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Isabelle – (Narrando) Se tivesse sobrado algum pentelhinho, ele teria balançado com a respiração das duas. Fechei os olhos e pedi que fosse um pesadelo: “me leva daqui, Deus, me teletransporta”.

Penélope - Vou dar uma pinçada aqui porque ficaram uns pelinhos, tá?

Isabelle - Pode pinçar, está tudo dormente mesmo, não estou sentindo nada. (Narrando) Estava enganada. Eu queria matá-la.

Penélope - Vamos ficar de lado agora? Isabelle - Hein?

Penélope - Deitar de lado para fazer a parte cavada. Segura tua bunda aqui. Isabelle - Como?

Penélope - Essa banda aqui de cima, puxa ela para afastar da outra banda.

Isabelle – (Narrando) Tive vontade de chorar. Ela estava de cara para ele, o olho que nada vê. Quantos haviam visto, à luz do dia, aquela cena? Nem minha ginecologista. Quis chorar, gritar. Fiquei imaginando ela acordando à noite com um pesadelo e o marido perguntando:

Marido da Pê - Tudo bem, Pê?

Penélope - Sim... é que sonhei de novo com o cu de uma cliente.

Isabelle – (Narrando) Mas de repente fui novamente trazida para a realidade. Senti o aconchego falso da cera lá. Não sabia se ficava com mais medo da puxada ou com vergonha da situação. Pensei: ela deve ver mil cus por dia, por que lembraria do meu? Pê puxou a cera. Achei que a bunda tivesse ido toda embora.

Penélope - Vira agora do outro lado.

Isabelle - Porra... por que não arrancou tudo de uma vez? (Narrando) Virei e segurei a bandinha. Eis que a broaca da salinha ao lado abre a cortina... Apenas uma lágrima solitária escorreu dos meus olhos. Era dor demais, vergonha demais. Aquilo não fazia sentido.

Penélope - Terminamos, pode virar que vou passar a maquininha. Isabelle - Máquina de quê?

Penélope - Para deixar ela com o pelo baixinho. Baixa a calcinha, por favor.

Isabelle – (Narrando) Foram dois segundos de choque extremo. Baixe a calcinha!? Como alguém fala isso sem antes pegar no peitinho?! Mas depois daquilo tudo, o que seria baixar a calcinha?

Penélope - Está linda! Pode namorar muito agora.

Isabelle – (Narrando) Namorar? Eu estava com sede de vingança. Admito que o resultado é bonito, lisinho, sedoso. Mas eu queria virar feminista, morrer peluda, protestar contra isso. Filha da p... foi a mulher que inventou a cavadinha.

REFERÊNCIA: DEPILAÇÃO Cavada. [S.l.:s.n.], [2007 ou 2008]. Disponível em: <[email protected]>. Acesso em: 20 jun. 2008.

122 ANEXO 2 – TEXTO DA CENA “AS MENINAS DE VERÍSSIMO”

Maria Alice – O Alencar Alímpio pediu ao meu pai para eu ir com ele ao parque de diversões e depois sairmos para tomar uma Mirinda.

Branca – O Júlio Mendonça perguntou o que eu queria de aniversário. Eu escolhi aquele livro que fala sobre dietas e o perigo dos derivados do leite: Creme e Castigo. Laurita - O Rosimar Amado Candiota disse que a qualidade que mais prezava numa mulher era a fidelidade, e eu prometi que ia tentar me adaptar a esse novo conceito.

Narrador – Maria Alice era casta e recatada. O Alencar precisou de duas semanas para encostar, não nela, mas no portão de sua casa.

Maria Alice – Nos filmes de antigamente, as pessoas se beijavam – de boca fechada – depois desapareciam da tela, tudo escurecia e a mulher ficava grávida. Por causa disso, até hoje eu tenho medo do escuro.

Narrador – A Maria Alice vê o amor um pouco como um cargo público em que o principal é a estabilidade. A conversa mais íntima que ela tinha com o Alencar era por telefone.

Maria Alice – Alencar, eu já te contei que o papai expeliu 17 pedras pela uretra? Narrador – A Maria Alice só aceitou noivar com o Alencar quando o pai dela saiu de casa para morar com uma russa chamada Patroviski.

Maria Alice – Eu não me apaixonei na hora, só dias mais tarde, foi numa festa em que fui com ele. Meninas, que surpresa, quando gritaram “Todo mundo nu!”, o Alencar tirou um saco plástico, dobrado, do bolso. Tinha levado um saco plástico para guardar nossas roupas. Aquilo me enterneceu. Foi uma sensação Bukoviskiana.

Narrador – Branca de Deus, era socialaite e política, mas sua candidatura a vereadora pela corrente das Socialaites Socialistas não obteve a repercussão popular esperada.

Branca - E à medida que podem escolher os seios que usarão, as pessoas tomam as rédeas da própria vida e determinam seu próprio futuro, principalmente numa sociedade em que cada vez mais peito é destino. Não banque a louca, não! Conto com o voto de vocês, meu nome é Branca de Deus, a boa de cama-ra.

Narrador - A Branca acredita que o amor deve refletir as conquistas da modernidade, como a tolerância, o respeito mútuo e, acima de tudo, contas separadas.

Branca - E o que é a supervalorização da virgindade senão uma tentativa de garantir que a mulher só descubra o tamanho do pênis do marido quando não pode fazer mais nada a respeito? Banque a louca, não! Conto com o voto de vocês, meu nome é Branca de Deus, a boa de cama-ra.

Narrador - Laurita Paula deixava as outras duas enlouquecidas, era a mais nova das três e tudo acontecia rápido demais para ela.

123 Branca – Sabe aquela camisa que nós temos que tem uma fatia de pizza na frente e embaixo está escrito Me coma? Minha mãe perguntou por que na da Laurita não tem a pizza?

Narrador – Laurita era assim, foi a primeira a perder a virgindade. Já fez tudo o que podia ser feito sobre uma cama. Com 20 anos, Laurita precisava ser protegida de sua vida vertiginosa e precipitada, já era viúva de dois maridos.

Laurita e Candiota

Laurita – Rosimar Amado Candiota! Candiota – O solteiro! Laurita Paula! Laurita – A viúva! Beleza, a sua cozinha. Candiota – Obrigado, eu...

Laurita – É você quem cozinha sempre ou...

Candiota – Não, não. Tem uma senhora que vem arrumar o apartamento sempre e deixa um prato feito na geladeira. Sou cozinheiro de fim de semana. Marinheiro de... Como é mesmo que se diz?

Laurita – O quê? Candiota – Doce. Laurita – Eu?

Candiota – Água doce. Marinheiro de água doce. Você quer esperar na sala, enquanto eu...

Laurita – Fico aqui com você. A menos que...

Candiota – Não, pode ficar. Quem sabe a gente já abre o vinho e fica bebericando, enquanto eu...

Laurita – Me encanta bebericar. Uma beleza, o seu abridor.

Candiota – Obrigado. Este vinho precisa respirar um pouco antes de ser servido. Pode parecer bobagem mas...

Laurita – Não, não. Respirar é das coisas mais importantes que existem. Candiota – Ele precisa estar na temperatura ambiente.

Laurita – Me encanta a temperatura ambiente.

Candiota – Você está disposta a experimentar o meu bobó? Laurita – O seu...

Candiota – Bobó de camarão. Minha especialidade.

Laurita – Ah, claro. Não foi para isso que você me convidou? Me encanta bobó. Candiota – Você já comeu alguma vez?

Laurita – Nunca. Mas me encanta. Candiota – Olha o vinho.

Laurita – Mmmmm. Candiota – Hein?

Laurita – Eu disse “Mmmmm”... Epa!

Candiota – Desculpe. Estou um pouco nervoso. Sabe como é, a responsabilidade. Você pode não gostar do meu...

124 Candiota – Bobó.

Laurita – Bobo é você. Vai me encantar o seu bobó.

Candiota – Eu deveria servir somente champanhe, que não mancha. Embora as bolinhas de champanhe façam cócegas no meu nariz.

Laurita – Isso eu também faço e nem sou champanhe. Candiota – O quê?

Laurita – Cócegas no seu nariz? Candiota – Não entendi.

Laurita – Esquece.

Candiota – Será que o vinho vai manchar o seu vestido? Quem sabe um pano com água quente? É só esquentar a água e...

Laurita – Me encanta tudo o que é quente. Uma beleza a sua chaleira.

Candiota – Enquanto isto, vou preparando os ingredientes. Deixa ver. Pimentinha... Laurita – Sim?

Candiota – Não, eu disse “pimentinha”. Laurita – Não me diz que leva pimenta!

Candiota – Leva. Você não gosta? É da braba.

Laurita – Ui! Você, hein? Com esse jeito tímido... Só de ouvir falar em pimenta, fiquei toda arrepiada. Olha aqui (levanta a saia)...

Candiota – É mesmo. Que estranho. Só de ouvir falar em pimenta... Laurita – Mal posso esperar o seu bobó.

Candiota – Calma! Laurita, lês muito? Laurita – Lesmuito? O que é isso? Candiota – Esquece.

Laurita – Demora muito?

Candiota – Se você me der uma mão... Laurita – Até duas.

Candiota – Na geladeira, na parte de baixo, estão os camarões... Você vai ter que se abaixar um pouco e...

Laurita – Beleza a sua geladeira… Foi você que assobiou? Candiota – Não, foi a minha chaleira. Mas...

Laurita – Sim?

Candiota – Eu concordo com ela. Laurita – Mmmmmm!

REFERÊNCIAS:

VERISSIMO, Luis Fernando. Orgias. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.

VERISSIMO, Luis Fernando. Sexo na cabeça. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002. VERISSIMO, Luis Fernando. Todas as Comédias: Comédias da vida privada, Novas comédias e Comédias da vida pública. Porto Alegre: L&PM, 1999.

125 ANEXO 3 – TEXTO DA CENA “GORETE, A CARPIDEIRA”

Gorete - Meu nome é Gorete, eu sou carpideira. Carpideira é mulher que chora nos velórios dos outros. O nome do meu marido é Vlademir, e eu gosto do danado, ele já aprontou umas coisas, sabe? Mas meus pais sempre diziam assim: casamento é até a morte. E o deles foi assim: meu pai teve “biabetes”, que é aquela doença do... do... do açúcar. Então, aí arrancaram a perna dele, ele ficou usando aquelas de metal, e minha mãe ali do lado, e até quando ele ficou sem a perna... foi, sem a perna mecânica... porque foi assim, ia ter um show de Wando na cidade de nós, aí Glorinha, minha irmã, achou uma dessas casas de “emprésmo”, dessas que eles dão o dinheiro e você tem que deixar alguma coisa... eu só tinha a perna de pai para levar. Foi a primeira vez que ele jogou um prato “nim” mim.

Sim, aí foi nesse show que eu conheci Vlademir, e foi ele quem pagou para tirar a perna de pai lá da loja de “emprésmo”, porque senão estava lá até hoje. Todo mundo lá de casa gostou logo de Vlademir, porque ele queria casar e, tirando eu, a família da gente é toda mal falada no Ceará. Gioconda é minha irmã que mora em São Paulo, ela foi para lá estudar e virou quenga, esse povo que viaja para estudar em São Paulo tudo vira quenga. Ela foi para uma história de abrace, está se abraçando até hoje por lá. Quando pai morreu, Gioconda mandou uma passagem para mãe... Aí mãe disse: vou morar com a sua irmã, em São Paulo. Eu disse: tomara ver! Eu só disse isso: mãe, mulher, tenha vergonha nessa cara cheia de ruga! A senhora não tem mais idade para ir morar dentro de bordel, não. Mate a gente de vergonha, não! Deixe de ser ridícula! A senhora está velha, acabada, com as pelancas penduradas, vai para lá só paras quengas novas mangar de tu. Ela foi, mas eu já perdoei mãe pela vergonha.

Aí eu vim morar com Vlademir por aqui, foi quando ele começou com essas coisas de vagabunda. E eu percebi muito rápido porque teve uma hora no casamento que ele parou de bater minha sola... Bater a sola! Fazer sexo. Eu vivia seca, seca, seca. Aí Glorinha disse assim: vá conversar com a “akisicóloga” do Posto de Saúde, “akisicóloga”, médico de cabeça. Eu falei, mulher, eu não vou, não. Meu problema não é na cabeça, é no priquito. Eu pensei até que ele estava virando sexual, acredita? Aí descobri que ele tinha uma “postitruta.” Dei uma surra nele, dei uma nela, fiz ela perder o emprego, mas já perdoei os dois.

Quando Vladimir para com essas coisas, quem começa? Geni Tales... meu filho mais velho... é Geni Tales é o nome dele. Foi Vlademir que escolheu na Bíblia, tinha alguma coisa órgãos genitales, mas eu não queria órgãos, porque nem parece nome de gente. Aí ficou Geni Tales, mas ele não gosta, quer que chame só de Tales. Pense num menino bom! Só dá trabalho com coisa de vagabunda. Ele arranjou uma tal de Llelha, que não tinha um dente na boca, aí eu disse Geni Tales, a mulher não tem um dente, meu filho. Aí ele respondeu: mãe, assim é melhor para fazer boquete!... O que é? Eu não sei, mas deve ser algo que é melhor sem dente. Quando eu coloquei essa para correr, ele me aparece e diz: mãe, arranja um dinheiro com pai, que eu estou com Sífiles! Aí eu disse: só arranjo se você trouxer

126 ela aqui para eu vê quem é, ela tem pelo menos dente? Ele ficou meio sem rumo no início dessas coisas... aí Vlademir queria comprar uma cabra para o menino. Inacinha foi quem não deixou, pense numa menina absoluta, ela falou: pai, você vai dar uma cabra ao Tales, e comigo vai fazer o quê? Me dá um bode?

(Como se falasse com alguém da organização) Vai rezar agora? Então vamos. (Pedindo ajuda da plateia) Pai nosso, que estás no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino, seja feita... (interrompe e fala com o filho que está brincando perto) Wadson Wellington... fi de uma égua, saia do sol! (continua a reza) Assim na terra como no céu, o pão nosso de cada dia nos daí hoje... Wadson Wellington filho do satanás, eu quero que de noite você venha reclamar que está com a garganta doendo que eu vou dar uma injeção na sua garganta, fi do demônio... amém.

Sim, o que era que eu estava dizendo? Sim, de Inacinha. Ela é uma menina boa, mas é muito “opiniosa”. Vê se tem cabimento: saiu concurso, aí eu disse que ela devia fazer para ter um emprego público, que é a melhor coisa do mundo. Pois a menina disse: mãe, eu não passei a vida inteira estudando para ser coveira. Eu tive “oido”, porque o salário era ótimo, 180 reais por mês, acredita? Aí eu disse, Inacinha, mas Inacinha mulher, mulher, mulher como tu vai deixar passar uma oportunidade... eu só digo uma coisa “quando a gente quer, a gente é”, disse a filosofia e deixei ela pensando, mas não fez o concurso. Aí um dia chegou e disse: eu decidi que vou ser vegetariana. Dei três mãozadas na cara dela e disse: se você vai sarrabuiá buceta com mulher vá para bem longe de mim. Geni Tales me segurou e explicou que é quem come só mato, verdura, capim, essas coisas. Mas eu já perdoei ela pelo susto. É “opiniosa” demais!

Cadê Wadson Wellington! Eu fico preocupada assim porque esse menino vive no hospital. Da última vez, Vlademir foi pegar a gente, quando estava voltando passou um sinal vermelho e vinha um caminhão. (Silêncio) Inacinha ainda disse que me amava, ela era “opiniosa”, mas também tinha dessas coisas, de dizer que amava, de ser carinhosa. Eu nunca tive disso, mas apertei minha filha bem muito no meu coração. Os meninos não disseram nada.

Meu nome é Gorete, eu sou carpideira. Carpideira é mulher que chora nos velórios dos outros e chora também nos velórios dos dela. O nome do meu marido era Vlademir, e eu gostava do danado, ele aprontou umas coisas, sabe? Mas meus pais sempre diziam assim: casamento é até a morte.

127 ANEXO 3 – TEXTO DA CENA “CORREIO DO POVO”

Rádio - Correio do Povo, 27 de setembro de 1973, Maria Joana, solteira, procura pessoa do sexo oposto para fim de casamento. O interessado deve ser pessoa sensível, que goste de ouvir música, seja alegre, que goste de passear domingo de manhã, que goste de pescar, que goste de passear na relva úmida da manhã, que seja carinhoso, que sussurre aos ouvidos dela que a ama, que tenha bom humor, mas que também saiba chorar. Que saiba escutar o canto dos pássaros, que não se importe de dormir ao relento numa noite de lua, que saiba caminhar nas estrelas, que goste de tomar banho de chuva, que sonhe acordado e goste muito do azul do céu. Prefere-se pessoa que saiba escutar os segredos de um riacho e que não ligue aos marulhos do mar; que goste de bife com arroz e feijão, mas que prefira peru com maçã; dá-se preferência a pessoas de pés quentes, que gostem de andar de barco, que gostem de amar e que não puxem as cobertas de noite. Não se exige que seja rico, de boa aparência, que entenda Kafka ou saiba consertar eletrodomésticos, mas exige-se principalmente que goste de oferecer flores de vez em quando. End.: Rua da Esperança, número 43.

Rádio – Correio do Povo, 2 de Outubro de 1973. Maria Joana solteira, procura pessoa do sexo oposto para fim de casamento. O interessado deverá ser pessoa sensível e que tenha o hábito de oferecer flores. End.: Rua da Esperança, número 43.

Rádio – Correio do Povo... Maria Joana pede que qualquer pessoa, de qualquer sexo goste dela e suplica que lhe mande flores. End.: Rua da Esperança, número 43.

Rádio – Correio do Povo... A família da sempre lembrada Maria Joana comunica o trágico desaparecimento daquele ente querido e convida os amigos para o ato de sepultamento. Pede-se não enviar flores.

REFERÊNCIA:

LOPES, Artur Oscar. Notícias. [S.l.]: letraseponto.com, [2007 ou 2008]. Disponível em: < http://www.letraseponto.com.br/textos_listar.php?id=5>. Acesso em: 20 out. 2011.

Benzer Belgeler