BÖLÜM 2: SOSYAL HAYAT
2.2. Demografik Yapı
A partir da virada do milênio o ministério da Cultura e da Comunicação apresenta uma grande variedade de ministros, com um discurso em comum, a defesa da
―diversidade cultural‖, a renovação do processo de descentralização e a garantia da democratização cultural. A ministra da cultura Catherine Tasca (2000-2002), é a primeira a centralizar essas três diretrizes de ação cultural em sua gestão, fomentando ainda mais o papel da França no exterior.
Em 2001, a França propõe, no cenário internacional, a adoção da ―diversidade cultural‖ como um princípio do direito internacional e procura mudar o debate que ocorria na OMC para a UNESCO, o que levou à adoção da Declaração Universal da Unesco sobre a diversidade cultural – os Estados Unidos não fazia parte dessa organização internacional nesse período (POIRRIER, 2006).
Seguindo as diretrizes que pautam esse novo milênio, temos a renovação do processo de descentralização, que consiste na adoção de ―protocolos de descentralização cultural‖, que reflete na participação do ministério na nova etapa de descentralização procurando estabelecer claramente as responsabilidades e competências entre Estado e coletividades locais (POIRRIER, 2006).
Na campanha eleitoral de 2002 todos os candidatos apresentam a cultura como programa de governo. No entanto, para Gentil e Poirrier (2012, p. 36) a chegada de Jean-Marie Le Pen, líder populista, ao segundo turno provoca um ―reflexo ―antifascista‖ dentro dos mundos da arte e da cultura. (...) As instituições culturais são acusadas, em razão do caráter elitista de sua política ter contribuído para aumentar o fosso cultural entre as elites e o ‗povo‘‖, questiona-se aqui a limitação da política de democratização cultural, levando assim à proposição de novas soluções.
Jean-Jacques Aillagon (2002-2004) assume o cargo de ministro e ressalta sua intenção de continuidade a essas ações culturais, Todavia, ocorre uma redução orçamentária, o que leva a inclusão de novas questões à agenda ministerial, como o incentivo ao mecenato privado e o desenvolvimento da autonomia dos grandes estabelecimentos culturais (POIRRIER, 2006; GENTIL, POIRRIER, 2012).
Dessa forma, em 2003 houve uma nova inclusão legislativa que visava tornar o mecenato mais atrativo às empresas privadas, a Lei Aillagon, referente ao mecenato, às associações e às fundações, que modificava a Lei de desenvolvimento do mecenato de
1987 e o Código Geral de Impostos (CGI), pois ampliava as alíquotas de isenção de impostos32.
Essa dificuldade orçamentária trouxe grande descontentamento para os profissionais da cultura e causou desconforto diante da política de descentralização, uma vez que as coletividades locais enxergaram tal medida como uma forma de aumentar suas responsabilidades, bem como seus encargos (POIRRIER, 2006).
O nível regional torna-se agora o nível normal da gestão, de coordenação e de animação das políticas públicas da cultura. O nível central conserva apenas os assuntos de interesse nacional ou internacional e tem de limitar seu papel à concepção, animação, orientação, avaliação e controle. Da mesma forma as diretorias regionais dos assuntos culturais, compensadas com maiores verbas e pessoal, tornam-se os interlocutores de todos os serviços culturais, dos eleitos locais, e sua função de substituir financeiramente os serviços centrais do Ministério acha-se reforçada (GENTIL, POIRRIER, 2012, p. 37).
Este forte processo de descentralização permitiu que o Estado focasse mais na política cultural internacional, pois transmitia a responsabilidade e competência de executar as ações culturais para os territórios, o que fez com que a França adotasse um papel mais ativo sobre a política cultural no cenário internacional (POIRRIER, 2006).
Logo, em 2005, ainda sob o mandato de Chirac, a França retoma a defesa da ―diversidade cultural‖ e propõe que a Declaração Universal da UNESCO sobre a diversidade cultural seja substituída pela Convenção sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais aprovada na 33ª Conferência Geral da Unesco, celebrada em Paris. Tal convenção procura salientar a importância de expressões culturais para a sociedade, indo além do valor comercial:
Convencida de que as atividades, bens e serviços culturais possuem dupla natureza, tanto econômica quanto cultural, uma vez que são portadores de identidades, valores e significados, não devendo, portanto, ser tratados como se tivessem valor meramente comercial (UNESCO, 2005).
Esta convenção põe em voga o papel do mercado no cerne da política cultural em que se defende a ―diversidade cultural‖ frente às grandes indústrias culturais de massa que tendem a homogeneizar a política cultural, devido ao movimento intenso da globalização. Dessa forma, a questão da ―diversidade cultural‖ é cada vez mais
32 Logo no primeiro artigo alteram-se as alíquotas de isenção fiscal, que sobe de 50% para 60%, diante
apresentada como o discurso legitimador da política cultural francesa, apesar de não estar isenta de críticas.
Para Gentil e Poirrier (2012, p. 38) este ―deslocamento progressivo do referencial para o internacional assinala o aumento do poder das discussões em torno da ‗globalização‘‖. O que está em jogo aqui é a noção de um serviço público de cultura, que busca fomentar a independência econômica dos setores audiovisuais e cinematográficos. Ainda para Gentil e Poirrier (2012, p. 38) esta luta no cenário internacional, pelo reconhecimento da ―diversidade cultural‖, encontra a ―vontade de definir uma nova administração mundial, mas esse discurso de modo nenhum impede que o Ministério da Cultura aceite lógicas claramente neoliberais‖.
Temos aqui um Ministério com forte apelo internacional, que reconhece o pluralismo cultural e a importância crescente das indústrias culturais nesse cenário de globalização e territorialização, tendo sempre como ponto de partida a democratização cultural, que procura ampliar o acesso às obras culturais (POIRRIER, 2006).
Neste novo contexto, surgem novas variáveis para o campo cultural, agora pautado por uma forte ênfase na tecnologia, discute-se aqui a questão de proteção contra a pirataria. Cria-se em 2007 uma lei que regula o fornecimento legal de obras na Internet, medida que visa combater esse tipo de ação e proteger o profissional cultural.
Outro assunto que ganha destaque neste momento é a questão do direito autoral, em que se demanda medidas legais eficazes para garantir esse direito. Todavia, esse é um embate nos mais diversos países, sem que haja um consenso sobre o assunto ou uma medida realmente eficaz.
Logo, Nicolas Sarkozy (2007-2012) assume o mandato presidencial e nomeia dois ministros para esse período Christine Albanel (2007-2009) e Frédéric Mitterrand (2009-2012), essas novas gestões ministeriais terão que enfrentar, para além da globalização, os percalços da era tecnológica
As duas gestões continuaram as diretrizes marcadas anteriormente, mas são afetadas pelo início da crise econômica, o que resulta, mais uma vez, na redução orçamentária do campo cultural. Instaura-se em 2008 uma nova medida legal que favorece mais uma vez o mecenato na França a Lei de modernização da Economia,
que inclui em seu artigo 140 a criação de fundos patronais, reconhecidos como entidades jurídicas de direito privado, sem fins lucrativos. Mostrando assim um alinhamento com a lógica neoliberal de financiamento, que encontra no mercado uma forma de minimizar o impacto da crise econômica no campo cultural.
Atualmente, sob o mandato de François Hollande (2012-atual), Fleur Pellerin (2014-atual) lidera o Ministério da Cultura e da Comunicação e mantém a missão ministerial – dada pelo decreto de 1959 – de democratizar a cultura, de desenvolver as práticas artísticas e de aumentar a ação nacional no plano internacional. Dentro da missão orçamentária Cultura, o Ministério possui três programas centrais, que visam atender a política de democratização: patrimônio, criação e transmissão de saber e democratização da cultura.
O primeiro programa opera sete ações que dizem respeito ao patrimônio monumental, arquitetura, patrimônio de museus da França, patrimônio de arquivos e celebrações nacionais, patrimônio linguístico, aquisição e enriquecimento das coleções públicas e patrimônio arqueológico.
Já o segundo programa desenvolve duas ações centrais que visam o apoio à criação, à produção e à difusão do espetáculo ao vivo, bem como o apoio à criação, à produção e à difusão de artes plásticas. O último programa, por sua vez, traz cinco ações específicas, o apoio aos estabelecimentos de ensino superior e inserção profissional, apoio à democratização e à educação artística e cultural, apoio aos estabelecimentos de ensino especializados, ação cultural internacional e funções de apoio ao ministério.
O conjunto desses programas é o resultado da dinâmica histórica institucional da política cultural na França, que, hoje em dia, apresenta um recorte das ações dos ministérios anteriores, que trouxeram subsídios para chegar ao formato que conhecemos hoje. O quadro abaixo procura sintetizar a política cultural nesse período atual, mostrando o contexto em que está inserida.
A imagem cultural continua sendo a política de democratização cultural, buscada desde a fundação ministerial, mas aqui ela procura atender a pluralidade cultural, ao mesmo tempo em que amplia o acesso do cidadão à cultura, especialmente por meio
da Educação, que mostra a transversalidade da ação cultural em diferentes instituições administrativas. Para alguns, esta ação, por si só já justifica a necessidade de um serviço público para cultura na França (POIRRIER, 2006).
Quadro 8 – Síntese do milênio
Contexto Imagens Atores Interesses
Chirac/ Tasca (2000-2005) Globalização O incentivo à cultura é um dever do Estado. A democratização cultural é necessária para garantir o acesso dos cidadãos às principais obras capitais da humanidade, mantendo a pluralidade cultural e protegendo a cultura nacional pela temática da Diversidade cultural. Principalmente frente ao desafio tecnológico. - Ministério; - Outros ministérios; - Coletividades locais; - sociedade civil; - profissionais culturais; - elite cultural; - acadêmicos; - indústrias culturais; - empresas privadas (Admical).
- Modernização da gestão cultural (Ministério, outros Ministérios e Coletividades locais);
- Descentralização e desconcentração das ações culturais (Ministério, outros
Ministérios e Coletividades locais); - Manutenção da pluralidade cultural (Ministério, sociedade civil e profissionais culturais);
- Legitimar o serviço público para a cultura e seu financiamento (Ministério, sociedade civil e profissionais culturais);
- Ampliar o orçamento da cultura pelo mecenato privado (Ministério, profissionais culturais, indústrias culturais e empresas privadas);
- Ressaltar o ―perigo‖ do declínio da cultura (elite cultural e acadêmicos);
- Proteção aos profissionais culturais frente aos avanços tecnológicos (Ministério, sociedade civil e profissionais culturais); - Proteção da cultura Nacional (Todos). Sarkozy/ Albanel e Mitterrand (2007-2012) Globalização/ Crise econômica Hollande/ Filippetti e Pellerin (2012- atual) Globalização/ Crise econômica
Fonte: Quadro elaborado pela autora.
Para tanto, este quadro mostra que a atual política cultural também mantém o processo de descentralização, através do desenvolvimento cultural territorial, que permite um maior controle por parte do Estado, ao mesmo tempo que traz uma maior responsabilidade para as coletividades locais, bem como estimula o processo de modernização da gestão. Estes interesses, assim como em gestões passadas, são endossados pelo Ministério, outros ministérios e coletividades locais.
Outro interesse que se faz presente é a questão da manutenção da pluralidade cultural, que entra em embate com o ―perigo‖ do declínio da cultura. O primeiro interesse é apoiado pelo Ministério, sociedade civil e profissionais culturais, enquanto o segundo é defendido pela elite cultural e alguns acadêmicos. Este embate, que dura
mais de 20 anos, permanece basicamente pela própria dificuldade de conceituação da cultura, que traz diversos conceitos interdisciplinares.
Dessa forma, o Ministério, juntamente com a sociedade civil e profissionais culturais, defende a legitimação do serviço público para a cultura e seu financiamento, tendo em vista ações como a democratização e mais recentemente a proteção aos profissionais culturais frente aos avanços tecnológicos, bem como a inserção internacional, que permite a proteção da cultura nacional, trazendo um consenso entre os atores do campo cultural e legitimando assim a intervenção estatal, pela defesa da ―diversidade cultural‖.
A questão financeira aparece como um assunto problemático, sem que o Estado consiga arcar inteiramente com as despesas culturais, mesmo com a ampliação das fontes de recursos que ocorreu nos anos 80. O Ministério da Cultura e da Comunicação poucas vezes conseguiu atingir sua meta de 1% sozinho, tendo o apoio, em grande parte, de outros ministérios e das coletividades locais (MOULINIER, 2008).
Todavia, nesse momento de crise econômica e globalização adota-se medidas neoliberais, com o fomento do mecenato privado, tanto por indivíduos quanto por empresas, garantindo assim um reforço orçamentário para o campo cultural e alinhando o interesse entre Ministério, profissionais culturais, indústrias culturais e empresas privadas.
Logo, a virada do milênio marca um cenário de profundas transformações, em que o ministério da Cultura e da Comunicação teve que abrir mão de parte de sua intervenção em detrimento das ações econômicas de mercado, buscando assim alcançar a plenitude de suas ações culturais, interagindo tanto no ambiente interno quanto no internacional (POIRRIER, 2006).
Por fim, é importante ressaltar que os interesses apresentados aqui ocorrem no subsistema da cultura, uma vez que não há um endosso político direto, mas sim um sentimento público de identidade nacional, que legitima a intervenção estatal na cultura, bem como compreende o financiamento cultural como uma função do Estado, independente da alternância de governo. Diante do exposto, a seção a seguir buscou
fazer um apanhado do processo orçamentário para compreender como acontecem as ações de financiamento, de modo a melhor identificar o modelo de financiamento francês.