. Ao patrocinar esta publicação, o BNDES enfatiza a importância da imprensa livre e reafirma seu compromisso com a memória nacional, o desenvolvimento social do Brasil e a promoção dos direitos humanos, elementos primordiais para o aprimoramento do regime democrático” (texto de apresentação do patrocinador, o BNDES, p. 6);
● “São 188 páginas de muita pesquisa, muita descoberta, muita emoção a partir desse olhar diferenciado que percebe a história embutida em milhares de páginas da imprensa alternativa, clandestina e no exílio que souberam resistir com inteligência e coragem, aos desmandos da ditadura no período 1964-1979, do golpe à Anistia” (texto de apresentação de Ivo e Clarice Herzog, p. 7);
● “O X amarelo da capa e da contracapa desta publicação quer deixar bem claro que, entre outras vicissitudes, foi a implacável censura da ditadura que tentou calar a voz a de jornalistas, intelectuais e militantes de oposição ao regime militar implantado em 1964. Tentou, mas não conseguiu. Tanto é assim que aqui está este livro que tem, pelo menos, três qualidades:
1. É pioneiro, ao contar a história da imprensa alternativa, clandestina e no exílio, a partir das capas de publicações que resistiram ao poder dos militares [...]” (contracapa).
Num primeiro momento, talvez o que mais nos salte aos olhos sejam dois pontos, bastante importantes, sobre os quais voltaremos mais adiante, quais sejam: i) o fato de que o que se tenta mostrar nessas apresentações, o fator que motiva e que, de certo modo, respalda essas coletâneas e reedições é aquele da “atualidade” da impressa alternativa, do formato, ainda que os sentidos que se produzam nesses textos possam ser definitivamente outros; ii) a busca clara de contar aquela história para produzir essa história (essa memória): a história do período, sempre enfatizando os traços repressivos do regime, e a história de produção desses jornais e revistas, também muito atrelada ao contexto histórico-político, sem dúvida.
Queremos, antes, olhar para a própria questão política, nesse caso trazida pela resistência. Observa-se, então, também por meio das proposições iniciais de cada publicação,
ou seja, da “intenção” de publicação dessas coleções, uma busca de resgate histórico que, num primeiro momento, contempla uma dimensão política. Se tomarmos apenas essas proposições, notamos que, de certa maneira, há ainda uma inscrição marcada na resistência, se não mais a um regime ditatorial como antes, mas a um processo de apagamento da história. Vejamos: E
um país que não conhece sua história, que não se encontra em seu passado – não importa se recente ou distante – dificilmente será, algum dia, um país desenvolvido (Pif Paf); E – talvez a maior surpresa tanto para os saudosos quanto para os recém-chegados – tudo continua atual (O Pasquim); Ao dar destaque a tais iniciativas, este livro não apenas exalta sua
relevância, mas estimula o debate sobre o papel dos veículos alternativos na vida política brasileira e sobre a importância da liberdade de imprensa nos regimes democráticos (As capas desta história).
A dimensão política aparece, inicialmente, na relação temporal – passado, presente e futuro – que carrega um efeito, ao mesmo tempo, de herança e (necessidade de) ruptura: as lições do passado para um futuro mais promissor; retomar o passado, e acertar as contas com ele, para poder viver o presente; as conquistas do presente em relação ao passado etc. A produção da memória, nesse caso, é política na própria medida em que lança seu olhar para o passado recente do país para construir um presente novo e um futuro promissor. Deixando de lado o futuro, a relação passado/presente, nesse caso é bilateral cujo efeito se constrói pela memória discursiva: um país que não conhece sua história dificilmente será um país
desenvolvido; e tudo continua atual; a importância da liberdade de imprensa em regimes
democráticos etc.
Cria-se, com isso, uma espécie de necessidade de memória que é, de todo modo, mais amena, uma vez que não propõe uma intervenção na história, nem mesmo nas consequências do passado: o que se propõe, aqui, é apenas a inscrição da/na história por meio do resgate do passado. Ainda que não haja mais ditadura, que hoje se viva uma democracia política, é comum estabelecer relações com aquele período: a violência institucional (a polícia que ainda é militar), a impunidade e a corrupção, por exemplo, contudo pouco se propõe intervir nesses aspectos. Os sentidos políticos se produzem, aqui, pelas palavras: desenvolvido, atual,
liberdade, regimes democráticos, mas também resistir, memória nacional. Entre a construção da história (a publicação desses jornais e revistas) e a produção da memória (o acontecimento de suas voltas), sentidos políticos (e de resistência) parecem ser produzidos, mas de maneiras distintas, na resistência à repressão e na resistência ao apagamento da história para o desenvolvimento do país.